Archives for category: Ação e Reação

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Carlos Humberto, criador da Diáspora Black

Diáspora Black:

uma rede contra a discriminação em hospedagens

Criada por quatro empreendedores negros, iniciativa quer combater o racismo e valorizar experiências turísticas afrocentradas
Segundo um dos criadores da iniciativa, Carlos Humberto, usuários negros sofrem mais discriminação e rejeição em outras redes de hospedagem

Formada pelo designer André Ribeiro, pelo jornalista Antonio Luiz, pelo mestrando em Desenvolvimento Territorial, Carlos Humberto da Silva e pelo artista visual Gabriel Oliveira, a Diáspora Black nasce com o objetivo de valorizar as identidades negras e experiências turísticas afrocentradas. 

Por Djamila Ribeiro 

Além de abrigar pessoas, a ideia é oferecer mais perspectivas e opções de hospedagem que valorizem a cultura afrobrasileira, por meio de uma rede de indivíduos que oferecem hospedagem.

A Diáspora Black também nasce porque, segundo pesquisas, pessoas negras são recusadas ou discriminadas em outras redes similares, como o Airbnb. Em entrevista para CartaCapital, Carlos Humberto explica como funciona a rede e quais são as expectativas.

CC: Como surgiu a iniciativa da Diáspora Black?
CH: Essa é uma tradição que realizamos de forma informal, entre amigos, de acolhida, de compartilhar espaços de pertença. É algo que sempre fiz em minha casa, recebendo visitantes por temporada por diferentes plataformas. Mas vivi uma série de experiências de rejeição e discriminação, além de manifestações de desconfiança e desconforto com o fato de eu ser negro dentro de minha casa. Isso me fez questionar o funcionamento das plataformas e criar com alguns parceiros e parceiras uma rede nossa, com outros serviços associados para facilitar e priorizar, por exemplo, experiências turísticas afrocentradas nas cidades que visitamos.

 

CC: Pode dar alguns exemplos de situações de discriminação?
CH: É comum casos de racismo por anfitriões nessas plataformas, com agressões durante a convivência, por exemplo, ou a rejeição, que diminui em 16% as negociações dessas plataformas para usuários negros, segundo a Harvard. Mas há uma situação dos próprios algoritmos, que encobrem os anúncios.

Outra pesquisa recente mapeou que, em 12 bairros icônicos da cultura negra de Nova York, como Brooklyn e Harlem, onde mais de 75% da população é negra, quase 80% dos anfitriões são brancos, ampliando a concentração de renda e a gentrificação dessas áreas. É um problema estrutural, que demanda alternativas que nos favoreça.

CartaCapital: Como a Diáspora Black pode atuar para a promoção da igualdade?
Carlos Humberto: O turismo é um elemento importantíssimo na economia brasileira, e muito se pauta sobre a herança e a cultura da população negra. Somos um dos principais destinos do turismo étnico mundial. Nossa memória está dispersa em diferentes cidades e manifestações, então, visitá-las é uma forma de valorizar nossas identidades, reescrever a narrativa de nossa contribuição na formação social do País, além de fortalecer economicamente essa população. A Diáspora Black se propõe a conectar esses propósitos em uma plataforma que agrega diversos serviços.

CC: Como funciona?
CH: O turismo de experiência é um dos segmentos que mais cresce, e o Brasil já é um dos principais destinos para o turismo étnico, embora não haja políticas específicas, como um mapeamento transversal ou campanhas de visibilidade a essas iniciativas. A plataforma reúne essas experiências, amplificando sua visibilidade, permitindo o acesso de mais pessoas, e estabelecendo um aumento de renda. Além disso, ao mobilizar essa rede, fortalecemos os laços de colaboração na economia da comunidade negra.

CC: Quais serviços já estão disponíveis?
CH: Temos, por exemplo, cadastro em comunidades quilombolas, em Búzios, além de terreiros de matrizes africanas e coletivos de mulheres negras, que realizam acolhida de grupos para atividades de formação politica, cultural e artísticas, e ainda de sustentabilidade.

