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Homenagem a dom Paulo torna-se ato de denúncia do

Estado de exceção, da perseguição a Lula e da PEC 241

VLADO, SANTO DIAS, POVO DA RUA

Em ato por Dom Paulo, protestos e lembranças de apoio em tempos difíceis

Arcebispo emérito de São Paulo foi homenageado no Tuca por seus 95 anos. “Meu pai, amigo, irmão, pastor”, diz Ana Dias. Auditório canta com ele a Oração de São Francisco de Assis e repudia Temer

por Vitor Nuzzi, da RBA, em 25/10/2016 

São Paulo – Dom Paulo Evaristo Arns permaneceu sorridente enquanto, ao lado do advogado Mário Simas, aguardava na primeira fileira do auditório o início do ato, na noite de ontem (24), no Teatro da Universidade Católica, o Tuca, na zona oeste de São Paulo.

Com gritos de “Fora, Temer”, subiu ao palco às 18h20, amparado e sorridente, sempre saudando o público com a mão direita e, às vezes, com os dois braços abertos. Outro advogado que se notabilizou na defesa de presos políticos, Luiz Eduardo Greenhalgh lembrou de como dom Paulo, em 1979, abriu passagens entre policiais para entrar no Instituto Médico Legal, onde estava o corpo do metalúrgico Santo Dias da Silva, assassinado durante piquete na Sylvania, em Santo Amaro. Lá dentro, falando aos soldados: “Olhem o que vocês fizeram!”. Durante a noite, se repetirão protestos contra a ditadura e contra o atual governo.

Na homenagem pelos 95 anos do cardeal, completados em 14 de setembro, também muito se falou de outro assassinato, o do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, que completa 41 anos nesta terça-feira. Clarice Herzog estava no Tuca ontem, ao lado do filho Ivo. Ana Dias, viúva de Santo, também. “Para falar de Dom Paulo é muito difícil e muito fácil. Ele é meu pai, meu amigo, meu irmão, meu pastor”, disse Ana, lembrando do apoio dado pelo cardeal nos tempos do movimento contra a carestia. “Nós nunca caminhamos sozinhos.” E da intervenção do religioso no triste episódio de Santo Dias. “Se não tivesse Dom Paulo, não teria enterro.”

Se os momentos de enfrentamento da ditadura foram constantemente lembrados, muitos também exaltaram a presença do cardeal em defesa da população mais vulnerável. “Ele é descendente de alemão, mas o rosto dele é da periferia de São Paulo”, diz Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (renunciou em 2009 pelo limite de idade), chamando Dom Paulo de “querido garoto de 95 anos” e, em trocadilho, falando sobre os efeitos perversos do “capetalismo liberal”. Dom Ângelo e Dom Paulo trabalharam juntos durante 23 anos.

Luta coletiva

Primeiro presidente da Comissão Justiça e Paz, o jurista Dalmo de Abreu Dallari diz considerar Dom Paulo “um dos mais importantes agentes da implementação do humanismo na sociedade brasileira”. E lembrou de divergências entre as comissões do Rio de Janeiro e de São Paulo, por causa das quais, conta, chegou a levar um “pito” no Rio, que discordava da política paulista de denunciar abusos e crimes de agentes da ditadura. “Ele continua dando expressividade à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Eu, como ser humano, agradeço calorosamente a Dom Paulo.”

Durante a cerimônia, o cardeal ganhou presentes, como camisetas do Movimento Nacional da População de Rua e da Democracia Corinthiana, além de um boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que pôs na cabeça por alguns instantes, gesticulando, os braços abertos. Representantes do Levante Popular da Juventude e do MST sobem cantando Coração Civil, de Milton Nascimento. “Na luta coletiva a gente segue honrando a sua história”, dizem a Dom Paulo, para em seguida cantar, ao lado do cardeal, aOração de São Francisco de Assis (“Senhor/ Fazei de mim um instrumento de vossa paz”). O auditório acompanha.

