Chimananda Ngozi Adichie

Tradução do discurso de Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, na formatura da classe de 2015 da faculdade americana Wellesley. Tradução de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas*.

Olá, Turma de 2015! Parabéns!

Obrigada pela maravilhosa acolhida. Obrigada a Presidente Bottomly pela maravilhosa apresentação. Eu admiro Wellesley há muito tempo. Sua missão, sua história, seus sucessos. Agradeço muito vocês terem me convidado. Vocês são ridiculamente sortudas de estarem se formando neste bastião de excelência, nesse lindo campus. E se os deuses e deusas do universo fizerem a coisa certa, vocês em breve poderão orgulhosamente dizer que são ex-alunas da mesma instituição que produziu a primeira presidenta do EUA. Vai Hillary!

Eu estou muitíssimo feliz de estar aqui hoje. Eu estou tão feliz que quando descobri que a cor da turma de vocês é amarela pensei em usar uma sombra amarela nos olhos em homenagem. Porém, pensando melhor, mesmo admirando tanto Wellesley, usar uma sombra de olhos amarela seria um tanto exagerado. Então, resolvi usar esse turbante quase amarelo.

Por falar em sombra de olhos, eu não me interessava muito por maquiagem até os 20 anos, quando comecei a usar maquiagem por causa de um homem. Um homem barulhento e desagradável. Ele era um dos convidados num jantar na casa de amigos em Lagos. Eu também era convidada. Eu tinha 23 anos, mas as pessoas sempre me diziam que aparentava ter 12 anos. A conversa no jantar era sobre a cultura tradicional Igbo. Sobre um costume que permite que apenas os homens possam quebrar a noz-de-cola. E a noz-de-cola tem uma simbologia importante na cosmologia Igbo.

Eu argumentei que seria melhor que essa honraria fosse baseada em mérito e não em gênero. Esse homem olhou para mim e disse, desdenhosamente:“Você não sabe do que está falando, você uma garotinha”. Eu queria que ele discordasse do conteúdo do meu argumento, mas ao olhar para mim, jovem e mulher, foi fácil para ele ignorar o que eu falei. Então, decidi tentar parecer mais velha. E achei que um batom e delineador poderiam me ajudar. Eu sou muito agradecida a esse homem, pois desde então eu comecei a amar maquiagem e suas maravilhosas possibilidades de transformação temporária.

Eu não contei essa história engraçada para ilustrar como descobri as injustiças de gênero. Esta história é apenas uma ode à maquiagem. É só para dizer que sua graduação é uma ótima ocasião para comprar batons — se você gostar de maquiagem — pois, o tom certo pode melhorar um pouco seu humor num daqueles dias ruins. Essa história não é sobre a minha descoberta das injustiças de gênero, porque, é claro, eu já tinha descoberto isso anos atrás, na minha infância, observando o mundo.

Eu já sabia que o mundo não estende às mulheres as mesmas cortesias que estende aos homens. Eu também sabia que vitimização não é uma virtude e que ser discriminada não transforma ninguém em uma pessoa melhor ou moralmente superior. Eu sabia que homens não são inerentemente maus ou cruéis. Eles são apenas privilegiados. E eu sabia que o privilégio cega, porque é da natureza do privilégio cegar. Eu sabia disso tudo por experiência própria, pelo privilégio de classe que eu tive ao crescer numa família instruída, que algumas vezes me cegava, porque eu não estava o tempo todo alerta para as nuances das pessoas que eram diferentes de mim.

E vocês, por causa desse lindo diploma de Wellesley que tem agora, vocês também se tornaram privilegiadas. Não importa qual o seu passado. Esse diploma e a experiência de ter estado aqui é um privilégio. Não deixem esse privilégio cegar vocês demais. Algumas vezes vocês precisarão colocá-lo de lado para poder enxergar com clareza.

