http://craigconsidine.files.wordpress.com/2010/02/c_west1.jpg?w=195&h=235

Por Cornel West*

A liderança intelectual negra revela a face cética e irônica da classe média negra (americana). O terno vitoriano – com relógio e corrente no colete – usado por W. E. Du Bois não apenas representava a época na qual ele moldou seu caráter, mas também dignificava seu sentimento de vocação intelectual, seu propósito de servir com inteligência crítica e ação moral. As roupas surradas que hoje em dia usam os intelectuais negros em sua maioria podem ser vistas como símbolo de sua total marginalização por trás dos muros acadêmicos e de seu sentimento de impotência ante o mundo mais vasto da cultura e política norte-americana. Para Du Bois, a gloriosa vida da mente constituia um modo de vida altamente disciplinado e um meio de luta bastante reivindicativo que facilitava o trânsito entre sua sala de trabalho e a vida nas ruas; em contraste, os acadêmicos negros de agora tendem à vida universitária exclusiva, confinando-se estreitamente em disciplinas especializadas, com pouca percepção sobre a vida mental mais ampla e quase nenhum engajamento nas batalhas travadas nas ruas.

Os intelectuais negros são influenciados pelos mesmos processos que afetam os demais intelectuais norte-americanos, como por exemplo a profissionalização e a especialização do conhecimento, a burocratização da vida acadêmica, a proliferação de um jargão inpenetrável nas várias disciplinas e a marginalização dos estudos humanísticos. No entanto, a qualidade do trabalho intelectual negro tem sido mais prejudicada do que a dos outros intelectuais. Isso se deve a dois motivos principais.

Primeiro, o sistema acadêmico de remunerações e status, prestigio e influência incentiva os poucos acadêmicos negros que imitam os paradigmas dominantes incensados pelas célebres instituições de ensino superior do Nordeste do país. O negro felizardo que consegue ser admitido na eleite acadêmica, bisbilhotar as conversas dos ilustres e influentes e reproduzir seu jargão ao escrever um trabalho sobre os negros tem sua carreira intelectual assegurada. Esse sistema não apenas desencoraja os carreiristas aspirantes empacados nas províncias, longe da excitante metrópole, mas também tolhe a criatividade intelectual, especialmente no caso daqueles para quem os paradigmas dominantes são problemáticos. Contudo, a incrível expansão do ensino superior nestas últimas décadas -incluindo-se aí os vultosos recursos federais que subsidiam as universidades e faculdades públicas e particulares – fez da universidade um mundo à parte, que abriga quase todo o talento intelectual da sociedade norte-americana. Em consequência, até mesmo os críticos dos paradigmas dominantes no meio acadêmico provem desse próprio meio; ou seja, eles reposicionam pontos de vista e números dentro do contexto da política profissional da universidade, em vez de clos de ligação entre as lutas dentro e fora do mundo acadêmico.  Desse modo, o meio acadêmico tira proveito dos críticos de seus próprios paradigmas. Esses críticos, simultaneamente, legitimam o meio acadêmico (realçando sua auto-imagem como incentivador da investigação objetiva e da crítica implacável) e debilitam o teor mais politizado e genérico das críticas dos radicais. Isso se aplica especialmente aos críticos que enfocam o modo como os paradigmas gerados no meio acadêmico ajudam a sancionar esse meio. Assim, as críticas radicais, inclusive a dos acadêmicos negros, são em geral desarmadas.

O segundo motivo é o fato de que muitos acadêmicos negros deliberadamente se distanciam tanto da corrente dominante na universidade que acabam tendo uma base de sustentação precária como profissionais em sua área. A vida intelectual norte-americana oferece poucas oportunidades para se executar um trabalho intelectual sério fora das universidades e fundações – especialmente para quem se dedica às áreas de ciências sociais e humanas. As principais alternativas intelectuais à vida acadêmica são o jornalismo, as comunidades auto-suficientes (comunidades de artistas e grupos feministas) ou a literatura bem remunerada (autores célebres como Gore Vidal, Norman Mailer ou John Updike). Lamentavelmente, alguns intelectuais negros, frustrados e desgostosos, regridem e se isolam em grupos e debates restritos, que reproduzem a própria mediocridade que os levou a rejeitar a vida acadêmica. Dessa Maneira, a mediocridade, sob várias formas e em diferentes contextos, sufoca boa parte da vida intelectual dos negros. Por conseguinte, a despeito do grande número de acadêmicos negros em comparação com os do passado (embora ainda uma pequena proporção em relação aos brancos), a vida intelectual negra apresenta um panorama bastante desalentador. Com poucos periódicos que permitam um intercâmbio entre as várias disciplinas, poucos orgãos que demonstrem interesse na situação e poucas revistas voltadas para as análises sobre a cultura negra e suas relações com a sociedade norte-americana, a infra-estrutura para a atividade intelectual negra é muito débil.

Assim como os políticos negros, os acadêmicos negros enquadram-se em três tipos básicos: os eleitistas que se distanciam da raça, os rebeldes que a ela se abraçam e os profetas que a transcendem. O primeiro tipo predomina nas universidades e faculdades mais célebres. Com frequência, consideram-se a “minoria talentosa”, que detém o monopólio da visão bem informada e culta dos problemas da América negra. Deleitam-se em censurar severamente boa parte do comportamento dos negros, porém apresentam poucas idéias sobre o potencial ou as perspectivas da Afro-América. Por vezes, suas críticas são incisivas – mas com frequência degeneram em uma reveladora auto-aversão. Esses acadêmicos temdem a distanciar-se da América negra, ironicamente chamando a atenção para sua propria marginalização rabugenta. Preconizam padrões de excelência, complexidade nas análises  sutileza nas investigações – mas em geral o que fazem é encompridar manuscritos medíocres, produzir enfadonhas análises padronizadas e pesquisas sem a mínima criatividade. Ainda assim, prosperam -embora com frequência à custa de um respeito intelectual mínimo por parte de seus colegas brancos da área acadêmica. As obras mesquinas do progressista Adolph Reed Jr são um exemplo dessa tendência.

