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Símbolo do Quilombhoje Literatura. Apareceu nos Cadernos Negros 5, de 1982. Desenho de Márcio Barbosa - Créditos: Quilombhoje LiteraturaSímbolo do Quilombhoje Literatura. Apareceu nos Cadernos Negros 5, de 1982. Desenho de Márcio Barbosa / Quilombhoje Literatura

Cadernos Negros:

40 anos de luta por narrativas negras

Por Débora Garcia

(…)

A primeira edição, em formato de bolso, reuniu oito poetas. Vendida de mão em mão, a publicação obteve um retorno expressivo daqueles que a acessaram, agregando cada vez mais pessoas que queriam se aquilombar em Cadernos Negros. Desde então, anualmente, foram lançadas outras edições alternado poemas e contos escritos por autores autodeclarados negros. Através de um chamamento público, os autores interessados em publicar enviam seus textos. Esses são avaliados por uma criteriosa banca, que seleciona os trabalhos aptos à publicação. Esse processo é de fundamental importância para manter a qualidade literária da série. Os autores selecionados participam do financiamento coletivo para a publicação e lançamento da obra. 

A grande repercussão e ampliação da série Cadernos Negros conduziram Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Abelardo Rodrigues, escritores precursores da série, ao aprimoramento da organização coletiva, tendo em vista, viabilizar a publicação anual da série, bem como, visibilizar e qualificar a discussão sobre a produção literária afro-brasileira. Desse processo, no ano de 1980 fundaram o Quilombhoje Literatura.

Passados 37 anos desde a sua fundação, o Quilombhoje Literatura atua como um importante coletivo literário e como a editora responsável pela publicação anual da série Cadernos Negros, trabalho coordenado pelos escritores e ativistas Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, com uma equipe de colaboradores voluntários. 

Ao longo dessas quatro décadas, Cadernos Negros se firmou como um espaço de resistência literária, social e política, agregando autores e autoras negras em âmbito nacional, afirmando o volume e a qualidade da produção literária afro-brasileira, constituindo-se em uma possibilidade para que escritores negros possam publicar suas narrativas, relevando grandes talentos, como a escritora Conceição Evaristo, que publicou pela primeira vez na edição número 12, no ano de 1990. Assim como eu, que publique a primeira vez na edição número 34 no ano de 2010, e muitos escritores e escritoras que tem em comum sua iniciação literária publicando em Cadernos Negros. 

Literatura e raça

A questão racial no Brasil se manifesta inclusive no campo literário. Essa perspectiva elucidou-se para mim quando me tornei escritora e leitora da chamada “literatura afro-brasileira”. Antes desses processos, não percebia a sutileza com a qual a literatura brasileira, ao longo da história, perpetua o legado de pobreza e estigmas que contribuem com os processos de marginalização da população negra. 

Regina Dalcastagnè, doutora em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), destaca-se por avaliar, em suas pesquisas, aspectos de desigualdade social na literatura brasileira. Em “A personagem do romance brasileiro contemporâneo:1990-2004“,sua mais expressiva pesquisa, analisou 258 obras publicadas pelas grandes editoras do país entre 1990 e 2004, traçando um importante perfil acerca do gênero, etnia e classe social, tanto dos autores quanto das personagens.

Algumas importantes constatações da pesquisa: 

Representatividade: As personagens brancas totalizam 92%. A pesquisa aponta também que em 56,6% dos romances levantados, não há nenhuma personagem negra, enquanto em somente 1,6% não há personagens brancas.

Intelectualidade: Os personagens brancos representados nos livros costumam ser os sujeitos mais intelectuais dos romances. Entre os negros, somente 17,3% pertencem à elite intelectual.

Perfil econômico: Foi verificado que 73,5% dos personagens negros são retratados como pobres e 12,2% como miseráveis.

Criminalidade: Dentre as personagens, 33,3% das crianças negras e 56,3% dos adolescentes negros eram dependentes químicos.

