Morreu hoje, na cidade do Rio de Janeiro, um exemplo acabado do predadorismo ariano elevado ao cubo, que passeia pelos trópicos como se estas terras lhes pertencessem. João Havelange, aos 100 anos, finalmente morre e deixa o Brasil livre de seu cinismo canalha, de sua alma corrupta e de sua arrogância doentia travestida de sabedoria superior. Um homem menor, a despeito de sua auto-avaliação, e dos obituários sabujos que infestam a torpe mídia brasileira. Só para ilustrar, vale relembrar que este cidadão estava recluso no Rio de Janeiro, temeroso de sair do país e ser encarcerado pela justiça americana devido à ação danosa de sua gangue na FIFA. Não à toa, foi um dos filhos diletos da ditadura militar brasileira. Foi tarde!

Baltazar Ramos

“Como Eles Roubaram o Jogo”: em preto no branco, tudo aquilo que a gente ouve falar da Fifa, mas não tem muito onde pesquisar

Nas minhas últimas férias consegui reler, desta vez com maior atenção, o livro “Como Eles Roubaram o Jogo – Segredos dos Subterrâneos da Fifa”, do jornalista inglês David Yallop.

O livro apresenta uma série de denúncias contra tudo aquilo que hoje comanda o Football Association. E “tudo aquilo” podemos entender como Fifa, João Havelange, Adidas, Joseph Blatter, Coca-Cola e outros nomes físicos e jurídicos conhecidos no meio esportivo.

Muita gente com senso crítico mais apurado vive com a sensação de que a Fifa fede. Outro tanto de gente tem certeza disso.

Faço parte do grupo que tem certeza de que o futebol é o que menos importa à dona Fifa.

E o livro pega muito pesado quanto a isso, especialmente com o brasileiro João Havelange, que seria o maior responsável pela deterioração moral e esportiva da entidade.

Tive duas motivações básicas para registrar a leitura desse livro aqui. A primeira, pela leitura em si e as denúncias fartamente documentadas, segundo o autor, que contém. A segunda, o recente lançamento do livro “João Havelange – O Dirigente Esportivo do Século XX”, de José Mario Pereira e Silvia Marta Vieira.

Não li essa obra em homenagem a João Havelange, mas, pelas resenhas publicadas, parece uma óbvia publicação chapa branca, que ignora todas as denúncias feitas contra o mandatário maior do futebol mundial no livro de Yallop, publicado em 1998. Não é uma publicação investigativa.

David Yallop, por sua vez, é um renomado jornalista investigativo, tendo escrito, inclusive, o polêmico “Em Nome de Deus – uma Investigação em Torno do Assassinato do Papa João Paulo I”, sobre a morte de Albino Luciani, livro que tenho vontade de ler.

Duas coisas chamaram a minha atenção desde a primeira leitura de “Como Eles Roubaram o Jogo”. A primeira, as contundências das denúncias. A segunda, uma entrevista a que assisti do autor em que o repórter pergunta se ele não teve muitos problemas após a publicação, problemas sob a forma de processos judiciais por calúnia, difamação e coisas do tipo. Pois Yallop respondeu que jamais sofrera qualquer processo legal, simplesmente porque ele estaria fartamente documentado e as pessoas porventura atingidas pelo livro sabiam disso.

Claro que uma informação dessas dá uma credibilidade maior ao trabalho do autor.

Mas, investigações à parte, nem tudo são flores no livro de Yallop. O jornalista britânico não consegue disfarçar um certo preconceito em relação ao futebol e às práticas sul-americanas (algumas vezes não sem razão), o que pode gerar um certa antipatia.

Para Yallop, os britânicos representam o bastião moral da sociedade, inclusive esportiva. Já os sul-americanos… Enquanto João Havelange é pintado como Diabo, seu antecessor, Stanley Rous, é um santo de boas intenções. Ao longo das páginas, é óbvio esse “dois pesos, duas medidas” do autor.

Sem querer me prolongar explicitando o conteúdo da obra, deixo um exemplo claro. Quando Geoffrey Hurst chutou aquela bola que não entrou, mas que juiz e bandeirinha disseram que foi gol e assim praticamente decidiram a Copa do Mundo de 1966 em favor da Inglaterra, Yallop argumenta que a reação do atacante inglês seria prova maior de que a bola ultrapassara a linha fatal.

Imediatamente após o chute, Hurst saiu vibrando, comemorando o suposto gol. Para Yallop, isso mostra que a bola ultrapassou a linha e só por isso o jogador festejou, pois, sendo britânico, seria incapaz de uma conduta antiesportiva que tentasse ludibriar a arbitragem.

Para quem lê o livro, fica claro que se em vez de um jogador inglês fosse um argentino (apenas imaginando uma simples troca de camisas), Yallop usaria a mesma reação do jogador (sair vibrando) para acusá-lo de maliciosamente tentar confundir os juízes da partida.

Lá pelas tantas comecei a considerar essa postura do autor até um tanto engraçada e ingênua. E quis registrá-la aqui mais por curiosidade. Até porque não preciso ser amigo do cara para reconhecer um trabalho bem feito.

E felizmente as falhas do livro, do meu ponto de vista, detêm-se a essas questões de julgamento de valor e não de apresentação de fatos. E isso é o que realmente importa.

Porque quando o assunto é fraude, corrupção, jogo sujo de bastidores, David Yallop parece muito bem embasado, seguro de suas afirmações e sempre garantindo possuir toda a documentação que solidifique suas acusações.

Talvez daí a falta de processos da parte de qualquer um dos nomes acusados no livro.

Eu recomendo “Como Eles Roubaram o Jogo – Segredos dos Subterrâneos da Fifa”, de David Yallop, a meus amigos e a todos aqueles que acompanham futebol ou esportes em geral.

Assim fica mais fácil entender certas coisas aparentemente absurdas e/ou sem sentido que envolvem a preparação da Copa de 2014 no Brasil. Da mesma forma que ocorreu nos preparativos das Copas de 2010, 2006, 2002, 1998, 1994…

Após a leitura do livro, até o mais inocente fã de futebol vai ter a certeza de que o jogo sujo no esporte mais popular do planeta vai muito além de uma partida disputada debaixo de temporal num campo de terra.

https://opiniaododavid.wordpress.com/2011/05/02/futebol-%E2%96%BA-como-eles-roubaram-o-jogo-em-preto-no-branco-tudo-aquilo-que-a-gente-ouve-falar-da-fifa-mas-nao-tem-muito-onde-pesquisar/

 

(Trecho)

“As vezes é preciso admirar o descaramento de Jean-Marie. Ele deve dinheiro. Não paga. E ainda por cima exige que o credor lhe dê mais dinheiro. ALém disso, quer que o credor concorde em não ir atrás dele para cobrar a divida caso insista em não pagar. Sempre esfuziante, ele simplesmente fica jogando a coisa de um lado para o outro, como os cheques sem fundos da sua empresa, que batem e voltam”.

http://diascomuns.blogspot.com.br/2012_01_01_archive.html

COI recusa homenagem a Havelange

O Comitê Olímpico Internacional se recusou a homenagear João Havelange — chamado pelo jornalista investigativo Andrew Jennings, especializado em corrupção no futebol, de “gângster” pelo conjunto da obra.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/coi-recusa-homenagem-a-havelange-para-temer-um-dos-mais-expressivos-lideres-do-esporte-mundial/