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O Discurso Eclético de Agostinho Neto

Por Leonel Cosme

Menino nascido no mesmo ano de 1922 em que ocorreu a chamada “Revolta de Catete”, logo durante os primeiros oito anos da sua vida, na aldeia natal de Caxicane, onde permaneceu até mudar, com a família, para Luanda, ele ouviu, seguramente, os pais e os Mais-velhos do povoado falarem daquele pavoroso acontecimento que não foi apagado da memória colectiva e que pela literatura de António de Assis Júnior se transmitiu aos vindouros como um destemperado massacre de gente que apenas protestava contra o esbulho das suas terras de cultivo por ávidos colonos lançados na produção algodoeira.
Quando, com doze anos de idade, se matriculou no Liceu de Luanda, do que ouvia dos pais, professores e pastores evangélicos responsáveis pela sua instrução primária, e do que contemplava no mundo de miséria, violência e discriminação que era o do musseque que o rodeava, o menino atento saído da vizinha província de Icolo e Bengo podia encontrar todo o sentido num provérbio do seu povo que dizia: Ki longa o tembu, xicola ndênge. O que, em sentido lato, queria dizer: O que o tempo ensinou aos velhos não vale menos do que a escola ensina aos novos.
Concluído, sempre com boas classificações, o curso geral dos liceus, e na impossibilidade de continuar imediatamente os estudos, o jovem Agostinho Neto emprega-se como funcionário público, primeiro em Malanje e depois no Bié. São outras duas regiões emblemáticas da exploração colonial: a primeira, onde a monocultura do algodão amarra os camponeses aos ditames da empresa monopolista (o que provocaria, nos finais de 1960, a “Revolta da Baixa de Cassange”); a segunda, onde se fazia o maior recrutamento da mão-de-obra dita “contratada”.
Nesta altura, já Agostinho Neto, afastado da militância evangélica que o entusiasmara durante o tempo do liceu, tinha passado da “idade da razão” para a “idade da revolta”. Não se podendo afirmar que as leituras por ele conseguidas, até então, o tivessem posto em contacto com as modernas correntes filosóficas, a experiência (dele próprio e dos Mais-velhos) tinha-o levado certamente a concluir, pragmaticamente, que a consciência não era uma entidade ou uma graça divina, mas uma construção, em que “a sucessão e a relação dos pensamentos coincidem com a sucessão dos eventos e a relação das coisas” – nas palavras de Will Durant. O que leva a que a verdade, como a define William James, no seu Pragmatism, seja emergente de um “processo” e de uma “verificação”, cuja “atitude consiste em olhar, primeiro, para as coisas, princípios, categorias, supostas necessidades e, depois, olhar para os frutos, as consequências, os factos resultantes.”
Ora, em 1947, quando Agostinho Neto saiu de Angola para frequentar a Universidade de Coimbra, já tinha vinte e três anos e a consciência adquirida de que a luta contra a injustiça do mundo começava dentro de cada homem, mas não acabava aí. Passara a época do seu idealismo cristocêntrico, em 1943, quando, diante de uma humanidade que se dilacerava na Segunda Guerra Mundial, ele produzia os seus primeiros escritos, publicados no jornal da Missão Metodista de Luanda, O Estandarte:

As multidões esperam a paz. Ela deve começar portas adentro, no lar de cada cristão, em cada igreja evangélica.
Enquanto a posição social, a raça, a nacionalidade, constituirem diques à fraternidade cristã, as multidões esperarão em vão.
Enquanto houver surda luta entre superiores e inferiores, enquanto o egoísmo trouxer a luta entre cristãos, as multidões esperarão em vão. Não haverá paz.
A solução está à mão de cada evangélico. Aplicação dos princípios cristãos. Começando portas adentro, no lar, no escritório, na oficina, na escola, na igreja, na sociedade, começando com os que mais próximos estão, conseguir-se-á a fraternidade dos espíritos, a verdadeira Paz que as multidões estão esperando.

Então Presidente do Centro da Juventude Evangélica Angolana e naturalmente compenetrado do papel que lhe cabia como cristão militante, – Neto não se furtara mesmo a uma polémica com o director do jornal católico O Apostolado, de Luanda – a sua mensagem, todavia, já tinha contornos que ultrapassavam o discurso religioso normal, em regra fechado sobre si mesmo. Mas ainda a guerra não tinha terminado e as vozes do mundo clamavam por uma Nova Ordem, ele já colocava reservas, temendo que “a concorrência natural, determinada pela struggle for life, não deixe os homens em concórdia.”

