A democracia grampeada

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Se a conversa da presidência da República é grampeada, adeus vida privada para todo mundo. Esta é eliminada, ou seja, a liberdade da vida privada já era. O objetivo é que nos tornemos dedos-duros e Moros fanáticos do terrorismo da escuta.

A delação premiada deixa de ser um oximoro.

País de caguetes honoríficos.

O Supremo Tribunal Federal revela-se o que é em seus arabescos linguísticos. É a mesma retórica dos jesuítas: usar a língua para esconder o pensamento. Não é a constituição que cria o povo, mas é o povo que cria a constituição. Tudo está invertido. O homem não existe para a lei, mas sim a lei para o homem.

A linguagem do Supremo Tribunal Federal é escolástica e abusa da paráfrase. Oswald de Andrade já dizia: é a fala enfadonha das galimatias.

A liberdade de imprensa não pode ser permitida se ela compromete a liberdade pública, dizia o jovem iracundo Robespierre citado por Marx em “A questão judaica”.

A lei legitima a opressão do pobre pelo rico. As cortes jurídicas, os tribunais, estão profundamente imbuídos de teologia em sua linguagem e visão de mundo. República padreca.

A ausência de manuseio do audiovisual pelo PT (as tevês do governo são canais pornográficos) repercute em seu contra-impiti.

Uma atitude crítica em relação às informações deve fazer parte da fi sionomia do homem público de esquerda. É raríssimo encontrar um petista que tenha admiração por Glauber Rocha.

“Nunca foi sequer cogitado que um dos motivos do golpe de 64, de caráter roliudiano, foi implantar o monopólio da comunicação para impedir a educação política do povo. Disso, a consequência é que o PT carece de poder informacional para lidar com a campanha pró-impiti de Dilma e o desejo midiático de colocar Lula no xilindró”

O PT, durante doze anos no poder, não enfrentou a hegemonia midiática da burguesia. A questão da TV nunca foi objeto de análise. O Partido dos Trabalhadores psicologizou o conflito entre Leonel Brizola e Roberto Marinho. Nunca foi sequer cogitado que um dos motivos do golpe de 64, de caráter roliudiano, foi implantar o monopólio da comunicação para impedir a educação política do povo. Disso, a consequência é que o PT carece de poder informacional para lidar com a campanha pró-impiti de Dilma e o desejo midiático de colocar Lula no xilindró.

O PT não atinou para o fato de que os pais da gurizada matriculada nos CIEPs votaram no PMDB canalha de Moreira Franco. A mesma coisa se dá com o programa Bolsa Família, cuja dieta alimentar não é por si só capaz de conter a sedução feita pelos programas de auditório. Há, no entanto, que reparar o seguinte: Leonel Brizola não chegou à presidência da República, nunca teve em suas mãos a TV estatal quando era governador do Rio de Janeiro.

A verdade histórica é que o PT nasceu seduzido e acovardado diante do sistema de comunicação de massa. PT e TV Globo: tudo a ver.

Pouco antes de ser humilhada pelo impiti baixo-nível e barraqueiro, Dilma tomou a atitude tardia de cortar a publicidade dos jornais e TVs. Não se ligou no exemplo da Venezuela. Hugo Chaves, perseguido pela TV, conseguiu sair da cadeia graças às informações contrabandeadas pelos motoqueiros e utilização subversiva da internet.

O PT foi engambelado pelos jornais e TVs, ao mesmo tempo em que os paparicou como veículos, com perdão da palavra, do Estado democrático de Direito. Nesse obsceno caso de amor, em que não faltam lances sadomasoquistas, o Judiciário telenovelizado acionou a polícia para prender Lula.

Há o antecedente da tragédia pessoal misturado à tragédia política. Enxovalhado em sua psicologia política, com a possibilidade de ser preso, Getúlio Vargas, em 1954, deu um tiro no coração no Palácio do Catete. Com isso não estou sugerindo que o gesto suicidário de Vargas será repetido por Lula, tampouco posso prever se ele tombará junto com Dilma, impossibilitado de disputar as eleições em 2018.
Napoleão Bonaparte dizia que a política é destino, Leonel Brizola no fi nal da vida vaticinou que a fraqueza era o destino político de Lula. A “ciência do peão”, para valer-me da expressão de Trotsky, é insuficiente para converter o fraco em forte.

“Lula chegou ao governo em paz com a burguesia bandeirante, a televisão e o imperialismo. Sua discípula Dilma, de origem pequeno-burguesa, cabeça tecnocrata, seguiu os passos prudentes e realistas de seu mentor, inteiramente alheia à função do colonialismo na sociedade brasileira”

Destacado na burocracia sindical das fábricas multinacionais, Lula chegou ao governo em paz com a burguesia bandeirante, a televisão e o imperialismo. Sua discípula Dilma, de origem pequeno-burguesa, cabeça tecnocrata, seguiu os passos prudentes e realistas de seu mentor, inteiramente alheia à função do colonialismo na sociedade brasileira. Ambos cometeram o erro de não terem estudado Leonel Brizola. Também desconheceram a teoria marxista de um Estado de classe. Ao PT bastou a existência de uma democracia capitalista, ficou obcecado com a ditadura entendida como violência física e supressão do parlamento.

Curioso é que Leonel Brizola não alcançou o poder. Ele não chegou lá, enquanto o PT corre o risco de perder o poder em 2016. As qualidades pessoais da liderança mesclam-se com o processo social do País depois de 1964. Em sua mocidade Lula foi um proletário, mas nunca um proletário revolucionário, isto é, marxista.

A ameaça de Dilma impichada lembra Fernando Collor, cujo impiti não pode ser considerado um simples acidente histórico, aliás, até hoje inexplicado no sentido de que os presidentes da República que foram derrubados incomodaram o imperialismo norte-americano, a exemplo de Getúlio Vargas e João Goulart, o que não foi absolutamente o caso do governo Collorido pró-EUA. O mesmo se repete agora com Dilma. Nota bene: em seguida à queda de Collor não houve avanço social algum significativo; ao contrário, o governo FHC realizou a maior privatização internacional da história do Brasil.

Somente idiotas acreditam que a substituição de Dilma por Temer, o michê do PMDB, será a retomada do desenvolvimento e o ocaso da dor de cotovelo. Temer, o regenerador? Sim, dizem os venalizados âncoras de TV, se seguir o enclave PMDB e PSDB sob a receita do trapalhão José Serra.

Estamos talvez agora assistindo ao crepúsculo do petucanismo, à decomposição do acordo de cavalheiros entre Lula e FHC. O Brasil está se tornando o País do impiti, o que não quer dizer País da democracia.


 

♦ Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor

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