O Triunfo de de Sosigenes Costa

Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca

VÁRIAS HOMENAGENS FORAM prestadas em comemoração do centenário de nascimento do poeta Sosígenes Costa, 1901-2001, destacando-se entre elas a edição do alentado volume Poesia completa pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia, com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, acatando uma iniciativa da Fundação Cultural de Ilhéus, e a publicação do livro Crônicas & poemas recolhidos, pela Fundação Cultural de Ilhéus, com pesquisa, introduções, notas e bibliografia de Gilfrancisco. Artigos de professores universitários e intelectuais conceituados foram publicados no suplemento cultural do jornal A Tarde e na revista Iararana, enquanto comunicações e palestras aconteceram em importantes instituições culturais da Bahia, reunindo especialistas na obra do poeta de Belmonte e Ilhéus. Homenagens justas chegavam em momento oportuno para a avaliação, compreensão e reconhecimento de um texto poético dos mais ricos e originais de nossas letras. Nesta coletânea sobre o autor dos admiráveis “Sonetos Pavônicos”, os textos “Sosígenes Costa: poeta da visibilidade”, de Aleilton Fonseca, “Impressões de Sosígenes Costa”, de Cyro de Mattos, e “Virtuosimo e Estesia”, de Jorge Araujo, foram apresentados na Semana de Sosígenes Costa promovida pela Fundação Cultural de Ilhé- us, em novembro de 2001; “Poética e Linguagem em Iararana”, de Celina Scheinowitz, “A Reinvenção Antropofágica do Discurso em Iararana, de Sosígenes Costa”, de Marcos Aurélio Souza, “A Balada Litorânea de Sosígenes Costa”, de Maria de Fátima Berenice da Cruz, “O Centenário do Castelão de Mitos”, de Gerana Damulakis, e “Sosí- genes Costa: Centenário, ilustre e desconhecido”, de Heitor Brasileiro Filho, participaram da revista Iararana 7 – Edição Especial Centená- rio de Sosígenes Costa, (novembro/2001 a fevereiro/2002); “Caleidoscópio – Êxtase Fosfóreo”, de Florisvaldo Mattos, “Sosígenes Costa e o Modernismo Literário, uma crônica de escaramuças e afagos”, de Hélio Pólvora, e “Pensamento Político sem Vínculo”, de Waldir Freitas de Oliveira , apareceram no suplemento “Cultural”, do jornal A Tarde, edição de 10.11.2001, enquanto “Iararana, Um documento dos anos 30”, de Cid Seixas, integrou, como palestra, o curso promovido pela Academia de Letras da Bahia sobre o poeta que fez da cor na sua arte uma obsessão.

Em O Triunfo de Sosígenes Costa, pretende-se preservar a escrita e a fala desses professores universitários e escritores que revisitaram a alma e a obra de um dos poetas mais importantes da moderna poesia brasileira, durante as homenagens prestadas em comemoração do centenário de seu nascimento. E, obviamente, fazer com que o poeta de Iararana alcance um número maior de leitores, passando sua obra a ser objeto de avaliação e fruição por professores, estudantes e amadores da nossa poesia.

HOMENAGEM AO MAGO

DAS IMAGENS FEÉRICAS

Helena Parente Cunha

GUARDAR NA MEMÓRIA a lembrança dos grandes nomes que já não mais fazem parte do inventário dos vivos é um modo de preservar a seiva que os nutriu, na esperança de também servir de alimento às novas gerações. Há pouco tempo celebramos o centenário de Carlos Drummond de Andrade, de Juscelino Kubitschek, de Cecília Meireles, além do bicentenário de Victor Hugo. No ano de 2001, nós, baianos, fazemos questão de comemorar os cem anos de nascimento do poeta de Belmonte, o mago das imagens feéricas, o inventor de castelos e paisagens multicromáticas, o vate das origens míticas de sua terra, Sosígenes Costa. Esta comemoração, embora praticamente limitada à sua Bahia natal, se reveste de maior significado, por ter sido o poeta pouco reconhecido enquanto viveu e longamente esquecido após a morte, em 1967.

