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China e Índia entram numa

nova era de associação estratégica

Por Neeta Lal (IPS) 

A China e a Índia representam, só por si, mais de um terço da população mundial. Os seus sistemas económicos e políticos são profundamente diferentes, e as suas relações históricas nem sempre foram pacíficas. Mas parecem agora prevalecer as vantagens concretas da sua cooperação em numerosas áreas. A confirmar-se essa cooperação, ela terá um significativo impacto, regional e porventura mais alargado.

Os desacordos e outros diferendos fronteiriços não resolvidos entre a China e a Índia, duas das civilizações mais antigas, não impedem que sejam forjados fortes laços de cooperação em diversos âmbitos.
A relação destes vizinhos asiáticos também conseguiu que a atenção mundial se concentrasse nos últimos anos no domínio demográfico da Ásia, grandes economias em desenvolvimento preocupadas em aliviar a pobreza e impulsionar o desenvolvimento nacional.
Os dois países mais populosos do mundo, com quase 37 por cento da população mundial, estão comprometidos em melhorar a situação dos seus habitantes, o que oferece um espaço para trabalhar em sinergia e fortalecer os vínculos.
Na próxima década, a China albergará a maior população de adultos do mundo, enquanto a Índia, pelo seu dividendo demográfico, necessitará de gerar empregos para a maior força laboral do mundo. Essas áreas oferecem oportunidades para os dos países trabalharem juntos.
Como vizinhos, a China e a Índia também têm uma longa história de vínculos culturais, científicos e económicos. Depois de uma curta guerra para os limites fronteiriços em 1962, ressentiram-se os laços comerciais e de investimentos.
No entanto, na última década, as relações dos dois gigantes recuperaram, e de apenas 3 000 milhões de intercâmbio comercial no fim do século, já se aproximam dos 10 000 milhões de dólares, o que significa grandes oportunidades para comerciantes e investidores dos dois países.
Além de compartilhar a sua nova extroversão e o entusiasmo nas suas políticas económicas, Nova Deli e Pequim também estreitaram laços económicos com o resto do mundo.
Os dois países integram a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Índia como membro fundador e a China desde 2001.
Os seus fortes laços económicos também desempenham um papel essencial numa das relações bilaterais mais importantes do mundo para 2030. Mesmo os cálculos mais conservadores prognosticam que nesse ano, o intercâmbio comercial entre eles superará o da China e Estados Unidos.
Há oportunidades infinitas de negócios entre a China e a Índia em diversas áreas como a agricultura e processamento de dados, gestão de valores, construção e infra-estrutura, electrónica e tecnologias da informação, transporte e logística. Além do sector farmacêutico, que oferece possibilidades colossais para os dois países.
De resto, a China tem uma vasta capacidade subutilizada no sector manufactureiro, somado a um excedente de capital que precisa de novos mercados. Com as economias ocidentais todavia volúveis, a Índia, com os seus 1 250 milhões de habitantes e a sua efervescente energia empresarial, oferece aos investidores chineses uma margem enorme de crescimento.
Pequim também procura aumentar a cooperação económica em Nova Deli no corredor Bangladesh-China-India-Birmânia e no programa da Nova Rota da Seda.
A China pode ajudar a acelerar o arranque económico da Índia concentrando-se em áreas chave como a manufactura, camiões, vias-férreas e parques industriais, o que pode formar a argamassa dos seus laços bilaterais.
As intenções de Pequim e Nova Deli de construir uma associação estratégica e de cooperação, e simultaneamente ampliar a cooperação económica e comercial, pelo contrário fez com que a China se transformasse no maior sócio comercial da Índia.
Mas, ficam algumas arestas por limar como o défice comercial da Índia com a China, que disparou de 1 0000 milhões de dólares, em 2001-2002, para 48 430 milhões de dólares em 2014-2015. A assimetria apresenta problemas de sustentabilidade.
Mas os acordos bilaterais forjados geram a esperança de que se possa instalar um intercâmbio comercial mais estável.
Com esse fim, os ministros do Comércio dos dois países subscreveram um Programa de Desenvolvimento Económico e de Cooperação Comercial de cinco anos, em Setembro de 2014, como forma de estabelecer um roteiro a médio prazo para promover um desenvolvimento sustentável e mais equilibrado das relações económicas e comerciais.
Os sinais de cooperação também são visíveis nos últimos acordos comerciais em assuntos ferroviários, cidades inteligentes e desenvolvimento. Embora os dois países se considerem rivais políticos, em Outubro de 2013, assinaram um Acordo de Cooperação para a Defesa de Fronteiras.
O pacto reconhece «a necessidade de continuar a manter a paz, a estabilidade e a tranquilidade segundo o controle actual das áreas fronteiriças entre a China e a Índia e continuar a implementar medidas para construir a confiança no âmbito militar segundo o controlo actual.»
Além disso a China e a Índia estão também entre os 21 países asiáticos que subscreveram o novo Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura, que oferece a esta região um contraponto das instituições financeiras dominadas pelo Ocidente, como o Banco Mundial.
Os recursos e os talentos combinados destes dois gigantes asiáticos podem levar ao crescimento económico regional e global.
Apesar de criticar as politicas expansionistas da China Meridional, Nova Deli procura consolidar os vínculos com Pequim, assim como estreitar a cooperação bilateral em assuntos de infra-estrutura, indústria, comunicações e energia.
A China e a Índia impulsionam a cooperação sino-indiana nos fóruns multilaterais como o Grupo dos 20 países ricos e emergentes, as Cimeiras Ásia Pacífico e o BRICS, o grupo constituído pelo Brasil, Rússia, Índia, China e Africa do Sul.
Os dois países fortaleceram o diálogo estratégico em grandes assuntos internacionais como a mudança climática e a salvaguarda de interesses comuns aos mercados emergentes e aos países em desenvolvimento, o que está em sintonia com a importância que a Organização das Nações Unidas concede à cooperação Sul-Sul, que se recorda neste 12 de Setembro.
«Os países em desenvolvimento têm a responsabilidade primordial de promover e realizar a cooperação Sul-Sul, que não substitui a cooperação Norte-Sul mas a complementa» precisa a ONU:
Nova Deli e Pequim também estão desejosas de aumentar a sua cooperação em assuntos ferroviários, construção de parques industriais, segurança, operações antiterroristas, além de expandir a comunicação e os intercâmbios em educação e turismo, facilitar intercâmbios adicionais entre os seus governos regionais e salvaguardar conjuntamente os seus interesses comuns, assim como os dos países em desenvolvimento.
Como a China e a Índia têm muitos objectivos comuns e áreas de convergência, as relações bilaterais baseadas numa participação económica equilibrada, somada a uma mentalidade inventiva e audaz em assuntos políticos, pode chegar a beneficiar os dois países em vez de iniciar uma revolução asiática.

http://www.odiario.info/china-e-india-entram-numa-nova/