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“Shitstorms” e “smartmobs”, expressões de uma

cultura de mobilização (só aparentemente) anárquica

Por Eugênio Aragão,

ex-ministro da Justiça, no Facebook

As manifestações de rua de 2013 surpreenderam a todos, alguns positivamente (os que depois se agregaram ao golpe de 2016) e outros negativamente (nós que nos sentíamos seguros com os altos índices de aprovação de Dilma, no terceiro ano de seu governo). O que as diferenciou das mobilizações de rua anteriores em nossa parca experiência democrática foi a rapidez com que um movimento de baixa escala local, as manifestações em prol do passe livre em São Paulo, se transformou num movimento nacional a encher as ruas de várias capitais do País. Outro aspecto que causa perplexidade é a transmutação da agenda reivindicativa relativamente estreita e dirigida às autoridades municipal e estadual paulista num turbilhão de comichões coletivos, aparentemente sem alvo certo e, num terceiro compasso, a apropriação dessa dinâmica disforme por grupelhos de coloração fascista, direcionando-a a protestos que fingiam ser contra a corrupção e contra a declamada baixa qualidade de serviços públicos.

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A maioria dos que protestavam em 2013 não sabiam ao certo contra o que se mobilizavam. O que os unia era um delírio de civismo sem conteúdo, ao tom de “we are the people”. But what for? Ninguém responderia com objetividade. Qualquer pauta podia ser inoculada nessa transe rueira, que prontamente seria acolhida. Assim, por exemplo, ocorreu com as palavras de ordem e as faixas contra a PEC 37. Se questionado sobre o significado dessa PEC, cada um daria uma resposta diferente. Ela seria um instrumento dos corruptos. Serviria para acabar com os bravos lutadores do ministério público. Impossibilitaria qualquer investigação criminal séria. Garantiria impunidade a criminosos. E por aí vai. O que esses minions não sabiam era que estavam sendo adredemente usados por uma corporação na briguinha de poderezinhos com outra corporação. A PEC 37 só tratava de atribuir à polícia a exclusividade da investigação criminal , o que, à primera vista, até parece lógico. Mas o que poucos intuíam era que o ministério público queria mobilizar para garantir que também pudesse investigar, como o vinha fazendo com muita controvérsia.

Do ponto de vista do jurisdicionado é irrelevante quem assume uma investigação, contanto que o faça “by the book”, isto é, observe as garantias fundamentais ( devido processo legal, presunção de inocência, julgamento justo, uso parcimonioso dos meios de coerção processual etc.) e se esforce por ser efetivo num país em que, segundo dados do ILANUD, apenas 5% dos homicídios são jurisdicionalizados. Aliás, até para garantir direitos, afastar o ministério público das investigações é uma boa medida, pois garante um funcionamento mais adequado dos filtros de disciplina processual: o ministério público é chamado a intervir nos abusos policiais, assim como o juiz é chamado a intervir nos abusos ministeriais e a segunda instância zela pela correção do juiz singular. Esses filtros são essenciais num ambiente processual penal como o nosso, em que os atores oficiais são exageradamente empoderados. No momento em que se misturam as atividades da polícia, do ministério público e do juiz, o jurisdicionado fica sem ter a quem recorrer. Portanto, sob esse aspecto, a PEC 37 até era salutar, como hoje podemos observar pelos abusos em série noticiados na operação Lava Jato. Mas nada disso foi tematizado na oportunista campanha de rua.

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A agenda da PEC 37 era, pois, artificial e mesquinha, turbinada pela Associação Nacional dos Procuradores da República contra a Associação dos Delegados da Polícia Federal. Mas a galera a apoiou sem qualquer espírito crítico, sem saber que estava cevando um monstro contra o outro.

Esse tipo de desinformação ou deformação da informação é típica das mensagens que circulam em redes sociais. Alguém posta umas linhas de conteúdo altamente duvidoso do ponto de vista de sua pertinência com a realidade e logo estas circulam como verdades inegáveis. As redes estão repletas de “hoaxes”, mentirinhas feitas para impressionar os internautas incautos que, por impulso, as passam para frente. Muitos desses “hoaxes” são maliciosos e visam a criar ambiente de indignação, comoção e revolta. Quem os planta nem sempre o faz por ser apenas um espírito de porco incendiário, mas o faz direcionadamente, buscando exatamente isso: acender uma centelha num barril de pólvora.

As reações na rede costumam ser impulsivas e desregradas. Internautas, em grande parte, não pensam, apenas refletem e reagem. O teclado está à mão e o monitor ligado. Seu discurso não é dialógico, mas, muito mais monológico “interativo”. Na sua frente não há olhos a serem encarados sob aprovação ou censura, mas só uma tela que presenteia, de tempos em tempos, o internauta falastrão com novas linhazinhas de discurso obtuso.O grande prazer é receber essas linhazinhas de resposta com o mínimo intervalo (“lag”). Se demora muito, o internauta falastrão se impacienta e muda de ambiente (“grupo”) discursivo. Vai assim dizendo um monte de coisas desencontradamente, pelo prazer de polemizar e fazer marola. A maioria dos internautas talvez não tivesse coragem de dizer uma fração das barbaridades que escreve se olhasse nos olhos de seu interlocutor real. Nesse ambiente, por isso, homofobia, racismo, misoginia e outros discursos de ódio são rotineiros, intoxicando a mente e o caráter de quem o frequenta acriticamente. O descontrole sugere uma anarquia sem valores e sem rumo. Apenas sugerem, pois essa dinâmica virtual pode ser induzida e direcionada a certos fins, comerciais, políticos ou religiosos, por exemplo.

