A Herança Musical da Escravidão*

Por Denis-Constant Martin**

A escravidão colocou em contato povos de diferentes origens em situações radicalmente novas, em um contexto de violência e dominação extremas. Apesar disso, tais contatos, a despeito da brutalidade que os fundava e das profundas desigualdades então engendradas, resultaram também em processos de mistura e criação cultural que produziram, especialmente, novas formas de expressão musicais. Este artigo busca analisar, de uma perspectiva comparada, processos sociais de criação musical no contexto de sociedades escravagistas ou pós-escravagistas, especialmente o surgimento de novas formas musicas nos Estados Unidos e na África do Sul. Palavras-chaves: escravidão, memória, “world music”, cultura de massa, crioulização, diásporas.

Todas as músicas ditas hoje “populares” ou de “massa”1 derivam, de uma forma ou de outra, de práticas surgidas no seio de sociedades organizadas em torno da escravidão em territórios conquistados por europeus: das odes francesas de Georges Brassens ao rock chinês de Cui Jan, do reggae japonês ao ska espanhol do Ska-P, das «vagabundagens» de Emir Kustirika às invenções de Yothu Yindi, das canções de Björk ao rébétiko modernizado de Manolis Hiotis, a começar pelos incontáveis gêneros inventados nas Américas continentais e insulares. Essas músicas são o resultado de contatos de cultura2 que ocorreram em condições específicas de desigualdade e de violência absolutas fundadas na negação da humanidade de pessoas deportadas.

As primeiras manifestações musicais dos escravos, cuja marca permaneceu, em grau maior ou menor, em todas as formas contemporâneas de música, foram sinais prenunciadores daquilo que agora está hoje sendo chamado de mundialização ou de globalização. A compreensão dos processos de mesti- çagem e de criação que levaram à invenção de gêneros originais nas sociedades escravagistas e naquelas que sucederam a elas poderá ajudar a melhor analisar os mecanismos da globalização atual. Essa história de mestiçagens, de inovação e de crioulização no sentido entendido por Édouard Glissant3 indica, no mínimo, que a generalização de certos fenômenos, entre os quais os fenômenos musicais, em todo o planeta, está ligada a sistemas de dominação e às estratégias inseparáveis de resistência, de acomodação e de poder que esses fenômenos provocaram e continuam a provocar. O estudo das modalidades de emergência de novas músicas nas sociedades escravagistas – ou pelo menos a tentativa de reconstruí-las a partir de dados fragmentários – deverá permitir um melhor entendimento das funções de criação musical frente à dominação, e assim reavaliar o sentido das “músicas do mundo” ou world music no mundo de hoje. Diante da impossibilidade, no âmbito de um texto de tamanho limitado como este, de tratar do conjunto das músicas nascidas na escravidão, contentar-me-ei em me apoiar em dois exemplos: o exemplo das músicas norte-americanas, e o das músicas sul-africanas.

Mestiçagem e inovação Um grande número das músicas muito escutadas atualmente é o resultado de misturas e de inovações que ocorreram nas Américas setentrionais. Duas fontes foram especialmente fecundas: a primeira, profana, levou menestréis de rostos enegrecidos (Blackface Minstrels), a infinitas músicas de teatro de variedade, mas também aos blues, ao country and western, ao jazz, ao rock e a todos os seus derivados; a segunda, sagrada na sua primeira fase, começou com os spirituals para chegar, após muitos meandros, à soul music, ao reggae e ao rap. Pensar a mestiçagem A despeito das desigualdades e da violência que as caracterizavam, as sociedades escravagistas foram também universos de contatos, de trocas e de misturas. A escravatura foi, também na área cultural, uma causa de mestiçagem da qual tanto senhores quanto escravos foram parte. Entretanto, os hábitos de recorte para classificação, a inclinação para uma suposta pureza ou “autenticidade”, que marcaram durante muito tempo as ciências sociais do Ocidente, tornam difícil uma reflexão sobre a mestiçagem4 . Para consegui-lo, é preciso abandonar a ideia de que as misturas e mestiçagens produzem necessariamente abastardamentos e empobrecimentos, e reconhecer que elas são uma fonte de “dinâmicas fundamentais”5 que se desdobram e abrem em “zonas estranhas”,6 e utilizam procedimentos inéditos susceptíveis de gerar a criação.

Leia o ensaio completo em:

http://www.historia.uff.br/tempo/site/wp-content/uploads/2010/12/v15n29a02.pdf

 

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