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Leituras de um brasileiro:

‘As cores da literatura’

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte*

Em um país como o Brasil, em que predominam negros e mestiços, um cânone literário no qual abundam homens brancos é, no mínimo, historicamente enviesado.

Certo dia, caminhando pelos corredores do prédio de Letras da FFLCH-USP, vi nos murais o aviso de inauguração do Grêmio Literário Luiz Gama. Isso faz tempo, foi nos primeiros anos deste século XXI. Eu havia sido aprovado recentemente no concurso para professor de linguística e semiótica; o PCO – Partido da Causa Operária – geria o centro acadêmico das Letras – o CAELL –. Lamentavelmente, eu era professor da USP, da área de Letras, e não sabia quem havia sido Luiz Gama.
 
Fui ao evento e pela primeira vez eu ouvi falar em Literatura Negra. A inauguração consistiu da mesa redonda com militantes do movimento negro brasileiro; os debatedores contaram, sucintamente, a história da Literatura Brasileira do ponto de vista dos negros. Para mim, foi uma aula excepcional e digo isso referindo-me, principalmente, aos conteúdos históricos e acadêmicos discutidos naquele dia.
 
Em linhas gerais, ao mencionar nossa literatura neoclássica – o Arcadismo, tempos da Inconfidência Mineira, das poesias de Claudio Manuel da Costa e de Tomás Antonio Gonzaga –, foi dado destaque à poesia de Domingos Caldas Barbosa (1739-1800), que teria sido o primeiro poeta negro e tematizar questões propriamente negras, como a cor da pele, em tempos de poetas brancos e de musas brancas, quando a escravidão era lei. Já no Romantismo, Castro Alves não seria mais o poeta dos escravos; esse título caberia melhor a Luiz Gama (1830-1882), também poeta e abolicionista, mas, como diz em seus versos, “Ó Musa de Guiné, cor de azeviche (…) Quero que o mundo me encarando veja, / Um retumbanteOrfeu de carapinha”. Novamente a cor da pele, o cabelo crespo, enfim, o corpo do poeta é o corpo negro.
 
Na virada do século XIX para o século XX, Machado de Assis, embora escritor afrodescendente, por não tematizar devidamente as questões do negro no Brasil daquela época, divide seu espaço na literatura com Lima Barreto (1881-1922). Lima Barreto, além d’O triste fim de Policarpo Quaresma, é autor de Memórias do escrivão Isaias Caminha e Clara do Anjos, romances que denunciam o racismo no Brasil. Em Clara dos Anjosestá tematizada a exploração sexual das meninas negras, moradoras de bairros periféricos, pelos boêmios brancos de outras classes sociais mais favorecidas, inclusive, com a impunidade.

 
Ainda no tema da exploração da mulher negra, vale a pena recordar a polêmica estabelecida por Oliveira Silveira em torno dos versos d’Essa nega fulô, do poeta modernista Jorge de Lima. Essa nega fulô faz parte de Novos poemas, publicado em 1928. Nele são tematizas as falas de um caipira fanfarrão, provavelmente latifundiário, clamando pelos favores sexuais de sua serva, que não se sabe muito bem se é escrava, agregada ou simplesmente trabalhadora braçal, mas em regime de semiescravidão. Dela não se sabe o nome, mas se sabe que ela é negra e responde pelo apelido de Nega Fulô.
 
A partir disso, o poema é um desfile de ofensas racistas, entre as quais Fulô é chamada de “negrinha”, ladra, é quase chicoteada pelo feitor, deita-se com o dono-patrão para não ser castigada. Em suma, disfarçado com suposto “bom humor” dos velhacos do patriarcado, o poema é uma odiosa apologia racista do abuso sexual e do estupro. Em sua resposta, datada de 1979, o poeta Oliveira Silveira, enfatizando o ponto de vista do oprimido, compõe Outra Nega Fulô, em que a mulher se revolta, mata o dono estuprador em legítima defesa, foge da fazenda para, em liberdade, deitar-se com seu parceiro negro.
 
Levando em consideração que Luiz Gama e Lima Barreto já falavam contra o racismo desde o século XIX, é imperdoável a falta de consciência política e de decoro poético de Jorge de Lima ao tratar com desrespeito a mulher negra em seus poemas medíocres, incompreensivelmente canonizados pela crítica literária feita no Brasil. Sem a devida resposta de Oliveira Silveira, ensinar Nega Fulô nas escolas e faculdades como exemplo do modernismo brasileiro é difamar o país, além de fazer apologia do racismo e da cultura do estupro.
 
A história da Literatura Negra feita no Brasil continua, não se pode falar dela sem lembrar do movimento Quilombhoje – responsável pela publicação dos Cadernos Negros, divulgando contos e poesia de autores negros – e de poetas contemporâneos como Cuti, Paulo Colina – falecido prematuramente em 1999 –, Elisa Lucinda, Ricardo Aleixo, Antonio Riserio etc., cujas análises pormenorizadas estão fora dos alcances desta coluna.
 
Cabe, porém, indagar a respeito do estatuto e dos alcances da ação afirmativa da Literatura Negra. Digo isso não para contestar seus valores, mas para contestar, justamente, algumas contraposições ao próprio conceito de literaturas de minorias, como são as literaturas feminina, homoerótica, negra etc.
 
Comumente, contesta-se a literatura de ação afirmativa como literatura menor, pois, afinal de contas, a arte não teria “cor, gênero, …”. Ora, esse argumento, além de ser argumento burguês, está completamente errado. Não há altas literaturas pairando na metafísica da arte e do belo ideal; toda beleza é histórica e depende, portanto, daqueles que a elegem. Apesar de todos os autores mencionados antes, nenhum deles é devidamente estudado nos cânones oficiais da Literatura Brasileira: Tomás Antonio Gonzaga e sua Marília ao invés de Caldas Barbosa; Castro Alves ainda é o poeta dos escravos, como se Luiz Gama nunca tivesse existido; Fulô continua sendo estuprada a cada leitura dos versos espúrios de Jorge de Lima e seu regionalismo de direita.
 
Em um país como o Brasil, em que predominam negros e mestiços, um cânone literário no qual abundam homens brancos e católicos é, no mínimo, historicamente enviesado. Não se trata de expulsar Gonzaga e Castro Alves, mas de incluir Caldas Barbosa e Luiz Gama, entre tantos excluídos. Não se trata, ainda, apenas de incluir autores negros – Machado de Assis e Mario de Andrade são negros –, mas de tematizar a cultura negra além dos costumeiros preconceitos racistas que ainda insistem no negro “macumbeiro”, “malandro”, “batuqueiro”, “lascivo”.
 
Na pós-modernidade, a Arte do Corpo combate o ponto vista reacionário em que a arte não admite ênfases nas minorias. Por que causa estranhamento quando o artista plástico Yinka Shonibare se faz fotografar posando e vestido como brancos do século XVIII? Se não houvesse racismo, não haveria estranhamento. No caso de Shonibare, via o corpo negro do artista, as trocas de papéis enfatizam as diferenças raciais ao mesmo tempo em que protesta contra elas. Na prosa e na poesia, por meio de palavras, a literatura negra faz algo semelhante; protestar contra ela é mais uma forma dissimulada de racismo.
 
No nosso próximo encontro, pretendo escrever sobre literatura feminina e a resistência ao machismo e aos valores do patriarcado.
 
*Professor de Semiótica do Departamento de Linguística da FFLCH-USP

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