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Brasil: Uma Sharpeville por Dia

Há exatos 56 anos, na localidade de Sharpeville, África do Sul, em uma manifestação, foram brutalmente assassinadas 69 pessoas negras. Houve uma comoção mundial. No início dos anos 60, estava em pleno vigor o apartheid naquele país. Por isso a ONU reservou à data uma marca contra a discriminação racial, a qual os ativistas de minha geração nunca mais esqueceram. Já li, hoje dia 21, aqui no Facebook, minha querida Diva Moreira, lembrando que as ameaças que o Brasil sofre nesse momento não podem nos levar ao esquecimento.

Dados de 2012 revelam que todos os dias nesse indecente país morrem 63 jovens negros. Ou seja: podemos dizer que em 2016 temos, praticamente, uma Sharpeville por dia a massacrar e a envergonhar o Brasil, sem que a comunidade nacional se atine.


Maurício Pestana, também hoje, na Folha de S.Paulo, lembrava o silêncio ensurdecedor sobre essa barbárie. Bem ao lado do artigo do secretário municipal da igualdade racial de São Paulo, o presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil, afirmava em defesa do juiz Moro, que existem cerca de 2000 juízes federais no Brasil. Me pareceu muito magistrado para tão escassa justiça.


Ainda também hoje, aqui no Facebook, Douglas Belchior, revelava como a população negra brasileira sofreu golpes reiterados ao longo da história. Sofre hoje, nesse instante, em relação às ações afirmativas (cotas nos concursos públicos e nas universidades) sem que o Ministério Público ou pelo menos um desses 2000 juízes pagos com os nossos impostos se movam em defesa de direitos tardiamente conquistados.


A luta pela igualdade racial no Brasil tem sido uma batalha muito solitária. Raros aliados. Hoje, equivocadamente, há quem queira retirar o protagonismo negro das vitórias conquistadas.


Neste momento, o governo Dilma, Lula e o PT sofrem da mídia o que a minha geração sofreu por cerca de 15 anos contra as cotas. De 1996 a abril de 2012, quando o STF, por unanimidade, considerou as cotas raciais constitucionais. Tivemos durante todo esse tempo, notícias, versões e factoides contra nossas reivindicações. Enfrentamos um “Muro Midiático” na expressão de Sueli Carneiro. Artigos de encomenda pagos pelas burras do ensino privado, livros e editoriais sem fim. Havia negros vendidos e também o “silêncio dos bons”, do qual Luther King tanto reclamou.


Diva Moreira, Douglas Belchior e Maurício Pestana – meus queridos – essa crise poderá desencadear maiores perdas para a população negra, mas poderia parir também a ira de quem ainda não foi às ruas. A radicalização da Democracia é o que cabe à presente geração que luta pela Equidade Racial no Brasil. O dia 21 de Março é algo já meio distante para a África do Sul pós-apartheid, mas para o Brasil profundo continua sendo crucial. Equidade Racial é a missão que exorciza a estrutural desigualdade desses trópicos e sabemos todos quão distante ainda estamos dela.

*http://brasildecarneeosso.com/author/brasilco/

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