Em boa hora os escritores Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca, ligados à mesma zona cacaueira do poeta, decidiram organizar O Triunfo de Sosígenes Costa que por certo contribuirá para a divulgação de um dos maiores nomes da literatura brasileira de todos os tempos.

As autoras e os autores destes bem elaborados ensaios são reconhecidos escritores e/ou professores baianos, cujos minicurrículos precedem os respectivos textos. Entre os indiscutíveis méritos 12 deste volume, avulta o de integrar o movimento de resgate da grandeza de um verdadeiro artista da palavra que, até a presente data, possuía apenas dois livros de estudo sobre sua riquíssima produção, o de José Paulo Paes, Pavão parlenda paraíso (1977) e o de Gerana Damulakis, Sosígenes Costa – o poeta grego da Bahia (1996). Praticamente todos os ensaios deste livro fazem referência aos dois volumes pioneiros.

O Triunfo de Sosígenes Costa está dividido em três partes distintas: os ensaios críticos, os depoimentos e a antologia. Farei um breve resumo dos trabalhos da primeira parte.

HEITOR BRASILEIRO FILHO fala de vários dados biográficos do poeta de Belmonte, como sua chegada a Ilhéus em 1926, onde foi aprovado em concurso para telegrafista e, paralelamente, passa a exercer a função de escriturário da Associação Comercial de Ilhéus, da qual só saiu aposentado, em 1953. Há também referências aos companheiros de juventude de Sosígenes que pertenciam à “antiacademia” dos Rebeldes, fundada a fim de criar uma nova era literária. Entre os Rebeldes, figuram Jorge Amado, Édison Carneiro, Dias da Costa, com quem Sosígenes, apesar do temperamento reservado, mantém correspondência. No recém-fundado Diário da Tarde, publicou, de 1928 a 1929, crônicas sob o pseudônimo de “Príncipe Azul”.

O primeiro e único livro foi publicado em 1959, por iniciativa de alguns amigos, como Zora Seljan, Obra poética e, em 1978, veio a lume a segunda edição ampliada, Obra poética II, sob a responsabilidade de José Paulo Paes, que também publicou o importante e aqui muito citado estudo Pavão parlenda paraíso.

Em 1954 muda-se para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, ganha viagem para visitar Europa e Ásia, particularmente a China. Viveu no Rio de Janeiro até a morte, em 1967.

HÉLIO PÓLVORA enfatiza aspectos referentes à Academia dos Rebeldes que, apesar de ter surgido com idéias demolidoras, reage contra os exageros inovadores da turma de São Paulo e Rio de Janeiro. Recentemente descobriram-se crônicas de Sosígenes, entre as quais as que, em 1928, criticam ou ridicularizam as tendências futuristas, como 13 a de 21 de março: “A poesia moderna é toda assim, disparatada. Escangalha-se a métrica sem dó, remete-se ao bom-senso uma patada e compara-se a lua ao pão-de-ló”.

Todavia, entre as citações de crônicas arroladas neste ensaio, verifica-se que SC nem sempre é radical: “Do futurismo de quem tem talento, eu gosto”, afirma em 1º de outubro de 1928. Pólvora observa:

Apesar de suas escaramuças iniciais contra o movimento modernista deflagrado em São Paulo, Sosígenes Costa, ferrenho adepto da velha lírica, que cultivou até o fim, era bastante sensível e inteligente para saber que, mesmo sem a forma modernosa, sem a forma novidadeira, ele era moderno, sua poesia tinha espírito moderno. Iararana, o poema indigenista descoberto por José Paulo Paes entre seus manuscritos, pode ter um ponto de vista de “fundo de quintal”, em relação ao receituário modernista, mas adere à temática brasileira pregada nos manifestos que se seguiram à Semana de 22. (…) Sosígenes sabia, como ele pró- prio escreveu em 14 de janeiro de 1929, que “a verdade da arte é, apenas, a verdade da beleza”.

