Gênero, raça e

religião em Hancock

Por Alexander Martins Vianna*

A produção do filme Hancock iniciou em 2007, mas foi concluído e lançado somente em 2008, ou seja, num ano de intensa campanha eleitoral nos EUA, em que um dos candidatos para presidente era negro e batista: o então senador Barack Obama (b. 1961), que já havia lançada, em 2006, o livro “The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming the American Dream” e lançara, em 2008, o livro“Change We Can Believe In: Barack Obama’s Plan to Renew America’s Promise”.

Então, é revestido de particular significado conjuntural o fato de a produção do filme ter interesse em um super-herói negro. O ator escolhido para protagonizar o papel não é menos significativo, pois, aos 40 anos de idade, o ator Will Smith (n.1968) já havia provado a sua capacidade de fazer performances tanto para o drama quanto para a comédia. Não por acaso, as duas chaves são intermitentes ao longo do filme, com a música sendo eficazmente editada para fazer o espectador transitar entre um pathos e outro.

Até os 40 anos, podemos dizer que a imagem canônica de Will Smith esteve muito marcada pela tradição dramática “black face” do cinema norte-americano, ou seja, a representação de atores negros como engraçados, ingênuos, malandros, pouco letrados, irresponsáveis ou inábeis em regras de etiqueta WASP. Esta imagem canônica da carreira do ator foi um óbvio ingrediente para compor expectativa moral, religioso e racial a respeito do super-herói Hancock. Hancock não é um anti-herói, mas um herói adormecido pela ignorância de sua própria origem, mas que pode tomar consciência de seu potencial, chamado ou vocação, se for adequadamente civilizado/doutrinado ou despertado por valores morais mais “excelentes”.

No começo do filme, a primeira aparição cênica do personagem rompe propositadamente com a expectativa de se encontrar o cânone do super-homem branco, protestante e da excelência moral de classe média: o contraste entre a música hap e o country urbano melancólico ou o blues, a condensação cênico-moral do close na garrafa vazia, o aspecto desleixado e sujo, tudo compõe uma abertura metonímica gradual para o exato antítipo de excelência moral da classe média branca protestante. Hancock não inspira as crianças, mas é detratado por elas, é um “asshole”. Para completar isso, mesmo quando se arvora em “combater o crime”, a sua ação sai mais cara para a cidade do que o próprio crime, pois, sendo um “negro grosseirão e ignorante”, é inábil para preservar a propriedade privada e o patrimônio público, ou é muito rústico ou desmedido quando age em prol de alguém.

Até que sua história seja revelada, a expectativa causada pela presença de Will Smith, por sua performance, pela sua caracterização e figurino, assim como, pela música, sinalizam para o oposto do lugar moral, social e racial do super-homem, pois não há diferença entre o “estilo de vida” de Hancock e um pícaro ou vagabundo. Nesse sentido, o filme explora uma expectativa marcada por estereótipos da tradição “black face”, facilmente transferíveis para o personagem devido à presença cênica do ator Will Smith.

Depois de apresentar Hancock numa chave moral-racial da tradição “black face”, cria-se a chave óbvia para o drama de redenção em torno do despertar da “verdadeira vocação” do super-herói trágico protestante: aprender a autocontenção ou o autolimite como condição de possibilidade para realizar o seu destino, qual seja, salvar e inspirar a humanidade com seu exemplo decaritas/sacrifício, pois querer fugir de tal destino apenas lhe causaria mais sofrimento. No entanto, para ter sua consciência despertada para tal missão, precisará de uma intervenção moral-missionária-educativa, que vem de uma família branca de classe média suburbana, repleta de ideias liberais (i.e., democratas no campo político norte-americano) sobre coisa pública e sobre a salvação do mundo.

Antes de o segredo de Mary Embrey ser revelado para o público e para Ray Embrey, o que o público tem imediatamente à disposição de sua expectativa é a representação da família de classe média branca, suburbana e democrata, numa chave nostálgica de american way of life: o marido de bom coração (homem-de-bem) e caridoso trabalha fora, enquanto a esposa cuida dos afazeres da casa e da educação do filho único do casal. Na representação das relações de gênero entre os protagonistas do filme, a mulher cuida da ordem doméstica enquanto o marido atua na esfera pública.

Depois que o segredo de Mary Embrey é revelado, nada na trama, na caracterização da personagem, nos jogos cênicos e na música convida a esperar dela um papel de super-herói, pois quem tem a missão de salvar e inspirar as pessoas na esfera pública, se devidamente civilizado nos códigos morais do protestante branco suburbano de “bom coração”, é o masculino excepcional e negro, Hancock.

Embora Hancock e Mary sejam um casal original, tal como Adão e Eva, os seus séculos de vida revelaram a inviabilidade de se manterem juntos: a sua aproximação carnal significa vulnerabilidade física, sofrimento e risco de morte violenta. É sempre oportuno lembrar que Mary é protagonizada pela atriz sul-africana Chalize Theron (n.1975), caracterizada como branca e loura na trama, tal como o seu marido Ray Embrey.

Num país, como os EUA, que ainda tem forte resistência em aceitar relacionamentos inter-raciais, o filme não propõe, como condição de possibilidade, um final feliz para Mary e Hancock, mas para Mary e Ray, enquanto o super-herói negro é desinvestido da possibilidade de ter felicidade conjugal somada à atuação na esfera pública – possibilidade que é somente reservada a Ray. Portanto, ser um super-herói significa ter a disposição para o auto-sacrifício e para a autocontenção. Por outro lado, mesmo depois de revelada a condição de Mary, a trama valoriza o fato de ela continuar a ser uma pacata housewife, sem maiores pretensões de usar seus poderes – maiores do que aqueles de Hancock – na esfera pública.

Enfim, tudo na trama do filme, na caracterização de personagens, na música e na performance dos atores convida para uma expectativa conformista sobre as relações de gênero e os códigos religiosos e raciais. O ponto central é adequar o corpo e a mente do negro excepcional às expectativas morais, religiosas e raciais WASP. É inevitável chegar a esta conclusão sem pensar em como foram conduzidas a campanhas pró-Obama nos EUA. Não se trata de estabelecer um vínculo causal simples entre as campanhas e livros promocionais de Obama e o filme Hancock, mas de afirmar que este produz a presença de expectativas e ansiedades raciais, religiosas e de gênero que foram também fortemente despertadas pelos êxitos políticos e pela invenção biográfica de Barack Obama entre 2004 e 2008.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Hancock
Lançamento: 2008 (EUA)
Direção: Peter Berg
Duração: 92 min.
Roteiristas: Vince Gilligan; Vicent Ngo
Atores principais: Will Smith; Jason Bateman; Chalize Theron.

*https://espacoacademico.wordpress.com/2011/12/14/genero-raca-e-religiao-em-hancock/