Além das trocas simbólicas, para a maior parte dos usuários, a oferta de acomodação compartilhada é uma possibilidade de geração extra de renda, que ativa toda a circulação dentro da comunidade negra.

Em setembro, iniciamos um clube de vantagens com empresas e estabelecimentos parceiros, que garanta aos usuários descontos exclusivos em passagens de ônibus, restaurantes, serviços de limpeza para os imóveis, entre outros.

Leia também:
“Quando o catolicismo é alvo de intolerância, a mobilização é muito maior”

CC: Como está a receptividade?

CH: Nós iniciamos a operação plena da rede em julho e já chegamos a 1.300 cadastros. Hoje, 74% de nossa rede de anfitriões é formada por mulheres negras, que já têm atuação de acolhida seja atuando em redes e coletivos, seja em seus imóveis particulares. Na outra ponta, temos uma juventude com maior mobilidade pelo país e buscando fortalecer sua formação identitária em diferentes cidades. Com o encontro dessas redes, podemos construir uma narrativa sobre a riqueza cultural da diáspora africana.

CC: Mas essa riqueza transcende fronteiras do Brasil.
CH: A diáspora é entendida como uma marca da subjetividade da população negra, pela memória coletiva da dispersão forçada de seus locais de pertencimento. Agora, podemos usar a tecnologia para reconectar essas referências, fazer dessa mobilidade e dispersão uma potência, de articulação e mobilização em rede. Nós já chegamos em dez países, com cadastros em regiões como Itália, Portugal e França. Também temos uma parceria com a Câmara de Comércio Brasil-África para ampliar negociações em mais de 30 países membro.

CC: Qual o caminho para abarcar toda essa diversidade?
CH: Para materializar esse alcance com o aplicativo estamos captando investimentos. Para o próximo ano, estamos desenvolvendo um aplicativo para integrar a rede aos serviços de geolocalização, facilitando a localização de opções e referências em cada cidade.

É uma etapa de crescimento do cadastro dessas oportunidades, locais históricos, coletivos e comunidades que possam proporciona experiências autênticas de reconhecimento das marcas e heranças da cultura negra em diversas dimensões: gastronomia, arte, música, intelectualidade, entre outros aspectos.

CC: Qual o foco da Diáspora Black no momento?
CH: Estamos com uma procura grande por acomodações no Rio, São Paulo e em outras capitais brasileiras e mundiais, como Nova York. Por isso, estamos intensificando nosso foco na ampliação de novos cadastros de espaços para acomodações. Todos são convidados a promover a história, memoria e cultura da população negra e contribuir para geração de renda e para diminuição das desigualdades. Assim, convidamos a população negra de diferentes lugares a fazerem parte desta rede e ainda, é um convite a todos que queiram contribuir no fortalecimento e valorização de nossa herança africana.

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/diaspora-black-uma-ferramenta-contra-a-discriminacao-em-hospedagens

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Reaja à Violência Racial

Negro

se você não reagir

você será morto

morto socialmente

culturalmente

economicamente

psicologicamente

moralmente

precocemente

morto antes de nascer

ainda no ventre materno

será morto sem trabalho

sem escola

sem ter onde morar

não terá direitos

nem saúde

estará sempre acompanhado

da praga embriaguez

da prostituição

empurrado para o crime

você será morto

nas prisões, nas ruas

no campo, nas cidades

por fome

por uma bala da polícia

morto sem história

com a angústia de não ter lutado

sua dignidade

estraçalhada.

 

Milton Barbosa

Milton Barbosa é poeta e ativista, fundador do MNU (Movimento Negro Unificado).

Extraído de: http://movimentonegrounificadomnu.blogspot.com.br/

Ator Pedro Cardoso abandona programa ao vivo em apoio a grevistas.

 

POR WAGNER FRANCESCO, teólogo

Luiz Felipe Pondé, conhecido digital influencer em nossa terra tupiniquim, escreveu no Jornal Folha de São Paulo um artigo onde ele pergunta: “Por que linchar ladrões é injusto, mas é ‘progressista’ linchar Waack”?

