Archives for category: Cotidiano e história
Carlos Humberto, criador da Diáspora Black

Diáspora Black:

uma rede contra a discriminação em hospedagens

Criada por quatro empreendedores negros, iniciativa quer combater o racismo e valorizar experiências turísticas afrocentradas
Segundo um dos criadores da iniciativa, Carlos Humberto, usuários negros sofrem mais discriminação e rejeição em outras redes de hospedagem

Formada pelo designer André Ribeiro, pelo jornalista Antonio Luiz, pelo mestrando em Desenvolvimento Territorial, Carlos Humberto da Silva e pelo artista visual Gabriel Oliveira, a Diáspora Black nasce com o objetivo de valorizar as identidades negras e experiências turísticas afrocentradas. 

Por Djamila Ribeiro 

Além de abrigar pessoas, a ideia é oferecer mais perspectivas e opções de hospedagem que valorizem a cultura afrobrasileira, por meio de uma rede de indivíduos que oferecem hospedagem.

A Diáspora Black também nasce porque, segundo pesquisas, pessoas negras são recusadas ou discriminadas em outras redes similares, como o Airbnb. Em entrevista para CartaCapital, Carlos Humberto explica como funciona a rede e quais são as expectativas.

CC: Como surgiu a iniciativa da Diáspora Black?
CH: Essa é uma tradição que realizamos de forma informal, entre amigos, de acolhida, de compartilhar espaços de pertença. É algo que sempre fiz em minha casa, recebendo visitantes por temporada por diferentes plataformas. Mas vivi uma série de experiências de rejeição e discriminação, além de manifestações de desconfiança e desconforto com o fato de eu ser negro dentro de minha casa. Isso me fez questionar o funcionamento das plataformas e criar com alguns parceiros e parceiras uma rede nossa, com outros serviços associados para facilitar e priorizar, por exemplo, experiências turísticas afrocentradas nas cidades que visitamos.

 

CC: Pode dar alguns exemplos de situações de discriminação?
CH: É comum casos de racismo por anfitriões nessas plataformas, com agressões durante a convivência, por exemplo, ou a rejeição, que diminui em 16% as negociações dessas plataformas para usuários negros, segundo a Harvard. Mas há uma situação dos próprios algoritmos, que encobrem os anúncios.

Outra pesquisa recente mapeou que, em 12 bairros icônicos da cultura negra de Nova York, como Brooklyn e Harlem, onde mais de 75% da população é negra, quase 80% dos anfitriões são brancos, ampliando a concentração de renda e a gentrificação dessas áreas. É um problema estrutural, que demanda alternativas que nos favoreça.

CartaCapital: Como a Diáspora Black pode atuar para a promoção da igualdade?
Carlos Humberto: O turismo é um elemento importantíssimo na economia brasileira, e muito se pauta sobre a herança e a cultura da população negra. Somos um dos principais destinos do turismo étnico mundial. Nossa memória está dispersa em diferentes cidades e manifestações, então, visitá-las é uma forma de valorizar nossas identidades, reescrever a narrativa de nossa contribuição na formação social do País, além de fortalecer economicamente essa população. A Diáspora Black se propõe a conectar esses propósitos em uma plataforma que agrega diversos serviços.

CC: Como funciona?
CH: O turismo de experiência é um dos segmentos que mais cresce, e o Brasil já é um dos principais destinos para o turismo étnico, embora não haja políticas específicas, como um mapeamento transversal ou campanhas de visibilidade a essas iniciativas. A plataforma reúne essas experiências, amplificando sua visibilidade, permitindo o acesso de mais pessoas, e estabelecendo um aumento de renda. Além disso, ao mobilizar essa rede, fortalecemos os laços de colaboração na economia da comunidade negra.

CC: Quais serviços já estão disponíveis?
CH: Temos, por exemplo, cadastro em comunidades quilombolas, em Búzios, além de terreiros de matrizes africanas e coletivos de mulheres negras, que realizam acolhida de grupos para atividades de formação politica, cultural e artísticas, e ainda de sustentabilidade.

Além das trocas simbólicas, para a maior parte dos usuários, a oferta de acomodação compartilhada é uma possibilidade de geração extra de renda, que ativa toda a circulação dentro da comunidade negra.

Em setembro, iniciamos um clube de vantagens com empresas e estabelecimentos parceiros, que garanta aos usuários descontos exclusivos em passagens de ônibus, restaurantes, serviços de limpeza para os imóveis, entre outros.

Leia também:
“Quando o catolicismo é alvo de intolerância, a mobilização é muito maior”

CC: Como está a receptividade?

CH: Nós iniciamos a operação plena da rede em julho e já chegamos a 1.300 cadastros. Hoje, 74% de nossa rede de anfitriões é formada por mulheres negras, que já têm atuação de acolhida seja atuando em redes e coletivos, seja em seus imóveis particulares. Na outra ponta, temos uma juventude com maior mobilidade pelo país e buscando fortalecer sua formação identitária em diferentes cidades. Com o encontro dessas redes, podemos construir uma narrativa sobre a riqueza cultural da diáspora africana.

CC: Mas essa riqueza transcende fronteiras do Brasil.
CH: A diáspora é entendida como uma marca da subjetividade da população negra, pela memória coletiva da dispersão forçada de seus locais de pertencimento. Agora, podemos usar a tecnologia para reconectar essas referências, fazer dessa mobilidade e dispersão uma potência, de articulação e mobilização em rede. Nós já chegamos em dez países, com cadastros em regiões como Itália, Portugal e França. Também temos uma parceria com a Câmara de Comércio Brasil-África para ampliar negociações em mais de 30 países membro.

CC: Qual o caminho para abarcar toda essa diversidade?
CH: Para materializar esse alcance com o aplicativo estamos captando investimentos. Para o próximo ano, estamos desenvolvendo um aplicativo para integrar a rede aos serviços de geolocalização, facilitando a localização de opções e referências em cada cidade.

É uma etapa de crescimento do cadastro dessas oportunidades, locais históricos, coletivos e comunidades que possam proporciona experiências autênticas de reconhecimento das marcas e heranças da cultura negra em diversas dimensões: gastronomia, arte, música, intelectualidade, entre outros aspectos.

CC: Qual o foco da Diáspora Black no momento?
CH: Estamos com uma procura grande por acomodações no Rio, São Paulo e em outras capitais brasileiras e mundiais, como Nova York. Por isso, estamos intensificando nosso foco na ampliação de novos cadastros de espaços para acomodações. Todos são convidados a promover a história, memoria e cultura da população negra e contribuir para geração de renda e para diminuição das desigualdades. Assim, convidamos a população negra de diferentes lugares a fazerem parte desta rede e ainda, é um convite a todos que queiram contribuir no fortalecimento e valorização de nossa herança africana.

