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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Adeus à pesquisa.

Viva a morte! Abaixo a inteligência! 

Por Patrick Mariano
(especial para o Viomundo)

O tempo em que se glorifica a indigência intelectual exige, como consequência, a exaltação da violência. Se a racionalidade é sobrepujada, resta a força bruta.

O jovem ministro interino da Justiça Alexandre Moraes, publicamente, sem qualquer receio, decretou a morte da inteligência essa semana ao defender menos pesquisa e mais “equipamentos bélicos” na política da sua pasta.

Antes disso, já havia permitido ser filmado todo de preto e com um facão na mão, destruindo uma plantação de maconha sabe se lá onde.

A imagem diz muito sobre o desrespeito à liturgia do cargo, mas há mais, infelizmente.

Espalhafatosamente, deu uma entrevista causando temor em turistas do mundo inteiro ao prender supostos terroristas e, depois, vedou qualquer contato dos advogados dos jovens presos por dias.

Ao defender menos pesquisa e mais “equipamento bélico” fez com que a política de segurança pública do governo interino descesse ao nível de um programa policial. A intervenção do ministro nada fica a dever às análises de Datenas e que tais.

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No momento em que você lê este texto, oitenta anos se passaram do assassinato do poeta Frederico García Lorca.

Lorca foi fuzilado aos 38 anos por rebeldes antirrepublicanos de Granada, em 1936. Cerca de vinte anos após sua morte, seu nome foi tabu e sua obra proscrita na Espanha de Franco. Hoje, é o escritor espanhol mais traduzido de todos os tempos, sem excluir Cervantes.

O grito dos fascistas era exatamente esse: Viva a morte! Abaixo a inteligência!

Quem exalta a irracionalidade e cultua a violência não tolera a poesia.

Um pouco mais afastado da Granada de Lorca, na Universidade de Salamanca e na abertura do ano letivo de 1936, há um diálogo clássico relatado por Paul Preston em “Las tres Españas del 36″, em que José Millán-Astray y Terreros, militar da extrema-direita espanhola foi trucidado moralmente por Miguel de Unamuno.

Unamuno era reitor da universidade e, em certa solenidade, foi interrompido por Millán e sua legião aos gritos de “Viva a morte” e, depois “morra a inteligência”. Ao que Unamuno responde:

Venceredes, pero non convenceredes. Venceredes porque tedes sobrada forza bruta; pero non convenceredes, porque convencer significa persuadir. E para persuador necesitades algo que non tedes: razón e dereito na loita. Paréceme inútil pedirvos que pensedes en España.

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Alexandre de Moraes comanda uma das pastas mais importantes do governo interino, mas não é um carro alegórico único na esplanada no quesito atentando à inteligência. Disputam com ele os ministros da Educação, do Itamaraty e o da Cultura. Exemplares típicos da racionalidade do pós-golpe se revezam em declarações e fatos patéticos.

Cuidar da segurança pública de um país continental com 200 milhões de habitantes, sem pesquisa, inteligência e estatísticas agride o bom senso, mais até que posar com facão na mão.

Defender, como contrapartida, aumentar “equipamentos bélicos” e permitir que armas apreendidas sejam usadas no “combate ao crime” nos dá a exata dimensão da sua grandeza de agente público.

O mantra “tiro, porrada e bomba” vai bem a calhar na contagiante batida do funk, já quando se torna essência de política pública representa a violência e irracionalidade, típicas do fascismo.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/patrick-mariano-adeus-a-pesquisa-viva-a-morte-abaixo-a-inteligencia.html

Comentário Vinte:

Se há uma outra pessoa que represente o paulista médio, no que este tem de mais caricato e pouco adequado a um mundo de relações sociais civilizadas -entenda-se civilizadas não como ridiculamente descritas nas revistas dirigidas à classe média consumista pouco afeita a leituras que não uma nota do twiter, mas como um conjunto de valores ligados à compreensão e à tolerância recolhidas ao longo da história humana e preconizadas pelas mais célebres mentes humanas como ideais para a formação de um ser humano digno do termo-, além do tosco José Serra, ou do titubeante mas cínico Geraldo Alkmin, esta pessoa só pode ser o sr. Alexandre de Moraes, que chega a este posto pelo conjunto da obra meticulosamente planejada para agradar aos seus iguais.