Ora, é como perguntar: “por que a goiaba que dá no pé de manga não é tão doce quanto a maça que dá no pé de uva?”.

O Pondé quer misturar tudo numa coisa só para fantasiar suas más intenções na defesa de um sujeito que, se não é racista, falou algo típico de quem é.

Por que linchar ladrões é injusto? Importante: mas do que injusto, é crime. O nosso ordenamento jurídico proíbe o exercício arbitrários das próprias razões. Está lá, previsto no artigo 345 do Código Penal:

“Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite:Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência.”

O que se deve fazer “com ladrões”? Denunciar e esperar o poder público agir.

Porém, outra coisa é importante: linchamento pressupõe violência física. E mais uma vez: é por isso que o linchamento não é só injusto, mas crime. Por causa de um furto, querem que o acusado pague com “uma tira do corpo” – com sangue e tudo, sem valer o argumento que prevaleceu no filme “O auto da compadecida”.

Não! Não se deve linchar ladrões. Também não se deve linchar o Waack. Mas quem o linchou? Ele foi exposto pelo que, claramente, disse. Assim como “ladrões”, o Waack foi denunciado. E só. E afastado do trabalho. Coerente o afastamento, não é?

Como uma emissora que num dia nos disse que era “toda Maju”, de repente se tornaria “toda Waack”? Não dá.

Mas o Pondé, em seu artigo, não cansou de nos cansar com sua pseudo intelectualidade – mascarada sobretudo em seus vídeos, fumando, com cara de personagem do século 19, um charuto (que coisa “old!”) – quando, para defender o Waack, disse:

“O politicamente correto destruiu qualquer possibilidade de reflexão minimamente honesta sobre virtudes na vida pública contemporânea. Essa discussão está morta.”

Para o Pondé, a frase racista do Waack deve ser vista como uma reflexão minimamente honesta – mas, ele acusa, o politicamente honesto destruiu essa possibilidade de reflexão.

Na minha opinião, o que o Waack falou pode até ser minimamente honesto, mas não é nenhuma reflexão – no sentido estrito do termo. Quem reflete não fala o que ele falou – e tanto não refletiu que pediu desculpas.

Não vi ninguém desejando a morte do Waack, ou ameaçando sua integridade física, ou dizendo que ele disse uma coisa que não disse. Não há que se falar em “linchamento virtual” – muito embora este exista e o Pondé saiba fazer muito bem.

 

O problema é que o Pondé, em sua enfadonha luta contra o politicamente correto, cria um politicamente correto à sua moda: ele quer que todos falem o que quiserem, mas que não sejam obrigados a ouvir o que não querem. Criou a patrulha contra os que denunciam as falas dos outros.

Expor o racismo não é linchamento. E racismo não é opinião, é burrice – como dizia Gabriel, o Pensador.

 

Publicado no Justificando

OPINIÃO VINTE :

Voltem à foto do “intelectual” servo da direita hidrófoba e atentem para a cútis e os traços do mesmo. Faz sentido? Só se for para rir!

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A artísta-plástica Rosana Paulino

Perspetivas de mundo, conversa com Daniel Lima, curador de AGORA SOMOS TODXS NEGRXS

Por Marta Lança

A questão racial tem sido uma disputa permanente no debate público brasileiro, conquistando mais espaço e posicionamentos articulados. São várias as exposições de artistas negros pelo país que inscrevem na sua obra, entre outras coisas, uma antiga história de opressão e de resistência com continuidades no presente. A reflexão e produção negra há muito tempo que vem questionando as estruturas de poder, no entanto, considera-se haver agora uma espécie de boom no circuito da arte contemporânea. Mas para quem? “Boom da arte negra é uma narrativa que só faz sentido da perspectiva normalizada pelo mundo branco”, diz a artista Jota Mombaça. Cúmplice das hierarquias da visualidade e das estruturas da branquitude, a arte brasileira terá forçosamente que rever os seus padrões. Daniel Lima, curador de Agora somos todxs negrxs, exposição integrada no 20º Festival Videobrasil, que decorre em São Paulo, explica a dimensão deste debate.  