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/diaspora-black-uma-ferramenta-contra-a-discriminacao-em-hospedagens

Anúncios

Imagem relacionada

Quando o cinismo vira rotina

Por Eron Bezerra

 

 

Quem acompanhou a cruzada sistemática dos maiores veículos de comunicação contra a política de inclusão social e de valorização do estado nacional, até então levada a cabo pelos governos Dilma e Lula, certamente deve estar intrigado com o tratamento que esta mesma imprensa dispensa a Temer e sua equipe.

Não deveriam estranhar. Afinal, os meios de comunicação, assim como o legislativo, executivo e judiciário, nada mais são do que aparelhos do estado que, por sua vez, se constitui no instrumento de dominação da classe dominante.

É isso que explica porque, no governo Dilma, o crescimento modesto do PIB era chamado pejorativamente de “pibinho” e agora, quando patina no risível patamar de 0,1%, recebe tratamento tão positivo e cerimonioso que um observador mais desavisado pode imaginar que passamos a crescer no patamar do PIB chinês.

Felizmente, para nós, o povo não é bobo. Não tem deixado se enganar. Percebe a farsa. Identifica as sistemáticas e unidirecionais retaliações contra a esquerda e a tentativa da direita de impedir que haja uma disputa eleitoral presidencial democrática. Cada vez mais o povo vai se convencendo que o único motivo que mobilizou a direita para afastar a presidenta Dilma não era combater a “corrupção” – que nunca restou provado contra a presidenta – mas sim atacar os direitos do povo e a soberania popular.

Por isso, o que vai ficando patente é que a prática das forças conservadoras, especialmente da mídia – mas não a única – é algo que se assemelha ao grotesco, tamanha é a falta de critérios e a descarada parcimônia para tratar do mesmo assunto, do mesmo tema.

E por que? Porque Temer tem entregado o produto para o qual foi escalado: atacar o povo e colocar o pais a serviço dos estrangeiros, especialmente os Estados Unidos da América.

Apesar da enxurrada de denúncias e fatos demonstrando o envolvimento do governo Temer nos mais escabrosos desmandos e atos de corrupção, de ostentar uma popularidade ZERO, de tramar diariamente para retirar direitos dos trabalhadores e de comprometer a nossa soberania, o governo Temer tem cumprido a receita que a CIA americana e os banqueiros lhe mandaram executar, ele continua determinado a levar adiante sua cruzada contra o povo e o país.

E para a direita é o que importa. Por isso lhe apoiam; por isso são tão generosos na cobertura midiática; por isso pouco se importam se o cinismo já virou rotina.

* Professor da UFAM, Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Coordenador Nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central do PCdoB.

Extraído de: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8800&id_coluna=19

Last days of bare legs – the checked blazer and tule midi skirt

 

Oi! Sou a Gisella, obrigada por me visitar aqui.

Há quase 7 anos criei esse blog. É pra ajudar a promover nessa internet que há sim beleza, estilo e muito empoderamento feminino, quando estamos fora dos padrões estéticos sociais. Mais representatividade e menos padrão de beleza e comportamento na mídia

Hoje meu blog é um dos mais influentes na área de moda e estilo plus size no meu país e felizmente ajudo a inspirar muitas meninas a abraçarem sua beleza natural e saírem por aí inspirando outras mulheres.

http://gisellafrancisca.com/?lang=pt-br

“A engenharia também é uma saída política”, afirma Larissa, estudante de engenharia na USP

Estudante negra relata suas vivências no curso de Engenharia na USP

por Camila Marins*.
no site da Fisenge 

Há um ano, Larissa Mendes, 20 anos, realizava um sonho: ingressar no curso de engenharia civil em uma das universidades mais disputadas do país, a Politécnica da USP (Universidade de São Paulo).

Mulher negra e moradora da periferia de São Paulo, Capão Redondo, Larissa fala sobre a importância da engenharia na atual crise política, da universidade pública e também do fortalecimento de redes de apoio e de coletivos do movimento negro para apoiar estudantes e construir a resistência dentro da universidade, um ambiente ainda elitista. Uma pesquisa do Instituto Datafolha apontou que, na USP, 82% são homens e 59% pertencem à classe A.

De acordo com dados da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), de 2016, os alunos brancos são a maioria dos ingressantes na USP pelo vestibular: 75,8% do total, seguido dos pardos (14%), amarelos (6,8%), pretos (3,2%) e indígenas (0,2%).

Levantamento de aluna do Poligen (Grupo de Estudos de Gênero da Escola Politécnica) revela que, durante 121 anos, apenas sete mulheres negras se formaram na Poli. Com este abismo social e racial dentro da universidade, graças à mobilização do movimento negro e do Núcleo de Consciência Negra na USP (NCN), foi aprovada, em julho deste ano, a política de cotas raciais na USP.

No ingresso de 2018, serão reservadas para candidatos autodeclarados pretos pardos e indígenas 37% das vagas de cada unidade de ensino e pesquisa; em 2019, a porcentagem deverá ser de 40% de vagas reservadas de cada curso de graduação; para 2020, a reserva das vagas em cada curso e turno deverá ser de 45%; e no ingresso de 2021 e nos anos subsequentes, a reserva de vagas deverá atingir os 50% por curso e turno.

Em 2003, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira a adotar a política de cotas em sua graduação. 48,9% dos beneficiados pelo sistema, de acordo com dados da UERJ, tiveram média acima de 7 no final do primeiro ano de curso. Entre os demais alunos, 47,1% tiveram média similar ao demais.

A política de cotas é o primeiro passo para a democratização do acesso à universidade, mas ainda faltam investimentos em políticas de permanência e também de referências negras, uma vez que o ensino está atrelado à lógica do epistemídio (conceito que promove o apagamento de determinadas bases epistemológicas privilegiando outras dentro de um modelo de colonização branco).

Isso significa também a falta de professores negros e de referências bibliográficas com recortes de gênero e raça.

Nesta entrevista, Larissa mostra que mulheres negras resistem todos os dias, inclusive diante da cobrança cotidiana para ser “exemplo de superação”, que é a forma como a mídia e determinados setores sociais se apropriam das histórias.

A construção de redes de apoio, empatia e coletividade são instrumentos de resistência poderosos no cotidiano. De acordo com a autora Bell Hooks, “para ser verdadeiramente livre, devemos escolher além de simplesmente sobreviver a adversidade, devemos ousar criar vidas sustentadas no bem-estar e em uma alegria ideal”.

Um ano se passou desde que foi aprovada no vestibular de engenharia da USP. O que mudou?

