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Val, empregada de família de classe média brasileira, trata com carinho,
filho da patroa, como se fosse sua própria mãe

“Será que ela volta?”

Patroa evita a praia e pega um cineminha

Por Spirito Santo*

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Doméstica incendeia varal de roupas dos patrões na rebelião dos empregados
de uma mansão em “Boa Esperança”, clip de Emicida, dirigido por Kátia Lund

Enquanto isso, empregada assiste outro filme na televisão.

“…Quando a brasiliense Camila Márdila surgiu como candidata a viver Jéssica, uma das protagonistas de “Que horas ela volta?”, a diretora Anna Muylaert implicou um pouco. Afinal, o roteiro descrevia a personagem — uma adolescente que se reencontra com a mãe, Val (Regina Casé), em São Paulo, após dez anos separadas — como uma mulata pernambucana.”
(Fabiano Ristow em O Globo)

Então…

Assisti ontem a excelente entrevista de Mario Sergio Conti com Anna Muylaert na Globo News. O tema, claro, era o festejado e comentadíssimo filme da roteirista e diretora, “A que horas ela volta?“, cujo enredo nem preciso expor aqui de tão badalado que o filme está.

Bem, o maior mérito do filme, entre tantos apontados pela crítica, talvez seja o fato de tocar, de forma a meu ver ainda bem leve e sutil – senão omissa – no tema das tensões emocionais represadas nas relações entre patrões e empregados domésticos no Brasil.

Essas relações, aliás, são recorrentes, eternizadas que são desde tempo da escravidão, relações essas que, vou logo frisando por aí, envolveram, de forma radical, brancos e negros, ou sejam, tinham o componente estético-“racial” como componente principal, um traço de nascença maldito, um estigma, como se diz com muita propriedade.

É, com efeito esta minha última ressalva o que me chamou mais a atenção assistindo a entrevista, pontilhada de insinuações inconclusas, nas quais esta questão do caráter “racialista” embutido no tema, aparecia em instantâneos, para logo desaparecer sobre um emaranhado de panos quentes e eufemismos.

Dava para intrigar, instigar o Titio a comentar por entre os dentes:

“A quem querem enganar?”

Relutei a respeito, dia desses quando, debatendo superficialmente o tema levantado pelo filme, tentei entender porque Anna Muylaert optou por uma doméstica nordestina e não por uma negra, como poderia ser também factível.

Achei que duas questões se colocavam: A primeira o fato de serem nordestinas sim e também, grande parte das domésticas do Brasil. A segunda, mais sutil – cruel, disse eu na ocasião – era o fato de que o racismo recorrente do mainstream cinematográfico brasileiro, jamais daria o espaço que deu ao filme de Anna Muylaert, se a protagonista fosse uma atriz negra.

Mesmo ganhando algo em Sundance, “A que horas ela volta” JAMAIS obteria um lugar na disputa ao Oscar. Anna teria, a partir de um insight comercial, tomado uma decisão apenas pragmática, salvando seu filme deste limbo racista.

Mas o debate que se impunha era importante sim, apesar de sutil: Porque o negro, cada vez mais vai desaparecendo de nossas arte visuais, não sendo mais convocado, nem mesmo para os papéis mais subalternos para os quais era opção de casting mais evidente?

Me lembrei no ato das empregadas negras (de uniforme) das novelas da Globo que, depois de uma queixa ou outra de grandes atrizes pretas, foram,  só de vingança, sei lá, substituídas por nordestinas (também de uniformes).

Foi assim, orelha em pé que fui encontrando os rabos presos nas tais…sutilezas, do filme, aquelas artimanhas que sempre travam o debate sobre racismo no Brasil.

É que vão aparecendo aqui e ali indícios tímidos de que esta questão esteve latente sim, o tempo todo, durante a criação e a produção do filme.

“— A Camila fez um ótimo teste. Mas ela era branca demais, não era nordestina — reconhece Anna. — Até que fui convencida. E o que posso dizer? A Camila foi um presente, uma bênção. É profissional, concentrada, precisa, não deu trabalho.”

(Anna Muylaert em entrevista para Fabiano Ristow em O Globo)

Questão tabu de nossas artes visuais em geral – notadamente no cinema – porque a imagem fenotípica (“racial“, sem eufemismos toscos) do povo brasileiro, nossa imagem de gente majoritariamente não branca, vai sendo cada vez mais escamoteada no cinema, na TV, na mídia em geral? Como explicar isso?

É um fenômeno extremo este andar pra trás da erradicação do racismo no país. Surpreendente o paradoxo, mas em muitos aspectos a sociedade brasileira tem sido mais racista hoje do que foi durante a escravidão. E vai ficando cada vez mais, quanto mais o negro vai se recusando a aceitar “o seu lugar“.

Somos como uma cobra e suas peles trocadas, sempre iguais.

Qualquer cinéfilo mais cascudo, experiente, por exemplo, sabe que o cinema brasileiro, pelo menos até o início do Cinema Novo, impregnado ainda daquela aura humanista do neo realismo italiano do pós guerra, rejeitava o racismo.

