GarethVatete2012
Um Copo de Café e um Pedaço de Papel Velho

 Naquelas ruas quase vazias de gente, a sua figura despontava ao longe trazida pela leve brisa que soprava naquela tarde luminosa de verão, embora esguia, trazia o corpo arqueado pelo peso do tempo, já contava mais de sessenta longos anos, os cabelos eram alvos e finos fios de algodão que a vida se encarregara de pintar com o branco prateado que reluzia a luz do sol. Naquele bairro da Calçada da estação de trem que leva o nome de Estação da Bahia, sentou-se nos bancos de madeira dura e recortes bem delineados, descansou ao lado, as duas sacolas de que trouxera do bairro de classe a da cidade alta, onde desde menina,menininha,meninota frequentara, levando com a mãe, lavadeira da casa do bairro de classe a, a trouxa de roupas sujas, para lavar em sua casa, de um cômodo só, no subúrbio da pequena província, onde a passos miúdos, vicejava a cidade grande. Sentia-se cansada, cansada não era bem o termo, diria que estava em verdade, exausta. Doíam-lhe os membros, os ombros, as costas, a cabeça, as plantas dos pés, doía-lhe tudo, até mesmo o pensar, durante todo aquele tempo em que começou a trabalhar acompanhando a sua mãe, ainda menina, na casa da madame do bairro de classe a, se dera conta de que em momento algum tirara férias, nem descansara, só pudera afastar-se de sua lide quando sua mãe caira doente e ela, como a única filha, assumira o oficio de lavadeira,passadeira,cozinheira, baba, enfim,fazia tudo, porque a mãe fazia também daquela forma e por ter sido assim desde a mais tenra idade, não teve tempo de ir a escola, não teve tempo de divertir-se, não teve tempo de ser criança, não teve tempo de estudar. Desde que se entendeu por gente, soube que seus pais não sabiam ler nem escrever, situação difícil, mas, a luta pela sobrevivência exigia que cedo, muito cedo, se começasse a trabalhar para ajudar em casa, não sobrando espaços nem para o cuidado com a própria saúde. Morava só no bairro distante, num casa de um só cômodo, que fora mais habitada, onde moraram seus pais; mas, isso já faz tempo, faz muito tempo. Embora não soubesse ler, gostava de ver as figuras dos jornais e das revistas, que eram frequentes na casa do bairro de classe a, trazia alguns desses para casa, quando a madame não queria mais e para não ter que jogar fora dizia: ” tome, leve pra casa, pra você ver as figuras”. E assim, ela levava aquelas revistas e jornais para casa, recortava as figuras e fotos que continham e olhava e reolhava, já sabia de todos os detalhes daquelas figuras, mas, cada vez mais, encantava-se com a magia de ver “presa no papel” a paisagem de um lugar distante, ou, mesmo de sua cidade, um lugar daqueles como o Elevador Lacerda, tudo, tudo, ai, direitinho, como é na vida real, isso, só faltava estar lá, e entrar lá dentro. O que mais distraia naquela viagem era olhar o mar, aquele marzão bonito, lindo que só meu Deus, todo poderoso, para fazer tudo aquilo, aquele azul, que não tinha em nenhum outro lugar, nem nas revistas luxuosas que a madama mandava vir do estrangeiro. Sua vida era simples, simples e transparente como aquela água límpida que buscava no poço perto de sua casa para lavar a roupa da madama e de toda casa, ainda não passava água pelos canos, nas mãos as marcas de tantos anos de lavagens de roupas,de lavagens de panelas, lavagens de chão, que estavam tão cheias de calos, cortes, cicatrizes, que deixavam as palmas muito grossas. Depois da labuta diária, ao chegar a casa, trocava a roupa que vinha do trabalho, pela velha roupa de casa, remendada, mas, confortável. Naquele cômodo em que vivia e acostumara-se a viver sozinha, o chão de barro batido era coberto por jornais velhos, uma velha cama patente, uma pequena mesa, sobre a qual repousavam um prato de folha de flandres, um copo, um garfo e uma faca junto ao prato e mais ao centro da mesa, um pequeno prato de barro e uma vela, ao canto do cômodo, junto a parede um porrão de barro, que garantia água fresca em qualquer ocasião. Junto à mesa, em cima de uma cadeira, uma mala onde ela guardava as suas roupas e demais pertences. Em cima, as roupas que usava constantemente, no meio, as roupas de ir ao trabalho, embaixo, as roupas de ver Deus, e mais embaixo ainda, entre a tampa da mala e o forro, o seu grande segredo, segredo que não contara a ninguém. Sua mãe, nos últimos dias de vida, naquela mesma casa, umas três horas da tarde, tarde triste, chuvoso, em que as águas precipitaram-se, salpicando o chão de barro, de terra batida do doce lar.