 

Como pode a arte contribuir para desconstruir uma enraizada mentalidade racista?

Você não muda um país só na macropolítica, as transformações são também culturais e cultura não se elimina por decreto, tem de atingir o outro campo da existência. Não perceber isso é um grande erro das esquerdas. A abordagem artística fala do campo da subjetividade, da micropolítica e toca um espaço de construção que as leis não alcançam. A arte consegue alcançar estes dois campos: um procedimento ético de construção e pensa o modo de organizar essa narrativa. Pensar como a gente produz discurso é uma questão fundamental na descolonização das mentes. O padrão de legitimação do conhecimento talvez seja a principal amarra colonizadora, e mesmo quando você ocupa esse lugar, tem de aplicar a mesma voz com um padrão historicamente construído no qual não constam outras formas de falar, no sentido da expressão.

A exposição é um catalisador deste momento no Brasil?

O mais valioso é o fato deste país – que teve a maior escravidão – começar a discutir num plano cultural e intelectual e, sobretudo, em trama. Não se trata de um grupo de artistas, mas de uma rede que vem sendo criada em décadas de trabalho. Quando se coloca todos juntos é óbvia a coerência entre os trabalhos, por exemplo na questão performática do corpo e da violência, na leitura da História, com o triplo trauma da colonização: escravidão, extermínio indígena e perseguição religiosa, e a sua atualização nos dias de hoje. Refletem sobre o modo como a sociedade racista, com a qual a gente aprendeu a conviver, criou dispositivos para manter o seu funcionamento. Assim, os nossos trabalhos juntos criam uma espécie de anti-dispositivos de inferiorização, são máquinas de contra-ataque a esse mundo normatizado. O movimento de resistência está criando um mundo quando se opõe àquele que existe. A exposição é feliz nesse sentido.

Proteção extrema contra dor e sofrimento, Rosana Paulino

Proteção extrema contra dor e sofrimento, Rosana Paulino

Estas questões surgem noutras frentes, fora de uma programação específica das alteridades, ou são ainda consideradas “temáticas”?

Ninguém pergunta a um curador de uma Bienal, quando a exposição apresenta uma esmagadora maioria de artistas brancos: “você está tematizando a branquitude?”. Ninguém pergunta mas na verdade está sendo sim colocado o mundo branco como eixo curatorial mas isso não evidenciado nem problematizado. A ideia da perspectiva branca é tomada erroneamente como universal e, sendo a perspectiva do dominante, apresenta-se como absoluta e invisível. Mas esta perspectiva tem cara e só vai ser evidenciada quando contraposta a outra perspectiva diferente. Ou seja, temático seria se todas as exposições se chamassem “Sempre fomos todos brancos” e o que se diferencia disso é considerado temático. Mas não é, são perspetivas de mundo.

É preciso fugir da categoria de “artista negro”? 

Deparo-me com este problema mesmo com quem produz nesse contexto: ao dizer “sou um artista negro” parece que está se categorizando. Mas não, está abrindo uma perspetiva nova. O feminismo fê-lo na arte de um modo radical, não se chama temático às artistas que trabalham questões das mulheres porque construíram essa perspetiva. Nós não trabalhamos num campo restrito, antes adotamos uma visão de mundo que afinal significa uma nova maneira de representar o passado, o futuro e o presente. Como toda a perspectiva poética, abre muito mais do que fecha. E quando mudamos radicalmente essa perspectiva apontamos para a mudança do próprio conceito de arte.

detalhe de 'A ferida colonial ainda dói', Jota MombaçaDetalhe de ‘A ferida colonial ainda dói’, Jota Mombaça

Acho que este movimento está lutando para não ser engolido nem esmagado pelo movimento branco, que tem historicamente dominado de forma totalitária os circuitos de produção e reprodução de arte e pensamento.

