vida loka 02

Poesia para quê?

Enquanto a poesia não pode voltar a construir materialmente uma sociedade socialista e libertária, deve ajudar a construir uma cultura socialista ali onde ela é mais fértil.

Por Poeta em Buenos Aires

“Uma das utopias mais nefastas para a poesia é,

diremos novamente, a que supõe o contágio poético

universal, imediato, mágico, infalível, pela simples

enunciação do poema”

(Georges Mounin, Poesía y sociedad, p. 110)

Maiakovski produziu, como a maioria dos artistas de esquerda, muitos materiais de propaganda para a Guerra Civil e de campanhas públicas de agências estatais do nascente poder proletário. Os poetas revolucionários e marxistas hoje em dia não contam com o mesmo cenário para atuar desta forma produtivista. No entanto, não é segredo para ninguém que a publicidade capitalista tomou para si a experimentação das formas artísticas aplicadas já não mais à criação de novas relações sociais, mas sim à criação de novas modalidades de relação entre consumidores e mercadorias (o mesmo ocorreu com o design e outras tantas elaborações do espírito revolucionário). A relação entre poesia e a publicidade capitalista de fato é abraçada por não poucos poetas contemporâneos de destaque, o que mostra, entre outras coisas, que a poesia nunca foi uma arte de essência erudita e de público restrito, que ela tem em sua essência uma dinâmica comunicativa de massas.

A questão então para o poeta produtivista é técnica e também política. Tarabukin e os demais artistas da esquerda, muitos dos quais já pertenciam a organizações revolucionárias antes de 1917, não tinham muitas dúvidas com relação a apoiar o processo revolucionário. De nosso lado, frente ao cenário extremamente incerto e árido para a esquerda revolucionária e classista, faz-se necessário buscar bases sobre as quais edificar as reflexões sobre “onde estamos” e apontar em alguma direção. A análise de conjuntura como ponto de partida que sigo aqui é aquela sintetizada pelo economista argentino Rolando Astarita, descrita por ele como a “quebra do ideário socialista” [1], contexto no qual as massas de trabalhadores ignoram as teses socialistas e preferem em sua imensa maioria dar seus votos à partidos e programas abertamente burgueses, mesmo frente a programas radicais de partidos proletários que propõe mudanças diretamente benéficas à maioria. As defesas que as linhas tradicionais fazem de suas referências históricas não tem qualquer efeito nas massas, pois para elas socialismo está ou vinculado à autoritarismo ou à miséria, quando não ambos ao mesmo tempo. Neste sentido, não basta levantar bandeiras com a verve do voluntarismo, é necessário elaborar novas formas do pensamento socialista, o que demanda uma análise séria e fria dos fracassos do passado. Se bem sabemos que a classe não é iluminada por teses intelectuais vindas de cima, as soluções concretas das lutas econômicas da classe tampouco fazem aparecer espontaneamente uma crítica do sistema e um programa socialista capaz de unir a maioria dos setores sociais da classe em um esforço coordenado. Por isso mesmo a atuação e a crítica ao capitalismo devem ser feitas em diversos frontes, e o artista produtivista, como intelectual orgânico, só pode produzir arte socialmente justificada habitando vários destes frontes.

No Brasil pós-2013 existe uma enorme e nova margem de politização social que tenta a todo custo ser polarizada entre as forças governistas do projeto democrático-popular e a direita conservadora. Como ambos polos são muito bons em criar aversão, o meio campo se configura em uma disputa feroz de ideologias, onde o liberalismo, por meio da burguesia mas também de setores populares, tenta conquistar os novos atores políticos e evitar assim que estes tomem para si as críticas antissistêmicas e engrossem o caldo de uma nova cultura socialista rebelde. No campo das artes dos setores proletários, de um lado está o fundamentalismo religioso brasileiro, de caráter imperialista, mas desarmado, disputa ferrenhamente as mentes e os corações das juventudes. O liberalismo também tem muita força para cooptar o protagonismo popular, órfão de um tipo de laço social político e ideológico: o sucesso comercial e financeiro conseguem rapidamente dar o sentido último para muitas produções artísticas, inclusive para aqueles artistas que mantém os laços com suas comunidades de origem: êxito pessoal está completamente desvinculado de êxito coletivo, se trata apenas de um local de origem (utilizável inclusive como marca). Em último caso o veem como um assalariado mais, cume da aceitação liberal de que a arte nada mais é do que mercadoria. Desta forma o seu público também se identifica com este artista, dando-lhe razão em optar pelo êxito comercial como guia espiritual, pois isso é “de seu direito”. É a reprodução do senso comum hegemônico das relações capitalistas.

