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Em Entre o mundo e eu (Objetiva), Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Provocador e bastante polêmico, a questão racial discutida em Entre o mundo e eu pode ser comparada à questão racial brasileira, em que a violência policial e os recortes socioeconômicos e de gênero estão sempre presentes. Esses recortes caem mais pesadamente sobre os corpos de homens e mulheres negros – corpos explorados por meio da escravidão e da segregação, e, hoje, ameaçados, encarcerados e assassinados em números desproporcionais. Ao combinar narrativa pessoal, história e reportagem, Ta-Nehisi Coates ilumina o passado, confronta o nosso presente e oferece uma visão transcendente para um passo adiante.

O livro sairá no Brasil em novembro. O trecho reproduzido no blog faz parte do que foi publicado na revista Piauí de setembro.

Leia a seguir.

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Eis aqui como tudo começou: certa manhã, acordei com uma pequena dor de cabeça. A cada hora a dor de cabeça aumentava. Eu estava indo para o trabalho quando vi a garota a caminho da escola. Meu aspecto era horrível, ela me deu um Advil e continuou seu trajeto. No meio da tarde, eu mal me aguentava em pé. Chamei meu supervisor. Quando ele chegou, eu estava deitado no depósito, porque não tinha ideia do que poderia fazer além disso. Eu estava com medo. Não entendia o que estava acontecendo. Não sabia a quem recorrer. Estava ali deitado, ardendo em febre, semiacordado, na esperança de me recuperar. Meu supervisor bateu a porta. Alguém tinha vindo me ver. Era ela. A garota de longos dreadlocks me ajudou a sair e ir para a rua. Ela acenou para um táxi. A meio caminho da corrida eu abri a porta, com o táxi em movimento, e vomitei na rua. Mas me lembro dela me segurando para ter certeza de que eu não ia cair e depois me amparando quando terminei. Ela me levou para sua casa, uma casa cheia de pessoas amorosas, me pôs na cama, colocou o cd Exodus para tocar, ajustando o volume ao nível de um sussurro. Deixou um balde junto a cama. Deixou um jarro com água. Ela tinha que ir para a aula. Eu dormi. Quando ela voltou, eu estava novamente em forma. Comemos. A garota de longos dreadlocks que dormia com quem queria, sendo esse o seu jeito de demonstrar que controlava o próprio corpo, estava lá. Eu tinha crescido numa casa regida entre o amor e o medo. Não havia espaço para a suavidade. Mas essa garota de longos dreadlocks demonstrava outra coisa — que o amor pode ser leve e compreensivo; que, suave ou duro, o amor era um ato de heroísmo.

Eu não podia mais prever onde encontraria meus heróis. Às vezes eu caminhava com amigos ate a rua U e circulava pelos clubes de lá. Era a época da Bad Boy e do Biggie, “One More Chance” e “Hypnotize”. Eu quase nunca dançava, por mais que quisesse. Ficava paralisado por um medo infantil do meu próprio corpo. Mas via como os negros se moviam, como dançavam como se seus corpos fossem capazes de tudo, e seus corpos pareciam ser tão livres como a voz de Malcolm X. Lá fora os negros não controlavam nada, que dirá o destino de seus corpos, que podiam ser requisitados pela polícia; que podiam ser apagados pelas armas, tão pródigas; que podiam ser estuprados, espancados, encarcerados. Mas nos clubes, sob a influência de rum e Coca-Cola na proporção de dois para um, no encantamento das luzes baixas, sob o domínio do hip-hop, eu os sentia no controle total de cada passo, cada aceno, cada giro.

Tudo que eu queria então era escrever da mesma maneira que essa gente negra dançava, com controle, poder, alegria, calor. Eu tinha aulas em Howard o tempo todo. Sentia que era o momento de ir embora, de me declarar formado, se não pela universidade, pela Meca da universidade. Eu estava publicando resenhas musicais, artigos e ensaios no jornal alternativo local, e isso significava contato com mais seres humanos. Eu tinha editores — eram também meus professores —, e foram os primeiros brancos que vim a conhecer de verdade, pessoalmente. Eles desafiaram minhas ideias preconcebidas — não temiam por mim e não tinham medo de mim. Em vez disso, viam na minha brandura e na minha desregrada curiosidade algo a ser apreciado e aproveitado. E me deram a arte do jornalismo, uma poderosa tecnologia para quem está em busca de algo. Eu fazia reportagens locais na capital e descobri que as pessoas me contavam coisas, que a mesma brandura que uma vez fizera de mim um alvo agora compelia outras pessoas a confiar a mim suas historias. Isso foi incrível. Eu mal tinha saído das brumas da infância, onde as perguntas simplesmente morriam na minha cabeça. Agora eu podia ligar para as pessoas e perguntar por que uma loja popular tinha fechado, por que um show tinha sido cancelado, por que havia tantas igrejas e tão poucos supermercados. O jornalismo havia me dado outra ferramenta de exploração, outro modo de desvendar as leis que restringiam meu corpo. As coisas estavam começando a fazer sentido — embora eu ainda não conseguisse enxergar o que eram “as coisas”.

Na biblioteca de Moorland pude explorar as historias e as tradições. Do lado de fora, nos pátios do campus e com acesso a pessoas e grupos, pude ver essas tradições na prática. E, com o jornalismo, pude perguntar diretamente as pessoas sobre as duas coisas — ou sobre qualquer outro assunto que despertasse meu interesse —, e constatar que grande parte da minha vida tinha sido definida pelo não saber. Por que eu tinha vivido num mundo no qual garotos adolescentes ficavam no estacionamento de lojas de conveniência sacando armas? Por que era normal para meu pai, como para todos os pais que eu conhecia, tirar o cinto? E por que a vida era tão diferente lá fora, neste outro mundo além dos asteroides? O que as pessoas cujas imagens certa vez foram transmitidas para dentro da minha sala de estar tinham que eu não tinha?

Fonte: http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/10/leia-um-trecho-de-de-entre-o-mundo-e-eu-de-ta-nehisi-coates/

Sobre  Ta-Nehisi Coates:

http://nymag.com/daily/intelligencer/2015/07/ta-nehisi-coates-between-the-world-and-me.html