Negro ou Preto?

Por Nkuwu-a-Ntynu Mbuta Zawua

De regresso a Luanda no avião, leio o suplemento do jornal “Público” Negro? Preto? Ofensivo ou natural?
É tema a que estava habituado nos Estados Unidos, o país da obsessão com a cor de pele, e que pelos vistos está estupidamente a espalhar-se. Claro que o politicamente correcto “Público” tem o cuidado de não chegar a qualquer conclusão…
Dos depoimentos, de destacar o de Mia Couto, para quem o problema não está nas palavras. Num texto que escreveu para a abertura do ano lectivo 2007/2008 no Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique, o escritor defendeu que a ideia de mudar a realidade através da alteração de palavras é falsa, designando-a como um dos “sete sapatos sujos” que devem ser abandonados “na soleira da porta dos tempos novos”.

E contou um episódio: “Uma vez, em nova Iorque, um compatriota nosso fazia uma exposição sobre a situação da nossa economia e, a certo momento, falou de mercado negro. Foi o fim do mundo. Vozes indignadas de protesto se ergueram e o meu pobre amigo teve que interromper sem entender bem o que se estava a passar. No dia seguinte, recebíamos uma espécie de pequeno dicionário dos termos politicamente incorrectos. Estavam banidos da vida termos como cego, surdo, gordo, magro, etc… Nós fomos a reboque destas preocupações de ordem cosmética. Estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comestível. Hoje assistimos, por exemplo, a hesitações sobre se devemos dizer ‘negro’ ou ‘preto’. Como se o problema estivesse nas palavras, em si mesmas. O curioso é que, enquanto nos entretemos com essa escolha, vamos mantendo designações que são realmente pejorativas como as de mulato e de monhé”.
No final da época colonial portuguesa havia também essa preocupação com a atribuição de nomes às cores da pele. Os censores substituiam automaticamente preto por melanodérmico, e nesse automatismo chegaram a mudar num texto a espuma branca das ondas por “espuma europeia”… Se não resultou com eles, há-de resultar agora?
Interessante este post de http://tabusafroafricanos.blogspot.com/
sábado, 24 de maio de 2008
Relações Inter-Étnicas e o Racismo a Moda Angolana
Europeu
É engraçado o europeu ou o branco em Angola assim como em todos os lugares que foi e que por uso de força conquistou na era moderna, acaba ele mesmo se transformando no autóctone e transformando o autóctone em o estrangeiro, ou melhor, des-legitimando os direitos naturais de quem encontrou na parcela geográfica e legitimando seus atos sobre os membros da sociedade em que se tem o novo contato. Passando a legitimar como