vida loka 03Essa identificação do público com o artista, no caso da música cantada e da poesia em geral, não ocorre ao acaso. A poesia é essencialmente laço social. Desde seus primórdios como cosmogonia, listas tribais, episódios míticos, origens hereditários, a poesia unifica uma comunidade e a explica em conteúdo. Tal “enlace” se dá também pelos diferentes recursos formais como a dança em círculos, o ritmo de instrumentos, as procissões, os rituais, etc. Com a tecnologia escrita a poesia se impõe como instrumento de poder por meio da escritura monumental, associada ao poder central ou às facções das elites, e eventualmente dá corpo a uma tradição erudita, guardiã dos textos antigos. Ambas formas também constituem laços sociais, a primeira (escritura monumental) como dominação simbólica e disputa de prestigio, a segunda (tradição erudita) por meio do discurso histórico e do ensino formal das letras. Mas por mais que nossa herança moderna nos faça equacionar poesia com poesia escrita, não foi apenas em seu período arcaico que a poesia foi poesia oral. A expressão oral da poesia seguiu existindo e foi sempre o contato das massas com as formas poéticas, desde a época dos aedos homéricos, dos dramas atenienses e da himnódia cristã, quando os idiomas clássicos tinham uma natureza métrica de quantidades vocais que ainda desafia os filólogos – passando pela organização das missas e dos cânticos da Igreja, então metrificados formalmente pelas sílabas de forma que a cada nota musical correspondesse uma sílaba, facilitando assim o aprendizado para os fieis iletrados [2], até chegar ao nosso “atirei o pau no gato”. Se hoje em dia temos mais proximidade e maior intimidade com os recursos formais abertos pela técnica da escritura, sendo o concretismo uma das expressões nacionais mais famosas desta vertente, a forma de transmissão oral também deve ser entendida como incidindo nos recursos poéticos – como eram antes mesmo de serem usados conscientemente, por exemplo nas composições em performance e improvisação realizados pelos repentistas de muitas épocas e culturas. A métrica é o recurso mnemotécnico mais básico, seguida dos lugares comuns, da composição de listas (memorização do alfabeto até os dias de hoje), da composição em anel, posteriormente a rima, a aliteração, etc. Quanto menos canônico e tradicional o conteúdo, mais aberta está a poesia para experimentar variações e modificações sonoras, rítmicas e métricas.

Assim sendo, uma crítica abrangente da poesia como função social deve levar em consideração que a poesia escrita e a poesia oral sempre seguiram vias paralelas, com diversos pontos de contato e afastamento em diferentes períodos. Alguns momentos exemplares são a passagem por escrito dos poemas homéricos e eventual canonização erudita de suas formas escritas, a passagem à oralidade de textos eclesiásticos, num belo exemplo de como as classes dominantes podem chegar a lograr uma massificação de textos poéticos desejados por meio do manejo e conhecimento das formas populares de poesia. Isso nos leva a um debate que Georges Mounin trava a partir da seguinte citação de Marx:

A produção capitalista é hostil a certas ramas da produção intelectual, como a arte e a poesia. (em “Teorias da mais-valia, tomo I”)

Seguindo a correta crítica de Mounin, temos que dizer que Marx se equivoca em seu comentário, a poesia sempre cumpre uma função social e isso não deixa de ser verdade no capitalismo. De fato, a própria lógica do mecenato não se torna obsoleta no atual regime econômico, apenas adota outras formas. Pois havendo o interesse em propagar certas modalidades de laço social, sempre haverá os empregos públicos e os cargos comissionados em ministérios, cargos diplomáticos; tournées de conferências financiadas por órgãos estatais ou corporativos; as compras de materiais por secretarias amigas, os editais e as isenções fiscais, as bolsas de viagens, estudos e prêmios de todos os tipos [3] (o que se encaixa muito bem também ao mecenato de intelectuais do marxismo nacionalista que defendem governos burgueses de esquerda [4]).

