Archives for category: Cotidiano e história

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Morre Alberto Caó, autor da lei que tornou o racismo crime inafiançável

Faleceu no domingo 4, aos 76 anos, o jornalista, advogado, militante do Movimento Negro e ex-deputado Carlos Alberto Caó de Oliveira, autor da chamada Lei Caó, que transformou o preconceito de raça, cor, sexo e estado civil em contravenção penal, e a emenda constitucional que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível.

Nascido em 1941, em Salvador (BA), Caó foi deputado federal pelo PDT por dois mandatos, entre 1983 e 1991. Em seu segundo mandato, participou da Assembleia Nacional Constituinte. Caó foi autor na Lei 7.437/1985, que mudou o texto da Lei Afonso Arinos, de 1951, tornando contravenção penal o preconceito de raça, cor, sexo e estado civil. O texto ficou conhecido como Lei Caó. 

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/morre-alberto-cao-autor-da-lei-que-tornou-o-racismo-crime-inafiancavel

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Corpos de Excepção

Por Nuno Ramos de Almeida

As guerras, massacres, abusos de autoridade e o tratamento de migrantes como escravos apoiam-se na nossa indiferença e em não darmos ao “outro” o estatuto de humanidade que damos a nós próprios. Só dando direitos iguais a todos iremos acabar com este silêncio criminoso e assassino

Antes dos comentários nas redes sociais, era o silêncio. Agora, os párias deste mundo são mortos várias vezes: são mortos quando as balas explodem neles e são mortos quando as hordas dos comentadores das redes sociais, instalados nos sofás das nossas cidades “Je Suis”, garantem que “se lhes aconteceu alguma coisa é porque alguma coisa de mal estariam a fazer”. Vamos do silêncio para o barulho, garantindo sempre o mesmo grau de indiferença ideológica, para que o massacre se faça sem grandes contestações.

Conto quatro histórias: a primeira passou-se há duas gerações, durante as quais toda a memória foi apagada; uma é filha da guerra sem fim ao terrorismo; as últimas duas acontecem cá. Todas elas remetem para um facto. Nos nossos países ditos civilizados, os únicos humanos somos nós, os burgueses, brancos e que vivemos no meio das cidades. Tudo o resto são seres subnormais que não são iguais a nós e cuja morte tem apenas, no máximo, um segundo de atenção e uma eternidade de indiferença.

