Aluna denuncia caso de racismo na USP de Ribeirão Preto

Por Ana Luiza Martins*

No sábado passado, eu e minhas amigas recitamos uma música da Yzalúh no Sarau Preto. A gente dividiu as estrofes, e eu fiquei com uma em que a cantora fala sobre a violência “De ler nos banheiros das faculdades hitleristas/ Fora macacos cotistas”

Até então, apesar de já estar há quatro anos na USP — tendo estudado nesse tempo em duas de suas unidades mais elitistas e com as menores porcentagens de negros –, o que passou na minha mente, enquanto lia o verso, é que essa era, afinal, uma das violências ali listadas pelas quais nunca havia passado.

Hoje, um pouco mais de uma semana depois, eu confirmo novamente – o que, às vezes desgastada, tento acreditar: o sistema racista não irá nos poupar de nada.

Já não basta é claro sermos em cerca de dez negros na faculdade. Não basta chegarmos todos os dias nessa faculdade branca, para sentar no meio de 49 colegas brancos, assistir a quatro aulas de professores brancos, que nos contam e nos fazem ler outros tantos brancos acerca de todo um sistema pensado por brancos e para brancos. Não basta cruzarmos todos os dias com a foto dos últimos formandos e só ver rostos brancos.

Não basta que seja apenas cerca de 10% o número de ingressantes pelo sistema de bonificação – QUE NÃO SÃO COTAS – e que dentro desse número ainda seja minotário o número de negros.

Não bastam os quase 18 anos de educação racista e de violência semelhantes a essa que hoje estampa o banheiro da FDRP-USP, que tivemos que suportar sendo os únicos negros da sala de aula em escolas particulares para hoje estarmos na Universidade. Não basta.

São vocês, é claro, que tem de estar revoltados. Deve ser mesmo revoltante e amedrontador pensar que, LOGO LOGO, não importará o quão cara foi a escola e os cursos de língua que o papai pagou, você não vai ganhar seu carro de “aprovado no vestibular”. Não vai poder postar fotinha no facebook pra receber elogio por ter conseguido, simplesmente, o que todo um complexo de instituições te preparou 18 anos para fazer.

Deve ser, é claro, assustador para vocês, que nunca pararam para se perguntar porque são quase que exclusivamente brancos todos os espaços que vocês frequentam, todos os amigos que fazem, todos os que aparecem no seu instagram, pensar que, logo logo, terão que sentar lado a lado com aqueles com quem quando cruzam, escondem a bolsa.

É, racistas, podem espernear, chorar, nos escrever ofensas nos boxes dos banheiros: a USP vai ficar preta.

E cotas é só o começo.

Vocês nos devem até a alma.

*Extraído de http://www.viomundo.com.br/denuncias/aluna-denuncia-caso-de-racismo-na-usp-de-ribeirao-preto.html

 

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