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SANTO SOUZA: Um poeta órfico em Sergipe ¹

 

José dos Santos Souza nasceu em 27 de janeiro de 1919 no município de Riachuelo no Estado de Sergipe. Filho da arrumadeira, Dona Hermínia “Filhinha”, uma mãe solteira e descendente de escravos, que deu a luz a ele na casa dos patrões.

Com seis anos de idade, Santo Souza começou a trabalhar na área de farmácia.

Estudou até a 3ª série, se tornando um autodidata com um vasto conhecimento tais como aritmética, história, psicologia, esoterismo, línguas como latim, hebraico, grego, etc, procurando estudar sobre tudo.

É considerado um dos maiores poetas do Estado de Sergipe e do país e suas influências literárias, segundo ele, não tem influências diretas de coisa alguma. Sua cultura se concretizou através da descoberta sobre a cultura de vários países, principalmente, a Grécia.

Para ele a poesia é algo que não pode ser explicada por ela nascer com o indivíduo. Essa sua afirmação se dá pelo fato dele ter começado a escrever pequenos versos com 10 anos de idade com a pouca instrução que tinha.

Santo Souza residiu em Riachuelo até os 17 anos trabalhando em farmácia, e em Aracaju, continuando a trabalhar na área onde aprendeu a manipular medicamentos com o mesmo dom de produção de poemas.

Aos 15 anos estudou música, e por ter sido expert em aritmética, aprendeu a tocar em três meses, compondo para clarineta algumas valsas para a namorada.

O poeta conheceu diretamente importantes poetas brasileiros como Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. É membro da Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira de número 03, cujo patrono é Fausto de Aguiar Cardoso, e o fundador é Cleômedes Campos de Oliveira. Foi também membro efetivo da Associação Sergipana de Imprensa, e Membro Correspondente da Academia Paulista de Letras.

Entre os poetas sergipanos, Santo Souza é o poeta com maior número de obras e sua poesia é fundamentada no orfismo, corrente que trata de temas sacros, o bem e o mal contidos na natureza humana. Através dessa corrente, percebe-se que sua poesia busca mostrar as condições humanas, as divindades e os heróis mitológicos, criando, assim, um elo entre o passado e o presente em que o poeta se torna um intérprete do futuro.

No Brasil houve poucos seguidores do Orfismo, e, pelo que se sabe, além do poeta em estudo, houve também o poeta Cyro Pimentel do Estado de São Paulo.

Jackson da Silva Lima, importante historiador da literatura sergipana, considera a poesia de Santo Souza como filosófica, comparando-o a importantes escritores como Fernando Pessoa, Rilke, Valéry, Eliot, buscando dá uma visão sobre o homem através dos tempos e da história.

As obras de Santo Souza foram lançadas, principalmente, pelo Estado de Sergipe. E através de José Augusto Garcez, criador do Movimento Cultural de Sergipe, este se tornou o encarregado de distribuir seus livros pelo Brasil, tornando-o conhecido, especialmente em São Paulo.

A primeira obra de Santo Souza, Cidade Subterrânea, lançada no ano de 1953, fora muito bem recebida por um grande crítico literário da época, Luís da Câmara Cascudo, que inclusive, produziu o seu prefácio.

Durante o Regime Militar a obra Pássaro de Pedra e Sonofora censurada e o livro Decreto Lei Nº 13 que haveria um lançamento na Bahia não pôde ser realizado por conter ideias subversivas. Mas, felizmente, não houve problemas maiores com o escritor.

Santo Souza recebeu inúmeras condecorações e premiações pelo Estado de Sergipe, e em dezembro de 1995, ele ganhou um prêmio literário pela APCA (Associação Paulista de Críticos e Arte).

Através de informações coletadas na obra A Construção do Espanto, décimo segundo livro do autor, lançado no ano de 1998, no capítulo “Opiniões sobre o autor”, que trata da análise das principais obras de Santo Souza, além de vários comentários que o elogiam, fora notado alguns detalhes quanto suas obras. Esses detalhes são referentes, principalmente, às obras, Cidade Subterrânea e Ode Órfica.

Em Cidade Subterrânea, de acordo com Luís da Câmara Cascudo em seu prefácio, revela que na obra está contida a ideia de maldições divinas, vividas por uma sociedade que sofre um cataclisma, mas que aguarda por esperanças.

