Estou organizando, com o excelentíssimo e preguiçosíssimo Jaime Prado Gouvêa, a primeira antologia de poemas de Adão Ventura, falecido em junho de 2004.

Há indicações de que uma antologia de contos do próprio Jaime sairá pela Record, o que não será sem tempo, já que fechará uma das brechas de desconhecimento que cercam a assim proclamada Geração Suplemento, da qual fazem (ou fizeram) parte quase todos os escritores mineiros importantes das décadas de 60 e 70, incluindo os acima referidos.

Será bem-vinda e mostrará o terceiro vértice da maestria que tornaram famosos os menos preguiçosos Sérgio Sant”Anna e Luiz Vilela, companheiros da mesma estrada, dos quais Jaime só fica atrás pela quantidade.

Vivo no Brasil e conheço como funciona o mercado editorial caboclo, que mais sugere feira de camelôs que atividade produtiva intelectualmente séria (vejam a Bienal do Livro, o maior camelódromo do país).

Daí as antologias e coletâneas, daí as reedições quase que só para bibliófilos, mas que de repente podem jogar um pouco de luz sobre o que se esconde debaixo do lixo apregoado e vendido como literatura nos camelódromos livrescos (tipo Bienal do Livro, perdoem a repetição).

Ou alguém acredita que a dita bienal, que é a única bienal anual do mundo (ano par é paulista, ano ímpar, carioca), tenha outro propósito que o de reforçar as burras dos editores, distribuidores e livreiros, pouco se importando em separar o biscoito de araruta da broa de bicarbonato”

Depois ficam me soprando que a leitura no Brasil aumentou em quantidade, quando não falam em qualidade. Uma ova!

ABRIR-SE UM ABUTRE OU MESMO DEPOIS
Conheci Adão em 1966, há 40 anos exatos. Ele fazia o primeiro ano de direito na UFMG e eu estava no terceiro. De minhas amizades nascidas nessa época e que continuaram pela vida inteira (adubadas certamente pela literatura), Adão foi uma das mais sólidas e constantes, mesmo que por constância eu que não queira dizer muita coisa.

Neto de escravos, filho de negros, nascido numa cafua perdida em Santo Antônio do Itambé, perto do Serro, de família pobre como Jó, Adão conseguiu uma proeza que considero quase miraculosa.

Veio para Belo Horizonte, aprendeu, conviveu e se formou, até seguir para Brasília, chegando a presidente da Fundação Palmares, entidade do governo federal que cuida dos interesses culturais dos negros. Saindo de lá, foi juiz classista em Passos, onde se aposentou.

Logo depois, mudou-se mais uma vez para Belo Horizonte, quando foi apanhado por um câncer no intestino, que o matou dois anos depois. Ainda na faculdade criei para Adão a capa de seu primeiro livro: “Abrir-se um Abutre ou Mesmo Depois de Deduzir Dele o Azul”, publicado em 1970.

Título enorme e magnífico. Poesia estranha (há quem fale em surrealismo), em que Adão esconde a cor e exalta o ritmo, foge do conteúdo e fala por alusões ” o que é o mesmo que não falar nada.

Mas que nadas excelentes! Aliás, cabem duas considerações aqui, uma velha como a serra, a de que poesia não serve pra nada, e por isso mesmo é importante neste nosso mundo utilitário.

A segunda, e essa foi descoberta minha, é de que na época Adão se dedicava exclusivamente a extrair melodia das palavras, pouco importando seu significado. E é essa a essência do “Abutre”, uma bela demonstração de que poesia não precisa ter sentido.

Cinco anos depois, em 1975, publicou “As Musculaturas do Arco do Triunfo”, na mesma linha, ou seja, privilegiando o ritmo contra o significado. No entanto, neste livro como no anterior, continuam as alusões à cor da pele, à servidão, à injustiça e à escravidão.

Quem souber ler nas entrelinhas perceberá, subjacente à formidável estrutura rítmica (que lembra os tambores ancestrais africanos), a dor do escravo costurada dentro da pele e da língua.

LAVANDO ROUPA AOS DOMINGOS
Dois anos antes, Adão estivera nos Estados Unidos, participando de um programa de jovens escritores e lecionando literatura brasileira na Universidade do Novo México. Não sabia inglês, espanhol ou qualquer outra língua além da nossa.

Correm várias piadas a esse respeito, inclusive a de que, no aeroporto, quando lhe pediram que falasse em espanhol mesmo, ele respondeu que estava falando em espanhol, quando pensaram que ele tentava falar inglês.

Talvez fosse portunhol, a língua que predomina nas fronteiras brasileiras. Durante alguns meses antes da viagem, andava pra cima e pra baixo com um exemplar do “Grande Sertão” debaixo do braço.

Eu dizia ” e todos os amigos concordavam ” que ele estava lendo por osmose. Como Nelson Rodrigues, Adão preferia aprender “de ouvido”. Mas foi lá, na terra dos gringos e longe da pinga amada, que Adão pela primeira vez percebeu que era negro.

E descobriu da maneira mais prosaica, lavando roupa aos domingos, nas lavanderias públicas, entre brancos que o desconheciam e negavam. Brincadeira” Não, não estou brincando.

A história do racismo no Brasil (e talvez no mundo) conta muito sobre essas fantásticas racionalizações efetuadas pela mente humana, em que o negro se recusa a ser negro, em outras palavras, a se deixar reconhecer pela cor da pele.

Foi assim com Cruz e Sousa, o maior simbolista brasileiro, que só metaforicamente admitia a dor da discriminação, cantando as famosas formas alvas, brancas, puras.

Nos mais pungentes de seus poemas, a dor terrível nunca é chamada pelo nome, sempre se esconde em metáforas e alusões. Como a tuberculose antigamente, e o câncer hoje, é preciso exorcizar a doença, não dizendo o nome secreto da angústia.

A COR DA PELE E TEXTURA AFRO


Quando voltou, Adão era outro. Assumiu a negritude e começou a escrever seus densos e trágicos poemas negros. Pela primeira vez viu a cor de sua pele nos olhos dos outros, e os olhos dos outros diziam que ele era negro ” não havia como negar. De certa forma, Adão continuou o mesmo, mas apenas com os amigos.

Agora que era negro, passou a dizer isso, a gritar isso e a trabalhar em cima disso. Durante os 30 anos que ainda viveu foi acima de tudo um militante negro, através da poesia. Creio poder dizer, sem grande exagero, que Adão Ventura é o maior poeta negro do Brasil no século 20.

Sua produção não é muito grande, também era preguiçoso. Na antologia que Jaime e eu preparamos predominam os poemas da fase negra. Digamos que são os poemas da maturidade. Mas é apenas uma primeira etapa.

Começando pela poesia que descreve com todas as letras o sofrimento da cor da pele, pretendemos também chegar à poesia que fala da cor da pele através do ritmo dos tambores ancestrais e eternos.

Publicado em 05/03/06

http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/sebasti%C3%A3o-nunes/sebasti%C3%A3o-nunes-ad%C3%A3o-ventura-descobre-a-cor-da-pele-1.206322

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