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Pela universalização da cultura 

Por Paulo Tedesco*

 
 

Que a leitura está em crise, disso não há dúvida. Mas a melhor pergunta seria, qual crise? No Brasil, ao longo dos últimos vinte ou trinta anos, tivemos uma maioria analfabeta que passou para semianalfabeta. E essa, empurrada pela necessidade de fazer valer sua mão-de-obra, viu que deveria aprender o mais rápido possível e com o que tivesse disponível, travando, justamente, no pensamento crítico elaborador de novos conceitos e alternativas.

 A crise da leitura, portanto, está na dificuldade em se decodificar textos mais complexos, ainda que um tanto mais acessíveis do que até pouco. Há uma imensa maioria saindo das faculdades mas sem a capacidade de compreensão em que exija leitura mais acurada. E esse o público leitor que nos chega, e que faz, com clareza, o perfil de quem lê, de quem compra livros e de quem publica nas redes sociais e emails.

Nesse momento, surge a fronteira real do ensino e da luta pela qualificação e universalização da leitura, e por conseguinte o reforço decisivo para o mundo dos livros: o ensino para adultos e jovens adultos. E é, nessa gigantesca faixa de brasileiros e brasileiras, a questão maior, e onde se dá a disputa do livro e da leitura com outras mídias.

As oficinas de escrita criativa e seus métodos – que ainda carecem aprimoramento e deveriam ser alvo de amplos estudos e sistematizações, para que possam se tornar prática sistêmica no ensino dos diferentes níveis de escolaridade -, é a mais honesta trincheira para tentarmos superar de uma vez o semianalfabetismo do país.

E tudo começa, ou pode começar, pelo mais simples, pela prática da escrita, pelas camadas e interrupções que caracterizam a produção literária de autores conhecidos. A crítica genética, linha de pesquisa no pós-estruturalismo, que desde os anos 1990 vem trazendo consideráveis reforços na compreensão da literatura mundial, traz hoje a riqueza maior da literatura como seu centro de estudos.

Aprender os métodos erráticos e a descontinuidade da escrita de gigantes da literatura mundial, como propõe a crítica genética, e a isso somar as particulares biografias dos autores, a cada dia mais me convence de sua qualidade para o ensino da literatura e da prática da escrita literária. Ao trazer os melhores métodos os escritores e dos críticos, estaremos colocando a prática da escrita como centro das atenções, conseguindo assim tirar o livro e o autor do pedestal, frente à necessidade da evolução intelectual porque passa nosso país.

Apesar da ampliação física do alcance do ensino através de novas escolas ou de forma virtual, seu pleno alcance, sua força maior, só se dará quando a leitura e o exercício crítico sobre qualquer conteúdo for de amplo alcance dos estudantes, e de todo aquele ou aquela que se propor a estudar qualquer matéria. Afinal, as universidades faz muito perderam a excelência e a exclusividade na formatação de novos conteúdos e ideários.

E voltando ao conceito da crise, o que está em crise é um mercado que derrete, o mercado do direito autoral preso a um curral mercantilista e do cerceamento à informação e ao conhecimento. Aquele que for contra essas mudanças pagará o preço do esquecimento absoluto na história. Pois se há crise, é a do velho modelo de ensinar, porque hoje todos temos que aprender a diário, e não há melhor alternativa do que, todo o dia, se reaprender a ler e a escrever.

*http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8033&id_coluna=133

Ilustra o artigo a imagem do escritor Lima Barreto