O mundo não é só dos espertos

(Sobre Pessach e os nossos lugares de fala)

Por KEILA GRINBERG

De todas as festas judaicas, Pessach, comemorada na sexta passada, desde criança foi minha favorita. Na escola, a hagadá, o livro que lemos em Pessach, os hebreus apareciam curvados, carregando imensos tijolos usados para construir as pirâmides. Páginas adiante, seguiam em fila deserto afora atrás de Moises, até chegarem na Terra Prometida, terra do leite e do mel, onde todos podiam, dayeinu! (basta!, em hebraico) comer pão à vontade. Muito tempo depois, já na faculdade, aprendi que, entre a construção das pirâmides e a escravização dos hebreus, havia um hiato de uns mil e quinhentos anos. Ao interpelar minha antiga professora, ela respondeu que a verdade pouco importava se as crianças guardassem a mensagem.

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Hagadá de Pessach, Escola Israelita Brasileira Eliezer Steinbarg, fim da década de 1970.

Na casa dos meus avós maternos, não faltavam mensagens de Pessach para guardar. O seder, nome do jantar que dá início à semana de privações para lembrarmos dos nossos antepassados escravizados no Egito, era animado. Nós, as crianças, sentávamos ao fundo de uma mesa enorme enquanto cochichávamos esperando a hora de cantar as músicas de praxe. Sentado na cabeceira do outro extremo da mesa, meu avô comandava a noite, alternando a reza com séries de tapas na mesa, que, sem sucesso, pediam silêncio. Nessas horas minha avó, ao seu lado, fazia um ar sério e compungido e dava uma piscadela pra gente, antes de voltar à conversa com a tia Lucy. A balbúrdia só era interrompida pelo sininho que avisava às empregadas a hora de servir o jantar. Depois da ceia, faltando ainda uma hora de reza e cantoria, todos disputávamos um lugar em um dos sofás do salão arranjado especialmente para a ocasião. Um deles hoje mora na minha casa. É o menos confortável de todos, mas não escondo um sorriso sempre que me esparramo ali. Ah, se meu irmão e meus primos me vissem, o sofá todo só pra mim!

Eu levei o sofá, mas o afikoman, em compensação, nunca consegui. O afikomané um pedaço da matzá (pão sem fermento, feito de farinha e água, comido pelos judeus durante o Pessach) escondido pelos donos da casa antes do jantar. Reza a tradição que, depois do jantar, o seder só continua depois que alguém — uma das criança da casa — acha o embrulho e o dá ao responsável pela reza em troca de um presente ou algumas moedas. Quando acabávamos de comer, saíamos, as crianças, loucas pela casa atrás do guardanapo branco. Dos nove netos, quem geralmente achava o afikoman era uma das minhas primas. Nós duas chegávamos algumas horas mais cedo, supostamente para ajudarmos a fazer alguma coisa que agora nem me lembro. Uma vez descobri que, quando a busca ao afikoman começou, ela já o tinha encontrado há muito tempo. Reclamei com a minha avó. E ouvi de volta o comentário meio resignado, meio me alertando, minha querida, o mundo é dos espertos. Acho que a Gi sempre foi mesmo a mais esperta, tanto que hoje até mora na Australia. Eu adorava minha avó e achava que devia haver alguma ligação entre a esperteza dos judeus e a fuga da escravidão. A conquista da liberdade depois de quarenta anos vagando pelo Sinai só podia mesmo ser coisa para espertos.

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Idem. A obra de arte na página 18 é de minha autoria.

Não foram poucos os escritores que associaram Pessach à reflexão sobre os nossos dilemas contemporâneos, individuais e coletivos.  Durante a ditadura, Carlos Heitor Cony fez sucesso com o livro Pessach, a travessia; e a Hagadá para nossos dias de Moacyr Scliar circula até hoje e é lida e adaptada aos montes por aí. Nos dias de hoje, a simbologia de Pessach virou uma metáfora imbatível, para livro de auto-ajuda nenhum botar defeito. Minha timeline no facebook está cheia de mensagens libertadoras. Eu curto todas. Que tenhamos coragem de cruzar nossos desertos internos e nos libertar dos fantasmas que nos escravizam. Que possamos livrar o mundo do jugo dos poderosos. Que os nossos antepassados nos inspirem a lutar contra a fome, a miséria, o antissemitismo, o capitalismo, o comunismo, a ditadura, a mídia e a corrupção. (Nessa noite que é diferente de todas as outras noites, alguns certamente brindarão à vitória do último domingo contra um Estado que julgam excessivamente espaçoso, ocupado por gente pouco merecedora do cargo. Eu, aqui no meu cantinho, desejo que mantenhamos nossos espíritos abertos na luta contra a escravidão do pensamento único. E ao meu jeito rezo para que consigamos persistir na defesa da democracia, o outro nome da liberdade.)

Metáforas a parte, o que gosto de comemorar em Pessach é mais o fato do que a interpretação. Crescendo na zona sul do Rio de Janeiro nas décadas de 1970 e 1980, para mim os descendentes dos hebreus que construíram as pirâmides do Egito não éramos nós, crianças judias de classe média, quase todas brancas, que estudávamos em uma escola judaica particular, mas aquelas quase todas negras, quase nenhuma de classe média, que estudavam na escola pública ao lado. E que, se mulheres fossem, grandes eram as chances de acabar servindo as mesas das casas de classe média como a da minha avó. Acho que comecei a me interessar pelo estudo da escravidão no Brasil  por estar ainda impressionada com os contos de Pessach que ouvi na infância, não importa que falsos, e porque a liberdade que eu via no fim do século XX me parecia mais um mistério.

E também porque, criança, eu sentia que havia qualquer coisa de errado naquele muro que separava (e ainda separa) as duas escolas e os universos de seus alunos. Que nem aquela história de o mundo ser dos espertos. No fundo, no fundo, era uma baita de uma injustiça.

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