“Clinton ou Trump não irão enfrentar a questão

racial nos Estados Unidos”, afirma ativista negro

Robert Baker, da Liga dos Eleitores Jovens, teme que candidatos deixem discussão de lado

Por Rafael Tatemoto
Do Brasil de Fato

 

A questão racial nos Estados Unidos (EUA) foi reacendida nos últimos anos. Desde Ferguson, novos casos de violência policial contra pessoas negras ganharam grande projeção. Além disso, uma nova onda de ativismo surgiu em torno do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam].

Na última semana, um tiroteio em Dallas durante um protesto contra as mortes de Alton Sterling e Philando Castile – ocorridas em Louisiana e Minnesota, respectivamente – chocou o país. O Brasil de Fato conversou com Rob “Biko” Baker, diretor-executivo da League os Young Voters [Liga dos Eleitores Jovens] organização que estimula a participação de jovens negros nas eleições.

Baker falou sobre violência policial, a administração do governo de Barack Obama e as perspectivas abertas pelas eleições presidenciais. Confira abaixo.

Desde Ferguson, a questão racial voltou com força ao debate público nos EUA. Por outro lado, a violência policial continua. Como você avalia a evolução desse tema na política estadunidense?

Robert Baker – Eu acredito que o debate mudou, tanto ao nível da base das organizações militantes como na mídia. Não é mais aceitável deixar de lado a opressão que as pessoas negras pobres enfrentam. Questões como a violência policial – e a resposta consistente através dos protestos – forçaram as pessoas a prestar atenção. Entretanto, à medida que as massas acordam, é essencial que nós ampliemos a discussão abordando outros aspectos do sistema que marginaliza as pessoas negras. Nós não podemos continuar presos a um padrão de ação reativa.

Como você avalia a cobertura da mídia sobre essa temática, principalmente neste momento de tensão pelo ocorrido em Dallas?

Eu penso que a mídia se recusa a dar voz aos líderes comunitários de base mais ativos e dispostos. Eu, de forma recorrente, percebo que quanto mais efetivo uma liderança é, menos provável que ele seja ouvido pela mídia. Nós vemos isso na luta que ocorre agora. A mídia continua abafando o brilho e a genialidade de alguns dos nossos melhores líderes. Nós precisamos de um grande trabalho para colocá-los à luz do dia para podermos replicar suas vozes.

Quais seriam as medidas que poderiam conter a violência policial contra pessoas negras?

Nós temos que mudar a maneira como os governos locais financiam seus departamentos de polícia. Além disso, devemos pressionar as municipalidades a não fazer parte da “Guerra às Drogas”, forçando os governos locais a priorizar programas e políticas públicas que invistam na juventude negra.

Como você avalia os acontecimentos em Dallas?

Nós nunca saberemos o que esteve por trás daquilo, já que a polícia explodiu o suspeito com um robô-bomba. Ele não teve julgamento nem foi condenado. Quem sabe, ele talvez tivesse oferecido mais informações sobre os outros suspeitos, mas agora ele está morto.

Como a administração Obama atuou sobre essas questões?

A administração Obama nunca prometeu ser uma campeã da justiça racial. Ao contrário, ele assumiu o governo afirmando que era “o presidente de todos” – o que é poderoso em teoria, mas, na prática, os Estados Unidos é um país dividido racialmente e eu penso que as pessoas negras precisavam de um presidente negro. [De outro lado], eu acredito que Obama fez o melhor que pode, dados os limites que o sistema impõe às autoridades eleitas, e ele merece crédito por ter lidado com o tema, mesmo que apenas um pouco. Mesmo com um Congresso que claramente estava bloqueando seus esforços, ele não teve medo de tocar em temas raciais, ao menos os grandes assuntos que dominaram as notícias.

O que esperar de Clinton ou Trump?

Nem Clinton ou Trump irão enfrentar a temática racial. Na verdade, acho que nós veremos um esforço intencional de desviar a discussão popular dos problemas raciais para um discurso mais nacionalista. Enquanto eu acredito que Obama estava tentando enfrentar a narrativa do exepcionalismo norte-americano, [agora] os dois grandes partidos promoverão uma visão “ufanista” dos EUA esvaziada de qualquer conteúdo racial. Eu temo que essa abordagem impedirá os EUA de abraçar a diversidade que nos torna notáveis.

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