INTROJEÇÃO OPRESSIVA SUBJETIVA:

O NÃO-SER ENTRE O SER E O NADA. 

Por Nkuwu-a-Ntynu Mbuta Zawua

O estudo da Introjeção Opressiva Subjetiva ou IOS passa pela necessidade de se compreender de forma isolada e estrutural, a real importância e o papel da des-legitimação afro-africana fornecedora dos selos sociais, negativos e eurocêntricos. Formadores do ideal de ego deste sujeito (individual ou coletiva) já des-legitimados e, porém dentro da condição de dupla mão, onde só há a existência do Ser por meio do outro não similar in-reflexo, convertido em o Não-Ser.

A IOS é um mecanismo de defesa em si, que passa pela necessidade do estadohomogênador panóptico é antes de tudo um mecanismo de ataque, daquele Nada. Que deve ser vigiado e punido quando se julgar conveniente pelo Certifica-dor, o Ser. O Não-Ser é o negado, o culpado inato, previamente condenado, antes da concepção. Visto ser filho de Nada, herdeiro bio-psico e sócio-cultural de sua condição étnico-racial. E é o campo de cultura para os mecanismos de introjeção, terminarem em uma até então condição inconsciente-consciente de reclamação simbiótica do Ser.

Dentro de sua condição de culpabilidade o Nada, previamente condenado recebe o selo da naturalização de sua própria opressão, visto o pressuposto genótipo da condenação previa. É lhe aplicado a pena, que o conserva dentro de seu status quo, de o reprovado. Sendo a IOS a pena necessária, isto é, trata-se de um sistema de símbolos e representações sociais, onde o que se verifica é a presença dos fins psico-normativos preventivos da pena. Assim o Não-Ser sofre as conseqüências explicitas e implícitas, dessa dialética de ataque-defesa onde a análise psico-lógica das conseqüências bio-psiquica é ignorado por aquele que da norma-divina certificadora, vive e garante o cotidiano panóptico. O fim dessas pratica no cotidiano é a prevenção, provida pela dialética do ataque-defesa, que gera aestigmação, subjetivamente imputada ao Não-Ser.

Visto que o Não-Ser um corpo disciplinado é egresso de todo um sistema de símbolos e estigmatização social, que o discrimina, rotulam e o relega a condição do Nada Total. Portanto, excluído do processo produtivo e alijado da interação social, do Ser e do Nada. Este mecanismo de ataque-defesa garante a continuidade da condenação, do Não-Ser como coisa. Um objeto que só lhe é possível alguma“socialidade” por meio da apresentação do selo fornecido pelo Ser.

O Ser, o hegemônico psico-lógico, detentor do poder, adota, segundo suas necessidades, procedimentos de controle da produção coletiva do Não-Ser como suas, e é por este processo de des-legitimação. Que o Ser apresenta sua auto-afirmação e representação como o representante divino, o responsável por guiar os Nada. Do processo, de introjeção, a certificação pela intervenção e, morte social do Nada, se apresenta o reconhecimento do Nada a ser certificado, a realizar-se por meio de padrões branco-europeu convertidos em norma universal. A morte social é condição sine qua non do Não-Ser, onde é um Ser um sem o ser, visto que é como o loureiro rosa é o símbolo do amargor enganoso. Do amargor que se esconde sob uma aparência agradável do conjunto das IOS. O indivíduo morto socialmente anteriormente pertencente ao grupo dos pretos, introjeta os valores culturais do branco, como suas, desse modo se faz crer ser um Ser visto o selo ganho. Acredita-se superior aos Nada e fora de sua ancestral condição ancestral africana. O afro-africano totalmente des-informado a respeito do que seja realmente uma certificação IOS, abraça-a de forma suicida-patológica.

Então, o liquidificador da certificação é acionado, a embalagem que garante uma aparência branco-européia. E que esconde uma série de fatores que demonstram o quanto a IOS promove o epistemicidio que culmina em si no deixar de existir do a, ser certificado. A certificação naturalizanda, introjetada como condição sine qua non das organizações psíquicas, dos Não-Seres, que desejam conseguir algum selo e destaque no cenário euro-europeu.

