Duas traduções rápidas e

coloquiais de poemas de warsan shire

Por Maíra Mendes Galvão*

para mulheres que são difíceis de amar

você é um cavalo galopando sozinho
e ele tenta te domar
te compara a uma estrada impossível
a uma casa pegando fogo
diz que você o cega
que ele nunca conseguiria te largar
te esquecer
querer outra coisa que não seja você
você o atordoa, você é insuportável
todas as mulheres antes ou depois de você
estão submersas no seu nome
você enche a boca dele
os dentes dele doendo com a lembrança do gosto
o corpo dele é só uma sombra comprida procurando a sua
mas você sempre foi intensa demais
assustadora por causa do jeito que você o deseja
sem vergonha e sacrificial
ele te diz que homem nenhum se compara àquele que
mora na sua cabeça
e você tentou mudar não tentou?
fechou mais sua boca
tentou ser mais delicada
mais bonita
menos volátil, menos desperta
mas mesmo dormindo você sentia
que ele estava se afastando de você em sonho
então o que você queria fazer, querida
partir o crânio dele?
você não pode fazer seu ninho nas pessoas
alguém deveria ter te dito
e se ele quer te abandonar
deixe que abandone
você é assustadora
e estranha e bela
e isso nem todo mundo sabe amar.

Desculpas por fracassarmos no amor

Gosto de ficar só e por isso faço coisas solitárias.
Amar você era como ir para a guerra; nunca voltava igual.
Você odeia mulheres, assim como seu pai e o pai dele, então é hereditário.
Estava vagando pelo estacionamento dilapidado que é seu coração procurando uma carona para casa.
Você é uma cidade-fantasma e eu sou patriótica demais para ir embora.
Eu fico porque você é o começo do sonho de que quero me lembrar.
Não retornei a ligação porque ele gosta de mulheres sem voz.
Não é que ele queira ser mentiroso; é que ele simplesmente não sabe a verdade.
Não consegui amar você, você era uma miniguerra.
Cobrimos o poço da perda com piadas.
Eu não queria fracassar no amor como nossos pais.
Você fez o nômade em mim construir uma casa e se acomodar.
Não sou cachorro.
Estávamos tentando provar que nosso sangue estava errado.
Eu ainda estava me sentindo solitário, então fiz coisas ainda mais solitárias.
Sim, sou insegura, mas minha mãe e a mãe dela também eram.
Não, ele me ama sim, só me faz chorar demais.
Ele sabe de todos os meus segredos e mesmo assim quer me beijar.
Você foi cruel demais para ser amado por muito tempo.
Simplesmente não funcionou.
Meu pai foi embora uma noite e nunca mais voltou.
Não consigo dormir porque o gosto dele ainda está na minha boca.
Eu o cortei pela raiz, ele era minha árvore favorita, apodrecendo, pondo em risco a fundação da minha casa.
As mulheres da minha família morrem esperando.
Porque eu não queria morrer esperando você.
Eu tive de terminar, me sentia solitária quando ele me abraçava.
Você é a música que eu ouço várias vezes até decorar a letra e sentir náusea.
Ele me mandou uma mensagem que dizia “te amo demais.”
O coração dele não era tão bonito quanto o sorriso.
Manipulamos um ao outro emocionalmente até pensarmos que era amor.
Me perdoe, estava carente e te escolhi.
Sou uma amante sem um amante.
Sou incrível e sozinha.
Pertenço profundamente a mim.

 *https://turgescencia.wordpress.com/2016/03/01/duas-traducoes-rapidas-e-casuais-de-poemas-de-warsan-shire/

The poet Warsan Shire writes primarily about the immigrant experience, but also tweets about reality television.

Warsan Shire

É uma poeta rara que pode escrever de forma comovente tanto  sobre a migração Africana para a Europa quanto twittar com humor sobre o reality show VH1 “Love & Hip-Hop:. Atlanta”.  

Warsan Shire é uma mulher somali-britânica de vinte e seis anos de idade, laureada em Londres como Jovem Poeta Real em 2014.

Nascida no Quênia, filha de pais somalis, cresceu em Londres, onde, diz, sempre se sentiu uma estranha. Representa em si o tipo de mudança de forma, espírito e cultura comum na maioria das pessoas que não podem rastrear seus antepassados na memória do país onde se estabelecem. Nessa espécie de limbo, Shire evoca uma nova linguagem de pertencimento que descreve como o “surrealismo do cotidiano da imigração, que faz com que um dia se esteja em seu país de nascimento, divertindo  se, bebendo suco de manga, e no dia seguinte está no metro em Londres vendo seus filhos falando em um idioma que não entende”.

Sua poesia evoca saudades de casa, e muitas vezes é uma saudade baseada em memórias alheias, como as de pais e avós, tios e tias, que de alguma maneira forjam na memória dos mais novos uma idéia de pátria ancestral.

Com cinquenta mil seguidores no Twitter e um número similar de leitores no Tumblr, Shire, demonstra de maneira eloquente a vida cotidiana de um jovem poeta, num momento único da história humana, quando autores podem se fazer notar de modo próprio e imediato sem o filtro de editores ou agentes de marketing, o que se facilita, pode também ser uma armadilha à medida que a única pessoa consultada sobre a pertinência de um texto, uma foto, um poema, passa a ser o próprio produtor deste texto, desta foto, deste poema. 

 

Shire diz que está mais interessada em escrever sobre pessoas cujas histórias são ou não dita ou dita de forma imprecisa, especialmente imigrantes e refugiados.

Leia mais em:

http://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/the-writing-life-of-a-young-prolific-poet-warsan-shire