Eu trago saudações para vocês por parte de minha mãe. Ela é uma grande admiradora de Wellesley, adoraria estar aqui. Ela me ligou ontem para saber como estava o discurso e para me lembrar de passar bastante hidratante nas pernas para que não parecessem cinzentas. Minha mãe tem 73 anos e se aposentou como a primeira escrivã mulher da Universidade da Nigéria, isso foi um um grande feito na época.

Minha mãe gosta de contar uma história sobre a primeira reunião da universidade que ela presidiu. Era numa sala de conferências enorme e na cabeceira da mesa tinha uma placa escrito: “Presidente da Mesa” (chairman). Minha mãe estava indo sentar-se nessa cadeira quando um funcionário aproximou-se para retirar a placa. Todas as reuniões anteriores foram presididas por homens e tinham esquecido de trocar por uma com gênero neutro (chairperson). O funcionário se desculpou e disse que iria buscar uma nova placa, já que ela não era um “homem da mesa”. Minha mãe respondeu que não. Na verdade, ela disse que era o presidente da mesa e que queria que a placa continuasse a mesma. A reunião estava para começar. Ela não queria que ninguém pensasse que seu papel ali era de alguma forma diferente daquele feito pelos homens antes dela.

Eu sempre gostei muito dessa história e admirei minha mãe pelo que achei ser uma impetuosa escolha feminista dela. Uma vez, contei essa história a uma amiga, feminista de carteirinha, achando que ela iria felicitar minha mãe por sua atitude. Mas não, ela ficou chateada com a história: “Por que sua mãe gostaria de ser chamada de presidente, como se precisasse disso para ter valor?”, minha amiga perguntou.

Em alguns aspectos, entendi o ponto de vista de minha amiga. Porque se houvesse um Manual de Comportamento publicado anualmente pela Sociedade Secreta e Certificada das Feministas, esse manual com certeza diria que uma mulher não deve ser chamada ou deve querer ser chamada de presidente da mesa. Porém, gênero é sempre sobre contexto e circunstância. Se há uma lição nessa história, além de falar sobre minha mãe para deixá-la contente por eu ter falado dela em Wellesley, a lição é essa: sua ideologia padronizada não se enquadrará na sua vida. Porque a vida é uma bagunça.

Quando eu estava crescendo na Nigéria, esperavam — como esperam de todo bom aluno — que eu fosse estudar medicina. Lá no fundo, eu sabia que o que realmente queria era escrever histórias. Mas eu fiz o que tinha que fazer e entrei na escola de Medicina. Eu disse a mim mesma que iria ser forte, terminar o curso e me tornar psiquiatra para usar as histórias dos meus pacientes em minha ficção. Porém, depois de um ano na escola de Medicina eu fugi. Eu me dei conta que seria uma médica muito infeliz e realmente não queria ser responsável pela morte inadvertida de meus pacientes. Abandonar a escola de medicina foi uma decisão incomum, especialmente na Nigéria, onde entrar na faculdade de medicina é tão difícil. Mais tarde, as pessoas me disseram que eu tinha sido muito corajosa em deixar o curso, mas eu não me senti nem um pouco corajosa.

O que senti naquela época não foi coragem, mas sim o desejo de fazer um esforço, de tentar. Eu poderia ficar e estudar algo que não era o que eu queria ou podia tentar algo diferente. Eu decidi tentar. Eu fiz as provas e ganhei uma bolsa para estudar nos Estados Unidos, onde eu poderia estudar algo que não tinha nenhuma relação com medicina. Mas nada disso poderia ter dado certo, eu poderia não ter ganho a bolsa. Minha literatura poderia não ter tido sucesso, mas o que importa é que eu tentei.

Nós não podemos sempre dobrar o mundo da forma que queremos, mas podemos tentar. Nós podemos fazer um esforço real e verdadeiro. E vocês são privilegiadas por isso, porque ao terem estudado aqui vocês já tem muitas das ferramentas que precisarão para tentar. Sempre tentem, porque a gente nunca sabe.

