Foto: Reprodução/Facebook da pesquisadora Patricia Gouvêa

As marcas e suas derrapadas: por quê?

Por Priscila Portugal

No último final de semana só se falou (no meio fashion) em uma coisa: a estampa Pindorama, da marca carioca Maria Filó. Por quê? Porque ela reproduzia uma tela (que segundo a marca era de Debret, mas segundo especialistas era mesmo de Rugendas) com uma cena da época do Brasil escravocrata, uma negra com o bebê no colo servindo uma senhora branca. Segundo a pesquisadora Patricia Gouvêa explicou em seu perfil no Facebook, aliás, a imagem original, inclusive, traria duas mulheres negras, o que altera completamente o significado da cena. A Maria Filó se retratou, dizendo que não teve a intensão de ofender ninguém e que já retirou as roupas das lojas. Tem quem ache mimimi (eu, definitivamente, não acho) e tem quem esteja escrachando a marca publicamente. O fato é que, mesmo sem a intenção, houve a falha, muito grave atualmente.

Foto: Reprodução/Twitter

Eu lembrei da Zara, que dois anos atrás lançou uma camisa de pijama infantil bem parecida com os uniformes dos campos de concentração nazistas: com listras azuis e brancas e uma estrela dourada de seis pontas no peito. Oi? Em outra seara – a do atendimento – a Farm foi acusada ano passado de gordofobia, quando as vendedoras de uma loja foram aos risos para os fundos da loja enquanto uma cliente gordinha esperava para ser atendida. A americana Abercrombie patinou para se livrar de uma besteira dita por um de seus diretores: de que suas roupas não eram feitas para gente “feia e gorda”. Affff, gente. Sem contar as marcas de cerveja, que cometem um “deslize” atrás do outro. Quem não lembra do “deixei o não em casa”, da Skol, que sofreu intervenções em seus outdoors em São Paulo?

Pois é. Por mais que o consumidor veja apenas como um “deslize”, a verdade é que nos tempos de hoje nenhuma marca pode se permitir este tipo grave – e ofensivo e opressor e cruel – de erro. A gente que trabalha com comunicação sempre fica pensando: como é que uma equipe inteira deixou passar isso? É claro que todo mundo pode errar, e minha intenção aqui não é linchar publicamente nenhuma marca. É mesmo entender como podemos trabalhar para que isso seja evitado e também mostrar a amplitude que um erro aparentemente simples pode assumir nos dias de hoje.

Para isso, eu fui conversar com a Lorena Borja. Eu fiz com ela um curso livre de coolhunting na Faap em que falávamos sobre questões assim. A Lorena também entende muito de semiótica, uma teoria que fala sobre a importância das simbologias e suas manifestações no nosso dia a dia. Resumindo de um jeito bem simples: tudo o que fazemos é uma linguagem que comunica quem somos, quem queremos ser ou quem queremos parecer, e com as marcas não é diferente. Por isso, elas precisam ficar atentas aos mínimos detalhes. “Tudo que uma marca escolhe para representá-la é uma linguagem: a estamparia, o anúncio, a trilha sonora do desfile, o cheiro que ela coloca na loja, o endereço do ponto de venda dela… tudo isso representa o conjunto de ideias que ela quer transmitir para o mercado e para a cliente dela”.

Só que não adianta essa mensagem ser falsa ou superficial: cedo ou tarde isso vai aparecer. Além disso, de nada vale ter uma mensagem clara se você não entende o que está acontecendo à sua volta. “Tem um termo alemão que é o zeitgeist, palavra que significa o ‘espírito do nosso tempo’. Talvez se fosse na década de 80, essa estampa da Maria Filó, por exemplo, não teria tido os desdobramentos que teve hoje. Mas o espírito do nosso tempo exige uma responsabilidade das marcas em relação ao que elas apresentam ao mercado. Os consumidores estão muito ligados. A população negra, por exemplo, está reivindicando seus direitos. A pauta racial é uma pauta do momento, e não só no Brasil. As marcas precisam ficar atentas a isso e saber o que querem dizer ao mercado. É um posicionamento”, resume. E como disse a atriz Thaís Araújo em seu Facebook, “A escravidão não pode virar ‘pop’, não pode ser vendida como uma peça de moda. A moda nos representa, nos posiciona, nos empodera, comunica quem somos”. Assino embaixo.

Extraído de: http://priscillaportugal.tumblr.com/post/151941686312/as-marcas-e-suas-derrapadas-por-quê