Chovia em Paris no dia 17 de outubro de 1961. Mais de 30 mil argelinos, homens e mulheres e crianças, acudiram ao centro da Cidade Luz, vestidos com as suas melhores roupas. Os homens levavam os seus casacos e gravatas; as mulheres, os seus vestidos mais bonitos. Todos queriam protestar contra o recolher obrigatório decretado pelas autoridades para interditar os “franceses-muçulmanos-argelinos” de saírem de suas casas entre as oito e meia da noite e as cinco da manhã. Essa proibição era ilegal. Mas que interessava isso? Na Argélia lutava-se contra os independentistas, todos os árabes eram suspeitos. Paris, a pátria das proclamações dos “Direitos do Homem”. Noventa anos depois do massacre da Comuna de Paris, em plenos anos 60, as ruas foram novamente lavadas pelo sangue, e entre 150 e 300 argelinos foram mortos a tiro pela polícia francesa. Num dos sítios onde os corpos foram largados para serem engolidos pelo Sena, um agente quis imortalizar o momento e escreveu numa parede: “Aqui afogamos os argelinos.” Foram décadas de silêncio total. 
Trinta anos depois, um jornalista, Jean-Luc Einaudi, esteve sempre ao lado daqueles que exigiam que fosse quebrado o silêncio sobre a morte dos seus e publicou um livro, “A Batalha de Argel”, em que se contava o que aconteceu, O homem que ordenou o massacre foi Maurice Papon. Durante a ocupação nazi da França organizou as deportações de judeus para os campos da morte; no final da guerra, quando previu a derrota, começou a passar informações para a Resistência gaullista. Os nazis perderam a guerra e ele continuou funcionário da República. Da mesma forma que garantiu que 1560 judeus franceses fossem levados para campos de extermínio, onde foram assassinados e cremados, deu a ordem para que os argelinos fossem massacrados. Tanta dedicação valeu-lhe ser condecorado com a medalha da Légion d’Honneur. O funcionário exemplar teve o pequeno azar de o seu pecadilho no massacre dos judeus ter sido descoberto. Einaudi aproveitou o seu julgamento, em 1990, para denunciar o massacre de 1961. Resultado: foi processado por Papon por difamação. O jornalista pediu que fossem abertos os arquivos da polícia sobre os acontecimentos, para se poder defender. O pedido foi recusado. Conseguiu que dois funcionários do arquivo testemunhassem ter visto documentos que confirmavam as acusações a Papon. Einaudi foi absolvido no processo. O Estado tratou de abrir um novo processo contra os funcionários que testemunharam. 
Até agora, o condenado Papon, pelo seu papel como colaborador dos nazis, é o único responsável pelo massacre de 17 de outubro de 1961. Einaudi tinha dedicado o seu livro, “A Batalha de Paris”, a Jeannette Griff, de nove anos, deportada para Auschwitz em 1942, e Fatima Bedar, 15 anos, assassinada pela polícia no massacre de Paris. 
No início do seu livro “Théorie du Drone”, Grégoire Chamayou transcreve os diálogos de uma equipa de comando de um drone armado durante uma missão em que uma viatura vai ser destruída pelo veículo não tripulado armado. Estes militares, que atuam a milhares de quilómetros do campo de batalha, acordam de manhã, tomam as torradas com as suas famílias e depois vão trabalhar para um sítio onde comandam drones, e perante os dados que recolhem os sensores de sons, os intercetadores de comunicações e as câmaras, decidem se procedem ou não à destruição destes alvos. 
Neste caso, que inicia o livro de Chamayou, são civis inocentes os homens e mulheres e crianças que vão morrer, devido à decisão de os liquidar. Para evitar que as estatísticas sejam negativas para os mais de seis mil drones dos EUA, que atuam numa dúzia de países para muitos dos quais não há uma declaração formal de guerra do Congresso dos EUA, as autoridades vão caracterizar como “combatentes inimigos” todos os homens adultos que sejam alvo de um ataque, estejam armados ou não. O resto são inevitáveis danos colaterais. 

O planeta divide-se em duas zonas: uma civilizada, onde há um modo de vida do mundo livre a preservar, e outra selvagem, habitada por criaturas que podem ser abatidas para seu próprio bem. Esta estrutura replica-se, numa escala proporcional, nas nossas próprias zonas civilizadas: as cidades têm zonas de gente de bem e bairros suburbanos para imigrantes, pobres, negros e, portanto, criminosos. A guerra sem fim ao terrorismo justifica que vivamos numa espécie de estado de exceção permanente em que os direitos, liberdades e garantias podem ser suspensos para preservar a nossa segurança. Mas mesmo antes disso, nas nossas próprias cidades, as pessoas não têm todas os mesmos direitos. Se se é negro, imigrante, pobre ou se vive nos subúrbios espera-se, volto a repetir, que as forças da ordem se comportem de uma forma diferente do que fariam no meio da Avenida de Roma. Como me explicou, numa rede social, um polícia: “Essa escumalha também não se comporta connosco da mesma maneira.” 
A 4 de janeiro de 2009, um agente da polícia mata um rapaz negro de 14 anos. Dispara a arma a 15 centímetros da cabeça de Elson Sanchez, conhecido por Kuku. O relatório da PJ afasta a hipótese de ter havido legítima defesa. O jovem fugia de dentro de um carro roubado. Quando lá fui, dias depois, em reportagem pela TVI, um toxicodependente que estava na zona afirmou para a câmara que o polícia teria dito depois de disparar: “Acabei de dar um tiro nos cornos do preto.” Segundo uma norma interna para utilização de arma de fogo pelas for- ças de segurança, só é possível disparar se “existir um perigo iminente de morte ou ofensa grave à integridade física do elemento policial ou de terceiros (…) o que justifica o recurso efetivo a arma de fogo contra pessoas”. 
No dia 22 de novembro de 2017, a polícia disparou 40 balas contra o Renault Mégane de cor branca em que seguia Ivanice Carvalho da Costa, imigrante brasileira que estava em Portugal há 17 anos e trabalhava no aeroporto. A polícia confundiu a viatura com um Seat da mesma cor que tinha sido referenciado como levando os autores de um assalto a uma caixa multibanco, usando explosivos. Imigrante, brasileira, pobre, a família, sem meios, estava ainda ontem à espera que o seu corpo fosse transladado para o Brasil. 
Neste mundo podem ser assassinadas milhões de pessoas em países longínquos com a intenção de os democratizar à bomba. Ninguém coloca “Je Suis Cairo” quando são mortos 300 egípcios. Os pobres e os imigrantes podem ser revistados à bruta e mortos a tiro. Um dia, até os ricos dos condomínios protegidos e dos muros altos e eletrificados do Primeiro Mundo vão entender que a selvajaria multiplica a selvajaria e apenas a igualdade de direitos pode respeitar a vida.

