Meu cabelo não é esponja

Walmyr Junior *

O nosso país foi o último país a “abolir” a escravidão no ocidente. A veia aberta em nossa história não cicatrizou. Nosso povo continua morrendo e invisibilizado, nossa história continua criminalizada e nossa estética e identidade continua sendo ridicularizada.

Na manhã desta quarta-feira (19), os apresentadores do programa ‘Mais Você’ mostraram alguns detalhes da cozinha do reality BBB. Um detalhe da decoração vem causando mais repugnância ao programa.Trata-se de um ‘boneco-esponja’ negro com cabelo black power na pia do local.

O boneco negro tem uma esponja no lugar do cabelo, que reproduz as formas do estilo black power. Essa representação estética foi popularizada nos anos 70 como expressão de um movimento cultural, musical e também político, que empoderou milhares de negros e negras não só naquele tempo, e que mais do que nunca retorna hoje como um símbolo de resistência a cultura hegemônica. 

Usar um produto com a representatividade da estática negra para lavar louça é racismo. É reafirmar que o cabelo do negro e da negra tem a finalidade única de uma esponja, ou seja, não é belo e só serve para esfregar panela e lavar a pia da cozinha. 

Já denunciamos inúmeras vezes essa violência simbólica que a estética negra sofre. A reprodução de um padrão de estético de beleza é motivo de traumas em diversas gerações de crianças, adolescentes e adultos. Em diversas situações vemos pessoas desprezadas e excluídas da sociedade porque se encontram fora do padrão idealizado por uma mentalidade branca e eurocêntrica.

De esponja a enfeite: Enfrentamento ao racismo no  BBB 

O participante do reality show Ronan, de 27 anos, mudou o rumo dessa discussão no programa. Quando o participante (que é negro) enxergou racismo no utensílio doméstico disparou: “Por que tem que ser um negro? Isso aqui não vai ser usado pra lavar nada.” Batizando o boneco de Will, os participantes do programa acordaram que  o objeto seja usado como enfeite de mesa.

Por que é importante dar ênfase ao combate ao racismo estrutural e institucional?

O preconceito racial é um crime no Brasil, porém muitas formas de manifestações dele continuam sendo reproduzidas por quem declara não ser racista e por veículos de comunicação que comprova que este mal está tão permeado na sociedade que está a ponto de ser naturalizado. Basta observarmos onde a maioria do povo negro se encontra para percebermos isso. 

Não há dúvidas: é a população negra aquela que possui menos acesso aos direitos básicos e sofre cotidianamente com a violência, pobreza e precarização. O genocídio do povo negro é o principal problema social brasileiro. São os negros a ocupar os postos de trabalhos menos favoráveis. Nesse sentido, é necessário pensar em ações que visem se contrapor a essa lógica racista.

O ano mal começou, porém os desafios que travamos diariamente para combater o racismo já sinalizam que 2016 será um ano de muita batalha e muita luta. 

A beleza é uma construção social hegemonicamente racista, classista, machista e excludente. Uma pedagogia do belo e da estética deve ser uma pauta de luta fundamental para combater o racismo. Somos negras e negros em sua multiplicidade de formas, corpos, rostos e cabelos. Chegaremos a um tempo em que não nos verão como os 50 mais belos, mas sim como os mais de 100 milhões de negros e negras belos do Brasil.

* Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Fonte: http://www.jb.com.br/juventude-de-fe/noticias/2016/01/21/meu-cabelo-nao-e-esponja/

Anúncios