Herança cultural africana

Por Vitor Cei 

Africanta, de Hudson Ribeiro, edição independente, Vitória, ES, 2015

A história da literatura ocidental, alicerçada em rígida hierarquização e homogeneização, canonizou um rol de autores predominantemente formado por homens brancos europeus. Tal configuração somente será abalada pelos movimentos multiculturais que tiveram início na década de 1960, abrindo espaço para os grupos marginalizados e minoritários, até então excluídos do diálogo cultural.

Aproveitando o espaço aberto pelos estudos culturais e pós-coloniais, desde o final do século 20 a literatura afro-brasileira vem ganhando novos autores e leitores, graças aos esforços de escritores, pesquisadores e leitores, que buscam forças contra-hegemônicas de resistência e luta.

Com Africanta: ser negro, o poeta capixaba Hudson Ribeiro idealiza uma “Mãe África” como forma de se contrapor ao mito da democracia racial difundido pelo pensamento hegemônico brasileiro. Insere-se, assim, numa tradição literária afro-brasileira ainda em formação, composta por autores preocupados com marcar, em suas obras, a afirmação cultural da condição negra na realidade brasileira. Desse modo, busca o seu lugar no rol de poetas que se dedicam à recuperação da linguagens afro e do seu universo simbólico. Como um gesto de legítima defesa, ele faz questão de se declarar negro e afirmar em seu texto os valores inerentes à essa condição. Exemplar é o poema “Linhagem sagrada”:

Negros forjados em ébano

Somos nós entrelaçados

Com a nossa linhagem sagrada

Os nossos nomes usurpados

Não nos tirou as raízes

Em nós habitam soberanos

Reis e rainhas guerreiros

Das mais destemidas tribos

Somos nobres de berço vetusto

Das terras fartas de leões e leopardos

Onde os baobás bailam serenados

Emoldurando a paisagem

Como a declamar

A beleza da nossa raça

Estampada em nossa pele

Vozes de inúmeros povos

Clamam em nossas veias

E nos preservam solícitas

Valorizando nossa estirpe

Somos nós e além de nós

Pés religados às origens

Cabeças atentas às frestas

Do tempo

Para sacramentar as nossas matrizes

Um amálgama de teoria, poesia e ficção

A nostalgia da ancestralidade africana e a tentativa de exaltação mitificadora da África atende a uma demanda por mais esforços pelo reconhecimento de sua possível especificidade literária e pela reivindicação de mais espaços para a divulgação e legitimação de autores e textos que muitas vezes são preteridos por causa da hegemonia de uma perspectiva eurocêntrica e racista. Sonhar com a África seria sua utopia, pois no Brasil que defende o padrão “cânone ocidental” não haveria espaço para o “filho da África” sonhar:

Quem é filho da mãe África

Sabe na cor negra da pele

A enorme dor da trapaça

De trabalhar duro de graça

De sol a sol e de lua a lua

E mesmo com a mudança dos tempos

Para nós a luta contra a escravidão continua

Agora ainda mais necessária e renhida

Em suma, através do reconhecimento e revalorização da herança cultural africana, Africantacontrapõe-se ao discurso canônico, que se pretende universal através do apagamento das diferenças. Nesse sentido, recomenda-se sua inclusão na bibliografia dos cursos de cultura afro-brasileira, atendendo à Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do país, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.

Aos leitores que negam a existência de uma literatura afro-brasileira e apegam-se à defesa do “universal”, vale lembrar que a trajetória do polígrafo Hudson Ribeiro não permite que ele seja rotulado por força do assunto que elegeu para Africanta. Recusando toda rigidez programática, o escritor, que também é professor de Filosofia, tem oferecido ao público um amálgama de teoria, poesia e ficção.

A herança africana na literatura brasileira

O primeiro livro do autor, Ideias com pernas (Flor&Cultura, 2004), escrito em coautoria com Vitor Cei, reúne ensaios filosóficos sobre pensamento grego, telenovelas, futebol e sexualidade, dentre outros temas. Após um hiato de quase uma década, veio Lucidez Renitente (Multifoco, 2013), coletânea de estórias e memórias marcadas por licenciosidade poética, coloquialismo, espontaneidade, brevidade, urbanidade, força crítica do humor, poetização do relato cotidiano, anotação do momento político, libertação das repressões políticas e morais. Desditando, o escritor persegue um estilo próprio – estilo cunhado em seu primeiro e mais importante livro,Além da margem: desditando, que lamentavelmente permanece inédito.

