Domingos Caldas Barbosa foi um sacerdote, poeta e músico brasileiro, autor de lundus e criador da Modinha. Foi membro da Nova Arcádia de Lisboa.

Domingos Caldas Barbosa  foi um sacerdote, poeta e músico brasileiro, autor de lundus e criador da Modinha. Foi membro da Nova Arcádia de Lisboa.

Levando as batidas do lundu para

a Europa, Domingos Caldas Barbosa

fez sucesso entre a elite portuguesa

Adriana de Campos Rennó –

 http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/batuques-em-lisboa

Quando a primeira música foi gravada no Brasil, em 1902, havia ali a influência de um poeta e compositor que fez sucesso muito antes, ainda no século XVIII. A canção “Isto é bom”, de Xisto Bahia (1841-1894), era um lundu, gênero musical do qual foi precursor um brasileiro que viveu muitos anos em Portugal. Domingos Caldas Barbosa (1740-1800) misturou aos seus versos ritmos melódicos tipicamente africanos, dos batuques dos escravos. E deu um tom de novidade à poesia feita na sua época.
A importância do lundu, e, consequentemente, de Barbosa, está na maneira como esse gênero inspirou a criação de outros – o maxixe, inventado no século XIX, é um exemplo – e a carreira de artistas considerados pioneiros da música popular brasileira, como Chiquinha Gonzaga (1847-1935).

Barbosa deixou uma obra que contribuiu para a formação da identidade brasileira. O poeta viveu numa época em que a sociedade ainda procurava imitar em tudo a portuguesa, vista como o modelo a ser seguido. O mesmo acontecia na literatura, em que os autores lusos eram a grande referência. Mas os novos ritmos e letras com influência africana sugeriam que a Colônia era diferente da metrópole: maliciosa, malemolente, sensual, irreverente e encantadora – características que hoje são associadas ao modo de ser do brasileiro.

Com suas composições, Barbosa introduziu uma poesia menos rígida do que a neoclássica, que era a corrente em Portugal e se baseava numa linguagem nobre, elevada, capaz de manter os sentimentos sob o controle da razão. Ao “violar” as regras da época, o poeta abriu caminho para o que outras gerações consagrariam no futuro: uma expressão romântica, mais livre e subjetiva, repleta de versos com jogos de palavras que tinham uma forte musicalidade. 

“Nhanhá faz um pé de banco/ Com seus quindins, seus popôs/ Tinha lançado seus laços/ Aperta assim mais os nós (…) Logo que nhanhá saiu/ Logo que nhanhá dançou/ O cravo que tinha ao peito/ Envergonhado murchou”, dizia a letra de um de seus lundus. Barbosa já escrevia com a intenção de ter seus poemas cantados, e não lidos individualmente. Eles deviam servir de fundo para as danças de salão nas festas, fossem populares ou nobres, exaltando a graça do remelexo das mulheres de forma sensual e atrevida.

Já as modinhas – outro gênero musical do qual Barbosa também foi precursor – tentavam expressar os sofrimentos de amores não correspondidos ou nunca concretizados, mas de forma menos erótica do que os lundus: “Eu sei, cruel, que tu gostas,/ Sim gostas de me matar;/ Morro, e por dar-te mais gosto/ Vou morrendo devagar/ […] O veneno do ciúme/ Já principia a lavrar/ Entre pungentes suspeitas/ Vou morrendo devagar”. A musa desses poemas é inalcançável. O ritmo é mais arrastado, bem diferente das marcações aceleradas e pulsantes do lundu. A melancolia é um traço forte das modinhas, mais lentas e contidas, e ainda assim populares.

Como sua poesia, o próprio Domingos era resultado de uma mistura que marcou presença na formação do Brasil. Mulato, ele era filho de um funcionário público português, Antônio de Caldas Barbosa, e de uma escrava angolana de nome desconhecido. Nasceu assim que o navio que trazia seus pais da África aportou no Rio de Janeiro – ou mesmo dentro do navio, como sugerem alguns biógrafos – e estudou no Colégio dos Jesuítas, como a maioria dos filhos de portugueses abastados. Nessa escola escreveu suas primeiras poesias, com tendência satírica e repentista. Após servir como soldado na Colônia do Sacramento – região disputada por Portugal e Espanha, hoje parte do Uruguai –, foi enviado a Coimbra, Portugal, para estudar na universidade de 1770 a 1772.