Jota Mombaça 

Há mais consciência da questão racial no Brasil?

Pela primeira vez o Brasil se auto reconheceu como maioritariamente afrodescendente desde que no Censos temos uma maioria de pardos e negros. Antes, a ideia de embranquecimento estava muito espalhada e as pessoas não tinham autodeterminação na questão racial. O debate está em curso há muito tempo, mas hoje a consciência do dado racial coloca-nos com uma população maioritariamente negra, isso implica uma transformação do olhar institucional, na cultura e educação.

E na arte contemporânea?

Talvez a arte contemporânea seja a mais segregada de todas as instituições culturais, e tem de repensar como lida com as questões raciais no Brasil, em seus acervos, em suas equipes de trabalho, a própria função do museu, a própria ideia de instituição e a sua relação com a sociedade. É esse o esforço que por exemplo o Videobrasil se coloca ao nos convidar a fazer esta exposição.

da série 'Cartas ao Mar', Estácio Neves

 

Da série ‘Cartas ao Mar’, Estácio Neves

Quando pegou no acervo do Videobrasil constatou que quase havia poucos artistas negros, mesmo entre os artistas africanos. Houve uma tentativa de colmatar esta ausência e colaborar na potência que se vem gerando?

O Videobrasil trabalha com o tema afrobrasileiro há muitos anos. Pode-se fazer a crítica ao facto do assunto, aí sim tematizado, ser produzido não a partir da perspetiva negra. A própria constituição da exposição criou uma intervenção institucional que desconhecia quão pequena era a participação negra. Serviu também para perceber os mecanismos dentro da arte contemporânea, que dá menos reconhecimento à questão identitária de quem produz e mais à questão temática: arte brasileira, arte indígena, arte negra… O modernismo criou essa ideia de que a arte está descolada do contexto e, como nómada, pode migrar para vários contextos e que se deve contemplar a obra e não o contexto no qual foi produzida. Hoje assistimos a um volte-face desse tipo de pensamento para: “tudo importa a partir da perspetiva que se está construindo”.

Há menos desigualdade no acesso ao circuito artístico?

Nas últimas décadas uma parte da população pôde aceder aos meios universitários. Ora, a arte contemporânea é um campo para iniciados, você tem de compreender os códigos, não basta produzir. Então, está intimamente ligada à formação universitária e o fato de nova geração de artistas negros estudarem em universidades públicas fez essa inserção mais expressiva.

A figura do artista-pesquisador é cada vez mais comum…

Um dos campos de batalha é o campo teórico. Uma característica desta geração é precisamente a vontade de colmatar o lapso da produção teórica. Então, a construção não só acontece na obra mas no discurso que a acompanha, pretende-se ocupar esse espaço e fornecer os elementos teóricos reconhecidos pela arte contemporânea. As reflexões que aparecem nos painéis da exposição são fragmentos de textos já publicados pelos artistas.

Pensando na discussão sobre o lugar de fala, estes artistas têm a sua experiência de vida muito inscrita na obra. Como se houvesse uma maior urgência em dizer certas coisas…

Lá está a nossa tese: não precisamos de fazer o recorte temático sobre a questão negra, a temática negra está no trabalho em si. Como curador não preciso de fazer ligação entre um trabalho e outro, não estou propondo uma colagem de várias partes que formam um todo. Elas já saem conjugadas dentro da sua maneira de existir, dentro desta perspectiva.

Merci beaucoup blanco, Musa Michelle Mattuizzi

 

 

Merci beaucoup blanco, Musa Michelle Mattuizzi

Porque é tão recorrente trabalhar sobre o corpo negro?

O trabalho mais antigo da exposição é do Zózimo Bulbul e o mais recente é o da Musa Michelle Mattiuzzi, ambos têm o corpo diante da câmara. O trabalho de Luíz de Abreu desconstrói os estereótipos enfatizando-os. A mão do Moisés Patrício nos espaços da cidade. O corpo que faz travessias no trabalho de Paulo Nazareth. O corpo da multidão da torcida de futebol. A suspeição sobre o negro na cidade em Dalton Paula. Ou seja, o corpo está num lugar de afirmação sem ser estereotipado.