A aceitação de um selo IOS por parte do afro-africano que procura um reconhecimento a todo o custo, que procura se adequar as normas que garantem uma certificação. E, que por conseqüência dessa adaptação, obtém e mantém a certificação que cria um suposto diferencial competitivo frente aos seus antes entes. Selo esse que esconde o fundamental a alienação e morte social branqueadora. O certificado o Não-Ser é o portador da mão invisível branca que “garante” o tão sonhado valor agregado. Assim a certificação configura uma forma de organização político-jurídica e, psico-lógica de se colocar as coisas nos seus devidos lugares de maneira sistemática; e ajuda o certificador a entender o que se passa internamente e, de certa forma, orienta o tratamento dos processos e ações que devem ser executados por parte daquele que a deseja ser um Ser.

A farsa euro-européia sobre uma suposta falta de razão epistêmica do Nada, que segundo norma-divina, o Nada carece e merece uma epistemologia a ser doada pelo próprio representante divino. Que retira essa epistemologia Ser, e faz o uso das benditas doações divinas a que teve diante-mão reservadas a si como guia de todos não euro-europeus. Explicando os males do, a ser certificado, por meio e discurso que relegam ou o isentam de responsabilidade alguma visto serem, males extra-terra. Logo, o agora Não-Ser mantém toda a carga e representações sociais hegemônicas, Isotrópicas de Nada e recebe uma nova.

Fruto de uma epistemologia criada por meio de ferramentas e discursos, chancelados como acadêmico-científicos, donde resulta um amálgama de representações sociais, tais como: a de inferioridade; de incapacidade intelectual; de incapacidade de produzir uma consciência “verdadeira”; de insuficiente capacidade de auto-governar; da falta de sociedades e cultura; da ausência de instituições; da animalesqueidade sexual e corporal; de pertencimento ao primeiro estágio na linha “evolutiva” da raça humana. Que culminam em um grande certificado Não Total, visto sua condição social já certificada, que para o Ser continua mesmo após certificar o Não-Ser antes Nada já mutado em um novo Ser-Nada, para o Ser e nem para os critérios dos Nada.

O sentimento de inferioridade do Não-Ser que convive com o desejo de superioridade, que o Nada a certificar na busca selo euro-europeu apresenta sua patologia-protesto que consiste no Ser como Não-Ser. Segundo os critérios normativos que define quem é Ser e quem é Nada. O Não-Ser afirma-se por duas vias lembrando ansiosamente seu selo e estudando o outro antes seu ente. E negando a ancestralidade africana em sua constituição bio-subjetiva, de Não-Ser ressaltando o selo como mérito.

Para o certificador a IOS é uma forma real e, ao mesmo tempo, imaginária, da desordem e, tem a disciplina como correlato médico e político. E por detrás dos dispositivos disciplinares se lê o terror das desordens, das revoltas, dos corpos indisciplinados. A IOS sendo um policiamento tático, meticuloso onde as diferenciações individuais são os efeitos limitantes psico-patológicos que se multiplicam, se articula, e se sub-dividem, a essas psico-patologias chamamos de certificados ou selos IOS. O Não-Ser pelo menos permanece no estado de previsão sendo a prova, durante a qual se pode e definem os ideais do poder disciplinar branco. Aos Nada se impõem imperativamente as táticas das disciplinas individualizantes; e de outro lado à universalidade dos controles disciplinares permite marcar quem é branco e quem não o é, que funciona contra o Não-Ser de modo dualista do ataque-defesa.

A divisão e classificação constante do Ser e do Nada, a que o Não-Ser é submetido, leva-se e aplica-se a todo e qualquer objeto pertencente à estrutura sócio-cultural do Nada, da marcação binária e do exílio do Selo. A existência de todo um conjunto de técnicas e de instituições que assumem como tarefa, medir, controlar e corrigir os Não-Ser. E faz funcionar os dispositivos certificadores e disciplinares que o medo do Nada proporciona ao Ser. Todos os mecanismos de certificação que, ainda em nossos dias, são usados para naturalizar e clivar em torno do Nada, para marcá-lo, para enxergá-lo e modificá-lo, compõem essas duas formas que lógica-mente derivam o (ataque-defesa). Daí o efeito mais importante da certificação, é o de introjetar no Não-Ser um estado consciente e permanente de inclusão-exclusão que assegura o funcionamento automático da certificação. Visto que certificar é garantir regras e valores absolutos, os quais são incontestáveis.