E então, enquanto vocês estão se formando e lidando com toda essa excitação e com suas dúvidas hoje, eu insisto que vocês tentem criar o mundo onde vocês querem viver. Contribuam para um mundo de uma maneira que o modifique. Contribuam radicalmente de uma maneira ativa e envolvida, sujem as mãos com a terra desse caminho. Wellesley vai abrir muitas portas para vocês. Entrem por essas portas com passos largos, firmes e confiantes.

Escrevam programas de televisão onde a força das mulheres não sejam descrita como excepcional, mas como normal. Ensinem seus alunos a verem que a vulnerabilidade é humana e não feminina. Escrevam artigos em revistas que ensinem os homens a como manter as mulheres felizes, pois já temos artigos demais ensinando mulheres a manter os homens felizes.

Em entrevistas na mídia não esqueçam de perguntar aos homens como eles equilibram família e carreira. Nessa ideia de maternidade/paternidade como culpa, por favor dividam a culpa igualmente. Façam os pais se sentirem tão mal quanto as mães. Façam os pais compartilharem a glória da culpa. Façam campanha e mobilizem-se pela licença paternidade em todo país.

Contratem mais mulheres onde houver poucas. Mas lembrem-se que as mulheres que você contratar não precisam ser especialmente competentes. Como a maioria dos homens que são contratados, elas só precisam ser suficientemente competentes.

Recentemente, uma organização feminista gentilmente me nomeou para um prêmio importante, num país que vai continuar anônimo. Eu fiquei muito contente. Tenho tido muita sorte ao receber alguns prêmios até agora e gosto deles, especialmente os que vem com presentes brilhantes. Para receber esse prêmio eu deveria falar sobre o quão importante uma determinada escritora feminista européia tinha sido para mim. Mas a verdade é que eu nunca consegui terminar de ler o livro dela. O livro dela não falou comigo. Teria sido uma mentira dizer que ela teve qualquer influência no meu modo de pensar. A verdade é que eu aprendi muito mais sobre feminismo olhando as mulheres negociando no mercado perto de onde eu morava quando criança do que lendo qualquer texto feminista acadêmico. Eu poderia dizer que essa mulher foi muito importante para mim. Eu poderia ter feito o discurso, recebido o prêmio e um presente brilhante. Mas não o fiz. Porque eu comecei a me perguntar o que realmente significa usar esse rótulo de feminista publicamente.

Assim como também me perguntei isso após alguns trechos do meu discurso sobre feminismo ser usado na música de uma cantora talentosa que vocês devem conhecer. Eu achei que tinha sido uma coisa muito boa que a palavra feminista estava sendo apresentada para uma nova geração, mas fiquei assustada com a quantidade de pessoas — muitas delas feministas acadêmicas — terem visto algo de problemático ou mesmo ameaçador nisso. Foi como se o feminismo devesse ser um culto elitizado com direitos autorais e filiação. Mas não deveria. Feminismo deveria ser um partido/festa inclusiva. Feminismo deveria ser um partido/festa cheio de diferentes feminismos. Então, Turma de 2015, por favor, vão lá fora fazer do feminismo um partido/festa barulhento e inclusivo.

As últimas 3 semanas foram as mais emocionalmente difíceis da minha vida. Meu pai tem 83 anos. Ele é um professor de estatística aposentado. Um homem simples, adorável e gentil. Eu sou absolutamente a xodó do papai. Há 3 semanas atrás, meu pai foi sequestrado perto de sua casa na Nigéria. E por alguns dias, eu e minha família vivemos um tipo de dor emocional que nunca tinha conhecido antes. Nós estávamos falando com estranhos ameaçadores no telefone, pedindo e negociando a segurança de meu pai, sem ter realmente certeza se ele estava vivo. Ele foi solto após o pagamento do resgate. Ele está bem. Ele está saudável e do seu jeito amoroso ele nos reafirma que sim, ele está bem.