http://www.buala.org/pt/cidade/corpos-de-excepcao

Os invisíveis da sociedade, Jesus e o fascismo

Por Pedro Breier

Larissa foi morta a pauladas em um hotel na cidade de São Paulo, ontem. Larissa era transexual e morreu cruelmente apenas por existir. O Brasil é o campeão em homicídios de LGBTs nas Américas, de acordo com o relatório da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais).

Um homem ficou preso 11 meses “preventivamente” sob a acusação de tráfico pela posse de 0,26g de crack. Após quase um ano na prisão, ele ainda não havia sido citado para que o processo criminal fosse, vejam bem, iniciado. A defensoria pública de São Paulo conseguiu colocá-lo em liberdade recorrendo ao STF, já que o TJ-SP e o STJ negaram o habeas corpus.

Essas duas notícias tão chocantes quanto corriqueiras abrem a semana que antecede o natal de 2017.

Seria interessante usarmos a data que simboliza o nascimento de Jesus – um cara com ideias poderosas, meio hippies, que foram usadas deturpadamente por muita gente para angariar poder e riquezas, de imperadores romanos a pastores evangélicos que pregam a picareta teologia da prosperidade – para refletirmos sobre o fato de não termos entendido nada do que ele quis dizer.

A Bíblia não deixa margem para dúvidas. Jesus pregava o amor universal. Incondicional. Amai ao próximo como a si mesmo. Ofereça a outra face.

Andava com prostitutas, pecadores, leprosos, adúlteros, os excluídos da época. “Atire a primeira pedra quem nunca pecou”, lembram?

Mais de 2 mil anos depois, os excluídos continuam existindo em profusão. A cor da pele, o gênero, a sexualidade ou a classe social ainda determinam quem tem direito a viver com dignidade e quem pode ser tratado como a escória da sociedade sem maiores consequências.

A intolerância contra os marginalizados é alimentada, suprema hipocrisia, por aqueles que se dizem os mais cristãos, os fieis seguidores do Jesus.

A crise econômica mundial fez brotar o fascismo que estava escondido no coraçãozinho empedernido de muita gente. A piora das condições de vida faz com que as pessoas deem ouvidos a quem oferece respostas fáceis para os problemas.

Não faz sentido algum jogar a população contra grupos já excluídos quando a raiz dos problemas é a concentração da riqueza com um número incrivelmente baixo de pessoas em detrimento da esmagadora maioria da população.

Entretanto, é muito mais fácil direcionar a raiva e o ódio para aqueles que não têm como se defender do que para os poderosos. Bolsonaro sabe muito bem disso.

Enquanto continuarmos achando que a vida é uma competição insana por riqueza, poder e status e que é natural que uns poucos consigam chegar ao “sucesso” e muitos vivam em condições sub-humanas, estaremos fadados a repetir o que fazemos a milhares de anos: matarmo-nos estupidamente enquanto meia dúzia de poderosos controlam a vida de todos os demais.