Larissa: Eu acho que amadureci muito depois que entrei na USP. O choque social não foi tão grande, porque fiz cursinho em uma instituição privada, majoritariamente, composta por alunos brancos e lá sofri bastante no começo. Eu considero que o cursinho não só me preparou para o vestibular, como também me ajudou a ter preparo psicológico para a universidade.

No começo, na Poli, o que me atrapalhou foi a dificuldade que eu tinha e tenho nas matérias. Eu peguei muitas DPs [Dependências – reprovações em matérias] e senti, em vários momentos, que aquilo não era pra mim.

Além disso, o fato de estar em um ambiente majoritariamente branco pesa muito. Eu me sinto pressionada a ser uma história de superação constante e o fato de ter um desempenho baixo me faz muito mal. Entretanto, atualmente, lido melhor com a situação, graças ao apoio dos meus pais e dos coletivos na Poli. Faço parte do coletivo negro e feminista.

Por que escolheu a engenharia civil?

Larissa: Escolhi fazer engenharia civil quando tinha 11 ou 12 anos. São Paulo vivia uma onda “construcionista” por volta de 2007 e eu era apaixonada pelos prédios e como eles eram feitos. Meu pai é professor de matemática e eu já gostava da área de exatas, então, achei na engenharia civil uma forma de unir as coisas. Conforme fui crescendo, minha percepção sobre o corpo mudou, mas continuei com vontade de cursar engenharia e transformar a vida das pessoas.

Como foi a sua rotina para passar em uma universidade pública?

Larissa: Eu tinha que acordar antes das quatro da manhã todos os dias, porque o cursinho era muito longe da minha casa, saía por volta das 4h30 para chegar no cursinho por volta das 6h40, uma vez que as aulas começavam às 7h. Mas para sentar na frente, eu tinha que chegar cedo.

Fiz dois anos de cursinho. O primeiro foi muito difícil psicologicamente, ficava muito cansada para estudar e muitas das matérias eu nunca tinha visto na vida. Tive que começar a fazer terapia pra lidar com a rotina estressante e a solidão que eu sentia naquele lugar.

O segundo ano foi mais tranquilo porque eu entendi como estudar melhor e consegui render mais. Além disso, consegui fazer algumas amizades e me integrar melhor na turma.

Qual a importância de pessoas negras ocuparem ainda mais esses espaços?

Larissa: A engenharia na Poli não tem uma preocupação humana, porque os professores e os alunos vivem uma mesma bolha social.

Dessa forma, pessoas negras e pobres são necessárias para que a engenharia produza algo que sirva à humanidade como um todo, e não só a uma classe social. Além disso, a representatividade é importante para que outras pessoas negras saibam que é possível ocupar espaços que são tradicionalmente brancos.

Como é sua rotina de estudante de engenharia? Quais as dificuldades e também quais as alegrias?

Larissa: É uma rotina bem pesada. Eu moro longe da faculdade e gasto mais ou menos três horas do dia no transporte público. A Poli exige bastante, são em média 9 matérias por semestre somando 28 horas aulas semanais de aula.

Além disso, algumas disciplinas possuem muitos trabalhos e exigem muitas horas de estudo pós-aula. A maioria das matérias são bem difíceis e, às vezes, dá uma sensação de que não adianta muito estudar e a frustração é grande.

Mas a Poli não tem só a parte ruim. Eu me sinto preenchida com algumas matérias e gosto muito do curso, apesar de ser puxado. A Poli reformou o currículo e, por isso temos matérias de engenharia civil desde o primeiro ano e essa é a melhor parte, pois temos contato com a engenharia desde o começo.

Também faço parte dos coletivos da Poli e luto por mudanças lá dentro e mais recente conquista foi a aprovação de cotas na USP.

Hoje, vemos na sociedade avançar um discurso de desmonte da universidade pública. Qual a importância do ensino público?

Larissa: A universidade pública é muito importante para garantir que pessoas pobres tenham acesso a um ensino gratuito. Entretanto, no momento, a universidade serve bastante à elite brasileira e é necessário pensar em soluções para tornar o ensino mais democrático.

Qual a importância de cotas para pessoas negras como política pública?

Larissa: Cotas são essenciais para solucionar a diferença histórica entre negros e brancos no Brasil. Quando ando nos corredores da minha faculdade, sou sempre uma das poucas pessoas negras e fica evidente o abismo social que existe entre mim e os meus colegas.

A universidade não é só branca, como também é muito elitista e faz a manutenção de privilégios brancos. Um exemplo disso é a quantidade de alunos, cujos pais e avós também estudaram na USP, mantendo sempre a mesma classe no poder.

Enquanto isso, eu sou uma das poucas pessoas da família que chegou ao ensino superior. Cotas também abrem o horizonte da universidade para outras realidades e torna o ensino mais democrático.

Como a engenharia pode contribuir para uma sociedade mais justa e solidária?

Larissa: A engenharia também é uma saída política, e não é à toa que a crise política e financeira no Brasil esbarra na construção civil. Se a graduação preparar os alunos para produzir um conteúdo técnico mais humanizado, a engenharia pode ser uma forma de gerar mudança social, por meio da mobilidade urbana principalmente e também de garantir profissionais que se preocupem mais com a sociedade.

Quantas pessoas negras existem na sua turma de engenharia? Existem iniciativas na universidade para ampliar a entrada de pessoas negras nas universidades como alunos? E os professores na USP, existem negros?

Larissa: No meu ano de ingressante, havia três pessoas negras na sala contando comigo. Depois do primeiro ano, as salas se diluem com a divisão dos alunos em algumas turmas. Depois disso, eu costumo ser a única pessoa negra da sala.

Quanto aos professores, dos mais de 400 docentes da Poli, eu conheço três professores negros e só conheço por estar inserida nesse meio de militância.

Isso se reflete bastante nas poucas discussões políticas que os professores fazem. Um exemplo disso foi o debate sobre cotas. A Poli foi contra a aprovação em um cenário da USP, com apenas 3% dos professores são negros.

A atriz negra e vencedora do Emmy, Viola Davis, disse, em seu discurso: “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade”. O que você pensa sobre isso e também sobre a meritocracia que alguns setores impõem?

Larissa: Eu concordo com a frase. Nós, mulheres negras, somos tão capazes quanto ou mais capazes que qualquer outra pessoa, mas estamos na camada mais baixa e negligenciada da sociedade.

Esse conceito de meritocracia é totalmente inválido quando é aplicado numa sociedade desigual como a nossa e, nesse contexto, é uma violência impor esse discurso a pessoas com contextos sociais tão desoladores. Para que possamos discutir a meritocracia, precisamos combater a origem dessa desigualdade.