GERANA DAMULAKIS, a autora de um dos dois livros básicos dos estudos sobre o poeta, Sosígenes Costa – o poeta grego da Bahia, bastante citado pelos autores deste volume, no presente ensaio optou por conjugar dois de seus trabalhos, “Castelão de mitos” (presente em cada poema) e “Sosígenes Costa e o Barroco”. Gerana se refere aos vários caminhos de uma obra de pluralidade reconhecida:

Eles vão sendo encontrados nas partes da Obra Poética que, enfim, definem o autor, ora como poeta social datado, ora como aquele que mistura de modo inusitado o luxo barroco a sonetos parnasianos, na forma, descritivos na técnica simbolista, os chamados sonetos pavônicos.

Ademais: do poeta fixado na sua admiração pelo mar, do poeta que se serve do folclore e do poeta que constrói uma saga para contar a origem do cacau em Iararana, ao poeta lírico (…).

A ensaísta menciona também a presença dos heróis e dos episódios da Bíblia, da mitologia antiga, da História, do recurso aos arquétipos para a elaboração de metáforas onde se envolvem reis e deuses.

Igualmente está visto que as misturas de temas diversos, até mesmo os disparates que aparecem quando o poeta resolve-se por rimas difíceis, que terminam sendo despropositadas, também atuam para manter e, inclusive, aumentar o interesse pelo processo mental que associa, por exemplo, o pavão vermelho do soneto homônimo, com um correspondente como o sentimento de alegria.

CYRO DE MATTOS destaca “nesse poeta de pavões e dragões, vinho e aroma, a vertente negra” expressa em vários poemas, alguns deles mais longos, como “Iemanjá”, de 769 versos.

Em Sosígenes Costa há uma fusão afetiva com o tema do negro brasileiro, na qual se destaca a espontaneidade da linguagem, o uso autêntico e reiterativo do vocabulário africano, o domínio na descrição de ritos e mitos, a revelação do sentimento cheio de um dengue, de um sensualismo tipicamente afro-brasileiro.

É oportuno lembrar que o elegante sonetista de gosto clássico e classicizante e de rica imagética suntuosa, com explícita preferência pela metrificação e pela rima, também sabe instrumentalizarse com registro popular na saga cacaueira glorificadora do índio e nos poemas de inspiração afro-brasileira, em que recorre ao verso-livre e à linguagem coloquial pontilhada de expressões típicas.

Cyro associa a vertente afro-brasileira de Sosígenes às cria- ções de Castro Alves, Jorge de Lima e Ascenço Ferreira e defende a questão da legitimidade do tema abordado por escritores de diversa origem étnica, desde que exista uma real “fusão afetiva que é transposta pela imaginação e/ou vivência para o significante e significado do discurso”.

RUY PÓVOAS faz uma apreciação do estudo realizado por Cyro de Mattos, a propósito do filão afro-brasileiro da poesia de Sosígenes Costa, concentrando-se na linguagem herdada dos escravos e que o poeta soube utilizar com tanta maestria. Póvoas destaca a exploração da musicalidade, “da sonoridade através de arranjos lexemáticos e sintáticos” e revela como Sosígenes manuseava com desenvoltura e segundo as exigências estilísticas do poema, o nagô ou a língua de Angola, o que atesta a familiaridade do poeta com a vida e as práticas religiosas dos terreiros de candomblé. Assim, a sua tão comentada e louvada capacidade para a construção de parlendas,

em função de uma musicalidade e ritmos poéticos, o faz costurar pedaços de versos do hinário afro-descendente, juntando-se a lexemas isolados e desconectados entre si e, ainda, somando a palavras portuguesas cuja pronúncia se assemelha a uma pronúncia da língua de Angola ou do nagô.