Só quando os invisíveis da sociedade – como os transexuais e os usuários de crack que passam por sofrimentos inimagináveis por causa do nosso descaso – deixarem de sê-lo poderemos nos tornar uma sociedade verdadeiramente justa.

https://www.ocafezinho.com/2017/12/18/os-invisiveis-da-sociedade-jesus-e-o-fascismo/

Carlos Humberto, criador da Diáspora Black

Diáspora Black:

uma rede contra a discriminação em hospedagens

Criada por quatro empreendedores negros, iniciativa quer combater o racismo e valorizar experiências turísticas afrocentradas
Segundo um dos criadores da iniciativa, Carlos Humberto, usuários negros sofrem mais discriminação e rejeição em outras redes de hospedagem

Formada pelo designer André Ribeiro, pelo jornalista Antonio Luiz, pelo mestrando em Desenvolvimento Territorial, Carlos Humberto da Silva e pelo artista visual Gabriel Oliveira, a Diáspora Black nasce com o objetivo de valorizar as identidades negras e experiências turísticas afrocentradas. 

Por Djamila Ribeiro 

Além de abrigar pessoas, a ideia é oferecer mais perspectivas e opções de hospedagem que valorizem a cultura afrobrasileira, por meio de uma rede de indivíduos que oferecem hospedagem.

A Diáspora Black também nasce porque, segundo pesquisas, pessoas negras são recusadas ou discriminadas em outras redes similares, como o Airbnb. Em entrevista para CartaCapital, Carlos Humberto explica como funciona a rede e quais são as expectativas.

CC: Como surgiu a iniciativa da Diáspora Black?
CH: Essa é uma tradição que realizamos de forma informal, entre amigos, de acolhida, de compartilhar espaços de pertença. É algo que sempre fiz em minha casa, recebendo visitantes por temporada por diferentes plataformas. Mas vivi uma série de experiências de rejeição e discriminação, além de manifestações de desconfiança e desconforto com o fato de eu ser negro dentro de minha casa. Isso me fez questionar o funcionamento das plataformas e criar com alguns parceiros e parceiras uma rede nossa, com outros serviços associados para facilitar e priorizar, por exemplo, experiências turísticas afrocentradas nas cidades que visitamos.

 

CC: Pode dar alguns exemplos de situações de discriminação?
CH: É comum casos de racismo por anfitriões nessas plataformas, com agressões durante a convivência, por exemplo, ou a rejeição, que diminui em 16% as negociações dessas plataformas para usuários negros, segundo a Harvard. Mas há uma situação dos próprios algoritmos, que encobrem os anúncios.

Outra pesquisa recente mapeou que, em 12 bairros icônicos da cultura negra de Nova York, como Brooklyn e Harlem, onde mais de 75% da população é negra, quase 80% dos anfitriões são brancos, ampliando a concentração de renda e a gentrificação dessas áreas. É um problema estrutural, que demanda alternativas que nos favoreça.

CartaCapital: Como a Diáspora Black pode atuar para a promoção da igualdade?
Carlos Humberto: O turismo é um elemento importantíssimo na economia brasileira, e muito se pauta sobre a herança e a cultura da população negra. Somos um dos principais destinos do turismo étnico mundial. Nossa memória está dispersa em diferentes cidades e manifestações, então, visitá-las é uma forma de valorizar nossas identidades, reescrever a narrativa de nossa contribuição na formação social do País, além de fortalecer economicamente essa população. A Diáspora Black se propõe a conectar esses propósitos em uma plataforma que agrega diversos serviços.

CC: Como funciona?
CH: O turismo de experiência é um dos segmentos que mais cresce, e o Brasil já é um dos principais destinos para o turismo étnico, embora não haja políticas específicas, como um mapeamento transversal ou campanhas de visibilidade a essas iniciativas. A plataforma reúne essas experiências, amplificando sua visibilidade, permitindo o acesso de mais pessoas, e estabelecendo um aumento de renda. Além disso, ao mobilizar essa rede, fortalecemos os laços de colaboração na economia da comunidade negra.

CC: Quais serviços já estão disponíveis?
CH: Temos, por exemplo, cadastro em comunidades quilombolas, em Búzios, além de terreiros de matrizes africanas e coletivos de mulheres negras, que realizam acolhida de grupos para atividades de formação politica, cultural e artísticas, e ainda de sustentabilidade.