Qual o seu sonho?

Larissa: Meu maior sonho no momento é me formar. Essa pergunta é difícil. Eu sempre sonhei em morar em Pinheiros, que é um bairro da Zona Oeste, em São Paulo. Queria morar lá e ir pro trabalho de bicicleta (risadas). Também queria muito também ter um trabalho que retornasse algo pra sociedade e ajudar outras pessoas pobres e negras.

*Camila Martins é jornalista da Fisenge.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/larissa-moradora-da-periferia-e-politecnica-a-engenharia-na-poli-nao-tem-preocupacao-humana-professores-e-alunos-vivem-na-mesma-bolha-social.html

Resultado de imagem para mugabe

Golpe no Zimbábue

Por Jaime Sautchuk*

 

Robert Mugabe era líder guerrilheiro no combate ao governo racista da antiga Rodésia, colônia britânica, hoje Zimbábue. Eu estava em Dar Es-Salam, capital da Tanzânia, que servia de ancoradouro aos movimentos de libertação da África Austral (inclusive Angola e Moçambique), e Mugabe me recebeu no hotel em que estava, após alguma insistência minha.

Em verdade, eu havia pedido a entrevista a uns companheiros dele que eu identifiquei por puro faro no saguão do hotel. No entanto, ele recebeu primeiro um correspondente do NY Times que havia pedido depois de mim. Aí, eu argumentei:

— O sujeito que é do jornal porta-voz do imperialismo ianque vocês recebem rapidinho, e eu, que sou solidário à sua luta, fico esperando, né?!

Os caras se tocaram e num piscar de olhos eu estava diante de Mugabe. Cheio de formalismos e vigilância no início, após uns minutos de papo ele descontraiu, tirou as botas e as armas, botou os pés sobre a mesinha e a coisa andou. Foi por mais de uma hora, em inglês. A entrevista foi publicada, à época, no semanário Movimento.

Quase quatro décadas se passaram. E vejo que a grande mídia trata dos acontecimentos atuais em Harare, a capital de Zimbábue, com grande dose de amnésia.

Desde logo, se esquece de falar do que era a Rodésia, o regime fascista que lá vigorava, do apartheid de triste memória, que foi derrubado por Mugabe. E do regime socialista por ele implantado no início, com reforma agrária e pesados investimentos em educação, do ensino fundamental à universidade, o que mudou a cara da África inteira.

Mugabe aparecia como um nativo de boa formação, professor de História desde muito jovem e formado em Economia pela Universidade de Londres. Seguia uma linha marxista, influenciado por outras lideranças africanas. Era, contudo, um brigador nato contra a segregação racial e as injustiças em geral.

Era um revolucionário autêntico, que conseguia superar também os problemas étnicos (ou tribais) com que se deparava pelo caminho. Por isso tudo, amargou dez anos (1964/1974) nas cadeias malcheirosas do poder colonial, mas enfrentou o apartheid até tirá-lo do poder.

Nos seus últimos 15 anos, a minoria branca do país se julgava independente do Reino Unido, mas a independência só ocorreu em 1979. Foram convocadas eleições diretas e Mugabe foi eleito primeiro-ministro pela União Nacional Africana de Zimbabwe (ZANU), partido que era uma frente de esquerda.

A partir de então, ele foi sendo eleito chefe do poder por sucessivas eleições, recentemente contestadas por oposicionistas do regime. De qualquer modo, sempre exigiu muita habilidade política num país de muitos povos que buscam se afirmar – pra se ter uma ideia, sua Constituição declara 15 línguas oficiais, além do inglês.

O fato é que Zimbábue vem passando por severa crise econômica, agravada por uma corrupção desenfreada e por uma elite negra que ao longo dos anos se tornou muito conservadora. Desfez os avanços sociais e promoveu a concentração de renda em mãos de poucos, que antes eram brancos e agora são pretos.

O comando militar do país, sempre alinhado a Mugabe, resolveu retirá-lo do poder, através de um golpe lento e gradual, mas é visível que ele, hoje com 93 anos de idade, ainda conta com forte apoio popular, em especial nas cidades do interior. Isso, embora em Harare, com seus 1,4 milhão de habitantes, tenha havido algumas manifestações de rua a favor do golpe.

No campo externo, Zimbábue é hoje aliada da China e enfrenta a disputa internacional pelas suas riquezas naturais, especialmente ouro e amianto. Sua população atual é de perto de 15 milhões de pessoas.

http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8777&id_coluna=91

 

Mandela e Mugabe 

Por Luiz Carlos Azenha* 

Li outro dia que um destes idiotas que faturam explorando a franchise do politicamente incorreto escreveu que o Zimbábue não tinha dado nenhuma contribuição à Humanidade.

É um idiota que mal sabe que existe toda uma literatura demonstrando como os brancos europeus de caso pensado desvalorizaram a África, um continente “de povo sem alma” (no dizer daqueles europeus), com o objetivo de justificar os crimes da ocupação usurpadora de terras e de riquezas.

O melhor exemplar desta literatura, em minha opinião, é Africa, A Biography of the Continent, de John Reader.

O autor contesta, por exemplo, a ideia de que o rio Nilo foi o corredor para que a “civilização” chegasse ao interior da África com alguns fatos, como a existência das ruínas do Grande Zimbábue lá no interior.

O que quero dizer é que existe toda uma produção europeia racista desqualificando a África e os africanos, que este povo do “politicamente incorreto” retoma apenas para poder expressar o seu racismo disfarçado.

Quando fiz parte da equipe do programa Nova África, na TV Brasil, escolhemos deliberadamente ouvir o povo, não as autoridades do continente, para desespero dos bate paus governistas, que preferiam um programa para fazer a política externa do governo Lula.

Sob a batuta da historiadora Conceição Oliveira, a gente se ligava especialmente no que dizia o povo dos países que visitávamos. Por que o ditador Mugabe tem ainda algum apoio popular, depois de tantos anos no poder? Porque, apesar de ter beneficiado a sua corja na reforma agrária, foi o único líder africano que realmente mudou a estrutura agrária herdada dos racistas.

Mugabe expulsou das terras os herdeiros de racistas brancos que ocupavam os lugares mais férteis do Zimbábue. Discutam quanto quiserem sobre se usou os métodos mais adequados, se fez isso para se perpetuar no poder, etc.

O fato é que nem Nelson Mandela fez isso, na África do Sul. Feito o Lula em 2002, Mandela teve de assinar uma espécie de Carta aos Sul Africanos quando assumiu o poder, preservando os principais interesses econômicos dos brancos ao mesmo tempo em que promovia a ascensão de uma classe média negra.