Etnia e gênero: Dos autores 93,9% eram brancos e 72,7% eram homens. 

Esses dados evidenciam que, na literatura brasileira, há a hegemonia histórica de uma narrativa branca, masculina, elitizada e estereotipada. Essa predominância pejorativa da forma de se representar pessoas negras solidificam no imaginário social coletivo estigmas sobre quem são essas pessoas, os espaços socais que devem ocupar e como devem ser tratadas. O que, grosso modo, caracterizam o racismo estrutural.

O panorama traçado por Regina Dalcastagnè já era perceptível para escritores e escritoras negros que, dentro e fora do ambiente acadêmico, questionavam os estigmas e a ausência de representação e representatividade negra na literatura brasileira. 

Foi nesse contexto de resistência e empreita pela construção de um espaço legítimo para as narrativas afro-brasileiras que, em 1978, foi criada a série Cadernos Negros, que  completa 40 anos de existência. 

O resgate desse processo histórico da Cadernos Negros em paralelo aos dados da pesquisa tem por objetivo responder uma pergunta com a qual, nós escritores negros, sempre nos deparamos: “É necessário rotular a sua literatura como negra, ou afro-brasileira, ou feminina?”. E com base nesses dados digo que sim, pois a literatura “universal” produzida até os dias atuais, não representa a diversidade de gênero e étnica de um país majoritariamente formado por mulheres e negros. Por isso não se trata de rótulo, trata-se de posicionamento político, da demarcação do lugar de fala desses autores, autoras e de suas personagens. 

Serviço:

Lançamento Cadernos Negros Volume 40 – Contos Afro-Brasileiros

Data: 16/12/2017 (sábado)  Horário: 17h30

Local: Academia Paulista de Letras – Largo do Arouche, 324  

Entrada gratuita

 

*Débora Garcia é poetisa, gestora cultural, idealizadora e artista no coletivo Sarau das Pretas.

Extraído de: https://www.brasildefato.com.br/2017/12/15/cadernos-negros-40-anos-de-luta-por-narrativas-negras/

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Político que não defender internet livre não se elege

Por Eduardo Guimarães

Algumas horas antes de compor este texto, conversando com leitores no Facebook, este blogueiro ficou sabendo que é IMENSO o número de pessoas que não saem da internet e que NÃO sabem que a internet livre está ameaçada no Brasil. E isso é assustador porque, se nada for feito, internet vai virar artigo de luxo no Brasil logo, logo.

A internet é um estorvo para os estratos superiores (do ponto de vista econômico) da sociedade. Há algumas semanas, uma maré humana engolfou as Organizações Globo e a obrigou a EXPURGAR de sua programação um apresentador racista que era uma espécie de boneco de ventríloquo da família Marinho, dona do grupo de mídia mais poderoso do país.

As redes sociais e os sites independentes transformaram-se no pesadelo dos donos do poder econômico no Brasil, acostumados a usar a comunicação ao seu bel prazer e de forma incontrastável.

Para esses donos do poder, o fim da internet traria de volta os “bons tempos” em que não tinham que dar satisfação a ninguém porque a massa não tinha voz.

Antes de continuar, porém, vale discorrer sobre por que a internet brasileira está ameaçada. Comecemos, pois, pelo que a elite insatisfeita com a liberdade de expressão e igualdade na possibilidade comunicação está atacando.

 

O Marco Civil da Intenet

 

O Marco Civil da Internet, oficialmente chamado de Lei N° 12.965/14, regula o uso da Internet no Brasil ao estabelecer princípios, garantias, direitos e deveres para quem usa a rede, além de balizar a atuação do Estado.

O projeto surgiu em 2009 e foi aprovado na Câmara dos deputados em 25 de março de 2014 e no Senado Federal em 23 de abril de 2014, sendo sancionado logo depois pela então presidente Dilma Rousseff.

A ideia do projeto, surgida em 2007, foi adotada pelo governo federal em função da resistência social ao projeto de lei de cibercrimes, conhecido como Lei Azeredo (em alusão ao seu autor, Eduardo Azeredo), muito criticado sob a alcunha de AI-5 digital.