Além das trocas simbólicas, para a maior parte dos usuários, a oferta de acomodação compartilhada é uma possibilidade de geração extra de renda, que ativa toda a circulação dentro da comunidade negra.

Em setembro, iniciamos um clube de vantagens com empresas e estabelecimentos parceiros, que garanta aos usuários descontos exclusivos em passagens de ônibus, restaurantes, serviços de limpeza para os imóveis, entre outros.

Leia também:
“Quando o catolicismo é alvo de intolerância, a mobilização é muito maior”

CC: Como está a receptividade?

CH: Nós iniciamos a operação plena da rede em julho e já chegamos a 1.300 cadastros. Hoje, 74% de nossa rede de anfitriões é formada por mulheres negras, que já têm atuação de acolhida seja atuando em redes e coletivos, seja em seus imóveis particulares. Na outra ponta, temos uma juventude com maior mobilidade pelo país e buscando fortalecer sua formação identitária em diferentes cidades. Com o encontro dessas redes, podemos construir uma narrativa sobre a riqueza cultural da diáspora africana.

CC: Mas essa riqueza transcende fronteiras do Brasil.
CH: A diáspora é entendida como uma marca da subjetividade da população negra, pela memória coletiva da dispersão forçada de seus locais de pertencimento. Agora, podemos usar a tecnologia para reconectar essas referências, fazer dessa mobilidade e dispersão uma potência, de articulação e mobilização em rede. Nós já chegamos em dez países, com cadastros em regiões como Itália, Portugal e França. Também temos uma parceria com a Câmara de Comércio Brasil-África para ampliar negociações em mais de 30 países membro.

CC: Qual o caminho para abarcar toda essa diversidade?
CH: Para materializar esse alcance com o aplicativo estamos captando investimentos. Para o próximo ano, estamos desenvolvendo um aplicativo para integrar a rede aos serviços de geolocalização, facilitando a localização de opções e referências em cada cidade.

É uma etapa de crescimento do cadastro dessas oportunidades, locais históricos, coletivos e comunidades que possam proporciona experiências autênticas de reconhecimento das marcas e heranças da cultura negra em diversas dimensões: gastronomia, arte, música, intelectualidade, entre outros aspectos.

CC: Qual o foco da Diáspora Black no momento?
CH: Estamos com uma procura grande por acomodações no Rio, São Paulo e em outras capitais brasileiras e mundiais, como Nova York. Por isso, estamos intensificando nosso foco na ampliação de novos cadastros de espaços para acomodações. Todos são convidados a promover a história, memoria e cultura da população negra e contribuir para geração de renda e para diminuição das desigualdades. Assim, convidamos a população negra de diferentes lugares a fazerem parte desta rede e ainda, é um convite a todos que queiram contribuir no fortalecimento e valorização de nossa herança africana.

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/diaspora-black-uma-ferramenta-contra-a-discriminacao-em-hospedagens

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Quando o cinismo vira rotina

Por Eron Bezerra

 

 

Quem acompanhou a cruzada sistemática dos maiores veículos de comunicação contra a política de inclusão social e de valorização do estado nacional, até então levada a cabo pelos governos Dilma e Lula, certamente deve estar intrigado com o tratamento que esta mesma imprensa dispensa a Temer e sua equipe.

Não deveriam estranhar. Afinal, os meios de comunicação, assim como o legislativo, executivo e judiciário, nada mais são do que aparelhos do estado que, por sua vez, se constitui no instrumento de dominação da classe dominante.

É isso que explica porque, no governo Dilma, o crescimento modesto do PIB era chamado pejorativamente de “pibinho” e agora, quando patina no risível patamar de 0,1%, recebe tratamento tão positivo e cerimonioso que um observador mais desavisado pode imaginar que passamos a crescer no patamar do PIB chinês.

Felizmente, para nós, o povo não é bobo. Não tem deixado se enganar. Percebe a farsa. Identifica as sistemáticas e unidirecionais retaliações contra a esquerda e a tentativa da direita de impedir que haja uma disputa eleitoral presidencial democrática. Cada vez mais o povo vai se convencendo que o único motivo que mobilizou a direita para afastar a presidenta Dilma não era combater a “corrupção” – que nunca restou provado contra a presidenta – mas sim atacar os direitos do povo e a soberania popular.