vida loka 04Quando Mounin escreveu Poesía y Sociedad (1962) podia ver apenas o princípio do que viria a ser a indústria cultural e suas modalidades de massificação e produção de arte de consumo. Mas o que já podia entender é que as formas de circulação das novas produções artísticas, especialmente em poesia, seriam o eixo sobre o qual as mudanças ocorreriam, por isso sua atenção bastante avançada sobre a questão da escritura e da oralidade – tema que poucos anos depois ganharia um destaque acadêmico duradouro por meio das obras de Marshall McLuhan, Eric Havelock e Jack Goody. Oras, se bem o capitalismo avança sobre a cultura para transformá-la em mercadoria, o mecenato sempre buscará a melhor forma de massificar o conteúdo produzido com seus auspícios. É por essa lógica que a poesia escrita perdeu quase todo seu prestígio de formação de laço social das elites na educação liberal e formal das letras, mesmo com seus intentos de correr atrás das mudanças em formato de poesia recitada gravada em discos e para a rádio, e abriu-se o mundo para a canção. Não qualquer canção, certamente não para Bella Ciao nem para a Internacional, mas para os temas de amor romântico e de exaltação de valores abstratos e bem disciplinados na lógica individualista, sempre partindo de um mercado cultural regional. Como já dizia Mano Brown: “Inacreditável, mas seu filho me imita / No meio de vocês / Ele é o mais esperto / Ginga e fala gíria / Gíria não dialeto / Esse não é mais seu / Hó / Subiu / Entrei pelo seu rádio / Tomei / Se nem viu / Mais é isso ou aquilo / O que / Cê não dizia / Seu filho quer ser preto / Rhá / Que ironia”. Nos perguntamos: o filho do playboy branco, se identifica com 2Pac e Mano Brown por uma solidariedade frente à opressão racial e de classe – ou se identifica com indivíduos que conquistaram com as próprias mãos um espaço nos meios de comunicação de massas, que representam o indivíduo forte capaz de se defender do “mundo cão” das ruas e da criminalidade a partir do conhecimento profundo dos códigos sociais lá de onde o filho do playboy está mais vulnerável? É provável que este rapaz deixe de querer ser preto a partir do momento em que os códigos do mercado de trabalho ou da empresa do pai passem a fornecer outros exemplos a serem seguidos.

Entendida como laço social e não como lírica subjetiva, como válvula de escape pessoal das agruras do militante ou como expressão autêntica de identidades oprimidas, a poesia toma para si a herança da arte produtivista e busca intervir diretamente no tecido tensionado da luta de classes, em palavras de Tarabukin: organizar não somente nossas possibilidades de orientação atuais, senão também nossa atividade real. Não tratamos aqui da maestria produtivista no caso da poesia, pois entendemos que esta se aplica principalmente como laço social, a maestria artística poética é de natureza distinta das artes plásticas: enquanto estas buscam efeitos sobre a matéria, estudáveis e calculáveis, a poesia busca efeitos sobre as pessoas, e se por um lado é indispensável ao poeta produtivista uma formação ampla que lhe permita um maior controle de repertório sobre o uso da linguagem, a maior fonte de formação para ele são os laços sociais em si, as formas e conteúdos das práticas sociais coletivas. Uma atenção especial deve ser dada justamente às diferentes modalidades entre as poéticas orais, sejam cânticos religiosos, torcidas de futebol, palavras de ordem e músicas de protesto, provérbios populares, etc – e as poéticas escritas, como livros escolares, livros de literatura popular, pichações, mensagens nas partes traseiras de assentos de ônibus, portas de banheiros, panfletos e cartazes agitativos, faixas de manifestações, a internet, etc. O poeta produtivista deve estar atento a todas estas modalidades, aproveitando-se do repertório de cada contexto, de cada cultura e dinâmica de base, a fim de dotá-lo de um conteúdo crítico, rebelde e contestatário ali mesmo onde a classe trabalhadora forma uma ideia de si, no cotidiano e nas lutas pelas quais se autodefine. O caráter anônimo do texto escrito pode ser aproveitado para um tom mais provocativo, a criação oral deve aproveitar mais o caráter instigador e vinculativo que a oralidade e o ato coletivo do cantar/recitar provoca. Estes são apenas breves exemplos de como uma poesia socialmente justificada pode dar asas a uma atuação militante e deixar de viver um paradigma baseado na lírica libresca da sociedade burguesa. Enquanto a poesia não pode voltar a construir materialmente uma sociedade socialista e libertária, deve ajudar a construir uma cultura socialista ali onde ela é mais fértil.

Clipe "Vida Loka II", Racionais MCs, disco "1000 Trutas, 1000 Tretas" (2006¨)

Todas as imagens foram retiradas do clipe Vida Loka II (2006) dos Racionais MCs

Referências:

Mounin, Georges (1964) Poesía y Sociedad. Buenos Aires, Editorial Nova

Notas:

[1] https://rolandoastarita.wordpress.com/2015/04/26/programas-de-izquierda-socialismos-reales-e-ideario-socialista/
[2] ver Geoges Mounin, pp. 85-97.
[3] idem, pp. 75-6
[4] https://rolandoastarita.wordpress.com/2015/06/30/marxismo-acomodaticio-o-critico-y-subversivo/

Extraído de http://www.passapalavra.info/2016/03/107727

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