Foram inúmeros os personagens negros de nosso cinema P&B, operários, sambistas, delegados, advogados, com o destaque absoluto para Grande Otelo, brilhante ator que em 1942 fascinou o admirável diretor Orson Welles (que pagou alto preço por esta sua fascinação, ganhando em Hollywood a pecha de “amigo de negros e comunistas“)

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A diva Ruth de Souza confidenciou certa vez ao Titio, fortuitamente as grandes alegrias que teve na Vera Cruz, grande Cia. brasileira de cinema onde nos lançamentos dos filmes, em suntuosos jantares Ruth era tratada como uma deusa hollywoodiana.

Disse isso para justificar o fundo ressentimento que teve quando do advento do Cinema Novo momento no qual, segundo ela, se passou a relegar ao negro os não papéis, os estereótipos e os “coros” e, por fim a quase invisibilidade que atores e atrizes negros sofrem hoje em dia.

É surdo este aspecto da questão. Os críticos profissionais são brancos. Os jornalistas do ramo são todos brancos, os roteiristas, os produtores, os diretores de cinema (e não me venham com as raras exceções) todos os controladores das mídias e os formadores de opinião enfim, são brancos.

É cômodo para todos eles esse “lavar as mãos“, esta posição omissa de quem manda, mas finge que “obedece a alguém e tem juízo”. E vejam: isto tudo é pura esquizofrenia.

“…A diretora (Anna Muylaert) diz isso agora, mas a verdade é que Camila não era a candidata óbvia. A personagem, afinal, é mulata, e pernambucana, de sotaque forte. A atriz nasceu em Brasília, e tem a pele mais clara, tanto que, quando foi eleita, teve que lagartear ao sol – e ouvir Nação Zumbi e Karina Burh, entre outros para pegar o jeito de falar.”

(Maurício Meirelles em O Globo de agora, 27/09/2015)

A questão, por isso mesmo, vive entranhada no âmago de nossas sempre tensas relações sócio raciais. Isto é assim tem séculos, sociedade arraigadamente racista que somos, sempre a fingir que não somos essa coisa execrável, covarde que nos avilta.

Anna Muylaert, nessa mesma entrevista a Mario Sergio Conti, revela muito discretamente que também no caso da personagem faxineira (Edna, interpretada por Helena Albergaria) optou, deliberadamente que não fosse negra, “para fugir do estereótipo” segundo afirmou.

Aí percebi, claramente que a fenotipia das empregadas, o fato de elas serem ou não serem negras ou mulatas, foi sim uma questão a ser contornada, um incômodo narrativo, optando-se por sua ocultação, assim como se esconde um bode na sala.

(O bode deve ser um personagem omisso da trama: O “Stereo Tipo“)

E há também na fala discreta de Anna Muylaert a citação de cartas recebidas por ela de empregadas e patroas nas quais um desagradável aspecto do filme – talvez apenas subjacente a este – aparece escancarado: o pieguismo do discurso que, ao que tudo indica, está na raiz narrativa do filme.

Uma das cartas, de uma patroa:

_”…Estou chorando aqui agora com saudades da Maria, minha empregada que já morreu e serviu a minha família por 20 anos, não teve filhos, não teve nada de seu e eu nem percebi…”

Putz!

O incômodo é meu. É um pieguismo arcaico, típico da hipocrisia da classe média brasileira e muito comum – pasmem – na crônica do Abolicionismo. Haveria sinal mais evidente de que, como sociedade, estamos mesmo – neste e em muitos outros aspectos, estacionados lá atrás, no século 19, no pré-abolição da escravatura?

Em certo momento, o Mario Sergio Conti, astuto entrevistador, estabelece as insuspeitas relações entre o conteúdo do filme e as ideias recorrentes – e hoje questionáveis – deGilberto Freire, às quais Anna espertamente repudia, enfaticamente, afirmando que, na verdade se baseou mais em Joaquim Nabuco.

Foi o momento mais tenso da entrevista, pois, ficou evidente ali que Anna Muylaert não havia lido o mesmo Joaquim Nabuco que o entrevistador.

Pronto. Foi aí que perdi o tesão de ver o filme, embora o recomende aos amigos brancos, a quem certos aspectos da realidade não estão ainda tão claros.

É que, de certo modo, Titio já viu esse filme.

(Recomendo a propósito, fortemente, o clip novo do Emicida, “Boa Esperança“, antítese deste filme de Anna Muylaert, como contraponto do debate: )

Enfim, nada pessoal. O filme de Anna Muylaert deve ser, obviamente muito bom e pertinente. Fora do Brasil, estes aspectos ligados a fenotipia das personagens, passam desapercebidos porque Regina Casé por lá – só como exemplo – não tem nada de branca.

E mais. Tem, pelo menos um ator negro no filme: Luis Miranda (embora, sintomaticamente ele apareça invisível num site ou outro, como nesse aqui abaixo)

imageMas enfim, estamos aqui, num país onde um aparato policial-militar de guerra do Iraque é montado para impedir que crianças e jovens, negrinhos magrelos, desarmados e suburbanos, simplesmente se aproximem…de uma praia ensolarada.

(E o Titio aqui querendo que eles se aproximem de um…cinema.)

Ah!…Liguem não. Sou já um Titio tonto e sem noção.

*https://spiritosanto.wordpress.com/2015/09/28/sera-que-ela-volta-patroa-evita-a-praia-e-pega-um-cineminha/

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