Eu ainda não consigo dormir bem. Ainda acordo muitas vezes a noite, em pânico, preocupada que alguma coisa não esteja bem. Ainda não consigo olhar para meu pai sem lutar contra as lágrimas, sem sentir esse profundo alívio e gratidão que ele esteja a salvo, mas também sinto raiva que ele tenha passado por essa indignidade ao seu corpo e seu espírito. Essa experiencia me fez repensar muitas coisas. O que realmente importa ou não importa. O que eu valorizo ou não. E vendo vocês se formando hoje, eu insisto que vocês reflitam sobre isso um pouco mais. Pensem sobre o que importa para vocês. Pensem sobre o que vocês desejam que seja importante para vocês.

Eu li sobre essa adorável tradição que vocês tem aqui de chamar as alunas mais antigas de “irmãs mais velhas” e as alunas novas de “irmãzinhas”. Também li sobre a estranha tradição de ser jogada numa lagoa — eu não entendi essa —. mas de qualquer forma, gostaria muito de hoje ser a sua irmã mais velha honorária. O que significa que gostaria de lhes dar alguns conselhos como uma irmã mais velha faria.

No mundo inteiro, as meninas são ensinadas a serem agradáveis, a se moldarem em formas que agradem outras pessoas. Por favor, não se modifiquem para agradar outras pessoas. Não façam isso. Se alguém gosta dessa versão sua que é falsa e te diminui, essas pessoas gostam de uma forma vazia e não de você. E o mundo é tão gloriosamente vasto, multifacetado e diverso que certamente existem pessoas no mundo que vão gostar de você como você é.

Eu tenho sorte que minha escrita me deu esse espaço que eu escolhi usar para falar sobre as coisas que são importantes para mim. E eu já disse coisas que não são bem vistas por algumas pessoas. Já me mandaram ficar de boca fechada sobre algumas coisas, como minha posição sobre os direitos dos homossexuais no continente africano, ou sobre a minha crença na absoluta igualdade entre homens e mulheres. Eu não falo para provocar. Eu falo porque penso que o nosso tempo na Terra é muito curto e cada momento que não estamos sendo verdadeiros conosco, cada momento que fingimos ser o que não somos, cada momento que dizemos o que não acreditamos mas sim algo que imaginamos ser o querem que falemos, estamos perdendo tempo na Terra. Não quero soar esnobe, mas não percam seu tempo na Terra. Com apenas uma exceção. O único jeito aceitável de perder o seu tempo é comprando na internet.

Uma última coisa sobre minha mãe. Eu e minha mãe discordamos sobre muitas coisas quando o assunto é gênero. Existem algumas coisas que minha mãe acredita que uma pessoa deve fazer apenas “por ser mulher”. Como ocasionalmente acenar e sorrir, mesmo que sorrir seja a última coisa que se queira fazer. Como estrategicamente deixar de argumentar apenas porque a outra pessoa com quem se está discutindo não é uma mulher. Como casar e ter filhos. Eu penso que tudo isso pode ser feito por algumas boas razões, mas “porque você é uma mulher” não é uma delas. Então, Turma de 2015, nunca aceitem o “porque você é uma mulher” como uma razão para fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa.

E, finalmente, eu gostaria de terminar esse discurso com uma menção especial sobre a coisa mais importante do mundo: amor. Atualmente, as garotas são frequentemente criadas para entenderem o amor apenas como doação. As mulheres se sentem realizadas com seu amor quando esse amor é um ato de doação. Mas amar é dar e também receber. Por favor, amem dando e recebendo. Dar e receber. Se você está apenas dando, sem receber, você saberá. Você sabe por meio daquela voz pequena e verdadeira que está dentro de você e que nós mulheres tão comumente somos ensinadas a calar. Não silencie essa voz. Ousem dizê-la. Parabéns!

Autora

Chimamanda Ngozi Adichie é autora de diversos livros, entre eles: Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo e Americanah. Já ganhou inúmeros prêmios literários, tendo seu trabalho traduzido para mais de 30 línguas. Atualmente, ela divide seu tempo entre os Estados Unidos e a Nigéria.

Fonte: http://blogueirasfeministas.com/2015/07/chimamanda-ngozi-adichie-nao-silencie-essa-voz/