Portanto, a verdade inescapável é que, embora os brancos tenham abraçado Mandela como grande símbolo da luta contra o racismo, o ditador Mugabe fez mais que ele quando se tratava de, na prática, apagar a herança racista deixada na distribuição de terras férteis. 

* jornalista 

 

 

Foto: cena do documentário “A negação do Brasil” de Joel Zito

TV a serviço da tecnologia do racismo

Por Joice Berth*

“Os serviçais negros, sempre pacíficos, embora ignorantes e desprovidos de cultura e bons modos brancos, são um exemplo comum dessa técnica de manutenção do lugar criado para o sujeito negro exercido pela televisão”, observa Joice Berth, colunista do site Justificando/Carta Capital, no quinto artigo da série especial “Racismo na mídia e na esquerda”

[…] que foi que ocorreu para que o mito da democracia racial tenha tido tanta aceitação e divulgação? Quais foram os processos que teriam determinado sua construção? Que é que ele oculta, para além do que mostra? Como a mulher negra é situada no seu discurso?  Lélia Gonzalez, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p.224.

Os meios de comunicação, todos eles, têm sido braço direito e esquerdo na propagação das tecnologias da estrutura racista. Isso é uma verdade que se pode comprovar com absoluta facilidade em todos os veículos de comunicação disponíveis, em especial a televisão.

O poderoso e influente jornalista Assis Chateaubriand foi o responsável pela primeira transmissão televisiva no Brasil, em 18 de setembro de 1950, pela TV Tupi, em São Paulo. No ano seguinte, seria a vez de o Rio de Janeiro ser contemplado com essa novíssima ferramenta, viabilizada por recursos importados dos Estados Unidos. O Brasil, então, passou a ser o quarto país do mundo a operar esse tipo de veículo, ficando atrás apenas da Inglaterra, França e dos próprios Estados Unidos. O país seguia pouco mais de meio século de pós-abolição. Uma pós-abolição que ora tentava se livrar das sobras humanas, cuja exploração explícita já não era mais permitida pela lei, ora se valia da fragilidade dessas sobras vivas para prosseguir com os acúmulos de riqueza construída à custa da exploração histórica e não reparada.

Nesse contexto, a televisão foi, a um só tempo, o molde perfeito para os anseios capitalistas pautados pelo controle social via alienação e seletividade da informação passada e instrumento de altíssima performance que consolidaria o projeto de branqueamento de nossa sociedade mestiça, mostrando ao mundo que o país era branco, ao mesmo tempo que minava a formação da identidade e da subjetividade dos povos negros e indígenas, entre outras minorias.

Entende-se que um processo de construção de identidade de um povo se dá através de aparelhos sociais, como a educação e a comunicação. É inegável que esses aparelhos são determinantes de valores, influenciam atitudes e formam consciência, na medida em que transmitem valores étnicos, estéticos e outros elementos que contribuem para a composição de uma identidade étnica. O ato ou efeito de identificar-se implica o reconhecimento, em si próprio, de algo que se percebe em alguém (e vice-versa), funcionando esses aparelhos como espelhos refletores da sua imagem e semelhança. Roberto Carlos da Silva Borges e Rosane Borges, Mídia e racismo, Petrópolis, DP et Alii; Brasília, ABPN, 2012.

A atuação da televisão, porém, foi firme e sutil na manipulação do já suficientemente racista imaginário social, que necessitava trabalhar simultaneamente com telespectadores brancos e negros, de modos diferentes, mas relacionados entre si. Não podia, por exemplo, garantir uma representatividade negra quantitativa necessária para o fortalecimento positivo da imagem de sujeitos negros, trabalhando com muita habilidade a ciência de que a formação da subjetividade perpassa inadvertidamente pelo reconhecimento de si mesmo por meio da imagem do outro, e isso se dá garantindo a quantidade e a qualidade da representação humana em todas as suas possibilidades existenciais.

O processo de rejeição racista da existência de sujeitos negros não foi iniciado com o advento da criação da televisão. Já era a sequência do que foi iniciado quando os primeiros negros pisaram na América, pois, para garantir a exploração de escravizados, era necessário um ralo para escoamento da culpa acumulada por uma moralidade cristã, e foi justamente o movimento de desumanização do sujeito negro que serviu nesse sentido.

O sistema racista, ao longo de quase quatro séculos de escravização, criou um lugar para o sujeito negro. Esse lugar era exatamente o depósito de todas as incongruências e imperfeições humanas que o pensamento brancocêntrico nunca ousou confrontar. O quartinho dos fundos, o lugar das bagunças, onde sujeitos brancos poderiam ocultar seu eu indesejado, seu lado assombroso e negativo com o qual não saberia lidar.

No entanto, esse lugar não poderia ser apenas um espaço vago, em se tratando de sujeitos e suas subjetividades. Seria necessário dar corpo a esse lugar criando uma existência que abarcasse o contingente existencial indesejado e reprimido que amedrontava o ego excessivamente frágil dessa categoria social, a branquitude, que se afirma enquanto ser humano à custa da coisificação marginal de outras categorias sociais que não compartilham das mesmas características físicas que as suas.

O racismo nos usa como depósito de algo que a sociedade branca não quer ser. Algo que é projetado em mim e eu sou forçada neste mise-en-scène, nesta encenação, a ser protagonista de um papel que não é meu e com o qual eu não me identifico. “Grada Kilomba: o racismo e o depósito de algo que a sociedade branca não quer ser”, Agência Ponte, 9 jan. 2017.

Também seria necessário ancorar a existência branca pautada pela superioridade autoproclamada, consolidando a recriação desse sujeito de tal forma que correspondesse de maneira eficiente à idealização de si mesmo.

Assim, seguiu-se ao longo da história da televisão brasileira a imagem estereotipada e distorcida do sujeito negro, começando pela escassez (quase) total de sua presença e passando pelo exercício de inferiorização (quase) sutil, garantindo que a representação fosse sempre prejudicada o suficiente para que o sujeito negro não sentisse orgulho de si mesmo, ao mesmo tempo que garantia ao sujeito branco a possibilidade de expressar seus ideais de superioridade por meio da compaixão e da aceitação desse sujeito contrário no seu meio social.

Os serviçais negros de ambos os sexos, sempre pacíficos, embora tremendamente ignorantes e desprovidos de cultura e bons modos brancos, são um exemplo comum dessa técnica de manutenção do lugar criado para o sujeito negro exercido pela televisão.