– Minha filha, seu pai partiu. Ficamos sos, nós duas…e eu agora vou partir…mas antes, tenho uma coisa pra lhe dar… Ali naquele cano, ali onde esta o porrão, do lado direito dele, tem um tubo de metal enterrado, dentro dele, uns papéis, com um desenho bonito, coisa grande, de gente grande, eu não sei ler, nem você, mas foi o patrão de seu pai quem deu a ele, eu não sei o que e, seu pai não teve tempo de me dizer o que é, mas sei que e coisa grande, não entregue a qualquer um e nem fale com qualquer um só entregue a gente de confiança, tenha cuidado com as pisadas que dá no mundo e tenha cuidado com os caminhos que dá com elas.
          Após a partida da mãe, chorosa, ela deixou passar os dias de luto, envolvida nas vestes negras da dor não conseguia deixar de pensar naqueles que partiram tão cedo e depois de tamanha labuta sem um conforto sequer. Deprimida, deixou de ir trabalhar durante três dias,após o passamento da mãe, na porta de sua casa, no quarto dia pela manha, por volta das dez horas, aparece um homem, bem vestido de terno branco e gravata,chapéu panamá, como mandava a moda, trazia um recado:
– Bom dia, eu vim a mando da madame da cidade alta….ela pergunta por que vosmice não está indo trabalhar….
– Mas a patroa sabe que a minha mãe estava muito doente e faleceu, eu tava tomando conta dela, não pude ir trabalhar….
– Pois é, a madame disse que, se vosmice não for trabalhar, não iria receber nada no fim do mês, e tem mais, se não for amanha de manha cedinho,não precisa ir mais. Passar bem.              Dizendo isso, virou-se e caminhou uns dez passos. O horror que sentiu ao ouvir as ultimas palavras, paralisou-lhe a vontade, se madame não a quisesse mais, o que seria dela ? Onde arranjar outro lugar para trabalhar com ai, na casa de madame ? Não era o senhor doutor, marido de madame que dizia que ela e os outros que trabalhavam ali naquela casa tinham sorte, tiraram a sorte grande em ter madame como patroa e ele como patrão? Ambos eram bons, e a bondade deles deveria ser reconhecida. Ela não conhecia ninguém, cresceu sem conhecer ninguém, alem daquelas pessoas da vila e da madame e seus familiares, sua avó trabalhou pra madame, sua mãe trabalhou para madame, e só deixou de trabalhar quando morreu, ela não tinha outro caminho, é verdade que madame deveria ter mais consideração, sua mãe dedicou-se tanto tempo a madame…Então, ela percebeu-se que teria que enviar alguma resposta para a madame, e erguendo-se na ponta dos pés, gritou da porta de casa:
– Senhor, senhor…
O homem parou, tirou o chapéu, virou-se para ouvi-la:
– Sim….
– Diga à patroa que amanhã eu vou, amanhã eu vou, eu ‘tou lá amanhã de manhã, bem cedinho.
– Direi a ela, o que vosmicê está dizendo, bom dia.
  Aquela visita fez com que ela voltasse a realidade, lavou as panelas de barro, tomou da vassoura e limpou o quarto, deixou aberta a pequena janela e a porta para o ar entrar, sacudiu as roupas de cama, encheu o porrão, acendeu o fogão preparou a janta, buscou a roupa que iria sair no dia seguinte, precisava passar, acendeu o fogão a lenha, buscou o ferro e o preencheu com o carvão em brasa, passou a roupa que iria sair no dia seguinte. Antes de dormir, tomou um copo de café, comeu uma fatia de pão de sal, tipo bisnaga, agradeceu a Deus, deitou-se. No dia seguinte, de madrugada caminhava pela estrada longa em direção à estação de trem, saltaria na calcada e de lá, pegaria a marinete que levava ao bairro de classe a, da cidade alta. Ao chegar madame foi ríspida, nem respondeu ao seu cumprimento de bom dia,nem quis lhe dar muita atenção, sequer dirigiu-lhe sentimentos pelo passamento de sua genitora, madame apenas lhe disse:
– Manda quem pode, obedece quem tem juízo e você amostrou que tem juízo, na lavanderia tem muita roupa pra você…anda,anda..
