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Toussaint L´ouverture

 

Construção dos Heróis Abolicionistas


Por Vinícius Antunes da Silva
A escravidão foi uma prática econômica presente na época moderna e uma das maiores geradoras de riquezas. Foi sustentada enquanto gerou lucros para o sistema, enquanto foi possível subjugar seres humanos, tentando coisificá-los. Inclusive, alguns autores ainda trabalham com a coisificação do escravo, onde este não teria vontade própria, estaria apenas subserviente ao senhor e, como um objeto, seguiria todas as suas ordens. Outros autores preferem sustentar a visão que a escravidão foi mantida por uma espécie de “pacto social”, onde, por incrível que pareça, alguns chegam a apontar que era um benefício para o negro ser escravo, já que tinha trabalho e comida garantidos.

Recuso-me a usar aqui qualquer uma das duas visões acima. O escravo esteve longe de ser uma coisa, estando sempre subserviente ao senhor, e esteve longe também de gostar da escravatura. O Haiti quando explodiu mostrou que os negros poderiam ser tão sujeitos históricos quanto os brancos. No Rio de Janeiro, para citar somente uma cidade, existiram centenas de quilombos e apenas atualmente os pesquisadores estão se aprofundando em tais descobertas.

O escravo deve ser visto não como uma coisa, não como uma marionete do senhor, mas como um trabalhador que possui uma horrenda peculiaridade: é também uma mercadoria.

Se a escravidão fosse realmente algo benéfico para o negro e existisse um pacto social que a mantinha, todos os escravos seriam Pais Joãos. Porém também não se pode tomar todos os escravos como revolucionários, Zumbis. Na verdade acredita-se que a maioria esmagadora dos escravos era um meio termo entre esses dois. As revoltas se tornavam freqüentes quando o regime era mais duro e existia um maior densidade demográfica de negros e uma passividade tornou-se mais visível conforme se foi logrando amenizações ao regime escravo.

Voltando ao marco que foi o Haiti, com certeza os jacobinos negros foram importantíssimos, talvez até mesmo imprescindíveis para se pensar em abolicionismo. Após Toussaint L’ouverture proclamar a independência e brancos serem massacrados como antes gostavam de massacrar negros, instalou-se um clima de medo gigantesco na América. O ódio contra o ódio havia se tornado uma arma nas mãos dos escravos e muitos senhores passaram a tratá-los, a partir daí, com uma maior cordialidade, ou então a aumentar o sistema de vigilância. Qualquer suspeita de levante remetia ao Haiti. Qualquer suspeita de levante deveria derramar sangue de negro e servir de exemplo. Era preciso evitar o Haiti.

No século XIX já era mais do que evidente o sucesso burguês frente à exploração da mão-de-obra proletária na Europa. Um trabalhador livre já estava custando mais barato que manter um escravo, ainda mais devido aos empecilhos que a Inglaterra colocou para os escravistas. Com o avanço do capitalismo, de idéias liberais e ilustradas, e do medo de revoltas negras, a escravidão foi sendo deteriorada.

Era necessário colocar fim a escravidão, porém esse fim deveria ser gradativo e dado pelas elites locais, deveria-se evitar Haitis, pardocracias e qualquer outra forma de prejuízo aos brancos ricos.

Por mais que se tenha tentado diminuir a participação do negro em suas própria libertação, com uma visão radical da História, podemos dizer que isso não ocorreu: a independência do Haiti e diversas revoltas populares como as de Aponte em Cuba influenciaram no fim da escravidão. Os negros compuseram as tropas de emancipação da América dando suas vidas como soldados de Bolívar, Martín, Sucre etc.. Nos EUA e em pequenas ilhas do litoral Americano organizaram fugas isoladas e maciças.

Porém, mesmo com toda essa batalha negra a historiografia tradicional passa a imagem que a libertação dos escravos foi um ato de heroísmo e bondade branca. Enquanto vários soldados negros morriam para libertar a América, o pomposo Simón Bolívar declarava a liberdade destes e agregava mais um fato a seu posto de ícone da liberdade. Dom Ramón Castilla, libertador dos escravos no Peru, até música folclórica ganhou para homenageá-lo. Nos versos de “A MOLINA NO VOY MÁS” ele é uma espécie de deus que baixas dos céus para libertar os pobres e indefesos negrinhos. Princesa Isabel, no Brasil, foi mais um exemplo de como a abolição foi feita sem preocupar-se com a integração social do negro e sem dar-lhes valor histórico. Nos EUA até hoje a maioria deles estão em guetos e excluídos. Porém, Thomas Jéferson, por tê-los libertado é mais do que um marco, o próprio Marx iludiu-se com ele e achou que começaria nos Estados Unidos uma nova época do proletariado.

Mantendo essa ideologia branca dominante, a elite faz com que o negro mantenha-se sem uma identidade, ou, quando é necessário encontrar uma, faz com que essa seja a identidade da subserviência, da mórbida passividade, a identidade do “faça igual ao branco” ou do “vocês devem aos brancos seus heróis”.

Os livros didáticos, os programas de televisão, os jornais, revistas, parecem ignorar quase que completamente que existe o negro na sociedade. Comunidades carentes abrem seus livros escolares e olham desenhos de crianças loiras que brincam com coisas as quais talvez jamais possam adquirir. São criadas para um dia serem assim. São criadas para seguirem seus heróis brancos. Quanto à história negra…. quem é que precisa dela?

Dedico esse texto ao companheiro Wander Custódio Florêncio, conhecido como MC Valente, o qual vive em São Paulo e sempre que pode trabalha os textos do MCLS e me liga para dar notícias, ajudando-nos no processo de conscientização popular rumo a um mundo melhor.
A distância e as fronteiras não limitam a luta social.

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