O Marco Civil da Internet pacificou temas como neutralidade da rede, privacidade, retenção de dados, função social que a rede precisará cumprir, garantia da liberdade de expressão e transmissão de conhecimento, além de impor obrigações de responsabilidade civil aos usuários e provedores.

A Lei 12.965/14 tem 32 artigos, divididos em cinco capítulos:

Disposições preliminares;

Dos direitos e garantias dos usuários;

Da provisão de conexão e aplicações da Internet;

Da atuação do poder público;

e Disposições Finais.

O Marco civil da Internet se baseia na seguinte premissa:

“O acesso à Internet é essencial ao exercício da cidadania (…)”.

O ponto nevrálgico do Marco Civil da Internet é a “neutralidade da rede” – ou neutralidade da Internet, ou princípio de neutralidade. Significa que todas as informações que trafegam na rede devem ser tratadas da mesma forma, navegando à mesma velocidade, ou seja, na velocidade da contratação.

É esse princípio que garante a velocidade de acesso a qualquer tipo de informação na rede. Mas a velocidade de quem recebe uma informação não depende de uma lei, mas sim da velocidade contratada para envio do servidor em que você está se conectando.

Várias instituições e personalidades em destaque do Brasil e do exterior declararam seu apoio à aprovação do Marco Civil da Internet de forma individual, além da elaboração de documentos coletivos a favor do projeto.

Instituições Nacionais

ABCID – Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital

ARTIGO 19

AMNB – Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras

ANPEd – Associação Nacional de Pesquisa Pós-graduação em Educação

ARPUB – Associação das Rádios Públicas do Brasil

ASL – Associação Brasileira da Software Livre

Barão de Itararé

Casa da Cultura Digital

CGI.br[38]

Circuito Fora do Eixo

CSB – CENTRAL DOS SINDICATOS BRASILEIROS

CTS-FGV

Coletivo Digital

CUT – Central Única dos Trabalhadores

EMERGE – Centro de Pesquisas e Produção em Comunicação e Emergência

ECO/UFRJ -Escola de Comunicação da UFRJ

FEITTINF – Federação Interestadual dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação.

FENADADOS

FRENAVATEC – Frente Nacional pela Valorização das TVs do Campo Público

Geledés – Instituto da Mulher Negra

GPOPAI

GPCULT/UFRJ

Grupo Tortura Nunca Mais/RJ

IDEC

Instituto Bem Estar Brasil

Instituto Nupef

Instituto Telecom

INTERVOZES

ISOC BR – Sociedade da Internet no Brasil[39]

Movimento MEGA (MegaNão e MegaSim)

NEDAC/UFRJ

Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ

Projeto Saúde e Alegria

Proteste

Rede de Cultura Digital Indígena

RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa[40]

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)[41]

Teia Casa de Criação

UNE

Veredas

Instituto Brasileiro de Políticas Digitais – Mutirão

 

Instituições Internacionais

 

Access

Asociación para el Progreso de las Comunicaciones

Asociación por los Derechos Civiles, Argentina

Asociación Pro Derechos Humanos, Peru

Center for Democracy and Technology

Center for Internet and Society, India

Clínica de Nuevas Tecnologías, Propiedad Intelectual y Sociedad, Universidad de Puerto Rico

Consumers International

Fundacion EsLRed, Venezuela

Fundación Karisma, Colômbia

Human Rights Foundation

Identidad Robada

iNGO European Media Platform

Index on Censorship

Internet Democracy Project, India

Internet Rights & Principle Coalition

IT for Change, India

Mozilla Foundation[42]

ONG Derechos Digitales, Chile

Program on Information Justice and Intellectual Property (PIJIP), American University Washington College of Law

La Quadrature du Net, France/Europe

Reporters Sans Frontières

Ameaça ao Marco Civil da Internet

Na semana passada, A Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos, por 3 votos a 2, decidiu revogar a regra que estabelecia a “neutralidade da rede”. A implicação disso são imensas para o Brasil.