Qual o lugar do artista curador?

Não disputar esse campo do profissionalismo curatorial de “arranjador” de obras que muitas vezes beira o maneirismo da arte contemporânea. Há um lado autoral na catalização dessas forças, de fazer ver os discursos quando as obras estão juntas.

Sem sobrepor uma leitura característica de um certo autoritarismo da figura do curador.

A autoria está em fazer uma proposição suficientemente aguda para mostrar uma perspetiva de mundo.

Da emancipação negra do Haiti até à distopia do mundo, a precarização da vida e perda de direitos mais alargados para a humanidade. Como se relaciona a Constituição Haitiana de 1805com o devir-negro do mundo de Achille Mbembe?

O Haiti é a perfeita combinação de resistência, precarização e aliança global. “De agora em diante todos serão denominados genericamente negros”, dizia o artigo 14 da Constituição do Haiti, ou seja, um mundo que se alia a partir da figura do negro, aquele que foi mais coisificado, mais conotado como inferior, como mercadoria é o ponto de ligação entre todos nós numa luta anti-colonial. No Haiti houve a primeira libertação de escravos da América, foram os primeiros a construir realmente a ideia republicana. Os haitianos já anunciavam o que se vive hoje: uma unificação da precarização da vida em torno da negritude como existência destinada ao lugar da resistência.

Minotauro, Sidney Amaral

Minotauro, Sidney Amaral

E o X traz a dimensão de género à reflexão?

O X coloca a discussão na questão de género, na luta transgénero, opondo-se a um mundo branco e patriarcal.

Há também uma dimensão histórica sobre a exploração?

Heidegger fala de que a característica do trabalho moderno é a exploração da natureza. Mas antes de se inventar máquinas para explorar a natureza, o homem foi coisificado, transformado em mercadoria e em força de trabalho. Não é uma casualidade a Inglaterra ter sido o primeiro país a se industrializar e a lucrar mais com o comércio de escravos. Temos a falência do progresso social pela precarização geral, com a última tacada da globalização tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. A nossa pirâmide social está cada vez mais afunilada.

Bandeiras, Frente 3 de Fevereiro

Bandeiras, Frente 3 de Fevereiro

A modernidade funda uma falsa universalidade dos direitos. Que ideia de igualdade restou?

Nunca existiu uma visão real de igualdade, o mundo republicano nunca foi para todo o mundo, apenas para uma parte do mundo. Nas Américas isso acontece de uma maneira radical, a própria implantação da república nesses países acontece de supetão e nunca encarando que a sua população é cidadã, uma parcela fica de fora da cidadania. O Estado sempre foi o principal descumpridor e ilegal no terceiro mundo. Sabendo que o Estado não dá conta de todos, acaba por demonizar uma parte da população para excluí-la de seus direitos.

 

E qual a posição do Brasil nesse mundo distópico?

O Brasil é a ponta de lança desse mundo neoliberal distópico. Alguns dados: é o país com mais assassinatos, tem a polícia que mais mata e mais morre no mundo, sobretudo no contexto de guerra contra as drogas, de encarceramento em massa e de extermínio em massa. Tem um poder judicial muito caro e poderoso: um juiz ganha muitíssimo mais do que na Alemanha, Portugal, EUA. A Universidade de Direito foi a primeira faculdade criada no Brasil, onde as famílias ricas punham os filhos, criando a sua própria elite para defender determinada interpretação das leis. A classe jurídica tem características particulares, por exemplo, não são eleitos em nenhuma esfera, só o supremo do tribunal é escolhido pelo presidente, todos os outros são eleitos pelos próprios juízes. Ou seja, é um eterno sistema de compadrios. O polícia goza de uma impunidade declarada, mata e não vai a julgamento, tem a conivência do jurídico.