A partir da explicação dos vocábulos e da análise de versos e fragmentos escritos nesses dialetos, o autor enfatiza os recursos sonoros e musicais explorados por SC, além de fazer referências aos cultos, rituais e costumes do povo africano. No final, ele acrescenta um glossário que servirá de subsídio para possíveis esclarecimentos.

ALEILTON FONSECA trata inicialmente de questões relativas ao caráter reducionista do cânone literário, procurando explicar o lugar discreto ocupado pelo poeta em relação ao panorama da poesia brasileira do seu tempo. Provavelmente o culto excessivo de SC aos 16 modelos clássicos, superados na época áurea do nosso modernismo, teria contribuído para que seu nome não figurasse entre os astros de primeira grandeza seus contemporâneos.

Aleilton, através da fundamentação teórica baseada na categoria da visibilidade, via Ítalo Calvino, volta sua atenção principalmente para a poética visual:

Sosígenes Costa é um poeta imagético por excelência. Seu olhar se projeta sobre coisas, paisagens, ritos, situações – e ele transmuta, alegoriza, ressignifica, plasmando em linguagem lírica aquilo que visualiza – no real e na imaginação. (…) Observa-se, pois, que o processo de visibilidade, uma vez acionado por um sujeito, também requer esforço de criar significações. O esforço surge do comprometimento volitivo e da vontade de dar forma ao conteúdo da imaginação que alimenta e resulta do impulso de criar.

O autor deste ensaio condena as classificações que pretendem enquadrar SC na estreiteza de algum ismo, ora como parnasiano ou simbolista, ora modernista. “Estes rótulos só se aplicam adjetivamente a procedimentos parciais de sua poética, mas não têm força substantiva quando aplicados unitariamente”. Em resumo, graças à obra multifacetada e à inventividade, SC é um moderno, em toda a extensão da palavra.

FLORISVALDO MATTOS focaliza sobretudo a dimensão cromática de SC que “lhe confere singularidade capaz de se tornar um diferencial no seu processo criativo”:

Concluí que o cromatismo da poesia de Sosígenes Costa (…) não possui caráter meramente subsidiário, funcionando, ao contrário como um atributo intrínseco da criatividade artística, uma instância paralela à função 17 abstrata e simbólica da palavra, carregando-a de significados e servindo à conformação e totalização de uma linguagem, onde tempo e espaço se traduzem em complexos jogos de luz e sombra, em êxtase lírico e visual.

Apesar dessa ênfase nas cores e na “apoteose visual” em Sosígenes, Florisvaldo chama a atenção para os demais sentidos, tantas vezes recaindo no jogo sinestésico ou no privilegiar das sensações olfativas. Para o ensaísta, o requintado gosto do poeta de Belmonte e algumas de suas referências irônicas poderiam levar a supor que ele fosse contrário às novas tendências poéticas, mas, na verdade, o que ele não aceitava eram os exageros da vertente futurista. Basta que se recorde o nacionalismo da “epopéia cabocla” Iararana. “O modernismo em Sosígenes Costa, de brilhante, tornou-se fosfóreo”.

JORGE DE SOUZA ARAUJO, em alusão à variedade de tons de SC, comenta sobre a ourivesaria de sua dicção metrificada e rimada, sobre seus ataques às modernosidades da Semana de 22, o que não impediu o tom prosaico de composições despojadas dos luxos imagéticos. Araujo, a propósito do romance surrealista de Jorge de Lima, O Anjo, aponta como o poeta baiano aceitava a recomendação do poeta alagoano no tocante ao destino do homem que nasceu para contemplar e, só por castigo, luta e trabalha, mostrando-se Sosígenes avaro dessa contemplação. Seu fabulário e expressionismo verbais fundem o tosco da fala corriqueira com o refinamento aristocrático e classista, a opulência verbal com a singularidade do mito, o ocidente e o oriente, o contingente e o estelar, a mitologia cabocla/mestiça/afro-nordestina, mais o universalismo de impressões temáticas absolutamente originais. Tudo é Sosígenes como o Jorge de Lima de Invenção de Orfeu. Jorge de Souza Araujo, através da apresentação de vários poemas, faz ainda a associação de Jorge de Lima e SC, a partir das coincidências temáticas e ideológicas no tratamento do negro escravo, sem preconceitos etnocêntricos.