Quando uma igreja ainda põe ricos dum lado e pobres doutro; sábios aqui e ignorantes ali, quando uma igreja não considera ainda a todos filhos do mesmo Pai, não pode contar que o mundo, em que a maioria não conhece Deus, estabeleça normas melhores.

Dez anos depois ele não teria hesitado em substituir a palavra Deus (que sabia não ter o mesmo sentido para todos os povos) por uma expressão como direitos humanos universais. É que, se até certa altura a lei mosaica, na simplicidade do preceito “ama o próximo como a ti mesmo e não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti”, lhe parecia fonte bastante de uma moral que servia a todos os homens, em contacto com a realidade do mundo exterior a Angola acabaria por reconhecer que até a melhor consciência dos homens bons, que aspiram e crêem na unidade do mundo construída sobre um sentido ético universal, não era imune nem independente do modo como as civilizações e as culturas dos povos encaravam a struggle for life e, concomitantemente, como postulavam os direitos humanos – os seus próprios e os dos outros.
Esta constatação de uma humanidade mortificada por diferenças de ideias e de práticas tinha-a Agostinho de Neto, de resto, da sua própria experiência como Negro-africano, observando, como um estrangeiro na sua própria terra, que o mundo se dividia ali entre Brancos e Negros. Nos seus poemas escritos já em Coimbra, a palavra Deus, com o sentido que decorria da religião dos Brancos, desaparecera, para dar lugar a uma noção mais ampla, mais vaga, mais misteriosa, gerada pela cosmologia bantu: Kalunga, termo que, remetendo para o mistério do ignoto e do imponderável, também serve para designar o Mar, essa presença sempre distante e insondável.
O contacto com a sociedade metropolitana, – dura, classista e mesquinha, filha de um regime restritivo, arcaico e obscurantista (tópico recorrente no futuro discurso político de Neto) – depressa o convence de que não adiantaria esperar que os preceitos cristãos e as acções evangélicas levassem os homens a banir a injustiça e a opressão da face da terra. Num dos primeiros poemas da época, Adeus à hora da largada, ele confia à Mãe (“todas as mães negras”) que a vida tinha morto nele essa “mística esperança” e que, agora, “a esperança somos nós”, os humilhados e ofendidos de África, que vivem como “sombras”, mas que um dia haveriam de “comemorar a data da abolição desta escravatura.”
Desvelam-se os sentimentos de Agostinho Neto nos cerca de três anos que passou, até aos finais de 1950, em Coimbra, onde aprendeu a conhecer realmente o país cativo que no entanto mantinha a sua terra angolana também cativa. É um período de perplexidades e análises subjectivas, em que, num primeiro momento, se confrontam a tese e a antítese, em que à afirmação se opõe a negação, e vice-versa, dando origem a poemas que ele próprio não quis ver publicados em vida, – é o caso do livro póstumo A Renúncia Impossível – como se receasse ser mal compreendido na revelação de um percurso, na aparência com contornos depressivos.
Num segundo momento, esse percurso já é nitidamente dialéctico, mostrando que a síntese se evidenciará no debate das contradições individuais e dos sistemas sociais que as motivavam, produzindo então um resultado, não dogmático, mas ecléctico. Isso seria comprovado nos discursos literários e políticos que a partir daí, e até ao termo da sua vida, haveria de realizar, e que se podem resumir numa asserção : a luta pela dignificação do Homem é contínua e universal; mas em África ela tem a cor dos africanos – que o Poeta ainda representa movendo-se como num “desfile de sombras”.
São prenúncios dessa síntese (que só se explicitaria com a primeira publicação do livro Sagrada Esperança, na Itália, em 1963) os dois textos publicados, entre 1951 e 1952, na revista Mensagem, de Luanda: o poema “Desfile de Sombras” e o conto “Náusea”, sobre os quais a crítica não se debruçou talvez o suficiente para descortinar neles as linhas-de-força que enformariam a obra futura. (Honra para Antero de Abreu, que no prefácio da edição do conto pela UEA, em 1980, dá conta das suas incidências sociopolíticas). Na verdade, nele já estão indiciados, com a subtileza conveniente, o tráfico secular e a escravidão, a discriminação racial e económica, a progresso da cidade dos privilegiados e o atraso do musseque do povo, a desnaturação da vida, a saudade do antigamente – e a fulcral interrogação: por que não foge o povo nem se levanta contra a adversidade?
O poema foi escrito em 1949. Inserto no primeiro número da Mensagem, portanto em Junho de 1951, reaparece em Sagrada Esperança com o título abreviado de “Sombras”, – transferindo-se o primitivo, “Desfile de sombras”, para o poema seguinte – mas o seu teor concerta-se com o do publicado naquela revista, quando ambos evocam saudosa e esperançosamente os “caminhos”, “interrogando à morte o que é a vida”, em busca de todas as Áfricas do mundo.

