Na Varanda:

Agora é verão…
embala-te nessa rede
de algodão, alvinho, poeta!
Hoje o sol está fumegando o dia.
No curso do assunto,
guiado pelo orixá
tu seguiste estrada
para a terra baulé
para conhecer os mistérios
da força vital,
concentrada nosraios luminosos
na cabeça das divindades celestes
transmitida pelo olhar mágico
do abutre e da áspide faraônicos
mais as fileiras dentadas
em volta do rosto divino
lembrando a chuva-fonte-de-vida,
barba de ouro reluzente
no queixo de Tutankamon.

Na noite clara
teus olhos pousaram
no brilho da Lua fria
nas neves do Kilimanjaro…
Nos teus ouvidos,
tam-tam, bata-cotô,
danças e cantigas negras.
Quando se foi a lua,
“sob mil constelações”,
a noite feiticeira
(tu cantavas feiticeira Noite)
envolveu teu corpo na escuridão.

E assim, me parece,
que em arroubos atávicos,
da visão primeira,
o branco cravou-se em teu cérebro
como cor contrastante
do “escuro-negro” da Natureza.

Estevão Maya-Maya

Em:
Regresso Triunfal de Cruz e Sousa e
Os Segredos de “Seu” bita dá-nó-em pingo-d´água
Editora Kikulakaji
1982

Ilustra o poema, foto do poeta Estevão Maya-Maya

Estevão Maya-Maya

Por Luiz Alexandre Raposo”

José Estêvão Maia, filho de Raimundo Maia e Maria da Conceição Silva Maia, nasceu no dia 21 de setembro de 1943, no povoado do Pano Grosso.

Muito cedo ainda, quando tinha apenas cinco anos de idade, o menino veio para Viana, a fim de ser criado por uma tia-avó, que morava no final da atual Rua Professora Amélia Carvalho, nas vizinhanças da residência da professora Cóia Carvalho. E foi assim, por uma dessas contingências da vida, que desde cedo teria contato com a música erudita, ouvindo óperas e operetas que a octogenária professora colocava para tocar no velho gramofone de sua casa.

Desse período da infância outras lembranças ficariam gravadas na memória, como as toadas de boi que gostava de cantar e o aprendizado do ofício de alfaiate. Também não seria esquecido o trauma da expulsão da extinta Escola Paroquial, na última série do antigo primário. Por ter freqüentado a festa de São Benedito da Barreirinha, promovida pela Igreja Brasileira, foi banido da escola pelo severo padre Manoel Arouche. Todavia, graças à ajuda da professora Celeste Carvalho, matriculou-se no Colégio São Sebastião, onde fez a 5ª série e concluiu o curso.

Na adolescência, entregou-se a dois hábitos prazerosos: cantar em serestas e jogar cartas. O primeiro tinha certo ar de virtuosidade, enquanto o outro era extremamente perigoso. Por ironia da vida, o segundo acabou provocando um encontro inusitado que alavancaria o primeiro. No verão de 1962, depois de perder várias partidas em um dos ranchos de pescadores que, naquela época, eram armados na ilha de Sacoã, retornou no dia seguinte para pagar seu débito e reaver o baralho empenhado. Coincidentemente, o bem-sucedido comerciante José Pinheiro estava por lá, acompanhando o cunhado, Padre João Mohana, em um passeio de canoa. Ao vê-lo, o comerciante o chamou para apresentá-lo ao padre, elogiando suas qualidades vocais. A pedido do sacerdote, tímido e envergonhado, o jovem cantou um pequeno trecho de uma canção.

A partir desse momento, aos 19 anos de idade, o desenrolar de sua vida mudaria completamente. Estimulado pelo sacerdote, Estêvão viajou para São Luís, a fim de submeter-se a um teste para a antiga Academia de Música do Maranhão, então dirigida pelo professor Bruno Wizuj, um polonês radicado no Brasil que, por coincidência, tinha seu mesmo tipo de voz.

Em São Luís, o cantor foi adotado pela elite intelectual da época, composta por Carlos Cunha, José Chagas, Nauro Machado, Ubiratan Teixeira, Lopes Bogéa e outros. Nesse convívio, ganhou mais um importante incentivador, o professor Nascimento Morais. Angariando donativos junto aos irmãos maçônicos, o conceituado mestre o encaminhou para continuar os estudos de canto em Salvador. E foi assim que o jovem vianense bacharelou-se em Música no Teatro, pela Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, em 1968.

Dono de uma voz rara e potente (classificada como baixo profundo e que alcança uma extensão de aproximadamente três oitavas), José Estêvão Maia – que adotaria o nome artístico de Estêvão Maya-Maya – já recebeu aplausos de plateias do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Sua experiência como cantor lírico, hoje, inclui recitais e concertos como solista, acompanhado de renomados pianistas e de grandes orquestras como a Sinfônica do Estado de São Paulo. Em Buenos Aires teve a glória de cantar no famoso Teatro Colón.

Em seu extenso currículo constam a atuação na ópera Jesus Christ Superstar (que originou a gravação do LP da versão brasileira, na qual  interpreta o personagem Caifás) e a direção musical do espetáculo Hair, em São Paulo (ambos em 1972), o show Síntese da História do Jazz (1982/83), entre outros. Como pesquisador da música brasileira e afro-brasileira possui trabalhos de direção musical a exemplo da ópera Ongira: grito africano (1980) e a gravação da trilha sonora do seriado Abolição, da Rede Globo, com o Coral Cantafro (1988).

No campo da literatura, em parceria com o poeta maranhense Vilmar Ribeiro, publicou uma coletânea de poesias com o título de “Cantiga para gente de casa chegada em cima da hora”. O livro, vendido de mão em mão, alcançou a extraordinária tiragem de 4.900 exemplares. Em 1982 veio a segunda obra, intitulada “Regresso Triunfal de Cruz e Souza e os Segredos de Seu Bita Dá-Nó-em-Pingo-d’Água” que reúne dois trabalhos distintos: a primeira parte tem o propósito de combater informações distorcidas sobre o poeta simbolista, e a segunda, de divulgar um longo poema sobre as mazelas infantis vividas em Viana.

O titular da Cadeira nº 23 da AVL reside em São Paulo, onde se dedica às artes cênicas, seja atuando ou dirigindo peças. No cinema participou como ator dos filmes “Sonhos Tropicais” de André Sturm (2000) e “De Passagem” de Ricardo Elias (2002), tendo este último obtido cinco prêmios no penúltimo Festival de Gramado.

 

*http://www.avlma.com.br/index.php/academicos-e-patronos/261-estevao-maya-maya

Anúncios