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Fenomenalmente… Maya Angelou

Por Sté Spengler

O que é ser uma mulher fenomenal? Você liga a televisão, abre uma revista ou até mesmo caminha pelas ruas e uma chuva de propagandas cai sobre você. Use tal produto cosmético. Tinja seu cabelo de tal cor. Faça x horas de academia para ter um corpo de arrasar. Vista a roupa x para ser elegante e sexy (?). Compre, consuma, compre, consuma. Novamente fica a pergunta: o que é ser uma mulher fenomenal? Será que é uma questão puramente de aparência ou será que é uma questão de atitude?

Numa de minhas últimas aulas de Língua Inglesa falamos sobre Maya Angelou, e mais especificamente sobre um de seus poemas, Phenomenal woman, publicado no livro And Still I Rise (1978). Pseudônimo de Marguerite Ann Johnson, Maya Angelou nasceu no Missouri em 4 de abril de 1928. Vinda de uma família de escravos, participou de movimentos em prol do Civil Rights ao lado de Martin Luther King Jr. e esteve presente em vários outros marcos históricos da luta pela transformação social e política dos negros. Autora de poemas, peças de teatro, autobiografias, seriados de televisão, ensaios e livros infantis, Maya Angelou diz escrever para a voz Negra e para todos os ouvidos que podem ouvi-la, ou seja, não há barreiras para suas palavras. Entre seus autores favoritos estão Kipling, Poe, Butler, Thackeray e Henley, embora suas verdadeiras paixões sejam Paul Laurence Dunbar, Langston Hughes, James Weldon Johnson e William Edward Burghardt DuBois, todos autores negros (o que nos lembra o quanto nossas preferências estão interligadas à nossa identificação cultural). Guiada pelo seu amor à literatura, superou diversos momentos difíceis em sua vida e hoje é considerada uma das maiores vozes do cenário mundial.

Angelou é uma mulher fenomenal e em seu poema, deixou-nos o segredo da beleza. À primeira vista, os versos parecem retratar uma mulher um tanto convencida e arrogante, mas se olharmos mais atentamente, captaremos a real mensagem da autora. Trata-se do amor por quem se é e da admiração por como se é, além de uma crítica ao conceito errôneo que a sociedade tem sobre a beleza. Eis minha tradução de Phenomenal woman:

Mulheres bonitas se perguntam onde repousa meu segredo/ Eu não sou bonitinha nem feita de acordo com o tamanho de uma modelo/ Mas quando eu começo a contar a elas,/ Elas pensam que eu estou mentindo./ Eu digo/ Está no alcance dos meus braços,/ Na extensão dos meus quadris,/ No ritmo dos meus passos,/ Na curva dos meus lábios./ Eu sou uma mulher/ Fenomenalmente./ Mulher fenomenal./ É o que sou.

Eu entro em uma sala/ Tão indiferente quanto você queira/ E quanto aos homens,/ Eles se levantam/ Ou caem de joelhos./ Então eles pairam ao meu redor/ Como um enxame de abelhas no mel./ Eu digo,/ É o fogo nos meus olhos,/ E o brilho dos meus dentes,/ O balanço da minha cintura,/ E o contentamento dos meus pés./ Eu sou uma mulher/ Fenomenalmente./ Mulher fenomenal./ É o que sou.

Os homens têm se perguntado/ O que eles veem em mim./ Eles tentam muito/ Mas não conseguem alcançar/ Meu mistério mais profundo./ Quando eu tento mostrar a eles/ Eles dizem que ainda assim não conseguem ver./ Eu digo,/ Está no arco das minhas costas,/ No sol do meu sorriso,/ No percurso dos meus seios,/ Na graça do meu estilo./ Eu sou uma mulher/ Fenomenalmente./ Mulher fenomenal./ É o que sou.

Agora você entende/ Por que minha cabeça simplesmente não se curvou/ Eu não grito ou tento aparecer/ Nem tento falar alto./ Quando você me vê passando/ Você deveria se sentir orgulhoso./ Eu digo,/ Está no som dos meus saltos,/ Na curva dos meus cabelos,/ Na palma da minha mão,/ Na necessidade de me cuidar./ Porque eu sou uma mulher/ Fenomenalmente./ Mulher fenomenal./ É o que sou.

É possível perceber a feminilidade transbordando por cada parte do corpo da mulher nestes quatro versos, e por esse motivo ela não precisa gritar aos quatro ventos para chamar a atenção – sua beleza vem de dentro e isso a torna uma mulher fenomenal. Quando Angelou afirma que não é “bonitinha nem feita de acordo com o tamanho de uma modelo“, fica evidente sua autoconfiança e apreço por ser quem é e da maneira que é, mesmo tendo sido abusada sexualmente quando criança. A crítica sobre o que é belo é muito forte neste poema, visto que a autora sofreu discriminação racial num país em que a beleza pertencia apenas (teórica e estupidamente) àquelas que possuíam pele e olhos claros. Novamente, constatamos que a verdadeira beleza está muito longe daquilo que a sociedade prega.

Outra crítica que Angelou faz é em relação àqueles que questionam a autoconfiança de uma pessoa: “Mulheres bonitas se perguntam onde repousa meu segredo”, “Os homens têm se perguntado/ O que eles veem em mim./ Eles tentam muito/ Mas não conseguem alcançar/ Meu mistério mais profundo.”. De forma resumida, Phenomenal woman está aí para nos lembrar que não importa a cor de nosso cabelo ou o formato de nosso corpo, ser bonita é um reflexo de como nos sentimos a nosso respeito – a mulher fenomenal é simplesmente ela mesma.

Veja a versão original do poema de Maya Angelou, interpretado por Ruthie Foster:

 

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