Pelos milhentos caminhos
do meu Desejo
passam sombras a tactear o Nada;
vão esforçadas na incerteza
por abraçar os pontos de interrogação
da existência. (…)

Neste poema, em que, provavelmente por contar com a Censura, Neto evoca os “sentidos anestesiados” do seu povo para não escrever “alienação colonial”, a chave do não-dito é repetida: “eu sigo-me através de mim” – como se quisesse dizer: sigam-me, mesmo ouvindo os “ecos múltiplos das cadeias da escravidão”, e eu vos “mostrarei essas cadeias quebradas.”
Pela primeira vez, o Poeta significa-se como “onda” para se “alar em vida na imensidade”, ele que vê o seu povo “anestesiado”, feito “praia” a “contemplar estático o movimento do além”. O Mar, ainda não nomeado neste poema, não é uma imagem de salvação, mas de denúncia de um passado cuja memória o povo deve recuperar para reencontrar a sua verdadeira personalidade histórica e ontológica. É um passado que provoca no Poeta a “náusea” anti-colonial que dá título ao conto publicado no segundo número (e último) da Mensagem e que também é a chave que libertará o povo encerrado nas cadeias da alienação causada pela miséria e pela passividade que haviam coisificado o ser-Negro, tornando-o como que ausente ou estranho na sua própria terra: numa praia de Luanda, olhando o Mar-Inimigo que é ao mesmo tempo ideia de Fatalidade, Morte e Deus, um homem que fugira momentaneamente da cidade opressiva do asfalto e pacificava o espírito com memórias do seu local de origem, respirando o “cheiro do mar que lhe fazia mal”, “sentiu náuseas. Não podia mais. Vomitou todo o almoço.”
Mas este Mar-Fatalidade não era muito diferente, no fundo, do Mar-Esperança que o Poeta evocara na sua conversa com o “Mussunda amigo”, recordando a “tristeza daqueles tempos em que íamos comprar mangas e lastimar o destino” e diziam, como em prece diante do mistério e da majestade de um Deus: ” O ió kalunga ua mu bangele!”
Publicado este conto, em Angola, no mês de Outubro de 1952 (curiosamente já tinha sido publicado, em Moçambique, na revista Itinerário de Abril-Maio do mesmo ano) não se sabe exactamente quando foi escrito. Segundo declara António Jacinto, na época o principal coordenador da Mensagem, no seu prefácio à edição em livro da União dos Escritores Angolanos, em 1980, Agostinho Neto ter-lhe-ia manifestado o seu desagrado pelo título, que sugeria um aproveitamento do título do romance de Jean-Paul Sartre, A Náusea, este publicado na França em 1947 e alguns anos depois em Portugal, ao que julgamos só em 1958, por intermédio das Publicações Europa-América.
A verdade é que, por mera coincidência ou natural associação de ideias que sucedem frequentemente a quem lê e escreve, o único conto de Neto ficou, para sempre, com o título da origem, e assim ultrapassou as fronteiras de Angola, quer pela sua inclusão na revista moçambicana Itinerário, quer, depois, na antologia Contistas Angolanos, da Casa dos Estudantes do Império, em 1960.
É muito provável que A Náusea de Sartre tenha chegado, com actualidade, em livro ou em notícia jornalística, aos meios culturais de Coimbra e Lisboa, e por maioria de razão aos estudantes africanos, motivados, em primeira análise, pelo prefácio “Orphée noir” escrito para a Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache, organizada por Léopold Sédar Senghor e editada em Paris, em 1948, um ano depois da publicação do romance de Sartre. Mesmo que Neto não tivesse dela conhecimento antes da sua mudança para Lisboa, no âmbito do Centro de Estudos Africanos, de que fora co-fundador em 1951, a obra de Sartre estaria certamente incluída no considerável rol de autores ligados aos movimentos culturais e políticos da Négritude e do Pan-africanismo, designadamente os autores africanos e afro-americanos, a que o grupo africano daquele Centro e da Casa dos Estudantes do Império tinha acesso, por processos que escapavam, obviamente, às devassas da polícia política portuguesa. Ali se liam também, quando era possível, os jornais e revistas que se interessavam pela cultura e problemática africanas, tais como Présence Africaine (de que Mário Pinto de Andrade era correspondente em Lisboa e, depois de 1954, já no exílio, seria secretário de redacção), L’Humanité, Les Temps Modernes (a revista de Sartre) ou L’Express (onde Albert Camus, em 1955, abordaria polemicamente a questão argelina).