MARIA DE FÁTIMA BERENICE DA CRUZ comenta o poema “Case comigo, Mariá”, reacendendo “a discussão em torno do conceito de poesia e da função desta como difusora da cultura de um povo”. Todavia, faz-se necessário analisar o referido poema, enfocando o escritor como aquele que soube, em seu tempo, articular elementos da cultura popular com os mitos da criação do universo, com a teoria dos nomes, e até com conceitos contemporâneos que nos falam de ausência de fronteiras entre as culturas.

O poema institui o mito da criação poética, contextualizando-o no imaginário popular brasileiro, povoado de reis e rainhas: Não sabes que o mar é casado / com a filha do rei?

Comparecem no poema outros mitos, como o das Sereias, o do peixe que, mais tarde, casa-se com Maria. Segundo a autora, SC revive e reatualiza sempre o mito do texto literário que se “caracteriza por sua incompletude no instante em que a leitura se renova”.

CID SEIXAS focaliza outros aspectos de Iararana, poema que inaugura a temática cacaueira e que, apesar de figurar ao lado das outras obras nativistas, ainda não recebeu o destaque reivindicado pelos mais recentes estudos revisionistas do poeta. Cid Seixas discute a diferença entre os ideais do grupo modernista de São Paulo e Rio de Janeiro impregnados das ressonâncias europeizantes que haviam importado, em contraste com os jovens baianos da Academia dos Rebeldes em defesa das tradições nacionais e locais vistas e sentidas de dentro, ao invés do olhar que buscava o lado exótico do primitivo e que já havia encantado os viajantes. Cid também discute a posição de José Paulo Paes que, em 1979, apresentou ao público o poema de Sosígenes e seu estudo, sustentando a “idéia recorrente de que o texto do poeta da roça está marcado por um caráter anacrônico”, uma vez que foi concluído só em 1933.

Embora Iararana e Cobra Norato sejam consideradas epopéias modernas, o poema de Raul Bopp continua sendo alvo de maiores deferências, enquanto estudiosos baianos procuram fazer justiça ao criador do mito mestiço em meio às matas primitivas do Brasil.

CELINA SCHEINOWITZ dedica-se a uma análise minuciosa do longo poema épico Iararana, que apresenta um mito de origem para o cacau e alegoriza a formação étnico-cultural da região, ao sul da Bahia. Acusado de se manter alheio ao movimento modernista, com esse poema Sosígenes adere às novas tendências nacionalistas, através da glorificação do herói indígena em detrimento do invasor português e do escravo africano. Celina chama a atenção para o uso de inúmeros termos relacionados à terra dos índios, com seus costumes, lendas, mitos, crendices, fala, o que contribui para a criação do clima nativista.

Celina realiza exaustivo e paciente levantamento dos termos relacionados com a flora e a fauna regional, expressões idiomáticas, conectivos marcadores da conversação, interjeições, além de aspectos ligados à pronúncia e à morfossintaxe, destacando ainda tra- ços estilísticos. O ensaio se conclui com a reafirmação de Iararana “em posição de destaque no panteão do Modernismo brasileiro, ao lado de Macunaíma, de Cobra Norato, ou de Martim Cererê”.

MARCOS AURÉLIO SOUZA concentra sua análise na visão anticolonialista de Iararana, flagrando o lado violento da ação colonizadora presente no poema.