O batedor de bolsa, Dalton Paula

O batedor de bolsa, Dalton Paula

 

Como se rompe o ciclo vicioso da manutenção da injustiça?

A luta ativista no campo racial passa pelo campo institucional onde se dão as manutenções da desigualdade mas também como disse anteriormente na micropolítica de anúncio de mundos possíveis.

 

Por um lado uma imagem de um país muito violento, por outro de um povo alegre e sempre otimista.

O Brasil é o país que toma mais antidepressivos, sobretudo em São Paulo. Também é um dos países que mais faz cesarianas e cirurgias plásticas, especificamente rinoplastias. Portanto nessa transformação do próprio corpo, querer mudar o traço fenótipo, transparece a ideia de não estar afinado com o que você é. É um grande resquício colonial, a incapacidade de aceitar as nossas culturas. Há um plano de falência total do projeto de ser europeu, de ser uma metrópole no sentido urbanístico, falência do Estado Social. Temos o maior Carnaval e futebol do mundo (mais vitorioso nas copas do mundo) ou seja, mantém-se a perceção da nação sendo a falência sublimada por estas redenções. Apesar de termos a maior biodiversidade do planeta, desde a época colonial, as plantations sempre foram avessas a biodiversidade, tanto das espécies da natureza como a diversidade social. Estabelece-se a cultura dominante (monocultura) e é isso. Ou seja, o Estado nunca foi para todos.

 

Mas há resultados das políticas afirmativas e da forte resistência.

Tivemos um movimento quilombola muito forte, de criar áreas inteiras de resistência negra e indígena. O mais conhecido, o Quilombo dos Palmares, lutou contra o império português, o maior exército da época, por mais de um século. A visão quilombola é o que encontramos em todos os transbordamentos sociais muito fortes que o Brasil tem. As recentes ocupações nas escolas, o arrastão nas praias cariocas, na lógica de “vamos ocupar uma parte que antes era apenas destinada a uma parcela da população”. Os rolezinhos, quando os jovens de periferia ocuparam shoppingcenters, também geraram uma nova mobilidade dos jovens.

 

A tomada da rua em 2013…

Tomar a rua em 2013 é simbólico como manifestação política, e inserido numa onda mundial. Mas o Arrastão do Rio de Janeiro é o marco de uma multidão empoderada, uma massa que ocupa um lugar que não era supostamente para estar. E até hoje vemos o mesmo o embate diante deste transbordamento: ou se considera legítimo ou se criminaliza. Então, tudo isso é uma continuidade dessa dimensão quilombola. Este processo de multidão empoderada e racializada que acontece no Brasil nas últimas décadas vai ser fundamental para transformar o país. Os sistemas políticos têm dificuldade em encarar isso. E a esquerda partidária brasileira sempre teve o viés marxista de não olhar para a questão racial como fundante no mundo colonizado, e não o conflito de classe, e sempre vai ignorar esse fenómeno que constrói a dimensão quilombola.

O samba do crioulo doidi, Luiz de Abreu

O samba do crioulo doidi, Luiz de Abreu

AGORA SOMOS TODXS NEGRXS 

Sim, agora somos todxs negrxs! Artigo 14 da Constituição Haitiana de 1805, escrita a partir da única rebelião negra a tomar o poder na América, aponta para uma situação política em que lutamos pela expressão de uma voz historicamente silenciada. Aqui, essa voz canta a luta do quilombo urbano a atravessar todxs que foram e são excluídxs pelos poderes hegemônicos.

Não, agora não somos todxs negrxs! As instituições entenderam agora que os traumas da colonização existem? Entenderam agora a falácia do discurso da democracia racial? Não! Não somos todxs negrxs! Nós, negrxs, continuamos a viver como alvo de violência, silenciamento e exclusão. Não, não somos todxs negrxs. Esta é uma luta contínua por sobrevivência em que precisamos reconhecer as especificidades de uma trajetória afro-americana.

