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Por Ana Siqueira

Jornal do Brasil

Uma reportagem dos anos 1990 da extinta TV Manchete se tornou viral durante a última semana, após uma onda de furtos e assaltos na orla carioca provocar uma reação de extrema violência por moradores da Zona Sul. O vídeo, em que uma moça defende o pagamento de entradas nas praias do Rio de Janeiro, suscitou debates sobre o quanto, após cerca de duas décadas, o discurso separatista das classes mais altas continua o mesmo. Em grupos formados nas redes sociais, jovens de bairros ricos agora se organizam para atacar ônibus vindos da periferia do Rio de Janeiro, para agredir “prováveis assaltantes”.    

“Não pode tirar o pessoal do Méier, do mangue, e levar para Copacabana. Eu não posso conviver com uma pessoa que não tem o mínimo de educação”, afirmou a entrevistada da TV Manchete na década de 90. Embora as falas sejam fortes, na visão da cientista política Clarisse Gurgel, elas não soariam tão estranhas hoje como podem ter soado naquela época. “E isso por conta de um contexto em que os setores mais conservadores estão livres, leves e soltos para falarem o que quiserem, já que a alternativa mais avançada e progressista se perdeu”, opina a professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

De acordo com Gurgel, a crise política e econômica vivida pelo Brasil criou um vazio na população, permitindo que pensamentos conservadores, antes inibidos, sejam expressados de forma mais veemente. “Desde as jornadas de junho que esse vazio vem sendo disputado e foi ganho por aqueles setores melhor estruturados e organizados, que são setores conservadores. E de lá para cá, nós vivemos um fenômeno de orgulho da direita”, aponta. Segundo ela, antigamente o imaginário público do brasileiro via como positivos os pensamentos de esquerda e os “princípios, no mínimo, republicanos”. Hoje, a cientista política observa que o conservador saiu da defensiva, passando para a ofensiva na manifestação de suas opiniões.

Para Ignácio Cano, professor fundador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV/Uerj), o Brasil ficou mais igualitário nos últimos anos, mas a sociedade continua extremamente dividida. “Alguns grupos ainda ficam incomodados com o pobre indo à praia. E no Rio, embora os espaços sejam muito próximos, continuam separados. A praia é o único lugar realmente aberto, sem segregação econômica. Então é lá que vamos, de fato, testar os preconceitos”, explica o sociólogo. Clarisse Gurgel concorda: “O problema do Brasil não está meramente na forma de pensar, mas na forma de viver. Nós vivemos de uma forma dividida e, no verão, as pessoas são obrigadas a entrar em contato com uma realidade que, de certa forma, lhes é inconveniente.”

De acordo com ela, os ricos dependem da pobreza para continuarem ocupando o papel de ricos, e admitir isso gera incômodos. “Quando o rico se depara com o pobre na praia, mal sabe ele que o incômodo sentido é por ele mesmo ter produzido aquela pobreza”, opina. Gurgel ainda afirma que a situação se agrava pela liberdade que as pessoas estão encontrando para se opor à presença das classes menos favorecidas no espaço público, chegando inclusive a lançar mão da violência. “O mais grave disso tudo está nas situações em que esses setores de classe média e média alta se organizam em uma espécie de milícia para linchar trabalhadores e atacar ônibus indiscriminadamente. O vilão, no imaginário dessas pessoas, não é o suposto criminoso do arrastão, é o pobre”, lamenta a professora.

No último domingo, um ônibus da linha 474 foi depredado por moradores de Copacabana que decidiram
No último domingo, um ônibus da linha 474 foi depredado por moradores de Copacabana que decidiram “fazer justiça com as próprias mãos”, causando momentos de terror 

Além da abordagem pautada em preconceito social e racial, o sociólogo Ignácio Cano alerta que a ação dos chamados “justiceiros” tem reflexos na segurança da cidade. “O perigo imediato é a violência de forma indiscriminada e o mediado, é que os grupos das periferias revidem aos ataques, chegando a uma situação insustentável”, detalha o pesquisador. Nas redes sociais, grupos de jovens da periferia já se articulam para “vingar” a violência sofrida por passageiros da linha 472 no último domingo (20). Por outro lado, moradores da zona sul pregam uma vigília munida de tacos de beisebol e outros objetos para impedir novos arrastões.

Clarisse Gurgel lembra que esses grupos não têm uma “lei” regulamentando suas ações. “Eles servem exclusivamente a uma classe. E eu diria que, se você entende os “justiceiros” como aqueles que atuam em defesa dos interesses dos mais ricos, eles atendem ao papel que a própria polícia atribui a si, já que, desde a sua origem, ela está aí para defender apenas aos interesses da classe média para cima”, critica. Alguns dos próprios “justiceiros” também pensam assim. Em entrevista à Folha de S. Paulo no início desta semana, um deles, que não quis ter seu nome divulgado, afirmou: “Os policiais nos apoiaram, tanto que não nos prenderam. É o terceiro final de semana que fazemos isso.”

A polícia e a revista dos ônibus

Na visão dos dois especialistas entrevistados pelo JB, a revista de coletivos vindos da periferia a caminho da praia se baseia em preconceito. Para Clarisse Gurgel, a atitude revela um fenômeno conhecido como criminalização da pobreza. Para Ignácio Cano, representa ainda uma “confissão de incompetência”. “Se a polícia realmente soubesse quem está cometendo os crimes, iria lá e os prenderia. Não precisaria revistar todos os ônibus que saíram da periferia”, explica o sociólogo.

Para Beltrame, um jovem que sai de Nova Iguaçu para ir à praia sem dinheiro é vulnerável
Para Beltrame, um jovem que sai de Nova Iguaçu para ir à praia sem dinheiro é vulnerável

Um debate acerca do conceito de vulnerabilidade dos passageiros menores de idade também mobilizou o Rio de Janeiro esta semana. Autoridades vêem “atitude suspeita” em rapazes da periferia que vão à praia de ônibus e sem dinheiro. “Como que o jovem sai, por exemplo, de Nova Iguaçu, a 30 km da praia, só com a bermuda e sem R$ 1 no bolso para comer, beber, pagar um transporte e vai ficar no calorão que está fazendo? Não se trata de ser pobre ou rico, se trata de vulnerabilidade”, afirmou o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, na última segunda-feira (21).

Para Gurgel, a suposta vulnerabilidade é ilusória. “Ele pode arrumar um jeito de voltar para casa, como várias pessoas de classe média que saem de casa sem dinheiro e pedem um trocado emprestado para o amigo. Eles usam uma restrição econômica do direito de ir e vir para criar uma restrição política e social. Isso é um abuso de poder absurdo”, atesta a cientista política, que também é formada em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Na visão de Cano, se o jovem realmente não estiver pagando o serviço de transporte público, ele deverá ser retirado do coletivo, mas recolhê-lo por estado de vulnerabilidade é um mecanismo de propagação de estereótipos. O sociólogo ainda opina que os policiais não teriam a mesma atitude caso se tratasse de um jovem branco e de elite. A alternativa para evitar a onde de furtos e roubos nas praias, na opinião de Clarisse Gurgel, seria aumentar o número de guardas municipais “seja para evitar furtos e roubos, seja para evitar linchamentos”.

Ela também ressalta que a própria ação dos agentes deve ser fiscalizada e, a longo prazo, é o problema estrutural que precisa ser combatido. “É necessário melhorar as condições de trabalho, garantir direitos básicos, acabar com esse projeto de remoção branca, de expulsar os pobres do asfalto por inviabilizar a vida deles aqui pelo encarecimento do custo de vida”, conclui a cientista política.   

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