Só para que se tenha ideia do que vem por aí, as operadoras de telefonia brasileiras já estão preparando uma ofensiva para derrubar a neutralidade de rede dentro do país. Motivadas pela decisão da Federal Communications Comission (FCC), agência norte-americana equivalente à Anatel, as empresas brasileiras querem que o Governo Federal permita a cobrança diferenciada de tarifa por determinados serviços de internet.

De acordo com a Folha, as operadoras vão esperar a votação da reforma da Previdência, marcada para fevereiro, para pedir ao presidente Michel Temer a revisão do decreto que garante a neutralidade da rede no Brasil.

O efeito disso seria uma involução de décadas na comunicação do país. Pequenos produtores de conteúdo praticamente desapareceriam e só as grandes corporações poderiam navegar nessa nova rede cheia de porteiras e portões que impediriam a grande maioria de ter acesso a informações que não circulam pelos grandes grupos de mídia.

Isso sem falar que o custo da internet iria disparar no Brasil. E, na verdade, tudo se resume à questão econômica. Todos poderão se comunicar desde que tenha dinheiro suficiente para isso.

Blogueiros, tuiteiros, facebookers, youtubers, todos poderiam ir dando adeus à comunicação.

Cidadãos comuns, sejam de esquerda ou de direita, não vão apoiar essa barbaridade, mas as operadoras de telefonia estão de olho na janela de oportunidades de faturarem alto que estará aberta até 31 de dezembro de 2018, enquanto Michel Temer estiver no poder.

Temer é um presidente fraco, o primeiro investigado por corrupção estando no cargo, e só se mantém onde está porque usa dinheiro público para subornar algumas centenas de parlamentares corruptos do Congresso.

Porém, esses parlamentares não visam só dinheiro. A grande maioria é ligada a corporações. Empresas de planos de saúde, bancos e, bingo!, operadoras de telefonia, entre outras. A aposta das operadoras é a de que Temer atenderá o desejo delas e sancionará projeto que as bancadas ligadas às corporações irão propor: o fim do Marco Civil da Internet.

Isso precisa ser feito em 2018 porque, em 2019, um presidente legítimo ocupará o cargo e, se as pessoas e políticos decentes e com cérebro agirem já, ele terá sido eleito sob o compromisso de impedir a quebra da neutralidade de rede.

Eis por que inúmeras organizações e partidos políticos já se preparam para discutir essa questão na campanha eleitoral.

Imagine a seguinte cena: um candidato de esquerda – Lula, por exemplo – em debate com um candidato de direita – Bolsonaro ou Alckmin, por exemplo – pergunta ao adversário se apoia o fim da internet livre e “barata” e a “igualdade” na rede, após explicar rapidamente a questão para quem assiste.

Os programas eleitorais na tevê e no rádio irão bater sem parar nessa tecla e mesmo que no início do ano os partidos de direita consigam trair seus próprios eleitores e aprovarem em votação relâmpago o fim da neutralidade, os eleitos naquele ano terão assumido compromisso de revogar a revogação do Marco Civil da Internet.

A vida dos que querem acabar com a internet livre no Brasil não será fácil. Para que se possa mensurar como esse tema é sensível, tanto o presidente da Anatel quanto o jornal O Globo já se posicionaram CONTRA o fim da neutralidade da rede. Isso porque quem defender o fim dessa neutralidade irá se tornar inimigo público número um de um país inteirinho.

Temer, porém, gaba-se de não ter compromisso com o povo por ter alta impopularidade e por não ser um presidente legítimo. Assim, vende que se não for tirado do cargo poderá fazer o serviço sujo para as corporações sem medo de nunca mais se eleger ou de ficar impopular.

O mesmo, porém, não vale para os deputados e senadores que ele tentará cooptar para que se suicidem politicamente em troca de alguns milhões de reais.