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As grandes marolas discursivas, verdadeiros tsunamis virtuais, aquelas que induzem comoção cibernética de grande escala, chamam-se na literatura especializada de “shitstorms” ou tempestades de merda (no mundo político, foi Angela Merkel, em 2012, que usou a expressão pela primeira vez). Alguns shitstorms são tão intensos que transbordam do mundo virtual para o real, independentemente de seu conteúdo ser verdadeiro ou não. Geram reações indignadas institucionais, com ameaças de processos, exigências de retratação, pagamento de danos morais e por aí vai. Quando atingem o interesse coletivo, são capazes, até mesmo, de mobilizar massas, principalmente se turbinadas pela mídia comercial. Um exemplo típico foi a notícia mentirosa ventilada na internet, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, de que Youssef Chahin, o primeiro delator da operação Lava Jato tinha falecido misteriosamente. Logo a revista Veja e outros meios impressos e digitais comerciais passaram a reproduzir a notícia com a sugestão de que pudesse ter sido assassinado por gente próxima a Dilma, para evitar que falasse sobre fatos que denegrissem a reputação de seu governo. As reações à notícia foram virulentas, principalmente as partidas do candidato adversário. Mas logo aquilo que parecia fato inconteste se revelou um “hoax” barato e uma fotografia de Youssef no hospital onde estava internado provou que estava bem e sendo atendido adequadamente.

Shitstorms, se bem planejados e inoculados em momentos-chave do processo político, têm o potencial de derrubar governos, mudar resultado de eleições, criar ataques especulativos na bolsa de valores ou comprometer políticas públicas propostas. Podem, também, ser articulados com movimentos de massa no espaço real com auxílio de aplicativos de comunicação como o “Messenger” do Facebook ou o WhatsApp. Estes são poderosos instrumentos para induzir dinâmicas de grupo conhecidas como “smartmobs” (mobilização ou arruaça inteligente). Criam-se grupos de infinitos participantes vinculados a uma rede social que produz a informação, para combinar a presença maciça de seus membros em determinado cenário, como, por exemplo, um local em que a presença do chefe de estado ou de governo está agendada para ato oficial. O mobilizados podem, então, vestir-se, por exemplo, de preto como forma de protesto e gritar palavras de ordem que ensurdeçam o discurso oficial. Foram assim, em épocas distintas, inviabilizados os governos da Tailândia e das Filipinas.

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Em 2013, tudo indica, não foi diferente: O limitado movimento pelo passe livre em São Paulo, desproporcionalmente reprimido pelas forças policiais do PSDB, dificilmente se transformaria numa onda de insatisfação indefinida com alcance nacional se não fosse o intenso uso de redes sociais. Só no terceiro momento, uma vez lograda a dinâmica inteligentemente induzida, que se passou a dar conteúdo às manifestações, agora claramente voltadas contra o governo federal, com a criação, até, de organizações de apoio como o Movimento Brasil Livre e os Revoltados On-Line. E o resultado esperado por seus articuladores se concretizou: o indíce de aprovação do governo Dilma despencou em poucos meses, de 78% para 33%.

O uso articulado de shitstorms com smartmobs formou, assim, o “ovo da serpente do golpe” (expressão usada por Jessé Souza). Para combater os golpistas, a vacina tem que ser seu próprio veneno. Os movimentos populares têm que se familiarizar com essas ferramentas, não só para produzirem contra-ação à tática virtual golpista, mas, também, para melhor se organizarem e serem capazes de se mobilizarem estrategicamente. Não há como enfrentar essa enxurrada de minions produzida pela inteligência golpista se não agirmos coordenadamente no espaço virtual e no espaço real. Temos que desconstruir o discurso de ódio dos golpistas e desmascará-los em seu próprio ambiente, com inteligência, argumentação e uma insistência inquebrantável. Temos que invadir seus grupos e deixá-los inseguros, tornar públicas suas intenções antes que se concretizem e, sobretudo, desfazer seus “hoaxes” antes que produzam efeitos. Quando dominarmos o espaço virtual, seremos superiores, porque diferentemente deles, não temos meias verdades inventadas para enganar as massas. Temos massas que se tornam conscientes na luta e não se deixam levar pelas obtusidades fascistas lançadas na rede com diabólicas intenções de enganá-las.

http://www.ocafezinho.com/2016/09/13/eugenio-aragao-para-combater-os-golpistas-a-vacina-tem-que-ser-seu-proprio-veneno/

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Vinte cultura e Sociedade tomou a liberdade de ilustrar o texto com imagens de alguns inocentes úteis -outros nem tão inocentes assim-, usados como massa de manobra pelo grupo dominante incrustrado no poder central hoje, graças à ação deflagrada pelos idiotas cujas imagens incorporamos ao texto.