O jornalista Juca Kfouri, corintiano notório, lembrou ser “filho da USP e sobrinho da PUC” – Nadir, sua tia, que morreu  há cinco anos, foi a primeira reitora da universidade católica (em duas gestões, de 1976 a 1984). Ela o chamou de “impertinente” ao saber que o sobrinho havia perguntado a Dom Paulo se ele realmente acreditava em Deus. O cardeal o chamou de atrevido. Na noite de ontem, disse que cometeria outro atrevimento e impertinência e dirigiu-se ao arcebispo: “O senhor é, acredite ou não, eterno”. Ao seu lado, o ex-jogador Wladimir, um dos líderes da Democracia Corinthiana entre os atletas, lembrou que a equipe foi recebida por Dom Paulo pouco antes de acabar com o “jejum” de 22 anos sem títulos, em 1977: “A gente poderia jogar com a seleção do mundo que não perderia”.

Apóstolo e profeta

Ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Direitos Humanos, José Gregori também destacará o papel de resistência democrática desempenhado por Dom Paulo. Mas também o de articulador. “Quero dizer uma coisa que certamente repetirei daqui a cinco anos, quando a gente comemorar o centenário: foi possível que se compusesse esse painel (de resistência) porque havia um tecelão, que era ao mesmo tempo apóstolo e profeta”, afirmou, citando uma frase dita, contou, por Leonel Brizola, e arrancando risos: “Se Dom Paulo não fosse bispo, seria o meu chefe”. Para complementar, dirigindo-se ao cardeal: “Dom Paulo, o senhor foi o chefe da redemocratização e dos direitos humanos deste país”.

O jurista Fábio Konder Comparato cita a importância do arcebispo para o pensamento da Igreja Católica e sua atuação social, ao afirmar que a CNBB apoiou o golpe de 1964 e que a Igreja brasileira, historicamente, não se manifestou contra a escravidão no país. “Eu afirmo que Dom Paulo converteu a Igreja no Brasil”, diz Comparato. Ele contou ter ficado “encabulado” ao ser convidado para a organizar a Comissão Justiça e Paz. “Disse a ele: ‘Dom Paulo, sou um mau católico’. Ele respondeu: ‘Isso não tem a menor importância. Eu quero saber se o senhor está disposto a defender todas as vítimas (perseguidos políticos) e parentes das vítimas’”, lembrou. “O coração de uma religião é uma ética, não é a dogmática”, afirmou o jurista, citando o princípio do amor ao próximo.

O advogado Fermino Fecchio, ex-ouvidor nacional da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e da Polícia do Estado de São Paulo, ressaltou a importância da memória. “A história de resistência da nossa comunidade é patrimônio da nossa comunidade, e por isso precisa ser preservada”, afirmou, citando ainda o Centro Santo Dias de Direitos Humanos (que presidiu) e o “pequenino e aguerrido” Clamor – o Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países do Cone Sul, criado em 1978, e também nome de um boletim do grupo.

Coordenador do Movimento Nacional da População de Rua, Anderson Lopes lembrou da preocupação de Dom Paulo com a implementação, em São Paulo, da Carta de Puebla, com as conclusões de encontro do episcopado realizado em 1979 no México e da opção preferencial da Igreja pelos pobres, e falou sobre a criação do Vicariato Episcopal para Pastoral do Povo da Rua, coordenado pelo padre Júlio Lancellotti – que estava na plateia durante o ato de ontem.

Anderson recordou que Dom Paulo, a pedido do povo da rua, usou um prêmio para erguer uma Casa de Oração, aberta até hoje no bairro paulistano da Luz, na região central de São Paulo. E lembrou de um encontro do movimento com o então cardeal-arcebispo debaixo de um viaduto: “Esperava uma comitiva de carro. Dom Paulo saiu da Casa Episcopal e veio a pé”.