Temer irá comprar deputados e senadores para aprovarem a reforma da Previdência e o fim da neutralidade de rede. Porém, dificilmente conseguirá se todos nos engajarmos em divulgar sobretudo a questão da neutralidade, porque o repúdio à reforma da previdência já é gigantesco e tende a crescer.

As pessoas precisam saber do que está acontecendo. Só a divulgação de textos como este poderá impedir que a comunicação no Brasil volte ao que era antes de a internet existir. Até porque, com o fim do Marco Civil e da neutralidade de rede a internet irá sumir para uma parte descomunal dos brasileiros.

Faça a sua parte. Divulgue esta matéria.

https://blogdacidadania.com.br/2017/12/politico-que-nao-defender-internet-livre-nao-se-elege/

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Carlos Humberto, criador da Diáspora Black

Diáspora Black:

uma rede contra a discriminação em hospedagens

Criada por quatro empreendedores negros, iniciativa quer combater o racismo e valorizar experiências turísticas afrocentradas
Segundo um dos criadores da iniciativa, Carlos Humberto, usuários negros sofrem mais discriminação e rejeição em outras redes de hospedagem

Formada pelo designer André Ribeiro, pelo jornalista Antonio Luiz, pelo mestrando em Desenvolvimento Territorial, Carlos Humberto da Silva e pelo artista visual Gabriel Oliveira, a Diáspora Black nasce com o objetivo de valorizar as identidades negras e experiências turísticas afrocentradas. 

Por Djamila Ribeiro 

Além de abrigar pessoas, a ideia é oferecer mais perspectivas e opções de hospedagem que valorizem a cultura afrobrasileira, por meio de uma rede de indivíduos que oferecem hospedagem.

A Diáspora Black também nasce porque, segundo pesquisas, pessoas negras são recusadas ou discriminadas em outras redes similares, como o Airbnb. Em entrevista para CartaCapital, Carlos Humberto explica como funciona a rede e quais são as expectativas.

CC: Como surgiu a iniciativa da Diáspora Black?
CH: Essa é uma tradição que realizamos de forma informal, entre amigos, de acolhida, de compartilhar espaços de pertença. É algo que sempre fiz em minha casa, recebendo visitantes por temporada por diferentes plataformas. Mas vivi uma série de experiências de rejeição e discriminação, além de manifestações de desconfiança e desconforto com o fato de eu ser negro dentro de minha casa. Isso me fez questionar o funcionamento das plataformas e criar com alguns parceiros e parceiras uma rede nossa, com outros serviços associados para facilitar e priorizar, por exemplo, experiências turísticas afrocentradas nas cidades que visitamos.

 

CC: Pode dar alguns exemplos de situações de discriminação?
CH: É comum casos de racismo por anfitriões nessas plataformas, com agressões durante a convivência, por exemplo, ou a rejeição, que diminui em 16% as negociações dessas plataformas para usuários negros, segundo a Harvard. Mas há uma situação dos próprios algoritmos, que encobrem os anúncios.

Outra pesquisa recente mapeou que, em 12 bairros icônicos da cultura negra de Nova York, como Brooklyn e Harlem, onde mais de 75% da população é negra, quase 80% dos anfitriões são brancos, ampliando a concentração de renda e a gentrificação dessas áreas. É um problema estrutural, que demanda alternativas que nos favoreça.

CartaCapital: Como a Diáspora Black pode atuar para a promoção da igualdade?
Carlos Humberto: O turismo é um elemento importantíssimo na economia brasileira, e muito se pauta sobre a herança e a cultura da população negra. Somos um dos principais destinos do turismo étnico mundial. Nossa memória está dispersa em diferentes cidades e manifestações, então, visitá-las é uma forma de valorizar nossas identidades, reescrever a narrativa de nossa contribuição na formação social do País, além de fortalecer economicamente essa população. A Diáspora Black se propõe a conectar esses propósitos em uma plataforma que agrega diversos serviços.