O mito da democracia racial foi amplamente propagado, visto que sempre nas telenovelas negros e brancos conviviam de forma pacífica, o que alicerçou na mentalidade do sujeito negro uma aceitação inexistente da negritude, pois essa convivência era claramente hierarquizada e estabelecia sem nenhum constrangimento quem era “superior” e, portanto, mandava e quem era “inferior” e, assim, obedecia. E não se tratava de uma questão de classes, uma vez que a representação de brancos da classe pobre ainda apontava privilégios que incluíam ter um serviçal negro(a), e podemos reparar a quase inexistência de uma classe média negra representada na televisão, seja nas novelas ou nas peças publicitárias.

É bem verdade que o conteúdo televisivo é pautado pela opinião pública. Entretanto, cabe observar friamente que estamos diante de uma ferramenta de comunicação que reflete mas também forma opinião, o que encerra um exercício sutil de manipulação, valendo-se dessa desculpa para continuar exercendo as tecnologias opressoras do racismo, apoiando-se na isenção de posicionamento e em uma falaciosa obediência ao que demandam os telespectadores e anunciantes.

Podemos discorrer muito mais a respeito da participação ativa e decisiva da televisão brasileira na manutenção das tecnologias do racismo. Mas em 2017, se esse assunto ainda não foi solucionado, é possível afirmar que estamos no caminho de outra personalidade para a televisão brasileira que possa se redimir de sua atuação demagoga e tendenciosa acerca das questões raciais, aprendendo timidamente a ouvir e encaminhar o que está sendo dito há anos por especialistas e estudiosos das questões raciais. Talvez por ter perdido espaço importante com a proliferação de vozes negras, que encontraram na web um canal para extravasar o grito de revolta conjunta e ancestral e têm feito isso a contento, garantindo inclusive alguma representatividade, a qual sempre foi negada pela própria televisão brasileira.

*Joice Berth, colunista do site Justificando/Carta Capital e assessora parlamentar do vereador paulistano Eduardo Suplicy, é pós-graduanda em Gestão de Políticas Sociais pela Universidade Brás Cubas e pesquisa questões raciais, feminismo negro e direito à cidade.

*http://diplomatique.org.br/tv-a-servico-da-tecnologia-do-racismo/

Resultado de imagem para rosana paulino

A artísta-plástica Rosana Paulino

Perspetivas de mundo, conversa com Daniel Lima, curador de AGORA SOMOS TODXS NEGRXS

Por Marta Lança

A questão racial tem sido uma disputa permanente no debate público brasileiro, conquistando mais espaço e posicionamentos articulados. São várias as exposições de artistas negros pelo país que inscrevem na sua obra, entre outras coisas, uma antiga história de opressão e de resistência com continuidades no presente. A reflexão e produção negra há muito tempo que vem questionando as estruturas de poder, no entanto, considera-se haver agora uma espécie de boom no circuito da arte contemporânea. Mas para quem? “Boom da arte negra é uma narrativa que só faz sentido da perspectiva normalizada pelo mundo branco”, diz a artista Jota Mombaça. Cúmplice das hierarquias da visualidade e das estruturas da branquitude, a arte brasileira terá forçosamente que rever os seus padrões. Daniel Lima, curador de Agora somos todxs negrxs, exposição integrada no 20º Festival Videobrasil, que decorre em São Paulo, explica a dimensão deste debate.  

 

Como pode a arte contribuir para desconstruir uma enraizada mentalidade racista?

Você não muda um país só na macropolítica, as transformações são também culturais e cultura não se elimina por decreto, tem de atingir o outro campo da existência. Não perceber isso é um grande erro das esquerdas. A abordagem artística fala do campo da subjetividade, da micropolítica e toca um espaço de construção que as leis não alcançam. A arte consegue alcançar estes dois campos: um procedimento ético de construção e pensa o modo de organizar essa narrativa. Pensar como a gente produz discurso é uma questão fundamental na descolonização das mentes. O padrão de legitimação do conhecimento talvez seja a principal amarra colonizadora, e mesmo quando você ocupa esse lugar, tem de aplicar a mesma voz com um padrão historicamente construído no qual não constam outras formas de falar, no sentido da expressão.

A exposição é um catalisador deste momento no Brasil?

O mais valioso é o fato deste país – que teve a maior escravidão – começar a discutir num plano cultural e intelectual e, sobretudo, em trama. Não se trata de um grupo de artistas, mas de uma rede que vem sendo criada em décadas de trabalho. Quando se coloca todos juntos é óbvia a coerência entre os trabalhos, por exemplo na questão performática do corpo e da violência, na leitura da História, com o triplo trauma da colonização: escravidão, extermínio indígena e perseguição religiosa, e a sua atualização nos dias de hoje. Refletem sobre o modo como a sociedade racista, com a qual a gente aprendeu a conviver, criou dispositivos para manter o seu funcionamento. Assim, os nossos trabalhos juntos criam uma espécie de anti-dispositivos de inferiorização, são máquinas de contra-ataque a esse mundo normatizado. O movimento de resistência está criando um mundo quando se opõe àquele que existe. A exposição é feliz nesse sentido.

Proteção extrema contra dor e sofrimento, Rosana Paulino

Proteção extrema contra dor e sofrimento, Rosana Paulino

Estas questões surgem noutras frentes, fora de uma programação específica das alteridades, ou são ainda consideradas “temáticas”?

Ninguém pergunta a um curador de uma Bienal, quando a exposição apresenta uma esmagadora maioria de artistas brancos: “você está tematizando a branquitude?”. Ninguém pergunta mas na verdade está sendo sim colocado o mundo branco como eixo curatorial mas isso não evidenciado nem problematizado. A ideia da perspectiva branca é tomada erroneamente como universal e, sendo a perspectiva do dominante, apresenta-se como absoluta e invisível. Mas esta perspectiva tem cara e só vai ser evidenciada quando contraposta a outra perspectiva diferente. Ou seja, temático seria se todas as exposições se chamassem “Sempre fomos todos brancos” e o que se diferencia disso é considerado temático. Mas não é, são perspetivas de mundo.

É preciso fugir da categoria de “artista negro”? 

Deparo-me com este problema mesmo com quem produz nesse contexto: ao dizer “sou um artista negro” parece que está se categorizando. Mas não, está abrindo uma perspetiva nova. O feminismo fê-lo na arte de um modo radical, não se chama temático às artistas que trabalham questões das mulheres porque construíram essa perspetiva. Nós não trabalhamos num campo restrito, antes adotamos uma visão de mundo que afinal significa uma nova maneira de representar o passado, o futuro e o presente. Como toda a perspectiva poética, abre muito mais do que fecha. E quando mudamos radicalmente essa perspectiva apontamos para a mudança do próprio conceito de arte.

detalhe de 'A ferida colonial ainda dói', Jota MombaçaDetalhe de ‘A ferida colonial ainda dói’, Jota Mombaça

Acho que este movimento está lutando para não ser engolido nem esmagado pelo movimento branco, que tem historicamente dominado de forma totalitária os circuitos de produção e reprodução de arte e pensamento.