– …mas eu quero explicar pra senhora madame… – Não tem o que explicar, vá fazer suas obrigações…
     Ela virou-se, rumou para a cozinha, no fundo da casa, entristecida, buscou na memória desde quando vinha ali,naquela casa com sua mãe, os olhos encheram d’agua, mas, a vida é essa mesma, a vida é assim mesmo. Trabalhou, trabalhou muito, teria que por em dias, as roupas acumuladas, madame dera pouco tempo para que ela cumprisse a tarefa, madame sequer perguntou por sua mãe, pelos últimos momentos, madame é muito impaciente, muito impaciente. Três meses após o passamento de sua genitora, ela reuniu em si coragem e de porta e janela trancadas, começou a cavar com cuidado, o local onde sua mãe indicara, cavou, cavou, cavou e encontrou uma pequena caixa de metal em forma de tubo, envolvida em jornais velhos e em um saco plástico. Cuidadosamente retirou o plástico, os jornais e abriu a caixa, tirou de dentro um maço de papéis grossos, com um símbolo no alto da página, números, assinaturas, selos, e assombrou-se, o que era aquilo? Sabia ser coisa grande, sabia ser coisa do governo, já vira um papel igualzinho na casa da madame, quando fora até o gabinete do senhor doutor para limpar a mesa e viu entre os papéis que ali estavam alguns com aquele desenho no alto, pois é, o senhor doutor, muito renomado, muito famoso, tinha até uma boa clientela, era gente entrando e saindo daquela casa, gente de carros, fazendas e dinheiro, muito dinheiro. Não sabia ler e a resposta estava na magia das letras e dos números, quem poderia decifrá-los? Quem seria de tamanha confiança que poderia decifrá-los e dizer a ela do que se tratava. Sua mãe disserá-lhe que só desse aqueles papéis a uma pessoa de grande confiança, quem? De imediato não sabia a quem confiar semelhante tarefa, ficaria calada, aguardaria o momento e a pessoa certa, resolveu esconder o calhamaço de papel naquela velha mala que guardava suas roupas e objetos pessoais, descosturou o forro, e enfiou, entre este e a tampa da mala, o tubo de ferro, contendo o maço de papel, detentor de tantos anos de segredo. E assim, dessa forma, continuou trabalhando na casa da madame, durante anos e anos, ia trabalhar com sol, com chuva, com chuva e sol, feriados, dias santos, só descansava no domingo, porque no domingo madame e familiares iam para a fazenda, aos domingos ela aproveitava para levantar-se um pouco mais tarde, ao acordar, sentava-se a cama, buscava na velha mala, logo em cima, o velho terço, cujas contas desfiava fervorosamente, e os dias passavam, e junto com eles, os anos. A coisa não andava muito boa na casa de madame, ela dispensara três das cinco auxiliares e a madame disse-lhe que ela só permaneceria, porque conhecera sua mãe e em consideração a ela, a sua memória, deixaria que ficasse, muito embora, tivesse que reduzir o seu salário e aumentar as suas tarefas para compensar a ausência dos empregados que foram dispensados, mas sobretudo, ela permaneceria porque era uma pessoa de confiança, de extrema confiança da família. Até a dispensa estava mais vazia, e os convidados rarearam. Nesse dia, ao sair da casa de madame, durante o percurso entre a estação de trem da calçada e a sua casa pensou que o doutor, marido da madame poderia ser a solução para solucionar o seu problema. Conversaria com a madame, lhe contaria o seu segredo e pediria que ela interferisse junto ao doutor, seu marido, que era homem de saber. Chegando a casa, preparou-se para o outro dia, abriu a mala e descosturou o forro, tomou do tubo de metal em que estavam os documentos deixados pelo seu pai, no dia seguinte, entregaria a madame, contaria a sua história e entregaria tudo aquilo a madame. E assim foi feito, ao chegar, pediu para falar com a madame, essa, depois de cinco horas, veio ao seu encontro, humildemente, ela pediu a madame que entregasse aqueles papéis ao seu marido, e contou toda a história, e disse a madame que só estava entregando aqueles papéis a ela, por ser a pessoa de sua maior confiança, ao que a madame respondeu: “Olhe, o doutor está muito ocupado, estamos atravessando um momento difícil, a sua resposta vai demorar um pouco, quando ele estiver mais tranquilo, eu falarei com ele.”
-Sim senhora, muito obrigada,a senhora é muito boa!
    Passaram-se três meses, a patroa colocou os documentos em qualquer lugar e cheia de preocupações terminou por esquecer deles, até que, um dia, estando o doutor patrão em casa, e vendo de longe a lavadeira, ela, a patroa, lembrou-se do pedido e foi procurar onde tinha colocado os papéis, encontrando-os, levou-os para o marido que os abriu, não sem antes reclamar:
– Você acha pouco o meu trabalho é ? Ainda me traz mais… – Parou no meio da frase.
– O que foi,ela perguntou, está se sentindo mal ?
– Madame, de quem é isso ?
– É daquela criatura que lava pra gente…já tem tempos…
– Eu não lembro…
– Pois lembre…a avó dela lavava pra minha avó, a mãe dela lavava pra minha mãe e agora ela lava para nós….
