“Spotlight – Segredos Revelados”,cruéis Intenções

 Por Cloves Geraldo *

 

As ações da Igreja Católica para bloquear notícias sobre pedofilia e a cumplicidade da mídia são os temas do filme do cineasta Tom McCarthy.

Nem tudo na Igreja Católica é segredo de confessionário. O que se passa nas sacristias e nos colégios católicos está sujeito ao escrutínio público. Caso contrário as consequências serão a desestruturação psicológica das vítimas, como exposto neste ““Spotlight – Segredos Revelados”, pelo cineasta estadunidense Thomas McCarthy. Este ao invés de centrar sua narrativa nos padres pedófilos, como John Patrick Shanley, em “Dúvida” (2008), prefere denunciar a Instituição por ocultar os casos.

Assim o temor de ver ruir o Poder construído em milênios e seus preceitos e imagem distorcidos perante cerca de um bilhão de fiéis levam a Igreja a buscar seu objetivo a todo custo. McCarthy centra sua câmera em ambientes fechados e corredores pouco iluminados, com raros grandes planos, para criar o clima do proibido e pecaminoso em torno da pedofilia.

Daí surge a ocultação de dezenas de casos ocorridos na Arquidiocese de Boston, Massachusetts, sob as ordens do Cardeal Bernard Law (Len Cariou). Valendo-se das técnicas de Alan J. Pakula em “Todos os Homens do Presidente” (1976), nas quais o repórter Mike Rezendes (Mark Ruffalo) se orienta pela fonte, McCarthy monta uma trama que ressalta o trabalho da editoria de Spotlight (grandes reportagens) do jornal Boston Globe.

Mídia é parte da estrutura burguesa

Ao longo da narrativa, McCarthy revela a teia de acobertamento, integrada pela juíza Sweeney, ao bloquear o acesso aos processos contra a Igreja, o advogado Eric McLeish (Billy Crudup) que, ligado a Law, faz os acordos desfavoráveis às vítimas, e o empresário Pete Conley (Paul Guilfoyle), do Conselho da Caridade Católica, que usa sua “amizade” com “Robby” Robinson (Michael Keaton), chefe da Spotlight, para evitar a publicação de notícias no Boston Globe.

Esta teia de acobertamento faz aflorar o papel da mídia como integrante da superestrutura burguesa. Não é mero sustentáculo, mas participe de decisões para se manter no centro do Poder. Quando seus interesses não são atendidos se une às forças burguesas e trama golpes de Estado, seja militar ou político-judiciário, caso do golpe para depor a presidente Dilma Roussef. Não à toa, a Rede Globo apoiou o Golpe Militar de 64 e o em curso se unindo a reacionários e entreguistas.

Gráficos de anúncios e de leitores são, porém, o centro da atenção da mídia. Marty Baron (Liev Schreiber), recém-contratado diretor de redação do Boston Globe, em 2001, vê na queda de leitores seu maior problema. Denunciar a teia montada pelo cardeal Bernard Law para acobertar os milhares de casos de pedofilia, faria o número de leitores subir. Enquanto o secretário de redação, Ben Bradlee Jr. (John Slattery), o editor Robby e o repórter Mike Rezendes insistem em se concentrar nos padres pedófilos.

Pedófilos vão para centros de tratamento

Mas Baron, judeu, direciona as reportagens para a Instituição Igreja. Isso atrai a ira dos poderosos. Mas Law lhe propõe numa reunião oportunista parceria e lhe presenteia com o grosso exemplar do Catecismo da Igreja. Ao que Baron lhe diz: ”Acho que para um jornal funcionar bem, você tem de trabalhar sozinho”. Diferente de Conley que, ao tentar de novo cooptar Robby, afirma não ver nele interesse pela cidade, só na pedofilia.

Contudo, a narrativa montada por McCarthy e seu corroteirista Josh Singer se estende aos padres Paul Geoghan e John Porter e em uma centena de suas vítimas. Isto lhes permite desnudar o estratagema de Law para ocultar outros padres pedófilos. Dele constavam falsas licenças-médicas, transferência para outras paróquias, internamento em centros de tratamento psiquiátricos para “curá-los das práticas pedófilas”.

Não menos chocante é o depoimento de Patrick McSorley (James Leblanc) ao detalhar o abuso sofrimento aos 12 anos e as consequências para ele e sua família. E se contradiz diante de Mike Rezendes e do advogado Mitch Garabedian (Stanley Tucci) ao afirmar estar bem e, sem querer, mostra o braço cheio de marcas de agulhas de drogas. “Só quero que ele seja preso”, pede chorando.

Boston Globe foi conivente

O abuso decorre, explica Paul Saviano, coordenador da SNAP (Rede de Sobreviventes dos Abusos por Padres), devido ao respeito que a criança tem pelo vigário. “Quando um padre faz isso com você, rouba-lhe a sua fé. Então você vai para a garrafa ou a agulha. E se você não trabalha, (…) pode pular de uma ponte”. Dos 1.500 padres de Boston na ocasião, segundo Sipe, 90 abusavam de crianças e adolescentes de ambos os sexos.

Ao final da denúncia do Boston Globe, 149 padres foram processados, mais de mil vítimas identificadas e Law foi confinado em Roma. Entretanto muitos casos não vieram a público porque o mesmo jornal configurado em Robby, por frequentar o círculo de poder de Boston, engavetou inúmeras denúncias, em fragrante conivência. Vê-se, assim, o árduo trabalho do Papa Francisco.

“Spotlight – Segredos Revelados” (Spotlight). Drama. EUA. 2015. 128 minutos. Edição: Tom Mc Andle. Música: Howard Shore. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Roteiro: Tom McCarthy/Josh Singer. Elenco: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci.

(*) Oscar 2016: Melhor Filme e Melhor Roteiro.

*http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=7741&id_coluna=13

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