Antecedendo Africanta, temos Cem palavras (Amazon, 2015), reunião de microcontos sobre Oberdan, Dorotheia, Leocádia, Tonico, Nonô, Micaela, Zeca, Jacira, Zenildo, Marimar, Eugenio, Zulmira, Jonildo, Agostinho, Augusto, Edina, Betinho, Walquíria, Roberto, Eleonora, Tina, Antoniel, Olinda e W., personagens que encenam a vida, transmutando-a em obra literária.

Africanta, assim como as obras anteriores, questiona os costumes e crenças dominantes, transgredindo os valores mais prezados pelas forças conservadoras. Por conseguinte, suscita a necessidade de elaborar o passado e criticar o presente prejudicado, mantendo a fidelidade às utopias ainda não realizadas pelos negros brasileiros. Há, pois, na poesia do autor capixaba uma perspectiva crítica que não pode ser ignorada e, em sua esteira, um potencial reflexivo propício à construção de operadores teóricos com eficácia suficiente para ampliar a reflexão crítica sobre a herança africana na literatura brasileira.

***

Vitor Cei é professor e doutor em Estudos Literários

http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/heranca-cultural-africana/

 

“Africanta – Ser Negro”, de Hudson Ribeiro

 O jornalista Rubens Pontes faz uma crítica do livro de Hudson Ribeiro “Africanta – Ser Negro”, mas diz ser a opinião de um leitor de poesia e não de um crítico literário. Depois, ele fala na costelinha de porco e na garrafa de vinho que vamos exercitar por estes dias (OO).

– Oswaldo Oleare:

– Li esta manhã o livro de poemas do professor Hudson Ribeiro. Como pedido seu não  pode ser contestado, e também porque gostei dos poemas nele contidos, perpetrei rápidas considerações sobre “Africanta – Ser Negro”, que devem ser recebidas como contribuição de um leitor que gosta de poesia e não de um crítico literário, que definitivamente não sou.

A costelinha suína  faz um apelo: 

– “não me deixe temperada na geladeira à espera de OO e seu bornal com a selecionada garrafa de vinho…”
Abração, Rubens”

“Africanta – Ser Negro”, de Hudson Ribeiro

O poeta despiu-se e se fechou no aposento mergulhado num silêncio
só quebrado pelo ruído dos atabaques distantes num terreiro de candomblé.

De que outra maneira poderia Hudson Ribeiro permitir que sua alma e seu
coração explodissem num turbilhão, que paradoxalmente se manifesta
num libelo acusador que contém, porém, uma ternura primitiva que balança
nossa sociedade como uma revivida Trombeta de Jericó?

“Ser Negro” é um J’Acuse moderno, contundente quase sempre, impiedoso
muitas vezes, como uma sentença de uma Corte de Justiça que não admite
apelação.

Há um ritmo sincopado nos poemas que confirma o poeta que Hudson Ribeiro é: espontâneo mas racional, emotivo mas agressivo, numa obra literária que tem princípio nas “Savanas Africanas”,  mas que não parece ter fim em “Ser Negro”. 

Fica a sensação de que sua fala não termina aí.

Entendo que “Africanta – Ser Negro”, deve ser leitura obrigatória nos cursos de educação como importante documento destinado a desmistificar o sentimento preconceituoso, nem sempre mascarado, contra uma raça que, afinal, nasceu com a africana Eva mitocondrial de quem todos os seres humanos somos descendentes.

Como Machado de Assis e Lima Barreto, como o grande escritor filho de escravos Cruz e Souza, como a mineira Conceição Evaristo (com livro editado nos Estados Unidos) como a maranhense Firmina dos Reis, como a paulista Carolina de Jesus , como a nossa conhecida Elisa Lucinda, o capixaba Hudson Ribeiro, com mais essa esplêndida obra, tem seu nome definitivamente incorporado aos dos grandes intelectuais negros que valorizam a inteligência criativa na produção literária brasileira.

Ainda no livro, destaque para as instigantes ilustrações produzidas pelo autor (Rubens Pontes).

http://nageral.donoleari.com.br/2016/01/rubens-pontes-comenta-o-livro-africanta.html
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