De qualquer modo, de uma hipotética leitura do romance de Sartre pouco mais Agostinho Neto retiraria do que a verosimilhança de uma “náusea” psicológica, já que a tese sartriana, ali exposta, de que a consciência do indivíduo não se livra dos bloqueios da factualidade do mundo envolvente, exprimia apenas o termo negativo de um processo dialéctico que se concluiria com o termo afirmativo da acção revolucionária. Mas melhor representação da coincidência desta “náusea” encontraria Neto, ainda em 1952, com a leitura (que eventualmente Mário Pinto de Andrade poderia ter fornecido de Paris) de um contundente ensaio do médico-psiquiatra martinicano, Frantz Fanon, publicado nesse mesmo ano: Peau noire, masques blancs.(Lúcio Lara, nas suas memórias de Um amplo movimento…regista que Jorge Amado e Fanon foram lidos em Coimbra). Facto era que em ambos os autores se manifestava já a consciência colectiva anti-colonial que agitava o mundo e que seria consagrada, três anos depois, na Conferência de Bandung.
Fanon, logo reconhecido por Sartre como a “voz que falava pelo Terceiro Mundo”, vibrou, com aquele livro, como que a primeira machadada na orgulhosa civilização do Branco: “A infelicidade do homem de cor é ter sido escravizado. A infelicidade e inumanidade do Branco são a de ter morto o homem em qualquer lugar.” Mas ao sustentar que não era a História que determinava os actos individuais, por isso que era o indivíduo o seu próprio fundamento (e neste último ponto coincidia com o bloqueamento existencial do protagonista da Náusea de Sartre), e portanto sujeito-objecto do preconceito da cor e do complexo de inferioridade por ele interiorizados, Fanon dava uma força à tese da alienação psicótica provocada pela opressão colonial que Neto, já tocado pela dialéctica marxista e envolvido em acções próximas do Partido Comunista Português, só poderia aceitar como estímulo desencadeador da acção revolucionária que transformaria o indivíduo alienado num Homem Novo e assim sujeito da História.
É este, aliás, o sentido da última parte do poema “Renúncia Impossível”, intitulado Afirmação (que só recentemente, graças a Michel Laban, foi conhecida), com a qual Agostinho Neto resolve a dialéctica que se ficara pelo termo da Negação. Em todo o caso, este poema já é uma abjuração do período depressivo, no qual Fanon descobriria porventura os contornos da alienação psicótica provocada pela opressão colonial…
Mas em 1952 ainda seria estimulante para Neto a leitura de Pele negra, máscaras brancas, na medida em que Fanon analisava o conflito psicológico do Negro que buscava a repersonalização, e questionava: “O que quer um homem negro?” E assim chega à “náusea” que terá, ou poderia ter, inspirado um bom título para o conto em que Neto trata da alienação do seu povo. À interrogação, responde Fanon:

Quando encontra a resistência do outro, a autoconsciência passa por uma experiência de desejo… Assim que passo a desejar, peço para ser considerado. Não estou simplesmente aqui e agora, selado, coisificado. Eu sou a favor de outro lugar e de outra coisa. Exijo que se tome conhecimento da minha actividade negadora na medida em que persigo algo que não vida…
Eu ocupava o espaço. Movia-me na direcção do outro… e o outro evanescente, hostil, mas não opaco, transparente, sem estar lá, desapareceu. Náusea.