O selo é reservado a todos os Nada socialmente relevantes de acordo as normas brancas, ou assim julgado pelo Ser. Diante da complexidade das sociedades onde a dualidade Ser-Nada e ou Incluído-Excluído, a regra é clara e única. A prevenção geral positiva (o ataque), que consiste em garantir o status quo branco nas sociedades. Assim sendo a sociedade de confiança, onde não se espera ser Nada, mas que se o Não-Ser a ultrapassar, os limites, de sua condição de Não Total. Sobre ele abate-se o flagelo da branqueado da branquidade, não podendo socorrer-se a instituição alguma visto que é Não-Ser nem é Nada. Daí, que o Não-Ser, este que supostamente deixou de ser preto, necessita e introjeta-se mutando, enquanto o processo de Introjeção Opressiva Subjetiva chega ao seu fim.

O IOS é o mecanismo que permite o Ser estender o cotidiano panótipico a todos os seus atos e desejos psico-patológicos contra o Nada Total. Fazendo cumprir-se a meta primeira do processo da Introjeção Opressiva Subjetiva, a de agente natural e gerador que rompe-e-une a simbiose que une o Nada ao Ser. Gerando o produto, no qual é em si pólo-objeto da relação simbólico-simbiotica, um objeto nada total, que constitui o próprio advento de Nada e de se vir-a-ser um Ser. O certificado IOS é um portador da subjetivação opressiva sublime-cotidiana, que garante o lugar privilegiado que o Ser em si apresenta e representa.

E para que não-conformidades a norma não ocorram. A certificação garante “oportunidades” e “privilégios” maiores ao Não-Ser que não é Ser e que também não é Nada. Impulsionam a imagem do (a) certificado (a); aumento da satisfação do certificador. A mudança de foco da condição cognitiva do Nada a prevenção de comportamentos fora da norma Ser. Esse certificado resultado de uma grande mudança psico-cultural e estruturante do afro-africano a todo custo do Não-Ser, que o Ser não a busca, sendo este último o certificador.

Por fim, a certificação normatizadora torna-se num almagma que se pendura nos corpos e mentes do Não-Ser e do Nada que busca ser um Ser. E este Não-Ser se apresenta utilizando uma narrativa psico-sociopatológica que adquiriu o selo branco por mérito e esforço próprio ao contrário de seus entes Nada, não certificados. Essa narrativa leva o certificado a uma condição suicido-radical as “tradições” afro-africanas, visto, as representações e simbolismos que as mesmas exalam. O todo negável e não desejável.

Transformado em um método processual, a Introjeção Opressiva Subjetiva não é apenas o meio, mas o fim, o passo importante na busca da condição Ser, que nunca se será. Percorrendo ainda a mesma metáfora psicanalítica, diremos que a sintomatologia da certificação incide sobre o corpo. Porém, de modo inverso ao da conversão Orí.

O fato de que não há diferença essencial entre a estrutura da e o modus socialantes e depois de se obter o selo. O fato de que mesmo após a certificação, os mesmos laços sociais hierárquicos, as mesmas, representações ideológicas que implicam em vermos aparecer à mesma sintomatologia. Na medida em que se trata de uma manutenção, de retorno de um laço social antigo e em um modo desocialidade posterior. Um Não-Ser é essencialmente um selo, e um selo de certificação, em virtude desse princípio, um certificado, sendo que selo e não total, diríamos que, é quase um pleonasmo, visto que o mesmo nasce para ser socialmente Nada. E durante toda a sua vida o Não-Ser, está destinado a morrer como Nada, visto que continua sendo um Nada para o Ser. Apenas definido e tratado como um Não-Ser, provisório, ou seja, revogável a qualquer momento pelo seu fornecedor visto que não se é realmente um branco e nem preto.

 

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Nkuwu-a-Ntynu Mbuta Zawua é antropólogo social

 

A pintura que ilustra o ensaio é de Jean-Michel Basquiat