Ode Órfica, quatro livro do autor, considerado o principal, e lançado em 1956, de acordo com comentário de Sérgio Millet, considera a obra como uma meditação sobre os mistérios da vida, bem como a desilusão dos homens. Nelson de Araújo reforça a ideia, considerando Ode Órfica como o canto moderno dos homens.

De acordo com Luís Antônio Barreto no livro A Construção do Espanto, sua obra está dirigida para questionamentos essenciais da vida humana, retratando um pouco o nordeste, o canto do povo sem destino, o grito do negro escravo. O crítico sergipano ainda o considera como um poeta da cosmovisão, espécie de mediador entre o céu e a terra, e sua obra A Construção do Espanto pode ser considerada como sendo um desfecho das demais obras por está sendo refletida a aventura humana entre deuses, demônios e presságios.

Hoje Santo Souza reside na capital de Sergipe, Aracaju, tendo 94 anos, um pouco debilitado, que o fez encerrar com suas atividades artísticas para se dedicar, exclusivamente, à sua família e à leitura de jornais, revistas e livros.

Ao perguntar a ele o motivo pelo qual não mais escreve, ele afirma que foram os deuses que o mandaram parar.

A grande importância desse poeta que não pode ser esquecido deu ao município de Riachuelo uma escola que leva seu nome, Escola Municipal Santo Souza, bem como a obra Deus Ensanguentado de 2008, que houve versão em espanhol, e um livro em linguagem simples que ajuda a compreender seus poemas,Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo Souza, da escritora Gizelda Morais.

O presente texto se finaliza com uma importante citação de Luiz Antonio Barreto contida na obra A Construção do Espanto: “Santo Souza é um poeta de Sergipe, mas também o é do Brasil e da língua, com sua obra órfica, mas, também, com a vastidão do toque cotidiano, da vida, do ser, da beleza e da reflexão diante do mundo pulsante de todos os dias, como se a poesia fosse uma crônica, a inventar e reinventar a realidade”. (SOUZA p. 129)

OBRAS:

  • Cidade Subterrânea (1953) (com prefácio de Câmara Cascudo)
  • Caderno de Elegias (1954)
  • Relíquias (1955)
  • Ode Órfica (1956)
  • Pássaro de Pedra e Sono (1964)
  • Oito Poemas Densos (1964)
  • Concerto e Arquitetura (1974)
  • Pentáculo do Medo (1980)
  • A Ode e o Medo (1988)
  • Obra Escolhida (1989)
  • Âncoras de Arco (1994)
  • A Construção do Espanto (1998)
  • Rosa de Fogo e Lágrima (2004)
  • Réquiem para Orféu (2005)
  • Deus Ensanguentado (2008)
  • Crepúsculo de Esplendores (2010)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sergipe/santos_souza.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Souza

PROJETO SANTO SOUZA: um poeta órfico. Produção de Ilmara Cristina, Gleydiomar Souza, e Alessandra Gama. Orientado por Edilson Moura. Sergipe, 1998. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=wZm4-fnaFDY&gt;. Acesso em: 01 jun. 2013.

SOUZA, Santo. A Construção do Espanto. Aracaju. Sociedade Editorial de Sergipe, 1998.

http://literaturasergipana.blogspot.com.br/

 

Ode Órfica I, do livro homônimo de 1956:

Era tão clara a tua voz, e tão

limpo o teu canto inaugural, ó noite,

que o tempo adormecia em tuas mãos!

De início, rejeitamos teus conselhos

dissimulados. Nautas fugitivos,

eis que a nave de Orfeu, que pilotávamos,

não nos pertence mais, pois a ofertamos

àqueles que hão de vir colher conosco

a treva e o medo, embora eles, no lago,

com a vida e as águas entre os braços, nos

surpreendam no triângulo da morte,

os olhos florescendo como peixes

que o teu milagre, ó noite, fecundou!

Transportamos pirâmides nos ombros,

para, sobre elas, construir o mundo

que nós, por sermos livres, sugerimos.

De música fizemos nossos mares,

para conter o céu que nos persegue.

Mas somos frágeis para suportar

a cabeça do Eterno, que se inclina

sonhando sobre nós, enquanto vamos,

ladrões famintos, carregando sombras.

Morrer? Não era a morte o que sonhávamos.

Somos pobres demais para morrer

com tanto ouro nas mãos, tanto arco-íris

nos olhos desta aurora que engendramos.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2014/04/santo-souza-poesia-abencoada.html