eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
        — eu sou a luta.

O que há sido entregue aos urubus,
e de blues
        em
        blues
endominga as quartas-feiras
        — eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipos)

eu sou ferro, eu sou a forra.

E fogo milenar desta caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco às estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

leito de terra negra
sob a água branca,
seu a lança
a arca do destino sobre os búzios.

e de blues a urublues
ouça a moenda
dos novos senhores de escravos
com suas fezes de ouro
com seus corações de escarro.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

eu sou a luz em seu rito de sombras
— esse intocável brilho

Salgado Maranhão

algum canto secreto me arrasta pra dentro de ti. viola

os meus direitos de pessoa física independente. logo

eu que nem quero o coração assim cavalo bravo, potro

remoendo as rédeas.  mas você nem fica aflita

e finta em mim na certeza de já ter

visto o fim do combate.  seu amor é coisa fina, é

cerâmica do Xingu, porcelana da China, broto de

bambu.  quanto aos seus olhos, são os da serpente

quando tem fome.

Salgado Maranhão

No topo está uma fotografia de Shawn Theodore