Por isso, o que vai ficando patente é que a prática das forças conservadoras, especialmente da mídia – mas não a única – é algo que se assemelha ao grotesco, tamanha é a falta de critérios e a descarada parcimônia para tratar do mesmo assunto, do mesmo tema.

E por que? Porque Temer tem entregado o produto para o qual foi escalado: atacar o povo e colocar o pais a serviço dos estrangeiros, especialmente os Estados Unidos da América.

Apesar da enxurrada de denúncias e fatos demonstrando o envolvimento do governo Temer nos mais escabrosos desmandos e atos de corrupção, de ostentar uma popularidade ZERO, de tramar diariamente para retirar direitos dos trabalhadores e de comprometer a nossa soberania, o governo Temer tem cumprido a receita que a CIA americana e os banqueiros lhe mandaram executar, ele continua determinado a levar adiante sua cruzada contra o povo e o país.

E para a direita é o que importa. Por isso lhe apoiam; por isso são tão generosos na cobertura midiática; por isso pouco se importam se o cinismo já virou rotina.

* Professor da UFAM, Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Coordenador Nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central do PCdoB.

Extraído de: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8800&id_coluna=19

Last days of bare legs – the checked blazer and tule midi skirt

 

Oi! Sou a Gisella, obrigada por me visitar aqui.

Há quase 7 anos criei esse blog. É pra ajudar a promover nessa internet que há sim beleza, estilo e muito empoderamento feminino, quando estamos fora dos padrões estéticos sociais. Mais representatividade e menos padrão de beleza e comportamento na mídia

Hoje meu blog é um dos mais influentes na área de moda e estilo plus size no meu país e felizmente ajudo a inspirar muitas meninas a abraçarem sua beleza natural e saírem por aí inspirando outras mulheres.

http://gisellafrancisca.com/?lang=pt-br

“A engenharia também é uma saída política”, afirma Larissa, estudante de engenharia na USP

Estudante negra relata suas vivências no curso de Engenharia na USP

por Camila Marins*.
no site da Fisenge 

Há um ano, Larissa Mendes, 20 anos, realizava um sonho: ingressar no curso de engenharia civil em uma das universidades mais disputadas do país, a Politécnica da USP (Universidade de São Paulo).

Mulher negra e moradora da periferia de São Paulo, Capão Redondo, Larissa fala sobre a importância da engenharia na atual crise política, da universidade pública e também do fortalecimento de redes de apoio e de coletivos do movimento negro para apoiar estudantes e construir a resistência dentro da universidade, um ambiente ainda elitista. Uma pesquisa do Instituto Datafolha apontou que, na USP, 82% são homens e 59% pertencem à classe A.

De acordo com dados da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), de 2016, os alunos brancos são a maioria dos ingressantes na USP pelo vestibular: 75,8% do total, seguido dos pardos (14%), amarelos (6,8%), pretos (3,2%) e indígenas (0,2%).

Levantamento de aluna do Poligen (Grupo de Estudos de Gênero da Escola Politécnica) revela que, durante 121 anos, apenas sete mulheres negras se formaram na Poli. Com este abismo social e racial dentro da universidade, graças à mobilização do movimento negro e do Núcleo de Consciência Negra na USP (NCN), foi aprovada, em julho deste ano, a política de cotas raciais na USP.

No ingresso de 2018, serão reservadas para candidatos autodeclarados pretos pardos e indígenas 37% das vagas de cada unidade de ensino e pesquisa; em 2019, a porcentagem deverá ser de 40% de vagas reservadas de cada curso de graduação; para 2020, a reserva das vagas em cada curso e turno deverá ser de 45%; e no ingresso de 2021 e nos anos subsequentes, a reserva de vagas deverá atingir os 50% por curso e turno.

Em 2003, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira a adotar a política de cotas em sua graduação. 48,9% dos beneficiados pelo sistema, de acordo com dados da UERJ, tiveram média acima de 7 no final do primeiro ano de curso. Entre os demais alunos, 47,1% tiveram média similar ao demais.

