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A Ndop (royal memorial portrait) of the king Kot-A-Ntshey from the Kuba kingdom (in modern-day Democratic Republic of the Congo). 18th century CE, now on display at the Royal Museum for Central Africa in Tervuren, Belgium [2000×2559]

Source: https://reddit.com/r/ArtefactPorn/comments/f6dlco/a_ndop_royal_memorial_portrait_of_the_king/

O fotógrafo Maurício Hora (esquerda) e o ilustrador André Diniz.

O fotógrafo Maurício Hora (esquerda) e o ilustrador André Diniz. Foto: Luciana Quaresma

“Morro da Favela” é um dos trabalhos mais expressivos do argumentista e ilustrador carioca André Diniz. O romance gráfico conta a história de Maurício Hora, o fotógrafo que nasceu e cresceu no Morro da Providência, no Rio de Janeiro. A comunidade, que começou a se formar em 1897, é considerada a primeira favela do Brasil.

Por:Luciana Quaresma

Para André Diniz, contar a vida do fotógrafo Maurício Hora em quadrinhos foi e tem sido uma grande experiência:

“Foi um desafio novo. Em um primeiro momento fiquei até travado, justamente pela responsabilidade que era colocar expressões e palavras de pessoas que viveram e que vivem no local, é algo delicado principalmente por serem histórias de vida complicadas. Foi um desafio enorme. Eu nunca tinha feito nada parecido e até passei a usar software para escrever o roteiro, organizar as cenas, pois a minha ideia era mesmo contar uma história com começo, meio e fim.”

Diniz fez questão de fugir da ficção e ser fiel à biografia de Hora como ponto de partida para a obra:

“Desde o começo, eu não queria ir nesta corrente da ficção que busca a favela como um pretexto para mostrar cenas de violência, de tiroteio, para fazer um ‘western’ brasileiro. Eu queria justamente ir contra isso. Comecei a ficar interessado pela figura humana do Maurício, pela história de vida, pelo trabalho dele com a fotografia, transformando a favela em arte.”

As fotografias de Hora também ilustram as páginas do quadrinho e algumas delas estão na exposição. Um olhar orgânico de um morador do Morro que, através da fotografia, buscou a sua identidade e mostrou ao mundo a realidade da favela.

Fotografia de Maurício Hora na exposição "Morro da Favela", em cartaz em Lisboa.
Fotografia de Maurício Hora na exposição “Morro da Favela”, em cartaz em Lisboa. Foto: Luciana Qauresma/RFI/Maurício Hora

Hora explica que esta foi a ferramenta que encontrou para conseguir ser ouvido:

“A minha fotografia não tem muito a ver com a história do livro. Ela fala sobre a favela, ela mostra a favela mas ela é uma ferramenta de transformação. Tem a ver com o livro porque sou eu, claro, mas ela é uma fotografia de alguém que precisava gritar, só isso! Ela quer revelar, ela quer transformar. A minha fotografia não é tão agressiva, mas é muito real. A ideia é não chocar muito, não ser tão dramática, mas mostrar a realidade. Também tem coisas muito bonitas, como a paisagem da favela. Antes, ninguém via essa paisagem”.

A exposição promovida pela Embaixada do Brasil em Lisboa faz parte do programa Brasil em Quadrinhos, realizado em parceria com a Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

Luciana Falcon, que realizou o projeto, teve como inspiração o cenário da história trazendo um pouco da favela carioca para Lisboa:

“Adaptar uma obra como a do André Diniz junto com as fotografias do Maurício Hora, que expõem juntos pela primeira vez e nessa casa espectacular, é um puro deleite. A gente tentou adaptar e reproduzir – dentro das possibilidades de cronograma e financeiras – um pouco dos elementos que remetem à obra: desde a cor, que tem a ver com a que foi escolhida para a capa do quadrinho, até elementos da favela, como o tijolo, o andaime, e reproduzir em tamanho muito ampliado os detalhes do André Diniz.”

Segundo o ilustrador, é muito gratificante poder levar a Portugal a realidade difícil da favela e a poesia do brasileiro, no contexto de uma troca cultural que é cada vez mais forte.