Livro e Papa

O ato de ontem marcou o “pré-lançamento”, ou relançamento, do livro Dom Paulo – Um homem amado e perseguido (Expressão Popular), cuja primeira edição é de 1999, das jornalistas Evanize Sydow e Marilda Ferri. “O senhor sempre caminhou conosco”, disse ao arcebispo o coordenador da Pastoral Operária, Paulo Pedrini, que destacou a presença, na plateia, de Célia, viúva de Waldemar Rossi, militante operário, que morreu em maio. O recurso obtido com as vendas do livro será destinado a uma exposição prevista para o primeiro semestre de 2017, no Memorial da Resistência.

Quase ao final, chegou uma mensagem do Vaticano, assinada pelo presidente do Conselho Justiça e Paz, cardeal Peter Turkson, chamando o arcebispo de “exemplo luminoso”. Com voz forte, Dom Paulo falou por alguns minutos, citando Santo Dias, o Papa Paulo VI, que o nomeou bispo, e agradecendo “meus amigos todos”.

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Resistência pregada por Dom Paulo é atual, diz bispo, que cita PEC 241

por Vitor Nuzzi, da RBA, 25/10/2016 

São Paulo – Ex-bispo auxiliar de São Paulo (recebeu a ordenação episcopal em 1975 por Dom Paulo Evaristo Arns) citou o arcebispo, homenageado ontem (24), como inspiração de resistência à situação política de hoje. Dom Ângelo disse ver o arcebispo emérito “misturado ao povo,misturado com os bispos, padres, religiosos, leigos e leigas, ecumênico, coração aberto, anunciando a urgência de resistirmos contra toda mentira”. E acrescenta: “Aquela resistência a que ele nos convida é permanente no Brasil atual também”.

Ele cita texto da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), divulgado na semana passada, sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241: “Em sintonia com a Doutrina Social da Igreja Católica, não se pode equilibrar as contas cortando os investimentos nos serviços públicos que atendem aos mais pobres de nossa nação. Não é justo que os pobres paguem essa conta, enquanto outros setores continuam lucrando com a crise”.

O ex-bispo responsável pela Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo lembra que o documento fala ainda de propostas de reforma trabalhista e no ensino, além da terceirização, como iniciativas que põem em risco “os direitos sociais do povo brasileiro”. Termina a fala beijando a testa de Dom Paulo, que aplaudiu a fala.

Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, João Pedro Stédile agradeceu ao cardeal por ajudar “a acabar com a ditadura no Brasil” e por salvar presos políticos brasileiros e militantes latino-americanos. Contou trazer um recado do ex-presidente e agora senador uruguaio José “Pepe” Mujica: “Diga a Dom Paulo que nós, uruguaios, temos muito orgulho dele e já o nomeamos ‘gaucho oriental’”. Ainda segundo Stédile, o arcebispo “salvou Leonardo Boff da Inquisição Romana”.

O líder dos sem-terra pediu ainda ajuda de Dom Paulo – destacando sua “autoridade de quem está sempre próximo com aquele lá de cima e a ‘amizade’ com São Francisco – para “acabar com o Estado de exceção no Brasil”. Disse esperar a multiplicação, entre a juventude, de “milhares de Dom Paulo e ajudar a democracia a voltar ao Brasil”. Também citou o juiz federal Sérgio Moro, pedindo auxílio para “não deixar aquele imperador de Curitiba prender o Lula”.

“Reze e nos ajude para que o povo volte a se organizar a volte para a rua”, acrescentou Stédile, para emendar um último pedido, de outra natureza. “Um centroavante para o Corinthians e também um para o Grêmio”, brincou.

O secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania em São Paulo, Felipe de Paula, também falou sobre possíveis ameças de perdas de direitos sociais. “Neste momentos difíceis, como hoje, a gente precisa de exemplos e referências muito fortes”, afirmou, referindo-se a Dom Paulo e lembrando que desde 2014 a cidade tem um prêmio de direitos humanos que leva o nome do arcebispo emérito.

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