promoção da civilização européia todo seu ato contra o Outro, neste caso o autóctone, não devemos esquecer que o branco é o forasteiro, o estrangeiro, o que veio saquear e seqüestrar. Assim permaneceu de forma clara e aberta até as independências em África e no resto do mundo colonizado, ainda assim permanece de forma obscura em nossos dias.
Africano
O preto africano, como dominado, permaneceu e permanece dominado, não mais de forma física, e sim mental ou psique, sendo assim, carrega em si elementos, símbolos, significâncias que o levam sempre a exaltar de alguma forma o europeu ou o branco e os indivíduos que mais se aproximam fenotipicamente ao branco, neste caso os mulatos e outros tipos de mestiços, fruto do cruzamento étnico branco e demais grupos que, com isso a naturalização da autonegação e flagelo, tornam-se algo natural: como alisar um cabelo, refinar o nariz, preferir os nomes e línguas européias, vestimentas, termos preferência em se relacionar com brancas e na falta delas mulatas etc e etc…
Afro-Europeu
O mulato dentre todos, é o mais desolado, penso, pois é rejeitado de uma ou de outra forma pelo europeu e pelo africano por ser uma figura ambivalente, fruto de processos políticos sociais e não meramente, como se faz parecer, de traços “biológicos”. E afro-europeu é figura com papel central do racismo moderno em África e sua Diáspora. Textos como de Willie Lynch e outros cientistas naturalistas, físicos, químicos, teólogos, padres, pastores e etc,..
A Cara do Racismo em Angola
Parece difícil e uma insanidade falar de racismo em África, em especial Angola, algo que muitos angolanos acreditam ser algo inexistente. Faço um esforço e tento reviver minha infância e afirmo aos que assim pensam estarem enganados. Em meu tempo de iniciação educacional, o chamado naqueles tempos de “pré-cabunga” e primeira classe, era muito mais que comum os pretos com algum nome africano se sentirem envergonhados, ”inferiores” na hora da chamada em relação aos mulatos e pretos, com nome todo em português, isto porque passavam o resto do ano sendo os referenciais ou as chacotas da turma e até da escola, em alguns casos, por carregarem alguma marca mais forte de ser um africano: o nome e ou ainda escalificações no rosto, “nomes nativos que até hoje em algumas localidades e conservatórias e notários continuam a ser rejeitados em pro, de nomes de matriz ocidental”.
Os tidos como ideal de existência tinham nomes de brancos, eram mais aculturados e pertenciam a famílias, que em sua maioria, já eram quase que totalmente urbanas ou lutavam para o abandono de suas matrizes africanas, para assumir as matrizes européias, neste caso o português. Famílias estas que, por exemplo, comer um funji e outros pratos africanos eram coisas exóticas, feita somente aos sábados ou uma vez ao mês. Assim como também era comum àqueles que tinham mães e avôs que usavam panos não aceitarem que estes fossem a reuniões dos encarregados de educação pelo mesmo motivo: passar a ser o referencial e chacota da turma e escola.
Em relação à amizade, o legal era não ter amigos mulatos, mas os amigos de mulato eram logo chamados de caxicos dos mulatos, “esquebras dos colonos”, isso porque andavam sempre atrás e não à frente ou ao lado, as brincadeiras e etc. Em muitos casos, os mulatos não brincavam ou eram proibidos de estarem com os pretos, pois os pais não aceitavam tanto de um lado quanto outro — os pais mulatos porque não queriam seus filhos ficando pretos ou se misturando com pretos e os pais pretos porque os pais não queriam ver seus filhos como os esquebras dos colonos, isto porque sabiam o que representava para seus filhos pretos um mulato.
Não entendia muito bem, até porque meus avos viviam no mato, e assim como boa parte da família, só após algumas conversas com minha avó materna, algumas questões começaram a ser clareadas em minha psique isto porque tinha e tem uma fala ainda muito pesada em relação ao mulato. “Casar com mulato não, é melhor casar com um branco, pois o mulato é pior que o branco”, pois assim como em praticamente todas as paradas do mundo, o mulato é encarado como uma figura ambígua daí o jargão em Angola “o mulato tem sete vidas que nem gato”, pois o gato é encarado na maioria das culturas africanas como um ser do mal, o animal que facilmente se deixa enganar por espíritos do mal, tornando-se ele mesmo o próprio mal.
Certa vez, em uma das minhas viagens a Luanda, um fato me chamou muita atenção, na época existiam duas casas noturnas com maior evidência — o Palos e um Pub que o nome me foge agora no mesmo bairro. Em ambos o branco ou mulato e ou o preto que andasse entre os brancos e mulatos tinham prioridade na hora de entrar na casa, mesmo ela estando lotada ou não. E para o efeito da garantia do cumprimento da regra, os seguranças, sempre pretos e em muitos casos suburbanos, que em sua maioria, detentores de uma anseiam de ascender socialmente. Ser alguém com amigos e conhecido na city, o do musseque que quer ser o urbano a qualquer custo nem que para isso tem de barrar os de pele escura.
Práticas similares permanecem contemporâneas. Outro exemplo: fui ao Banco Espírito Santo Angola me informar sobre critérios e o que era necessário para abrir uma conta. Quando cheguei, fiquei assustado me perguntando se eu estava no Brasil ou em algum outro país das Américas: só havia brancos e mulatos atendendo, os pretos que vi eram duas senhoras da limpeza e os seguranças, entre várias outras coisas que poderia citar, para demonstrar a prioridade e preferências às pessoas de pele clara para ocupar cargos chaves.
Três fatos sociais identifiquei como chave: primeiro, a herança européia dos mulatos, por terem herdado uma educação melhor em relação aos pretos, em sua maioria foram patrões dos pretos e com isso trataram tal igual o branco fez o preto, ou seja, os mulatos reproduziram e herdaram as práticas racistas; segundo, a idéia de que tudo que é europeu/branco é bonito e interessante, por isso a tendência de um mulato rejeitar seu lado africano e preferir o europeu, sendo assim, em Angola e na falta de um branco, vai o mulato; o terceiro e mais importante, à luta entre as elites mulatas que desfrutavam da condição de filhos de brancos e com isso detentores de documentação, que sonhavam após a expulsão do branco tomarem o poder e manter o status quo é do outro lado uma elite de pretos que emergiram das lutas contra o colonialismo e que sempre foram tratados de forma diferenciada até a independência de Portugal, salvo aqueles que tiveram de renunciar à sua identidade para adquirir uma cidadania, os chamadas assimilados.
Outras coisas mais perversas mostram isso. Usando como referencial os 30 anos de guerra, que praticamente não gerou mutilados de guerras brancos e mulatos, ou porque a maioria, por ser neto e ou filho de português, tem a nacionalidade portuguesa, tendo facilitado na hora de sair do país ou evitado as chamadas rusgas do passado e ou ainda recenseamento militar. E quando não é essa a questão, o pertencimento a um grupo politicamente dominante dos segundo e terceiro escalão de governança nacional. (Como se sabe, ciências políticas e administração são os escalões mais importantes, pois fazem a ligação entre o escalão mais baixo para o primeiro.
Creio que esta prática é sabida hoje por muito de nós. O que recomendo é o inicio imediato das discussões sobre estas relações ambíguas no seio da sociedade angolana, pois, caso assim não se faça, teremos ainda problemas sérios, visto que, quando algum grupo étnico se sente de alguma forma ameaçada, o refúgio à identidade étnica e o extermínio do Outro se torna o último caminho possível para soluções de problemas de relações entre grupos étnicos distintos, visto que, no caso de Angola, os brancos e mulatos representam cerca de 2% da população. Exemplos recentes em África o Rwanda, na Europa os Bálcãs, e recentemente a África do Sul e etc etc…

http://angola-luanda-pitigrili.com/angola-luanda-pitigrili/negro-ou-preto/2008/08/articles/angola