E Lulia chagou ao poder

Por João Almeida Moreira

O autor deste artigo, o jornalista João Almeida Moreira recorda o sombrio passado político de Michel Temer. O oportunismo permanente do seu partido, o PMDB, e o amoralismo do homem que desempenhou um papel importante no golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff abrindo-lhe as portas da presidência do Brasil.

Sim, Lulia, com i. O “novo” presidente do Brasil chama-se Michel Miguel Elias Temer Lulia, sangue libanês nos dois apelidos, tanto no exposto quanto no escondido.

A dias de completar 76 anos, o homem de quem um dia disseram que tinha cara de mordomo de filme de terror e que foi acusado, em rumores de  internet, de praticar satanismo, é um respeitado constitucionalista cuja carreira política foi forjada nos corredores de Brasília – corredores em que Frank Underwood, o maquiavélico personagem da série americana House of Cards, se sentiria uma virgem.

Poeta nas horas vagas – publicou Anónima Identidade, obra escrita em guardanapos de papel dos cafés dos aeroportos de Brasília e São Paulo e que, segundo um crítico, justificaria imediatamente o seu impeachment – é casado com Marcela Temer, ex-miss, 42 anos mais nova, classificada pela revista Veja como “bela, recatada e do lar”.

Mas o lado mais importante de Temer, o homem que não escolheu nem mulheres (52 por cento da população brasileira) nem negros (no segundo país com mais negros do mundo, a seguir à Nigéria) para o seu ministério, é ser do PMDB.

O PMDB – Partido do Movimento da Democracia Brasileira – foi a única força de oposição autorizada durante a ditadura militar. Por isso, em democracia revelou-se um caldo de interesses municipais, regionais e nacionais com raízes profundas nas estruturas do Estado. Da arca de Noé peemedebista fazem parte, além de Temer, o cacique do Maranhão José Sarney, o perturbador cleptocrata Eduardo Cunha, a rainha do agronegócio e férrea dilmista Kátia Abreu e dezenas de investigados na Lava-Jato. O partido aceita tudo: menos gente com ideologia ou qualquer outra superficialidade que obstaculize a permanência no poder.

O PMDB é causa e é consequência, é sintoma e é doença da política à brasileira. Uma espécie de “partido Tancredi Falconeri”, por ser fiel à máxima do personagem de Lampedusa que sentenciou “é preciso mudar tudo para que tudo fique na mesma”. Um dia alguém notou que se nos ausentarmos do Brasil por um mês, quando voltamos está tudo diferente; mas se nos ausentarmos 30 anos, quando voltamos está tudo igual. Há 30 anos, o PMDB estava no poder.

Nos últimos 22 anos, houve seis eleições presidenciais às quais chegaram à segunda volta sempre os candidatos do PSDB, de centro-direita, e do PT, de centro-esquerda, os dois partidos mais progressistas do Brasil. Chamou-se clima de “Fla-Flu” à rivalidade que tucanos (os do PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves) e petistas (os do PT, de Lula e Dilma) mantiveram. Mas, enquanto os dois partidos se alternavam no Planalto, quem foi o sócio deles em todos os seis governos? O PMDB. Neste Fla-Flu quem ganha é o Botafogo.

O sucesso do jeito de ser do PMDB reflete-se na existência de meia dúzia de forças políticas criados à sua imagem. Como não ser nada e tudo ao mesmo tempo se revelou interessante nicho de mercado, nasceu o Centrão, grupo de partidos que fizeram parte da base de apoio de Dilma e da base de apoio de Temer e são PMDB em miniatura. O líder de um deles, Gilberto Kassab, disse quando o fundou em 2011 que era “de centro, de direita e de esquerda” – Kassab foi ministro duas vezes neste ano, primeiro das Cidades, sob Dilma, e agora das Comunicações, sob Temer.

Para alguém governar o país – leia-se, aprovar leis no Congresso – precisa pois do apoio e dos votos do titânico PMDB e dos seus satélites do Centrão. Lula, talvez com uma mola no nariz para não sentir o cheiro a podre, aliou-se a eles – e ao suspeitíssimo Collor de Mello ou ao procurado pela Interpol Paulo Maluf. E, talvez com uma venda nos olhos, permitiu o Mensalão, o esquema de troca de votos por dinheiro que não era muito diferente do que sucedeu agora, à luz do dia, na compra de votos de deputados e senadores sob promessa de cargos futuros, ao longo do impeachment.

Dilma, de estômago mais sensível do que o antecessor na frente política e inábil na frente econômica, nunca se sentiu confortável em Brasília. Passou, portanto, de mal necessário a mal desnecessário aos olhos do PMDB (e do Centrão), e caiu.

Se a ascensão pela terceira vez em democracia de um militante do PMDB à presidência sem recurso a eleições, depois de Sarney e de Itamar Franco, é “golpe” ou não, é tema mais do domínio da semântica do que da ciência política. Porque a política brasileira, enquanto não se reformar, é, em si mesma, um “golpe” permanente.

Este artigo foi publicado pelo «Diário de Notícias» a 4 de Setembro de 2016

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