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Quem está falando com a periferia?

Por Jari da Rocha

Embora Abelardo Barbosa nos tivesse alertado insistentemente, tivemos que aprender na dureza da vida. “Quem não se comunica, se trumbica” dizia o velho Chacrinha.

Trumbicados, seguimos ainda perplexos diante do fato de a periferia ter virado as costas para o PT, como disse Mano Brown, durante ‘esporro’ num de seus shows.

Onde está, afinal, o problema da comunicação? Sabemos que são vários, um deles, no entanto, pode ser no campo da linguagem: falta falar a língua do povo? Falta falar com o povo?

O texto abaixo, encontrado fortuitamente nas redes sociais, pode nos ajudar a entender parte do problema. O autor, intencionalmente ou não, abusa da linguagem oral o que, implicitamente, nos propõe outro problema: o preconceito linguístico.

No entanto, o melhor do texto está em sua forma narrativa, clara, inequívoca e inquestionavelmente provocadora.

Vale a leitura:

Um textão inútil (extremamente útil) pra reflexão. (Andre Okuma)

O Dória ganhou, primeiro turno e o caralho. Aí, na minha bolha (Facebook), eu vejo um monte de gente de ‘esquerda’ dizendo: “Nossa! Como tem eleitor burro”, “pobre de direita é foda”, “tão feliz de fuder com a cidade?

Então, mano, vou contar um lance: tem um cara que mora na quebrada da zona leste, ali pelo São Mateus, um cara firmeza, tranquilão, fez o médio, se fudeu pra caralho na vida, começou trabalhar cedo, sustentou a casa na adolescência, teve filho cedo, alugou um dois cômodos, no fundo de uma casa, no final ali do bairro e, como o cara é trabalhador, foi pro pau.

Sua vida é sofrida, mas pra relaxar ele toma uma cerva com os amigos, joga um futebol e come um macarrão no domingo, revezando na casa da mãe e da sogra.

Esse maluco, quando chega em casa do trampo, ele tá mó cansadão. Às vezes brinca com o filho, às vezes não, tem dias que ele transa com sua mulher, tem dias que não, mas uma coisa é de lei: pegar o final do Datena e o Jornal Nacional antes da novela.

Com o tempo (especificamente na era Lula) teve acesso ao crédito e realizou seu grande sonho: comprou um carro popular, praticamente zero, em 60 vezes. Se sentia como aqueles caras do comercial de carro que passa no intervalo do jogo e depois ainda, apertando daqui e dali, ele também comprou um celular bacana e sempre compartilha lá uns vídeo de zuera no Facebook.

E, há 10 anos, ele vê praticamente todo dia na TV um escândalo de corrupção sobre o PT, ele fica puto, diz pra mulher e pros amigos: “como o Lula, um cara que veio debaixo, roubar o povão?”

A resposta é sempre a mesma: político é tudo ladrão. Mas, quando começou aquele lance de bater panela, ele achou engraçado aquele monte de madame e almofadinha não sabendo nem segurar a porra da panela, riu pra caralho.

Tem um tempo que ele também tem pensando em abrir um negócio, uma coisa pequena, ser o próprio patrão, pois é foda tomar xingo e ser pressionado por uma vida toda pra ganhar pouco. A ideia de não ter que prestar satisfação pra chefe lhe parece a solução para a sua vida, mas tamo numa crise, nem é a hora agora, mas o plano fica anotado na cuca.

Aí vem as eleições, tem uma pá de candidato que vem com essa conversa aí de indústria da multa, daí ele lembra que tomou uma (multa) esses tempos. Se distraiu e passou no radar a 56 km/h.

Lembra dos corredor de ônibus ali da Avenida Aricanduva, que deixou um trânsito do caralho agora. Quando ele vai de carro pro trampo, pega um trânsito e, quando vai de busão, chega de boa no tempo, só que vem socado numa lata de sardinha. Quando vai de carro pensa em ir de ônibus, quando vai de ônibus, pensa no carro.

Pensa também na gasolina que aumentou, lembra do Bonner falando que a lava jato é o petrolão do PT, o PT do Haddad.

“Filhos da puta!”, ele pensa. Daí, no rádio, ele ouve um comercial eleitoral do Dória, enquanto tá parado no trânsito. Ele dizendo que é trabalhador, que venceu na vida, que é gestor e não político, ele lembra do “Aprendiz”, aquele programa que o Dória apresentava e ficava demitindo as pessoas. Lembra daquelas falas prontas do ramo dos business e pensa: ‘mano, esse maluco aí manja dos comando de empresa’. Começa a acreditar que ele é a saída dessa merda. Em casa, no intervalo da novela, só passa a porra do comercial do Dória, aí ele começa a pensar que o Dória é o cara que ele queria ser: veio debaixo, trampou pra porra e é hoje um empresário de sucesso.

Aí ele vai lá e vota no Dória, assim como a grande maioria de seus amigos e outras pessoas que tem o mesmo perfil que ele: o perfil da classe trabalhadora.

Marx já dizia que a revolução só poderia acontecer pelo proletário na luta de classes mas, estranhamente, as esquerdas (são várias) ao invés de colar junto pra tomar uma e trocar uma ideia, nem chega perto e ainda chamam ele de burro, pobre de direita e os caralho.

Mano, quando alguém chegou nele e explicou pra ele o que é luta de classes, mais-valia, alienação, fetichização da mercadoria?

Pra ele isso nem existe, e esses lances aí de cidade humanizada, parques, ciclovia (ele trampa há 30 km de casa, a ciclovia na quebrada começa no nada e termina em lugar nenhum).

A única coisa que ensinaram pra ele é que “deus ajuda quem cedo madruga” e “ema ema cada um com seus pobrema”.

Aí você vai pensar: mano, mas tá na cara que o Dória é um mentiroso, que ele já é rico pra caraio, de uma tradicional família escravocrata que remonta ao período colonial. Ou, ainda, que indústria da multa é uma falácia e tal.

Sim, tá na cara quando você, todo dia, lê uns portais de jornalismo e blogs à esquerda, pesquisa a fundo e compara notícias, ou ainda lê criticamente a folha, usa o Facebook pra se aprofundar e perceber as merdas aí da política institucional.

Você  acha que esse cara pensa: ‘mano, vou ler o Sakamoto, ele sempre tem umas falas coerentes a respeito destes temas’?

Mano, tamo na “sociedade do espetáculo” (Debord), da “estetização da política” (Benjamin), do “fascinante fascismo” (Sontag), esse cara vai só usar o Facebook pra compartilhar vídeo cacetada e se informar vendo o Datena, pela educação que ele teve na escola, ele não vai perder tempo lendo blog de esquerda, ele vai ver uma série no Netflix.

E nesse rolê da quebrada, ainda tem os evangélico ultra conservador e os vidaloka que não vota.

Enquanto isso, o PT ainda tá colando com o PMDB, o Freixo só ganhará por milagre e fazemos textão, ciranda e post “Fora Temer!” pra ganhar like.

http://www.tijolaco.com.br/blog/por-andre-okuma/