Mães-de-Santo, mães de tanto. O papel

cultural das sacerdotisas dos cultos afro-brasileiros

O texto a seguir faz parte das pesquisas da antropóloga, phD. Rita Amaral, da USP. Foi disponibilizado no site Os Urbanitas (http://www.aguaforte.com/osurbanitas6/Amaral2007.html).

A autora traz no texto que deve também ser lido na íntegra no site citado acima, “alguns exemplos que tipificam a ação das mães-de-santo fora da esfera religiosa para mostrar de que modo a ação da mulher negra e religiosa foi sutil, inteligente e eficaz ao aproveitar todas as brechas sociais, todas as oportunidades de diálogo que a história lhes apresentou, como de resto os negros brasileiros sempre souberam fazer”.

Vale a pena aprender com Mãe Aninha(BA), Tia Ciata(RJ), Mãe Mirinha (BA), Mãe Malvina (SC), Sylvia de Oxalá (SP) e Mãe Badia, que todos os pernambucanos ouvem falar desde crianças nas cantigas dos carnavais, mas não sabem bem ao certo quem foi.

“Outras mães-de-santo intimamente ligadas à conservação das tradições afro-brasileiras religiosas ou a elas ligadas foram Dona Santa, Dona Madalena de Ogum e a legendária Badia –a Senhora dos Carnavais recifenses–, Sinhá e Iaiá (mãe e tia de Badia, respectivamente), mães e tias ligadas às nações de maracatu de Recife, em Pernambuco. Foram responsáveis por sua continuidade e, no caso de Badia, também pela conquista de espaços de legitimidade sociocultural dessa expressão ao mesmo tempo religiosa e profana.

A ligação da cultura africana com a música e a dança é tão forte que omaracatu pode ser tomado como uma expressão religiosa. Na verdade, o maracatu é manifestação lúdica dos grupos religiosos de culto jejê-nagô do Recife, assim como os afoxés o são na Bahia. Como a religião é vivida plenamente por seus fiéis, as marcas do ethos criado pela experiência religiosa se expandem para todas as dimensões da vida pessoal, inclusive as do lazer e do cotidiano (Amaral, 1992). Nos maracatus são realizadas cerimônias propiciatórias para a obtenção da proteção dos Orixás, do sucesso das apresentações e da realização dos desfiles sem incidentes. Além disso, as calungas são bonecas iniciadas, que representam os ancestrais e seus orixás sob nomes de nobres e fidalgos, recebendo e prestando reverências de natureza religiosa . Alguns dos grandes líderes do xangô de Recife e Olinda estão na retaguarda dos maracatus, como foi o caso do oluô Luiz de França, Dona Madalena de Ogum e outros.

Maria de Lourdes da Silva, Badia, costureira, casada e sem filhos, foi uma das principais mães do maracatu. Viveu sua vida no bairro recifense de São José, reduto de descendentes de escravos libertos tornados trabalhadores de baixa renda. A morada de sua família (Rua Vidal de Negreiros, 143) ficou conhecida como Axé das Tias do Pátio do Terço (devido à proximidade com a Igreja do Terço) ou Casa das Tias, constituído e liderado por xangozeiras; entre elas, Badia. A Igreja do Terço foi construída por escravos e, segundo alguns historiadores, a área próxima teria sido um cemitério dos negros escravizados.

Badia era conhecida por atender os que a procuravam oferecendo conselhos . Segundo Motta & Brandão (2002:62): “uma magopsicoterapeuta do maior destaque”. Recebia em sua casa pessoas poderosas da sociedade pernambucana e de outros lugares, com as quais estabeleceu alianças, ganhando fama e prestigio. Políticos, jornalistas, advogados, foliões e carnavalescos freqüentavam a casa de Badia, que fez dela o quartel general de sua crença e das brincadeiras de carnaval. Presidia a misteriosa Sociedade de São Bartolomeu (santo sincretizado em Exu, em Recife), formada por gente de diferentes origens, estratos sociais e confissões religiosas, como alguns xangozeiros “disfarçados” (Motta & Brandão 2002). A Sociedade se reunia para comemorar o santo aos 24 de outubro, na casa de Badia, com ladainhas, cânticos em latim e, na Igreja do Rosário dos Pretos, perto no Pátio do Terço, com missa.

Rei e Rainha (já falecidos) do Maracatu Porto Rico na Noite dos Tambores Silenciosos em 1978, no Pátio do Terço (Foto da Fundaj).

Foi Mãe Badia quem estabeleceu, juntamente com o sociólogo e jornalista Paulo Viana, na década de 1960, o encontro das nações de maracatu no Pátio do Terço para a cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Nesta noite, sempre uma segunda-feira de Carnaval, os maracatus se encontram no Pátio do Terço e tocam até meia-noite, quando fazem silêncio em reverência aos antepassados arrancados de sua terra e escravizados, revividos pela corte do maracatu. São feitas orações e os ancestrais são convidados, juntamente com Iansã, para fazerem parte da cerimônia. Os tambores ecoam forte, as luzes se apagam. Tochas iluminam o pátio. Pombas brancas são soltas e voam livres na noite. Paz, harmonia e sossego são pedidos aos orixás. O povo, em silêncio, levanta as mãos para receber as bênçãos. Mas os maracatus voltarão a tocar, mostrando o quão belo é o Recife pegando fogo na pisada do maracatu.

Olê, olê olá, negada olha a linha,
Sustenta esta pisada,
Nosso Rei, nossa Rainha
Toada de maracatu Negrada olha a linha (domínio público)

A idéia da cerimônia surgiu a partir da homenagem que as nações de maracatu prestavam aos orixás, por ocasião do carnaval, diante do Axé das Tias, onde as calungas, representantes dos ancestrais, dançavam. Para retribuir a honraria e homenagear os maracatus e seu simbolismo, Badia se empenhou em garantir esse encontro cerimonial que hoje integra a programação oficial do carnaval pernambucano, sendo visto como um de seus momentos mais sublimes.

Em 1977, Badia abrigou, também, em sua casa a agremiação Clube Carnavalesco as Coroas de São José. Atualmente, mais de 20 nações de maracatu participam da cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Alguns desses grupos são seculares, como o Nação Elefante, fundado em 1800 e o Maracatu Leão Coroado, de 1863. De acordo com matérias publicadas pelos jornais pernambucanos, sua contribuição para o Carnaval de Pernambuco não foi esquecida e seu nome é sempre lembrado e homenageado por agremiações famosas, a exemplo do Vassourinhas, Lenhadores e Bloco Saberé.

Dessa múltipla relação com o poder secular, mágico e espiritual, Badia, que nunca teve filhos carnais, embora tivesse adotado Lúcia, tornou-se a emblemática mãe do maracatu, juntamente com outras como dona Santa, do Maracatu Leão Coroado e Dona Madalena do Maracatu Elefante. A casa onde viveu é hoje o Centro Cultural Casa de Badia, dedicado à cultura afro-brasileira nos carnavais.”

Amaral, Rita. Povo-de-santo, povo de festa. Um estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulistano. Dissertação de Mestrado, FFLCH / USP, São Paulo, 1992.

Brandão, Maria do Carmo & Motta, Roberto. Adão e Badia: carisma e tradição no xangô de Pernambuco. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma – Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.

http://povodoaxe.blogspot.com.br/2010_03_01_archive.html

A foto que ilustra o texto no topo apresenta Mãe Badia