Os planos de Barbosa mudaram assim que ele se instalou em Portugal e recebeu a notícia da morte de seu pai. Sozinho numa terra estrangeira onde não tinha parentes, abandonou a ideia de estudar porque precisava tratar do sustento. Passou a escrever versos encomendados pelos estudantes e a cantar em festas universitárias. Ele compunha, na maioria das vezes, na forma de improviso, para musicar e acompanhar os versos ao som de sua viola de arame. O apelo ao exotismo da mestiçagem cultural brasileira servia como uma espécie de “tempero” para a sua poesia, que fazia sucesso entre os jovens. Mas era durante as férias da universidade que Barbosa tinha mais dificuldades. A cidade ficava vazia, e o poeta, sem trabalho, chegou a passar fome.   

Sua vida mudou ao ser apadrinhado por dois nobres portugueses que conhecera em uma festa: José Luís de Vasconcelos e Sousa (1740-1812), genro do conde de Pombeiro, e seu irmão Luís de Vasconcelos e Sousa (1742-1809). De tão encantados com o talento de Barbosa, os dois o trataram como se fosse da família. Logo o ajudaram a se instalar definitivamente na corte em Lisboa, conseguindo para ele o cargo de capelão da Casa da Suplicação (o supremo tribunal de justiça do Reino de Portugal), o que o faria ser conhecido também como “Padre Caldas”.

Na capital do Reino, Barbosa participou das atividades artísticas patrocinadas pelo marquês de Pombal (1699-1782). Mesmo após a ascensão ao trono de D. Maria I (reinado, 1777-1816), o poeta continuou frequentando o Palácio Real. Seu prestígio no meio intelectual cresceu a tal ponto que em 1790 ele passou a presidir a Nova Arcádia, agremiação literária que se reunia no Palácio dos Condes de Pombeiro e pretendia reavivar a Arcádia Lusitana, associação semelhante extinta em 1774.

Alguns escritores consagrados da época, como Bocage (1765-1805), Filinto Elísio (1734-1819) e Agostinho de Macedo (1761-1831), participavam da Nova Arcádia, que deixou de existir em 1794, após desentendimentos entre seus membros. Barbosa às vezes assinava como Lereno Selinuntino, um pseudônimo bem ao gosto da moda pastoral do Arcadismo, o movimento literário do século XVIII que, retomando modelos clássicos, se opunha aos exageros do barroco, privilegiando temas ligados ao mundo natural. 

No entanto, nem tudo era luxo e festa na vida do poeta brasileiro. Alguns de seus colegas de literatura criticavam duramente sua obra e o viam como um simples “modinheiro”, um mero compositor de letras de músicas a serviço da diversão, de um sentimentalismo derramado, sem qualquer riqueza estética que o pudesse qualificar como um verdadeiro homem das letras.

Essa desconfiança persistiu ao longo dos anos, mesmo após sua morte, em 9 de novembro de 1800, em Lisboa. E é um dos fatores responsáveis por ele não ser tão conhecido quanto outros artistas da sua época, como Bocage e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ainda que a nascente geração romântica do século XIX tivesse promovido um resgate da sua memória com a publicação no Brasil, em 1826, do segundo volume de Viola de Lereno, coletânea com as composições de Barbosa. O primeiro volume havia sido lançado pelo próprio poeta em 1798, em Portugal.

Valorizando Barbosa, os românticos buscavam uma literatura nacional para sustentar a pátria que havia acabado de conquistar a independência política em 1822. E conseguiram: mesmo sem ser muito conhecida, a obra do poeta permanece, mais de 200 anos depois, nas raízes da cultura brasileira.

Adriana de Campos Rennó é professora da Universidade Paulista e autora de Caldas Barbosa e o pecado das orelhas: a poesia árcade, a modinha e o lundu (textos recolhidos e antologia poética) (Arte & Ciência, 2005).

Saiba Mais – Bibliografia

BARBOSA, Domingos Caldas. Viola de Lereno. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,     1944. v.1 e v.2.
TINHORÃO, José Ramos. Domingos Caldas Barbosa: o poeta da viola, da modinha e     do lundu (1740-1800). São Paulo: Ed.34, 2004.

Saiba Mais – Discografia

História da música brasileira II (vários, s/d)
Marília de Dirceu (vários, s/d)
Modinhas fora de moda (vários, s/d)
Modinhas e lunduns dos séculos XVIII e XIX (vários, 1997)
Música de salão do tempo de D. Maria I (vários, 1994)
1900: a virada do século (vários, s/d)
Ninguém morra de ciúme (vários, s/d)
Viagem pelo Brasil (vários, s/d)

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