Marco no quadrinho brasileiro

Para Igor Trabuco, do Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa, esta exposição ainda é mais especial pelo fato de ser inédita:

“Nunca foi feita uma exposição das fotos com os quadrinhos. A junção das duas linguagens, que neste projeto se fundem em uma única narrativa, cria uma curiosidade extra. O olhar de delicadeza do André soube traduzir em desenhos uma realidade complexa, que comporta muitas camadas sociais, gerando uma reflexão. Ele conseguiu trazer isso com um traço de leveza. É, sem dúvida, uma obra-prima, um marco no quadrinho brasileiro como um todo.”

Para Carlos Alberto Simas Magalhães, embaixador do Brasil em Lisboa, a produção de quadrinhos no Brasil vive um momento de grande dinamismo e a obra emblemática de Diniz traz um novo olhar:

”A exposição convida o visitante para uma reflexão acerca da temática urbana, desenvolvida com grande sensibilidade numa e noutra forma de expressão, mas principalmente sobre a intertextualidade que orientou a concepção do projeto”, destaca o embaixador.

A nova edição de “Morro da Favela” tem doze páginas a mais do que a versão anterior e, segundo a dupla, continua em transformação.

“As páginas vão sendo adicionadas por coisas novas que aconteceram na minha vida e da própria cidade do Rio, como a Fundação da Casa Amarela, por exemplo, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, que mudaram a cara da cidade e principalmente na área do Morro”, explica Hora.

“É um processo que está em constante transformação e isso se reflete no livro. Vou acrescentando aquilo que considero que enriquece essa narrativa, do ponto de vista de conteúdo e relevância para o leitor, mas sempre tentando traduzir os acontecimentos da vida do Maurício”, destaca Diniz.

A exposição fica na Casa Pau-Brasil, no bairro Príncipe Real, em Lisboa, até 31 de março próximo. A entrada é livre.

http://www.rfi.fr/br/europa/20200216-%E2%80%9Cmorro-da-favela%E2%80%9D-o-romance-gr%C3%A1fico-de-andr%C3%A9-diniz-ganha-exposi%C3%A7%C3%A3o-em-lisboa

Em Portugal, há festas de Carnaval de norte a sul do país. Os foliões saem às ruas sem olhar às temperaturas do finalzinho do inverno.

O carnaval português é rico em tradições. Dependendo da cidade em que o folião estiver, é possível participar de grandes festas e bailes de máscaras. É a época de ver “caretos” – personagens mascarados – e de cruzar com as “matrafonas”, como são chamados os homens que se vestem de mulher.

Também há os “cabeçudos”, que são figuras com cabeça desproporcional em relaçãoo ao corpo. Sem falar nos “gigantones”, que nos fazem lembrar dos bonecos gigantes de Olinda. Em terras lusas, o carnaval também abre alas para as tradições brasileiras – blocos de rua, maracatus e escolas de samba.

Só a Vila de Sesimbra, distante 38 quilômetros de Lisboa, tem seis escolas. O Grupo Recreativo Escola de Samba Bota é a mais antiga da Vila. Em março, completa 44 anos.

“Surgiu como quase todas as escolas de samba aqui em Sesimbra”, diz o músico português Ricardo Alves “Chora”, mestre da bateria. Segundo ele, tudo começou com um grupo de mascarados. Na terça-feira de Carnaval, eles desfilavam na avenida, a pedido dos moradores.

Chora é mestre da bateria do Bota há 21 anos. Desde pequeno se acostumou a ouvir marchinhas de Carnaval e sambas antigos. Quando o pai e a mãe do músico faziam viagens ao Brasil, traziam discos, CDs, instrumentos.

“Comecei a pegar o gosto”, conta. “Sou sambista. Seja eu português, brasileiro, francês. Sambista é uma família só. Não tem nacionalidade, graças ao Brasil”, observa.

Para gravar o samba-enredo “Agora brincamos nós”, composto por Leandro Figueiredo e Mestre Chora, Bota convidou Zé Paulo Sierra, intérprete oficial da escola de samba brasileira Unidos do Viradouro. Mas neste domingo (23), são os intérpretes da escola sesimbrense que vão puxar o samba e levar cerca de 160 componentes para a avenida. Quase todos são portugueses, há pouquíssimos brasileiros – não chegam a cinco.