-pois é madame…estamos ricos, estamos ricos de novo, meu Deus, voltou tudo pra gente, estamos ricos…
– Mas como ?, não estou entendendo, o que você quer dizer ?…
– Esses papéis, esses papéis valem milhões, é uma doação de terras dentro uma área petrolífera aqui perto, a venda, a negociação dessas terras nos deixará ricos, ricos, ricos outra vez… como ocorreu há muito tempo, o dono não tinha noção do valor das terras e por isso doou uma área tão grande para o pai dessa moça…
– E o que direi a ela ?
– Ora mais, você mesma diz que nem ela nem ninguém da família dela sabe ler ou escrever, logo, ela não sabe o que está escrito aqui, seremos os procuradores dela, ela irá ao cartório, porá a digital, transferindo para nós a posse e todos os direitos em relação àquelas terras…aquelas terras madame, valem ouro. Amanhã mesmo, irei dar andamento nesses papéis, é coisa que não se pode esperar..
– E ela ?
– Invente a senhora uma desculpa para tal…eu cá já tenho minhas ocupações. Prepare a lavadeira para apor a assinatura, isto é, o dedo…
– Como justificar ? Perguntou ela…
– Diga-lhe que precisamos de sua presença e assinatura numa negociação nossa e que ela, por ser de confiança, terá o privilégio de fazer-nos esse favor…..
     E levantou-se em direção ao cofre que ficava no quarto ao lado,com o tubo de metal que guardava os papéis, dizendo: “Isso aqui tem que ser bem guardado, isso aqui, vale ouro.” E foi feito, tal e qual eles combinaram. A vida voltou a estabilizar-se para eles, casas, fazendas,carros,perfumes,uísques…. A lavadeira foi até um escritório de negócios onde após sua assinatura, como pessoa de confiança da família, participou de um momento solene, de repente, ao sair com a madame do escritório, sem saber nem porque sim nem porque não, perguntou num ímpeto, misturado com ansiedade e ousadia:
– Madame, e aqueles papéis que eu entreguei a senhora, o senhor doutor já olhou ?
– …….que papéis ? Interrogou a madame, enquanto procurava no seu íntimo uma saída convincente…
– Oxente madame, aquele papel que estava no tubo de metal que eu dei pra senhora pra pedir ao doutor pra traduzir, me dizer o que ‘tava escrito, a senhora deu pra ele olhar ?
– Ah, aquilo…..jornais velhos, cartas desse povo que não tem o que fazer, lixo, em suma lixo…..
E ela desapontada,
– Bom se é assim, a senhora então me devolve … – Devolver, devolver ? Aquilo estava cheio de poeira, joguei fora, não quero levar doença pra casa não…bom como o patrão é bom, você hoje vai voltar de carro pra casa que nem madame, que nem eu…de chofer e tudo, de automóvel,de automóvel…
   Ao chegarem em casa, madame disse a ela, “você já viveu o seu dia de rainha, agora vai ver aquelas roupas lá no tanque, quando passar pela cozinha chama a Esmeralda, tenho uma incumbência pra ela.
Esmeralda vai até a sala,
– Madame, a senhora me chamou ?…
– Chamei, traga uma bandeja com uma garrafa de champagne e duas taças de cristal, daquelas para dias especiais….
Chegaram as taças e o champagne, trazidos por Esmeralda, brindaram.
– Aos belos dias vindouros…
– Aos belos dias vindouros.
   Ao final do dia, ela aprontou-se para retornar a casa, antes esperou o trem na Estação Jequitaia, o percurso de quinze quilômetros distraia-lhe das agruras da vida, chegara a casa, acendeu o fogão de lenha com muita dificuldade, botou a água do café pra ferver, pós o pó, coou o café e encheu o copo de flandres, vira madame e o doutor brindando felizes com taças de prata, encheu o copo, levantou no ar e brindou a si mesma:
– À luta do dia que foi, e a luta dos dias que virão.
     Quando se luta por uma boa causa, a luta não é vã e ainda que percamos a batalha, no fundo, no fundo, há um tantinho de vitória em tudo o que se luta. Sentou-se no humilde catre, desfiou as contas do terço, dormiu, dormiu como nunca tinha dormido antes, afinal, já não mais existia a preocupação de guardar aquele segredo, tanto tempo guardado, no fundo de uma mala, num tubo esguio, de metal antigo. Papéis velhos, jogados ao lixo, madame era muito boa, pra que guardar tanto micróbio …..

Fátima Trinchão

http://www.fatimatrinchao.net/visualizar.php?idt=4934319

A pintura que ilustra o conto é “Vatete”, de Gareth Nyandoro