CC: Como funciona?
CH: O turismo de experiência é um dos segmentos que mais cresce, e o Brasil já é um dos principais destinos para o turismo étnico, embora não haja políticas específicas, como um mapeamento transversal ou campanhas de visibilidade a essas iniciativas. A plataforma reúne essas experiências, amplificando sua visibilidade, permitindo o acesso de mais pessoas, e estabelecendo um aumento de renda. Além disso, ao mobilizar essa rede, fortalecemos os laços de colaboração na economia da comunidade negra.

CC: Quais serviços já estão disponíveis?
CH: Temos, por exemplo, cadastro em comunidades quilombolas, em Búzios, além de terreiros de matrizes africanas e coletivos de mulheres negras, que realizam acolhida de grupos para atividades de formação politica, cultural e artísticas, e ainda de sustentabilidade.

Além das trocas simbólicas, para a maior parte dos usuários, a oferta de acomodação compartilhada é uma possibilidade de geração extra de renda, que ativa toda a circulação dentro da comunidade negra.

Em setembro, iniciamos um clube de vantagens com empresas e estabelecimentos parceiros, que garanta aos usuários descontos exclusivos em passagens de ônibus, restaurantes, serviços de limpeza para os imóveis, entre outros.

Leia também:
“Quando o catolicismo é alvo de intolerância, a mobilização é muito maior”

CC: Como está a receptividade?

CH: Nós iniciamos a operação plena da rede em julho e já chegamos a 1.300 cadastros. Hoje, 74% de nossa rede de anfitriões é formada por mulheres negras, que já têm atuação de acolhida seja atuando em redes e coletivos, seja em seus imóveis particulares. Na outra ponta, temos uma juventude com maior mobilidade pelo país e buscando fortalecer sua formação identitária em diferentes cidades. Com o encontro dessas redes, podemos construir uma narrativa sobre a riqueza cultural da diáspora africana.

CC: Mas essa riqueza transcende fronteiras do Brasil.
CH: A diáspora é entendida como uma marca da subjetividade da população negra, pela memória coletiva da dispersão forçada de seus locais de pertencimento. Agora, podemos usar a tecnologia para reconectar essas referências, fazer dessa mobilidade e dispersão uma potência, de articulação e mobilização em rede. Nós já chegamos em dez países, com cadastros em regiões como Itália, Portugal e França. Também temos uma parceria com a Câmara de Comércio Brasil-África para ampliar negociações em mais de 30 países membro.

CC: Qual o caminho para abarcar toda essa diversidade?
CH: Para materializar esse alcance com o aplicativo estamos captando investimentos. Para o próximo ano, estamos desenvolvendo um aplicativo para integrar a rede aos serviços de geolocalização, facilitando a localização de opções e referências em cada cidade.

É uma etapa de crescimento do cadastro dessas oportunidades, locais históricos, coletivos e comunidades que possam proporciona experiências autênticas de reconhecimento das marcas e heranças da cultura negra em diversas dimensões: gastronomia, arte, música, intelectualidade, entre outros aspectos.

CC: Qual o foco da Diáspora Black no momento?
CH: Estamos com uma procura grande por acomodações no Rio, São Paulo e em outras capitais brasileiras e mundiais, como Nova York. Por isso, estamos intensificando nosso foco na ampliação de novos cadastros de espaços para acomodações. Todos são convidados a promover a história, memoria e cultura da população negra e contribuir para geração de renda e para diminuição das desigualdades. Assim, convidamos a população negra de diferentes lugares a fazerem parte desta rede e ainda, é um convite a todos que queiram contribuir no fortalecimento e valorização de nossa herança africana.