A política de cotas é o primeiro passo para a democratização do acesso à universidade, mas ainda faltam investimentos em políticas de permanência e também de referências negras, uma vez que o ensino está atrelado à lógica do epistemídio (conceito que promove o apagamento de determinadas bases epistemológicas privilegiando outras dentro de um modelo de colonização branco).

Isso significa também a falta de professores negros e de referências bibliográficas com recortes de gênero e raça.

Nesta entrevista, Larissa mostra que mulheres negras resistem todos os dias, inclusive diante da cobrança cotidiana para ser “exemplo de superação”, que é a forma como a mídia e determinados setores sociais se apropriam das histórias.

A construção de redes de apoio, empatia e coletividade são instrumentos de resistência poderosos no cotidiano. De acordo com a autora Bell Hooks, “para ser verdadeiramente livre, devemos escolher além de simplesmente sobreviver a adversidade, devemos ousar criar vidas sustentadas no bem-estar e em uma alegria ideal”.

Um ano se passou desde que foi aprovada no vestibular de engenharia da USP. O que mudou?

Larissa: Eu acho que amadureci muito depois que entrei na USP. O choque social não foi tão grande, porque fiz cursinho em uma instituição privada, majoritariamente, composta por alunos brancos e lá sofri bastante no começo. Eu considero que o cursinho não só me preparou para o vestibular, como também me ajudou a ter preparo psicológico para a universidade.

No começo, na Poli, o que me atrapalhou foi a dificuldade que eu tinha e tenho nas matérias. Eu peguei muitas DPs [Dependências – reprovações em matérias] e senti, em vários momentos, que aquilo não era pra mim.

Além disso, o fato de estar em um ambiente majoritariamente branco pesa muito. Eu me sinto pressionada a ser uma história de superação constante e o fato de ter um desempenho baixo me faz muito mal. Entretanto, atualmente, lido melhor com a situação, graças ao apoio dos meus pais e dos coletivos na Poli. Faço parte do coletivo negro e feminista.

Por que escolheu a engenharia civil?

Larissa: Escolhi fazer engenharia civil quando tinha 11 ou 12 anos. São Paulo vivia uma onda “construcionista” por volta de 2007 e eu era apaixonada pelos prédios e como eles eram feitos. Meu pai é professor de matemática e eu já gostava da área de exatas, então, achei na engenharia civil uma forma de unir as coisas. Conforme fui crescendo, minha percepção sobre o corpo mudou, mas continuei com vontade de cursar engenharia e transformar a vida das pessoas.

Como foi a sua rotina para passar em uma universidade pública?

Larissa: Eu tinha que acordar antes das quatro da manhã todos os dias, porque o cursinho era muito longe da minha casa, saía por volta das 4h30 para chegar no cursinho por volta das 6h40, uma vez que as aulas começavam às 7h. Mas para sentar na frente, eu tinha que chegar cedo.

Fiz dois anos de cursinho. O primeiro foi muito difícil psicologicamente, ficava muito cansada para estudar e muitas das matérias eu nunca tinha visto na vida. Tive que começar a fazer terapia pra lidar com a rotina estressante e a solidão que eu sentia naquele lugar.

O segundo ano foi mais tranquilo porque eu entendi como estudar melhor e consegui render mais. Além disso, consegui fazer algumas amizades e me integrar melhor na turma.

Qual a importância de pessoas negras ocuparem ainda mais esses espaços?

Larissa: A engenharia na Poli não tem uma preocupação humana, porque os professores e os alunos vivem uma mesma bolha social.

Dessa forma, pessoas negras e pobres são necessárias para que a engenharia produza algo que sirva à humanidade como um todo, e não só a uma classe social. Além disso, a representatividade é importante para que outras pessoas negras saibam que é possível ocupar espaços que são tradicionalmente brancos.

Como é sua rotina de estudante de engenharia? Quais as dificuldades e também quais as alegrias?

Larissa: É uma rotina bem pesada. Eu moro longe da faculdade e gasto mais ou menos três horas do dia no transporte público. A Poli exige bastante, são em média 9 matérias por semestre somando 28 horas aulas semanais de aula.

Além disso, algumas disciplinas possuem muitos trabalhos e exigem muitas horas de estudo pós-aula. A maioria das matérias são bem difíceis e, às vezes, dá uma sensação de que não adianta muito estudar e a frustração é grande.

