O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo
  

 

O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, romance de estreia do escritor cabo-verdiano Germano de Almeida, é um livro cativante de ler. É-nos contada a história da personagem central, que dá nome ao título, a partir da própria história que o protagonista escreveu em “387 laudas de papel almaço”, guardadas num envelope lacrado, dez anos antes da sua morte. A autobiografia é deste modo encenada em testamento, e o narrador traz à cena o defuntoque revela inesperados factos sobre a sua já fantasmagorizada existência. Forma permeável à invenção da própria personagem, que não existe, existindo dela apenas aquele volumoso conjunto de memórias (“o falecido, pensando que fazia um testamento, escrevera antes um livro de memórias”, p. 9), e formaadequada ao narrador para inventar a personagem do seu herói, começando pelo fim, por essa óbvia evidência de criar, retrospectivamente, o princípiogerador do falecido, a existência fictiva da sua inexistência factual. A ironia começa também aqui.

À maneira de romance policial, somos levados a descobrir as intimidades pícaras da personagem não só pelo relato que faz delas, mas fundamentalmentepela descoberta dos herdeiros até então desconhecidos a quem são legados a maioria dos bens e o volume de surpresas que o testamento guarda como acartola de um ilusionista. Reunindo os ingredientes cénicos do início de um filme, o livro abre com a leitura do testamento, que dura uma tarde inteira: “iniciara a leitura às 14,45, mas pelas 16,10 confessava-se cansado e já estava sem voz. O sr. Fonseca leu até às 17,20, após o que o sr. Lima, sorrindo comhumildade pediu que lhe deixassem também ler um bocadinho. Coube-lhe por isso ler a parte manuscrita, mas numa letra tão miudinha que ele se engasgoupor diversas vezes com as palavras e teve de voltar atrás e assim só cerca das 18,30 foi possível aos intervenientes aporem as respectivas rubricas” (p. 10).

O humor e a paródia, sempre presentes neste romance, irrompem subtilmente desde as primeiras páginas, pelos efeitos bem conseguidos do exagero(“quando vira a enormidade do documento lacrado, sugerira não valer a pena perder tempo a ler todo aquele calhamaço”, p. 9), das enumerações metódicas e caricaturais que funcionam contrastivamente, e por antítese, com a seriedade normal a ocasiões do género. Poucas páginas depois. o livro conta umsegundo episódio burlesco, o primeiro pedido do morto, o de desejar ser enterrado ao som da marcha fúnebre de Beethoven: “das esquisitices do tio tudo erade esperar, ainda bem que era só isso, ele podia ter-se lembrado de pedir cremação ou afundamento do esquife junto ao ilhéu… Ora a contrariedade surgiu foi quando o chefe perguntou o que era isso de marcha fúnebre e Carlos, já elucidado, respondeu ligeiro que era qualquer coisa de um tal Beethoven.” (p. 16).Não podendo o agrupamento musical corresponder ao desejo, o chefe da Banda reclamou: “Se toda a gente vai com djosa e nunca houve reclamações,porquê o sr. Napumoceno vem agora chatear a gente com essa outra coisa? […] o djosa assim renegado e aviltado, murmurou que qualquer dia apareceria umdefunto a pedir se calhar Roberto Carlos ou algum reggeae ou qualquer outra coisa assim.” (p. 17).

Finalmente, descobriu-se a solução, e o enterro acaba por se realizar, parodicamente capitulando o falecido à terra após toda a trama da música de fundo, cerzida ao mínimo pormenor: “Por razões de comodidade de transporte trocou o gira-discos por um gravador e gravou 1200 metros de marcha fúnebre numaenorme bobine, repetindo-a 14 vezes. Mas nem foi preciso tanto porque a metade da sétima repetição ainda ia a meio quando ele mandou parar e abriu odiscurso.” (p. 18).

Mas, se a ressuscitada vida do já morto dr. Napumoceno da Silva Araújo nos vai surpreendendo, bem como aos recém-aparecidos familiares, sem dúvidaque um dos acontecimentos mais significativos da sua desaparecida existência consistiu na forma como enriqueceu e prosperou nos negócios. Talvez esteseja um dos elementos temáticos fulcrais em que a ironia, que a escrita romanesca deste escritor constantemente encena, melhor se adequa às tradições daliteratura cabo-verdiana: “Porque aconteceu que devido ao facto de o seu armazém ficar situado na zona de Salinas tinha necessidade de se deslocar muitasvezes debaixo do abrasador sol de Agosto, ainda por cima a pé porque nem tinha ainda carro nem aliás sabia conduzir. Decidiu por isso adquirir um guarda-sol.” (p. 59). Não encontrando em todo o Mindelo uma única loja que lho vendesse, o sr. Napumoceno resolveu fazer uma encomenda de 1000 guarda-sóis. Acontece que a nota de encomenda aparece com um zero a mais, e são desta feita 10000 “guarda-chuvas numa terra em que são utilizados como guarda-sol.” (p. 60). Após peripécias várias, chega o navio com a anunciada encomenda: “Porque o navio fundeou de manhã e perto do meio-dia começou a chover.Primeiro foi uma chuva miudinha embora persistente, uma morrinha de chuva como se lhe chamou e que levou o locutor da Rádio Clube Mindelo a noticiarque em S. Vicente chuviscava torrencialmente […]. E por uns oito dias a chuva caiu daquela forma bonita e útil, encharcando o chão, as casas e as ruas. Equando o último lote de 500 abandonou o armazém, o sr. Napumoceno mandou abrir espumante no Royal para todos os presentes, disse que estava acomemorar a retirada dos dez mil.” (pp.63-64).

Sem dúvida que a escrita de Germano de Almeida neste romance traz alguma coisa de novo à ficção cabo-verdiana. Diria, por exemplo, que umanecessária e bem-vinda distância e crítica que lhe permitem a ironia em jogo constante de antíteses hiperbolizadas —, a paródia e a desdramatização detemas antigos como a estiagem, o “flagelo” longamente contado das lestadas[1], os temas insulares que desde os claridosos repunham abordagensnecessariamente dramáticas.

Reinterpretação e reescrita, agora sob um outro ponto de vista, em que o humor e a caricatura lembram herança queirosiana, retratando-se o meiomindelense e a vida insular com bem doseada carga de imaginação crítica. Este livro vem talvez confirmar, juntamente com outros textos que nos recentesanos têm sido publicados, que estamos a viver um novo momento de reformulação temática e formal nas literaturas africanas de língua portuguesa.

Ana Mafalda Leite, “Recensão crítica a O Testamento do Sr. Napumoceno de Araújo, de Germano de Almeida”,
in: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 131, Jan. 1994, pp. 254-255, http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/do?issue&n=131

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