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/diaspora-black-uma-ferramenta-contra-a-discriminacao-em-hospedagens

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Reaja à Violência Racial

Negro

se você não reagir

você será morto

morto socialmente

culturalmente

economicamente

psicologicamente

moralmente

precocemente

morto antes de nascer

ainda no ventre materno

será morto sem trabalho

sem escola

sem ter onde morar

não terá direitos

nem saúde

estará sempre acompanhado

da praga embriaguez

da prostituição

empurrado para o crime

você será morto

nas prisões, nas ruas

no campo, nas cidades

por fome

por uma bala da polícia

morto sem história

com a angústia de não ter lutado

sua dignidade

estraçalhada.

 

Milton Barbosa

Milton Barbosa é poeta e ativista, fundador do MNU (Movimento Negro Unificado).

Extraído de: http://movimentonegrounificadomnu.blogspot.com.br/

Ator Pedro Cardoso abandona programa ao vivo em apoio a grevistas.

 

POR WAGNER FRANCESCO, teólogo

Luiz Felipe Pondé, conhecido digital influencer em nossa terra tupiniquim, escreveu no Jornal Folha de São Paulo um artigo onde ele pergunta: “Por que linchar ladrões é injusto, mas é ‘progressista’ linchar Waack”?

Ora, é como perguntar: “por que a goiaba que dá no pé de manga não é tão doce quanto a maça que dá no pé de uva?”.

O Pondé quer misturar tudo numa coisa só para fantasiar suas más intenções na defesa de um sujeito que, se não é racista, falou algo típico de quem é.

Por que linchar ladrões é injusto? Importante: mas do que injusto, é crime. O nosso ordenamento jurídico proíbe o exercício arbitrários das próprias razões. Está lá, previsto no artigo 345 do Código Penal:

“Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite:Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência.”

O que se deve fazer “com ladrões”? Denunciar e esperar o poder público agir.

Porém, outra coisa é importante: linchamento pressupõe violência física. E mais uma vez: é por isso que o linchamento não é só injusto, mas crime. Por causa de um furto, querem que o acusado pague com “uma tira do corpo” – com sangue e tudo, sem valer o argumento que prevaleceu no filme “O auto da compadecida”.

Não! Não se deve linchar ladrões. Também não se deve linchar o Waack. Mas quem o linchou? Ele foi exposto pelo que, claramente, disse. Assim como “ladrões”, o Waack foi denunciado. E só. E afastado do trabalho. Coerente o afastamento, não é?

Como uma emissora que num dia nos disse que era “toda Maju”, de repente se tornaria “toda Waack”? Não dá.

Mas o Pondé, em seu artigo, não cansou de nos cansar com sua pseudo intelectualidade – mascarada sobretudo em seus vídeos, fumando, com cara de personagem do século 19, um charuto (que coisa “old!”) – quando, para defender o Waack, disse:

“O politicamente correto destruiu qualquer possibilidade de reflexão minimamente honesta sobre virtudes na vida pública contemporânea. Essa discussão está morta.”

Para o Pondé, a frase racista do Waack deve ser vista como uma reflexão minimamente honesta – mas, ele acusa, o politicamente honesto destruiu essa possibilidade de reflexão.

Na minha opinião, o que o Waack falou pode até ser minimamente honesto, mas não é nenhuma reflexão – no sentido estrito do termo. Quem reflete não fala o que ele falou – e tanto não refletiu que pediu desculpas.

Não vi ninguém desejando a morte do Waack, ou ameaçando sua integridade física, ou dizendo que ele disse uma coisa que não disse. Não há que se falar em “linchamento virtual” – muito embora este exista e o Pondé saiba fazer muito bem.

 

O problema é que o Pondé, em sua enfadonha luta contra o politicamente correto, cria um politicamente correto à sua moda: ele quer que todos falem o que quiserem, mas que não sejam obrigados a ouvir o que não querem. Criou a patrulha contra os que denunciam as falas dos outros.

Expor o racismo não é linchamento. E racismo não é opinião, é burrice – como dizia Gabriel, o Pensador.

 

Publicado no Justificando

OPINIÃO VINTE :

Voltem à foto do “intelectual” servo da direita hidrófoba e atentem para a cútis e os traços do mesmo. Faz sentido? Só se for para rir!