Jota Mombaça 

Há mais consciência da questão racial no Brasil?

Pela primeira vez o Brasil se auto reconheceu como maioritariamente afrodescendente desde que no Censos temos uma maioria de pardos e negros. Antes, a ideia de embranquecimento estava muito espalhada e as pessoas não tinham autodeterminação na questão racial. O debate está em curso há muito tempo, mas hoje a consciência do dado racial coloca-nos com uma população maioritariamente negra, isso implica uma transformação do olhar institucional, na cultura e educação.

E na arte contemporânea?

Talvez a arte contemporânea seja a mais segregada de todas as instituições culturais, e tem de repensar como lida com as questões raciais no Brasil, em seus acervos, em suas equipes de trabalho, a própria função do museu, a própria ideia de instituição e a sua relação com a sociedade. É esse o esforço que por exemplo o Videobrasil se coloca ao nos convidar a fazer esta exposição.

da série 'Cartas ao Mar', Estácio Neves

 

Da série ‘Cartas ao Mar’, Estácio Neves

Quando pegou no acervo do Videobrasil constatou que quase havia poucos artistas negros, mesmo entre os artistas africanos. Houve uma tentativa de colmatar esta ausência e colaborar na potência que se vem gerando?

O Videobrasil trabalha com o tema afrobrasileiro há muitos anos. Pode-se fazer a crítica ao facto do assunto, aí sim tematizado, ser produzido não a partir da perspetiva negra. A própria constituição da exposição criou uma intervenção institucional que desconhecia quão pequena era a participação negra. Serviu também para perceber os mecanismos dentro da arte contemporânea, que dá menos reconhecimento à questão identitária de quem produz e mais à questão temática: arte brasileira, arte indígena, arte negra… O modernismo criou essa ideia de que a arte está descolada do contexto e, como nómada, pode migrar para vários contextos e que se deve contemplar a obra e não o contexto no qual foi produzida. Hoje assistimos a um volte-face desse tipo de pensamento para: “tudo importa a partir da perspetiva que se está construindo”.

Há menos desigualdade no acesso ao circuito artístico?

Nas últimas décadas uma parte da população pôde aceder aos meios universitários. Ora, a arte contemporânea é um campo para iniciados, você tem de compreender os códigos, não basta produzir. Então, está intimamente ligada à formação universitária e o fato de nova geração de artistas negros estudarem em universidades públicas fez essa inserção mais expressiva.

A figura do artista-pesquisador é cada vez mais comum…

Um dos campos de batalha é o campo teórico. Uma característica desta geração é precisamente a vontade de colmatar o lapso da produção teórica. Então, a construção não só acontece na obra mas no discurso que a acompanha, pretende-se ocupar esse espaço e fornecer os elementos teóricos reconhecidos pela arte contemporânea. As reflexões que aparecem nos painéis da exposição são fragmentos de textos já publicados pelos artistas.

Pensando na discussão sobre o lugar de fala, estes artistas têm a sua experiência de vida muito inscrita na obra. Como se houvesse uma maior urgência em dizer certas coisas…

Lá está a nossa tese: não precisamos de fazer o recorte temático sobre a questão negra, a temática negra está no trabalho em si. Como curador não preciso de fazer ligação entre um trabalho e outro, não estou propondo uma colagem de várias partes que formam um todo. Elas já saem conjugadas dentro da sua maneira de existir, dentro desta perspectiva.

Merci beaucoup blanco, Musa Michelle Mattuizzi

 

 

Merci beaucoup blanco, Musa Michelle Mattuizzi

Porque é tão recorrente trabalhar sobre o corpo negro?

O trabalho mais antigo da exposição é do Zózimo Bulbul e o mais recente é o da Musa Michelle Mattiuzzi, ambos têm o corpo diante da câmara. O trabalho de Luíz de Abreu desconstrói os estereótipos enfatizando-os. A mão do Moisés Patrício nos espaços da cidade. O corpo que faz travessias no trabalho de Paulo Nazareth. O corpo da multidão da torcida de futebol. A suspeição sobre o negro na cidade em Dalton Paula. Ou seja, o corpo está num lugar de afirmação sem ser estereotipado.

Qual o lugar do artista curador?

Não disputar esse campo do profissionalismo curatorial de “arranjador” de obras que muitas vezes beira o maneirismo da arte contemporânea. Há um lado autoral na catalização dessas forças, de fazer ver os discursos quando as obras estão juntas.

Sem sobrepor uma leitura característica de um certo autoritarismo da figura do curador.

A autoria está em fazer uma proposição suficientemente aguda para mostrar uma perspetiva de mundo.

Da emancipação negra do Haiti até à distopia do mundo, a precarização da vida e perda de direitos mais alargados para a humanidade. Como se relaciona a Constituição Haitiana de 1805com o devir-negro do mundo de Achille Mbembe?

O Haiti é a perfeita combinação de resistência, precarização e aliança global. “De agora em diante todos serão denominados genericamente negros”, dizia o artigo 14 da Constituição do Haiti, ou seja, um mundo que se alia a partir da figura do negro, aquele que foi mais coisificado, mais conotado como inferior, como mercadoria é o ponto de ligação entre todos nós numa luta anti-colonial. No Haiti houve a primeira libertação de escravos da América, foram os primeiros a construir realmente a ideia republicana. Os haitianos já anunciavam o que se vive hoje: uma unificação da precarização da vida em torno da negritude como existência destinada ao lugar da resistência.

Minotauro, Sidney Amaral

Minotauro, Sidney Amaral

E o X traz a dimensão de género à reflexão?

O X coloca a discussão na questão de género, na luta transgénero, opondo-se a um mundo branco e patriarcal.

Há também uma dimensão histórica sobre a exploração?

Heidegger fala de que a característica do trabalho moderno é a exploração da natureza. Mas antes de se inventar máquinas para explorar a natureza, o homem foi coisificado, transformado em mercadoria e em força de trabalho. Não é uma casualidade a Inglaterra ter sido o primeiro país a se industrializar e a lucrar mais com o comércio de escravos. Temos a falência do progresso social pela precarização geral, com a última tacada da globalização tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. A nossa pirâmide social está cada vez mais afunilada.

Bandeiras, Frente 3 de Fevereiro

Bandeiras, Frente 3 de Fevereiro

A modernidade funda uma falsa universalidade dos direitos. Que ideia de igualdade restou?