Mas a Poli não tem só a parte ruim. Eu me sinto preenchida com algumas matérias e gosto muito do curso, apesar de ser puxado. A Poli reformou o currículo e, por isso temos matérias de engenharia civil desde o primeiro ano e essa é a melhor parte, pois temos contato com a engenharia desde o começo.

Também faço parte dos coletivos da Poli e luto por mudanças lá dentro e mais recente conquista foi a aprovação de cotas na USP.

Hoje, vemos na sociedade avançar um discurso de desmonte da universidade pública. Qual a importância do ensino público?

Larissa: A universidade pública é muito importante para garantir que pessoas pobres tenham acesso a um ensino gratuito. Entretanto, no momento, a universidade serve bastante à elite brasileira e é necessário pensar em soluções para tornar o ensino mais democrático.

Qual a importância de cotas para pessoas negras como política pública?

Larissa: Cotas são essenciais para solucionar a diferença histórica entre negros e brancos no Brasil. Quando ando nos corredores da minha faculdade, sou sempre uma das poucas pessoas negras e fica evidente o abismo social que existe entre mim e os meus colegas.

A universidade não é só branca, como também é muito elitista e faz a manutenção de privilégios brancos. Um exemplo disso é a quantidade de alunos, cujos pais e avós também estudaram na USP, mantendo sempre a mesma classe no poder.

Enquanto isso, eu sou uma das poucas pessoas da família que chegou ao ensino superior. Cotas também abrem o horizonte da universidade para outras realidades e torna o ensino mais democrático.

Como a engenharia pode contribuir para uma sociedade mais justa e solidária?

Larissa: A engenharia também é uma saída política, e não é à toa que a crise política e financeira no Brasil esbarra na construção civil. Se a graduação preparar os alunos para produzir um conteúdo técnico mais humanizado, a engenharia pode ser uma forma de gerar mudança social, por meio da mobilidade urbana principalmente e também de garantir profissionais que se preocupem mais com a sociedade.

Quantas pessoas negras existem na sua turma de engenharia? Existem iniciativas na universidade para ampliar a entrada de pessoas negras nas universidades como alunos? E os professores na USP, existem negros?

Larissa: No meu ano de ingressante, havia três pessoas negras na sala contando comigo. Depois do primeiro ano, as salas se diluem com a divisão dos alunos em algumas turmas. Depois disso, eu costumo ser a única pessoa negra da sala.

Quanto aos professores, dos mais de 400 docentes da Poli, eu conheço três professores negros e só conheço por estar inserida nesse meio de militância.

Isso se reflete bastante nas poucas discussões políticas que os professores fazem. Um exemplo disso foi o debate sobre cotas. A Poli foi contra a aprovação em um cenário da USP, com apenas 3% dos professores são negros.

A atriz negra e vencedora do Emmy, Viola Davis, disse, em seu discurso: “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade”. O que você pensa sobre isso e também sobre a meritocracia que alguns setores impõem?

Larissa: Eu concordo com a frase. Nós, mulheres negras, somos tão capazes quanto ou mais capazes que qualquer outra pessoa, mas estamos na camada mais baixa e negligenciada da sociedade.

Esse conceito de meritocracia é totalmente inválido quando é aplicado numa sociedade desigual como a nossa e, nesse contexto, é uma violência impor esse discurso a pessoas com contextos sociais tão desoladores. Para que possamos discutir a meritocracia, precisamos combater a origem dessa desigualdade.

Qual o seu sonho?

Larissa: Meu maior sonho no momento é me formar. Essa pergunta é difícil. Eu sempre sonhei em morar em Pinheiros, que é um bairro da Zona Oeste, em São Paulo. Queria morar lá e ir pro trabalho de bicicleta (risadas). Também queria muito também ter um trabalho que retornasse algo pra sociedade e ajudar outras pessoas pobres e negras.

*Camila Martins é jornalista da Fisenge.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/larissa-moradora-da-periferia-e-politecnica-a-engenharia-na-poli-nao-tem-preocupacao-humana-professores-e-alunos-vivem-na-mesma-bolha-social.html