Sim, agora somos todxs negrxs! Poderíamos dizer que, na história da arte contemporânea brasileira, quase todas as exposições tacitamente se autonomearam “Sempre fomos todos brancos” — porque a presença negra no ambiente de arte contemporânea aqui sempre foi uma exceção. A exposição AGORA SOMOS TODXS NEGRXS? reúne parte da nova geração de artistas visuais negrxs brasileirxs. Uma geração marcada pelo amadurecimento da discussão sobre as questões raciais no Brasil e na América, e também pelo cruzamento com discussões sobre identidade de gênero e transgêneras.

Não, agora não somos todxs negrxs! Uma arte contemporânea produzida a partir da perspectiva da negritude que desafia as perspectivas de descolonização da América. Uma geração que se propõe a desconstrução do tríplice trauma da colonização (extermínio das populações nativas, escravidão e perseguição religiosa) por meio do poder micropolítico da arte, ao desabrigar estereótipos numa batalha por forças da vida contra forças de extermínio. Uma disputa para reconstruir nossa história e nosso mundo do nosso jeito.

X como atualização. X como afirmação histórica do não capturável. X como trama.

Daniel Lima

da série 'Aceita?', Moisés Patrício

Da série ‘Aceita?’, Moisés Patrício

http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/perspetivas-de-mundo-conversa-com-daniel-lima-curador-de-agora-somos-todxs-negrxs

O que tu indica? | Afroflix, uma plataforma de vídeos onde a gente negra se vê

No Afroflix, pode-se encontrar conteúdos audiovisuais com participação de gente negra

Mariana Reis*, no Brasil de Fato | Recife (PE), 03 de Agosto de 2017

Quantos filmes, séries, programas de televisão ou novelas você conhece com participação de negras e negros, seja como atrizes, atores… diretores, então, nem se fala!

Por isso, se você, além de ver TV, costuma assistir vídeos também pela Internet – como, por exemplo, via Youtube, ou serviços pagos como o Netflix –, uma dica interessante é conhecer o Afroflix, uma plataforma digital, colaborativa e gratuita criada pela cineasta baiana Yasmin Thayná, diretora de KBELA, O Filme (2015).

No Afroflix, pode-se encontrar conteúdos audiovisuais com participação de gente negra, seja no trabalho técnico ou artístico.

Isso quer dizer que, para a indicação de materiais, basta que a produção tenha a participação de, pelo menos, uma pessoa negra escrevendo o roteiro, protagonizando as histórias ou assinando a direção.

Além disso, qualquer pessoa pode se inscrever para participar ou indicar conteúdos para circulação online na plataforma, exclusiva para produções nacionais.

Hoje, estão disponíveis para assistir cerca de 100 materiais, entre documentários, ficções, webséries, vlogs, vídeoclipes, vídeos experimentais, entre outros produtos.

O objetivo do Afroflix é contribuir para que esses trabalhos circulem mais, sejam mais conhecidos, e também para que o povo afrobrasileiro – cerca de 53% da população, segundo dados do IBGE de 2016 – se sinta um bocadinho mais representado.

A ideia é fugir do óbvio, dando vez e voz pra quem faz cinema de uma forma diferente.

Assim, certamente você não vai encontrar lá os mesmos filmes que encontraria, por exemplo, numa sala de cinema de shopping ou numa TV comercial.

A perspectiva é justamente visibilizar o que a gente tem pouco acesso, rompendo com o lugar comum, que é o de perpetuar o imaginário sobre o povo negro sempre em segundo plano (quando aparecem, muitas vezes são representados como escravos, criminosos, etc).

E você, já conhecia o Afroflix? Tem algum filme da/do vizinha/o, amiga/o, namorada/o, pra indicar? E que tal fazer seu próprio filme? Acessa aí: http://www.afroflix.com.br e prepara a pipoca!

* Mariana Reis é jornalista e doutoranda na UFPE

Edição: Monyse Ravena

http://www.viomundo.com.br/politica/no-ar-o-afroflix-plataforma-onde-a-gente-negra-brasileira-se-ve.html