Neto só divergiu de Fanon (e de Sartre) em relação à escolha do melhor caminho (“eu sigo-me através de mim”) , entre os “milhentos caminhos do meu Desejo”, quando aqueles propugnaram uma acção radical que excluía as relações e cumplicidades que, por via das simbioses culturais e raciais, entre colonizadores e colonizados, sempre sobreviveriam de um longo passado colonial. Ecléctico diante dos sistemas, pragmático diante dos obstáculos, ele nunca estaria totalmente de acordo com o radicalismo de Fanon, como ele se manifesta nesta simples passagem de Lés Damnés de la terre, publicado em 1961, ano da sua morte, ocorrida num hospital de Washington, alguns meses antes da proclamação da independência da Argélia, em cuja luta ele também participara:

É preciso deixar os nossos sonhos, abandonar as nossas velhas crenças e as nossas amizades frente à vida. Não percamos tempo em estéreis litanias ou em mimetismos nauseabundos. (…) Para a Europa, para nós próprios e para a humanidade, camaradas, é preciso criar uma pele nova, desenvolver um pensamento novo, tentar pôr de pé um homem novo.

Este livro, que é uma espécie de testamento anti-colonialista propugnador das lutas de libertação nacional por todos os meios, foi escrito por um homem de trinta e seis anos, que não podia imaginar como o pragmatismo regeria, no futuro imediato, as relações entre os novos países independentes e as velhas potências coloniais, afinal ditado pelas afinidades e cumplicidades sobreviventes.
A violência revolucionária, como factor primordial de desalienação das massas oprimidas, – como teorizavam Fanon e Sartre (que prefaciara o livro de Fanon) – não contemplava, para Neto, o emprego indiscriminado de instrumentos e práticas. Em nenhum discurso cultural ou político, Neto, que tinha uma visão ecuménica da humanidade, escreveu ou proferiu algo igual ou parecido com o que escreveu Fanon, em 1958, no jornal argelino El Moudjabid, – Toda a evocação de “laços antigos” ou de “comunidades” irreais é uma mentira e um ardil” – ou como escreveu Sartre, na sua revista Temps modernes, aquando da publicação, em 1939, do Cahier d’un retour au pays natal, de Aimé Césaire:

Num primeiro tempo da revolta, é preciso usar a violência: abater um europeu é matar dois coelhos de uma cajadada, suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido, sobrando daí um homem morto e um homem livre.

Por causa da sua diferença, Neto viu o seu Movimento de Libertação preterido pelo de Holden Roberto, com o aval do amigo Fanon, que teria aceitado certamente o modo como a sua teoria da violência necessária fora aplicada nas acções extremas desencadeadas pela UPA, indiscriminadamente, vitimando brancos e negros, em Angola, a 15 de Março de 1961 – e que o MPLA reprovara.
Em que medida esta diferença é uma projecção nacionalista e revolucionária de um patriota que começou por ser um intelectual sensível, que se foi descobrindo através da literatura, olhando primeiro à sua volta e depois circunvagando o olhar pelo mundo, há-de ser a chave de toda a crítica que se fizer à sua obra de escritor e político.
Por muito que ofenda a pretensa objectividade da dissecação desapaixonada do corpus literário, não será suficiente fazer meras análises textuais da obra desprezando a função e a ideologia que lhe são imanentes. Para o justificar, bastaria reflectir sobre a razão que levaria o Poeta a incluir, num livro revolucionário como Sagrada Esperança, aqueles poemas líricos, aparentemente desajustados do contexto, dedicados a Maria Eugénia, companheira da sua vida, branca e de origem portuguesa, nos quais o Poeta não se inibe de falar de rosas, de saudades, de amor. Não obstante a razão afectiva que decerto também releva da decisão do Poeta, lá está, dirigida ao leitor preconceituoso, a mensagem do seu anti-racismo, ou – como disse algumas vezes – de que o racismo não tem cor, configurando assim a humanidade como um arco-iris ou uma paleta onde se misturavam as tintas para obter um resultado original.
Era esta a convicção que enformaria muitos dos seus discursos, por exemplo o proferido na Universidade de Dar-es-Salaam, a 7 de Fevereiro de 1974, em que preleccionou:
Os laços históricos que ligam os nossos povos aos outros povos do mundo vão estreitar-se cada vez mais, pois que não pode haver outra tendência sobre a terra. O isolamento é impossível e é contrário à ideia de progresso técnico, cultural e político.
O problema que se nos põe neste momento a nós africanos é como transformar as relações injustas, geralmente de subordinação política e económica, com os outros países e povos do mundo, sem que esta transformação se faça à custa do progresso social que necessariamente deve estar integrado na acção para alcançar a liberdade, sem a ‘qual o comportamento do homem será o de quem sai de uma forma de discriminação para cair numa outra forma tão negativa como a primeira, uma simples inversão dos factores intervenientes.(…)
A luta de libertação nacional na nossa época é pois influenciável não só pelos factores históricos que determinam o colonialismo, o neocolonialismo ou os regimes racistas, mas também pelas suas perspectivas, pelos seus objectivos e pela maneira de cada um conceber o mundo e a Vida.

