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Sobre monstros e inumanos

Por Antonio Ozaí

Há muito tempo, assisti a um filme em que a personagem fazia um discurso racista.  Poderia ser apenas mais um filme sobre a temática racial, mas a cena ficou gravada em minha memória. Não recordo uma só palavra proferida, nem mesmo lembro-me do título do filme. O que não esqueci foram as reações dos ouvintes: alguns, em êxtase, choravam. Pareciam acreditar piamente, as palavras encontravam guarida no âmago, as lágrimas que jorravam expressavam ideias, valores e crenças introjetadas. Era uma fala repleta de emoção e irracionalidade compartilhada pela audiência, que fortalecia os vínculos mútuos e reforçava valores pré-estabelecidos. A racionalidade diluía-se na onda de emotividade que nutria e consumia a todos.

Qual é a origem desta força que irmana indivíduos em torno de ideias e valores historicamente censuráveis? Por que, apesar da razão humana, do progresso e da rejeição social e institucional o racismo, a homofobia e a misoginia persistem? O que dá sustentação às manifestações desse tipo? Como é possível que alguém, em pleno século XXI e depois das trágicas experiências de regimes ditatoriais, sinta-se à vontade para elogiar torturadores e legitimar a tortura? Como é possível que ainda encontre apoio na sociedade?

A crítica e o risco de punição legal não assustam gente deste naipe. Pelo contrário, talvez se veja como herói de causas justas. Adora holofotes e quanto mais é repudiado pela maioria mais se vê como arauto de um tempo em que dominará. Sua segurança, é a nossa insegurança; seu sonho, os nossos pesadelos. O ideal de sociedade que persegue nutre-se das paixões mais horríveis que habitam o humano. Fanático de uma ordem de terror, não hesitará em aniquilar os que não se encaixam em seu modelo, em seu ideal. Semeia ódio e intolerância; pavimenta caminhos lúgubres.

Recuso-me a pronunciar seu nome! “He Who Must Not Be Named”[1] é um monstro? Inumano? De fato, é tentador inclui-lo na categoria do inumano, da monstruosidade que expressa a banalidade do mal. Assassinos sem compaixão que agem com requintes de crueldade, torturadores que perpetram atos que estão além da nossa compreensão, sob qualquer ângulo, nos parecem excluídos da condição humana. Em geral, os vemos como inumanos, monstros. Este julgamento até pode apaziguar a nossa consciência e nos colocar num patamar moral superior, mas o exclui da humanidade que compartilhamos!

Nazistas que planejaram e executaram o extermínio de milhões de judeus eram seres humanos normais, bons e de bem. Alguns com títulos acadêmicos, intelectuais racionais. Amavam suas esposas, seus filhos; eram bons maridos e ótimos pais. Executavam ordens, acreditavam que agiam por uma boa causa; aceitavam os argumentos ideológicos, incorporavam os valores e ideias propagados pelo nazismo. Comprometiam-se, mesclavam seus interesses com o “trabalho”. Mas não duvidemos das suas “boas intenções”, não os transformemos em monstros ou alienígenas. Entre os seus, eram homens e mulheres com bondade, capazes de amar e de serem amados. Como notou Hannah Arendt, “os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam”.[2] Eram seres humanos! Haviam os de natureza sádica, mas mesmo estes podiam se revelar homens bons em suas relações familiares, entre os seus.

A natureza humana é mais complexa do que imagina a mente maniqueísta e o moralista ingênuo. Na política, o mal e o bem não são necessariamente excludentes. Na verdade, ambos compõem a natureza humana. O cerne da questão está em compreender como e porque seres humanos “normais” – bons pais, maridos, professores, etc. – revelam uma capacidade incrível de torturar ou de apoiar torturadores. Mas compreender não é perdoar!

Os que atualmente tem o atrevimento de elogiar publicamente os torturadores são seres humanos que encontram apoio na sociedade. “You Know Who” foi eleito deputado com a maior votação do Rio de Janeiro (sétimo mandato). Os eleitores deste estado e de São Paulo elegeram outros membros da família de“He Who Must Not Be Named”. O problema, portanto, não se resume a este ou àquele indivíduo que, por ocupar uma posição privilegiada institucionalmente, consegue atrair os holofotes, falar e agir como se estivesse ao abrigo da lei. Isto é preocupante! Mas, deveria preocupar-nos ainda mais o fato de “You Know Who” e outros da mesma laia serem apoiados por centenas e milhares de cidadãos e cidadãs, homens e mulheres de bem, bons pais e boas mães, bons maridos e boas esposas, capazes de amar – mas também de odiar outros seres humanos aos quais são negados a humanidade. O seu colega de trabalho, o seu parente, seu professor, seu aluno, etc., podem ser os que fortalecem e legitimam valores e ideais expressados por “He Who Must Not Be Named”.

O ego narcísico, homofóbico, racista e misógino de “You Know Who” e sua legião de seguidores beira as raias da loucura, mas não são loucos. São humanos, demasiadamente humanos, expressam o que temos de pior em nossa condição humana. Estão plenamente convictos dos fins que perseguem e não vacilarão em relação aos meios necessários para alcança-los.

Paradoxalmente, o autoritarismo encontra espaço para fortalecer-se na democracia. A defesa da tortura e a glorificação de torturadores mostra a face do horror. É o cúmulo do inaceitável numa sociedade democrática. É preciso enfrentar o problema em sua complexidade. Afinal, o Lord Voldemort da política brasileira não está só!

[1] Na literatura a expressão se refere a Lord Voldemort, tenebroso personagem da série Harry Potter escrita pela britânica J. K. Rowling.“You Know Who” é outra forma de se referir ao Lord das trevas. Agradeço à Olga Ozaí pela contribuição em relação aos aspectos referentes à obra.

[2] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 121.

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