Relicário

Meu corpo é das delicadezas,
enxovais completos,
toalhas brocadas,
iniciais maiúsculas no tapete do chão.

Meu corpo é um antiquário –
memória fina do inútil,
seara do translúcido.

Meu corpo é das delicadezas,
asas de transparente voar,
périplo de rotas insondáveis.

Lívia Natália

Água Negra é um mergulho pra dentro de nós mesmas. Depois de séculos sendo personagem, nos tornamos senhoras de nossas histórias. Sem o imaginário preconceituoso de uma sociedade branca, racista, sexista, homofóbica, judaico-cristã, na tarefa incansável de sair do lugar de submissão e inferioridade historicamente reservado às escritoras negras. A mulher negra como mero objeto de uso e abuso masculino: ora explorada sexualmente, ora máquina insaciável de prazer. Água Negra nos devolve nosso corpo.

É revigorante e motivador acompanhar a reelaboração da mulher negra através dos escritos de Conceição Evaristo, Alzira Rufino, Esmeralda Ribeiro, Elizandra Souza e agora, Lívia Natália, uma grande alegria. Felicidade maior ainda em saber que Água Negra será lido na contramão das estatísticas.

A invisibilidade de escritoras negras no mercado literário não quer dizer que inexista uma produção fora do mainstreem das grandes editoras – assim como a invisibilidade de nomes na literatura brasileira não significa que elas não tenham existido, registros datados a partir de 1700 revelam escritoras como Rosa Egipcíaca, Teresa Margarida, Maria Firmina dos Reis, Luciana de Abreu, Auta de Souza, até chegarmos em Carolina Maria de Jesus, sem dúvida, um divisor de águas, já que foi fortemente comentada pelos meios de comunicação, ainda que tenham investido em desautorizá-la.

Toda vez que uma mulher negra fala por si mesma numa obra literária, ela empodera e dá voz a milhares de outras mulheres, Negras ou não.

A escrita de Lívia é “das delicadezas”, uma escrita de saia rodada, feminina e afiada. Ela carrega um abebe e um ofá e baila tanto ao som do agueré quanto o ijexá. Com sua voz macia, porém firme, nos guia por céus estrelados e nos desagua no colo de Orixás Omi.

Água Negra é um pedaço de mim, de você, das nossas e dos nossos. É água, Omi, barriga fértil gerando sonhos, desejos, esperanças.

Como todo rio, segue o seu curso e quando necessário traça novos caminhos. Lívia nos conduz por esses caminhos. A sua poesia é assim, tem passado e futuro, amor e dor, doce e amargo. Água Negra, como nós, mulheres negras, tem raízes e asas. 

Mel Adún é jornalista e poeta dos Cadernos Negros.

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