Nunca existiu uma visão real de igualdade, o mundo republicano nunca foi para todo o mundo, apenas para uma parte do mundo. Nas Américas isso acontece de uma maneira radical, a própria implantação da república nesses países acontece de supetão e nunca encarando que a sua população é cidadã, uma parcela fica de fora da cidadania. O Estado sempre foi o principal descumpridor e ilegal no terceiro mundo. Sabendo que o Estado não dá conta de todos, acaba por demonizar uma parte da população para excluí-la de seus direitos.

 

E qual a posição do Brasil nesse mundo distópico?

O Brasil é a ponta de lança desse mundo neoliberal distópico. Alguns dados: é o país com mais assassinatos, tem a polícia que mais mata e mais morre no mundo, sobretudo no contexto de guerra contra as drogas, de encarceramento em massa e de extermínio em massa. Tem um poder judicial muito caro e poderoso: um juiz ganha muitíssimo mais do que na Alemanha, Portugal, EUA. A Universidade de Direito foi a primeira faculdade criada no Brasil, onde as famílias ricas punham os filhos, criando a sua própria elite para defender determinada interpretação das leis. A classe jurídica tem características particulares, por exemplo, não são eleitos em nenhuma esfera, só o supremo do tribunal é escolhido pelo presidente, todos os outros são eleitos pelos próprios juízes. Ou seja, é um eterno sistema de compadrios. O polícia goza de uma impunidade declarada, mata e não vai a julgamento, tem a conivência do jurídico.

O batedor de bolsa, Dalton Paula

O batedor de bolsa, Dalton Paula

 

Como se rompe o ciclo vicioso da manutenção da injustiça?

A luta ativista no campo racial passa pelo campo institucional onde se dão as manutenções da desigualdade mas também como disse anteriormente na micropolítica de anúncio de mundos possíveis.

 

Por um lado uma imagem de um país muito violento, por outro de um povo alegre e sempre otimista.

O Brasil é o país que toma mais antidepressivos, sobretudo em São Paulo. Também é um dos países que mais faz cesarianas e cirurgias plásticas, especificamente rinoplastias. Portanto nessa transformação do próprio corpo, querer mudar o traço fenótipo, transparece a ideia de não estar afinado com o que você é. É um grande resquício colonial, a incapacidade de aceitar as nossas culturas. Há um plano de falência total do projeto de ser europeu, de ser uma metrópole no sentido urbanístico, falência do Estado Social. Temos o maior Carnaval e futebol do mundo (mais vitorioso nas copas do mundo) ou seja, mantém-se a perceção da nação sendo a falência sublimada por estas redenções. Apesar de termos a maior biodiversidade do planeta, desde a época colonial, as plantations sempre foram avessas a biodiversidade, tanto das espécies da natureza como a diversidade social. Estabelece-se a cultura dominante (monocultura) e é isso. Ou seja, o Estado nunca foi para todos.

 

Mas há resultados das políticas afirmativas e da forte resistência.

Tivemos um movimento quilombola muito forte, de criar áreas inteiras de resistência negra e indígena. O mais conhecido, o Quilombo dos Palmares, lutou contra o império português, o maior exército da época, por mais de um século. A visão quilombola é o que encontramos em todos os transbordamentos sociais muito fortes que o Brasil tem. As recentes ocupações nas escolas, o arrastão nas praias cariocas, na lógica de “vamos ocupar uma parte que antes era apenas destinada a uma parcela da população”. Os rolezinhos, quando os jovens de periferia ocuparam shoppingcenters, também geraram uma nova mobilidade dos jovens.

 

A tomada da rua em 2013…

Tomar a rua em 2013 é simbólico como manifestação política, e inserido numa onda mundial. Mas o Arrastão do Rio de Janeiro é o marco de uma multidão empoderada, uma massa que ocupa um lugar que não era supostamente para estar. E até hoje vemos o mesmo o embate diante deste transbordamento: ou se considera legítimo ou se criminaliza. Então, tudo isso é uma continuidade dessa dimensão quilombola. Este processo de multidão empoderada e racializada que acontece no Brasil nas últimas décadas vai ser fundamental para transformar o país. Os sistemas políticos têm dificuldade em encarar isso. E a esquerda partidária brasileira sempre teve o viés marxista de não olhar para a questão racial como fundante no mundo colonizado, e não o conflito de classe, e sempre vai ignorar esse fenómeno que constrói a dimensão quilombola.

O samba do crioulo doidi, Luiz de Abreu

O samba do crioulo doidi, Luiz de Abreu

AGORA SOMOS TODXS NEGRXS 

Sim, agora somos todxs negrxs! Artigo 14 da Constituição Haitiana de 1805, escrita a partir da única rebelião negra a tomar o poder na América, aponta para uma situação política em que lutamos pela expressão de uma voz historicamente silenciada. Aqui, essa voz canta a luta do quilombo urbano a atravessar todxs que foram e são excluídxs pelos poderes hegemônicos.

Não, agora não somos todxs negrxs! As instituições entenderam agora que os traumas da colonização existem? Entenderam agora a falácia do discurso da democracia racial? Não! Não somos todxs negrxs! Nós, negrxs, continuamos a viver como alvo de violência, silenciamento e exclusão. Não, não somos todxs negrxs. Esta é uma luta contínua por sobrevivência em que precisamos reconhecer as especificidades de uma trajetória afro-americana.

Sim, agora somos todxs negrxs! Poderíamos dizer que, na história da arte contemporânea brasileira, quase todas as exposições tacitamente se autonomearam “Sempre fomos todos brancos” — porque a presença negra no ambiente de arte contemporânea aqui sempre foi uma exceção. A exposição AGORA SOMOS TODXS NEGRXS? reúne parte da nova geração de artistas visuais negrxs brasileirxs. Uma geração marcada pelo amadurecimento da discussão sobre as questões raciais no Brasil e na América, e também pelo cruzamento com discussões sobre identidade de gênero e transgêneras.

Não, agora não somos todxs negrxs! Uma arte contemporânea produzida a partir da perspectiva da negritude que desafia as perspectivas de descolonização da América. Uma geração que se propõe a desconstrução do tríplice trauma da colonização (extermínio das populações nativas, escravidão e perseguição religiosa) por meio do poder micropolítico da arte, ao desabrigar estereótipos numa batalha por forças da vida contra forças de extermínio. Uma disputa para reconstruir nossa história e nosso mundo do nosso jeito.

X como atualização. X como afirmação histórica do não capturável. X como trama.

Daniel Lima

da série 'Aceita?', Moisés Patrício

Da série ‘Aceita?’, Moisés Patrício

http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/perspetivas-de-mundo-conversa-com-daniel-lima-curador-de-agora-somos-todxs-negrxs