Mel Ádún nasceu em Washington D.C., em 1978, quando seus pais fugiram da ditadura militar no Brasil. Chegou ao Brasil em 1984; retorna aos Estados Unidos para estudar em 1998. Desde 2001, voltou a residir no Brasil, em Salvador. Ela é jornalista, escritora, roteirista, contadora de história. Integra organizações educativas e culturais, tais como Escola Didá, Junça da Pedra Preta do Paraguassu, Movimento ERE-GÊGE. Publica em jornais, em blogs e nos Cadernos Negros. Já publicou contos infantis no jornal A TARDE; poemas nos Cadernos Negros, volume 29 e contos no volume 30.

Terreiro da gente

Não viu o meu olhar? Através dele falei tudo que a limitação da palavra não me permite lhe dizer. Resumindo, eu disse que amo você. Ali, sentada sob aquele barracão. Hipnotizada pela dança daquele que resultou na nossa união ancestral. Sou nós porque já não é e nunca foi uma opção. Naquele momento não era certo ou errado, propício, de agrado…Éramos origem, raízes, antepassados. Tudo ali misturado, evocado. Nos gestos precisos de Fekém e nos olhares atentos das abiãs ao chão. Em cada dobrada dos atabaques. Dos você. Nem a Oyá se atirando em seus braços me fez recuar, ou mudar, o parar de sentir tanta certeza. Tanta verdade inquestionável. Meu Odé é caçador e caça e sabe que é senhor de mim. Assim como sou sua senhora, dona, aurora, o pôr e o nascer do sol sem fim.

O rei sem coroa.

Foi um rei que me sorriu
Sentado num lugar qualquer
Que desmerecia sua grandeza
Era um deus, sim, africano!
Daqueles que há tantos anos
Desacostumamo-nos a ver […]
Mas hoje foi tudo diferente
Ai, que deus negro lindo eu vi
Sem manto e sem coroa
Que ria à toa e fazia qualquer um sorrir
Ali, sentado num canto qualquer. Ressuscitei.

Instante Mulher

Com vontade apenas de boas risadas.
Do carinho descarado embaixo.
De qualquer lençol que me abrigue.
Sem brigas.
Não tenho intimidade pra brigar com você.
Exijo as boas trepadas seguidas deuteamos falsos.
Com prazer dou risada das suas piadas.
Se não me agradam não te permito repetir o prato.
Estou nesse estágio – posso escolher.
Pode falar bobagens, sentir prazer quando te molho,
Posso até bater, mas ainda não aprendi a apanhar…
E gozar.
Naquelas 4 horas tapo o buraco.
Com o nascer do dia volto a ser vazia, mas em paz.
Esperando de unhas bem feitas o próximo…
Não quero ser taxada de santa nem biscate.
Quero ser somente o que sou agora.
Amanhã sentirei saudades
Como senti ontem de mim mesma quando morri.
Aprendi a saborear todas as vezes que morro.
Morro em cada cama que deito,
Mas sou cristo todas as manhãs seguintes.

https://litsubversiva.wordpress.com/2009/08/14/mel-adun/

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