Os intelectuais negros do segundo tipo -os rebeldes que abraçam a causa racial – consideram-se em geral herdeiros da tradição de W.E. Du Bois. No entanto, quase sempre estão enganados. Na verdade, enquadram-se bem melhor nos moldes daqueles velhos professores universitários negros que prosperavam porque em terra de cego quem tem um olho é rei. Ou seja, esses rebeldes aferrados à sua raça expressam seu ressentimento contra o meio acadêmico branco (inclusive o sutil racismo nele imperante) reproduzindo hierarquias semelhantes em um contexto negro, onde eles próprios figuram no topo. Revoltam-se, com razão, contra o isolamento tribal e a esnobe polidez dos acadêmicos brancos (e dos acadêmicos negros do primeiro tipo, descritos acima); contudo, ao contrário de Du Bois, a rebelião tende a delimitar-lhes a produtividade literária e exaurir-lhes a criatividade intelectual. Com isso, a retórica passa a substituir a análise, o palavreado estimulante toma o lugar das leituras sérias e as publicações pouco criativas transformam-se em expressão da catarse existencial. Boa parte do pensamento afrocêntrico, embora não sua totalidade, enquadra-se perfeitamente nessa descrição.

Existem poucos profetas que transcendem a raça no atual cenário intelectual negro. James Baldwin foi um deles. Ele era autodidata e tinha estilo próprio, portanto nada devia a nenhum sistema gerido pela elite branca para financiar atividades intelectuais. Era corajoso e produtivo -um intelectual político, em contraste com o ativista de esquerda Amiri Baraka, que não passava de um poeta boêmio e pequeno-burguês de nome Leroi Jones, e com o ex-pantera negra Eldridge Cleaver, que se bandeou para a direita republicana, James Baldwin foi inabalável em seu compromisso de unir a vida da mente (inclusive o ofício de escrever ) à luta pela justiça e dignidade humana, independentemente dos modismos da época ou do preço que ele tivesse de pagar. Com excessão de Toni Morrison, a geração atual ainda não viu nascer alguém como Baldwin. Não temos um Oliver Cox, nem um St. Claire Drake. Esse vácuo continua a agravar a crise de liderança negra -e os tormentos dos desfavorecidos vão crescendo.

*Cornel West, filósofo, leciona na Princeton University e, recentemente, dando vazão ao que pensa boa parte da intelectualidade negra norte-americana, referiu-se a Barack Obama como “a black mascot of Wall Street oligarchs and a black puppet of corporate plutocrats.”, causando algum assombro na sempre bem-comportada (branca ou negra) mídia norte-americana. O texto acima é parte integrante do livro “Questão de Raça”, publicado pela editora Companhia das Letras em 1994. -Cortesia da Arquipélago Livros (http://arquipelagolivros.wordpress.com/)

James BaldwinJames Baldwin – Nova Iorque 2 de agosto de 1924 – 1 de dezembro de 1987, em Saint Paul de Vence, França. Ensaísta, romancista e ativista.

Amiri BarakaAmiri Baraka - (Everett LeRoi Jones) Newark 7 de outubro de 1934. Poeta, ensaísta, crítico musical, dramaturgo, ensaísta e ativista, foi integrante da “Geração Beat” de Jack Kerouac, William Burroughs, Allen Ginsberg e outros. Professor universitário, é autor de ensaios contra o racismo e o colonialismo.

Eldrige Cleaver - Nasceu em Wabbaseka, Arkansas, in 1935. Ativista (ministro da informação) do grupo Panteras Negras, foi desde os anos 60 importante personagem da luta política norte-americana. Morreu em 01 de maio de 1998, no Pomona Valley Medical Center.

http://www.afrobella.com/wp-content/uploads/2011/02/toni-morrison.jpgToni Morrison - Nascida em Lorain, a 18 de fevereiro de 1931, é romancista norte-americana. Em 1993 recebeu o Nobel de Literatura. Escreve sobre as experiências das mulheres negras nos Estados Unidos durante os séculos XIX e XX. Seu livro de estréia, O olho mais azul (1970), é um estudo sobre raça, gênero e beleza — temas recorrentes em seus romances. Escreveu peças, ensaios, literatura infantil e um libreto de ópera.

Oliver (Cromwell) Cox – Nasceu em Port of Spain,Trinidad e Tobago, a 25 de outubro de 1901. Sociólogo marxista, foi membro da Chicago School of Sociology.  é autor de Foundations of Capitalism (1959), Capitalism and American Leadership (1962), Capitalism as a System (1964) e Jewish Self-Interest and Black Pluralism (1974). Seu livro mais profundo e influente é Race, Castle and Class, Publicado no mesmo ano em que E. Franklin Frazier assumu como o primeiro negro a presidir a Associação Sociológica Americana, em 1948.  Cox morreu em 04 de setembro de 1974.

St Claire Drake - Nasceu a 02 de janeiro de 1911 em Suffolk, Virginia. Sociólogo e antropólogo formado pelo Hampton Institute -atual Hampton University- em 1931, foi professor assistente na Roosevelt University, onde criou um dos primeiros programas de estudos afro-americanos dos EUA. Foi professor da Stanford University. Morreu de ataque cardíaco, em Palo Alto, Califórnia, a 20 de junho de 1990.