Cinco anos depois, já com Angola independente, dirigindo-se desta vez aos camaradas escritores na União dos Escritores de Angola, num discurso proferido a 8 de Janeiro de 1979, a linha do seu pensamento não se alterara:

A cultura evolui com as condições materiais e em cada etapa corresponde a uma forma de expressão e de concretização de actos culturais. A cultura resulta da situação material e do estado de desenvolvimento social.
E, no contexto angolano, a expressão cultural resulta, se não de cópia, – por enquanto – pelo menos do resultado de uma aculturação secular, pretendendo reflectir a evolução material do povo, que de independente se tornou submisso e completamente dependente para voltar a ser independente em novas condições.
Há que recorrer de novo à nossa realidade, sem chauvinismos e sem renunciarmos à nossa vocação universalista.(…)
O que devemos nós fazer para conservar a nossa cultura? Vamos radicalmente desprezar tudo o que é estranho ao nosso país, ao nosso povo, ou vamos conservar aquilo que nos interessa, aquilo que é possível aproveitar dentro das civilizações que se constituíram, que se modificaram depois do contacto com a nossa civilização, ou vamos desprezar tudo?
Nós temos de fazer a opção. Qual é essa opção? Eu penso que devemos é retirar, daquilo que resultou do contacto entre diferentes povos, o necessário para o progresso actual da nossa própria cultura.

Discurso semelhante era o de Amílcar Cabral, dez anos atrás, nas matas da Guiné, onde em 1978 o já Presidente da República angolana se encontrou, sob a égide de Luís Cabral, com o seu homólogo português, para firmarem o denominado “espírito de Bissau” que reatava as relações históricas existentes entre os respectivos países.
Mas nem todos os que ouviram aquelas palavras de Agostinho Neto estiveram sempre de acordo com o pragmatismo que ele imprimia à sua orientação geral, para responder (por fim impositivamente, como reconhecem alguns dos seus camaradas mais próximos) ora ao Partido, ora às oposições, ora às alianças, no tempo e pelo modo que ele considerava ajustado às necessidades. Não é de mais recordar que, não obstante ter assumido, pela primeira vez urbi et orbi, no I Congresso do MPLA, em 1977, os princípios do marxismo-leninismo, ele respondia assim, naquele mesmo discurso de 1979, aos históricos ortodoxos e aos puristas defensores de uma decantada autenticidade por um regresso às origens:

O chauvinismo cultural é tão prejudicial como o foi, logo a seguir à Revolução de Outubro, o conceito de cultura proletária que Lénine tanto combateu (…) Se os estimados camaradas e colegas me permitem, direi que não podemos cair em esquemas ou estereótipos como os teóricos do realismo socialista. A par da nossa capacidade nacionalista, teremos de intervir de modo a inscrevermo-nos no mundo, à medida que formos assumindo a realidade nacional.

Intransigente quanto à direcção do percurso traçado, não poucas das suas decisões foram tomadas solitariamente, qual Moisés no isolamento do Monte Sinai, imagem que ele, aliás, rejeitava com irónica bonomia.
Mas é um facto que assumia, sem hesitações, a responsabilidade de interpretar a vontade do seu povo omitido durante séculos, ouvindo em si próprio a voz silenciada desse povo de que se sentia parte integrante. “Sou aquele por quem se espera” ou “sigo-o através de mim” significa, menos do que uma volição messiânica e mais do que um assomo poético, o oferecimento do soldado do povo disposto a lutar pelo povo.
Ele acreditara sempre que chegaria o dia do resgate e da concretização da “Sagrada Esperança”, ao fim de um longo, polémico e aturado percurso – em que a sua poesia fora apenas uma das muitas armas usadas nas lutas desenvolvidas pelo caminho.

Fonte:  http://jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/o-discurso-eclectico-de-agostinho-neto/fotos