[decorre] da sede desenfreada por riquezas advindas da produção capitalista dessa cultura [em que] o explorador é ao mesmo tempo um deus poderoso e um agressivo mercenário; a história de ursurpação colonial do índio brasileiro mescla-se, então, com a do trabalhador das ro- ças de cacau e com a do indígena na América espanhola.

Para Marcos Aurélio, a crítica ao colonizador feita por SC, não deve ser entendida nos moldes de ingênua xenofobia ou tentativa de retornar a uma pureza racial cabocla, conforme sugerira José Paulo Paes. O longo poema acena, simbolicamente, para o (re)estabelecimento daquilo que pode ser chamado de uma época áurea, o que não é, todavia, uma tentativa de retorno ao período pré- colonial. Isso porque a defesa do discurso sosigenesiano é pelo 20 hibridismo e não pela crença ingênua de reconstrução de um mundo puramente indígena. Sob essa ótica, ao invés de epígono do modernismo, SC deve ser considerado precursor de uma nova visão da história, bem diversa das magnanimidades oficialmente narradas, segundo a ideologia do colonizador.

A segunda parte de O Triunfo de Sosígenes Costa consta de depoimentos: do amigo de sempre, Jorge Amado, no ensejo da publicação da nova edição revista e ampliada da Obra poética e do livro de José Paulo Paes, Pavão parlenda paraíso, primeiro estudo de conjunto da obra do poeta baiano. O segundo depoimento é de Waldir Freitas Oliveira que lamenta o pouco conhecimento que se tem do poeta, de sua vida, seus estudos, sua correspondência e publica uma carta que SC havia dirigido a Clóvis Moura. A carta demonstra que Sosígenes não concordara com a crítica que Clóvis Moura lhe fizera, a respeito de sua “falta de experiência de luta ou de um passado revolucionário”. O poeta argumenta que “a intenção, nesse caso, redimiria a insuficiência”. Também discorda da afirmação de que só se pode fazer literatura revolucionária através de uma visão marxista dos fatos: “Não me considero possuidor desta qualidade eminente. E por isso lhe envio um exemplo de minha poesia e nela poderá V. constatar o que afirmo”.

Em seu depoimento, James Amado, referindo-se à poesia como destino, narra poeticamente a versão mítica de SC sobre as origens do cacau, transformado em riqueza para os recém-criados grapi- únas, gente nova e “livre de crimes antigos”. James fala da atividade do poeta como telegrafista e do seu gosto pela vida solitária, mas preenchida de flores raras e pássaros, que recebiam seus cuidados. Neste depoimento também temos notícia de seu desempenho de pianista que executava músicas no piano de meia-cauda, alternando peças clássicas e populares. James transcreve um poema de Sosígenes, em que ele revela sua simpatia por Freud e Marx e pela quebra das hierarquias.

Zélia Gattai declara sua admiração pelo poeta, amigo de Jorge e depois também dela. E assim o define: “Pessoa discreta, calado, sempre bem posto, Sosígenes preferia ouvir, prestar atenção e sorrir em vez de participar de grandes papos e gargalhadas”. Zélia transcreve o “Bilhete começado pelo boa-noite”, enviado por SC a uma dona de pensão. Um dia eu contei a Sosígenes que o líamos em voz alta, nos momentos de lazer.

— Vocês gostam mesmo? – Riu ele encabulado. — Uma beleza! — interveio Jorge. Veja só: “Queria mandar-lhe um peixinho espetado numa flor… Eu quis ainda saber se a dona da pensão era bonita, mas ele não respondeu. Apenas riu.”

Na terceira parte, os organizadores incluíram uma antologia, onde os leitores podem deleitar-se com os poemas mais representativos da obra sosigenesiana. Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca estão de parabéns pela iniciativa de home

Fonte: http://www.uesc.br/editora/livrosdigitais_20140513/otriunfodesosigenescosta.pdf

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