Grupo Baque Mulher de Lisboa

Na capital portuguesa, a presença do Brasil no carnaval é marcada pelos blocos de rua e pelo maracatu. Neste domingo, o som do grupo de maracatu Baque Mulher de Lisboa vai tomar conta das ruas. É formado por quinze brasileiras, duas espanholas e duas italianas. Elas tocam instrumentos de percussão, cantam e dançam durante o trajeto.

“É um movimento de empoderamento, de visibilidade feminina. É um movimento político na luta dos direitos das mulheres, na luta da diversidade”, explica Helô Lisboa. A cabeleireira goiana está há nove anos em Portugal, e além de tocar tambor, é uma das regentes do grupo de maracatu.

O Baque Mulher é um movimento que surgiu em 2008, no Recife, onde tem sua sede. Foi idealizado por Joana Cavalcante, primeira mulher nomeada mestra de uma Nação de Maracatu, que é a Nação Encanto do Pina. O movimento tem 30 grupos espalhados por diversas cidades brasileiras. O de Lisboa é o único na Europa e vai completar um ano em abril.

A mineira Alice Amâncio também faz parte do Baque Mulher lisboeta. Está em Portugal desde 2015, quando veio para um mestrado. Ela diz que é difícil definir o sentimento que surge quando o maracatu toma as ruas de Lisboa.

“É muito forte. É até difícil de te explicar em palavras. É muito abstrato, mas é muito gostoso, uma coisa muito boa de se sentir mesmo”, resume.

http://www.rfi.fr/br/europa/20200223-em-portugal-h%C3%A1-festas-de-carnaval-de-norte-a-sul-do-pa%C3%ADs

Em 1948 foi criada a escola de samba pioneira em Florianópolis, a Protegidos da Princesa - Reprodução/Flávio Tin

Protegidos da Princesa, Escola de Samba de Florianópolis -SC

Carnaval é um período de festas populares realizadas durante o dia e à noite. As comemorações ocorrem todos os anos, nos meses de fevereiro ou março, começando no sábado e estendendo-se até a Terça-feira de Carnaval.

As celebrações carnavalescas terminam na Quarta-feira de Cinzas, dia que marca o início da Quaresma — período de 40 dias que segue até a Sexta-feira Santa, dois dias antes da Páscoa.

As festas de Carnaval são adaptadas de acordo com a história e a cultura local. Em geral, as pessoas dançam, comem e bebem alegremente em festas, bailes de máscaras, bailes de fantasias, desfiles de blocos, escolas de samba, trios elétricos e até na própria rua.

História do Carnaval

O Carnaval começou a ser comemorado há muitos anos, em especial na região Sul da Europa, entre membros do Catolicismo, como festa pagã, ou seja, que contrariava os preceitos propagados pela religião.

Estudos indicam que a palavra Carnaval tem como origem os termos latinos carne levare ou “para retirar a carne”. Esse significado tem relação com o período de Quaresma, no qual os católicos abrem mão de algumas comidas e bebidas e de parte de prazeres tidos como mundanos.

Desse modo, segundo pesquisas, um dia antes da Quarta-feira de Cinzas, alguns católicos realizavam festas e aproveitavam para comer bastante carne, pois sabiam que, a partir do dia seguinte, não poderiam degustá-la até o final do período de Quaresma.

Conforme a história do Carnaval, essa celebração pode estar relacionada a algumas festas de origem greco-romana dedicadas ao deus do vinho, Baco (ou Dionísio, para os gregos). Nos eventos, as pessoas costumavam embriagar-se, comer muito e entregar-se aos prazeres da carne.

Leia mais: A história do Carnaval e suas origens

Nos anos seguintes, as comemorações e as festas continuaram acontecendo com a mesma proposta de exageros. Então, a partir do século VIII, quando foi criada a Quaresma, a Igreja Católica decidiu que as festas de Carnaval seriam realizadas antes dessa data, justamente para que, nesses dias que a antecedem, pudessem ser cometidos os excessos.

Durante o período histórico conhecido como Renascimento, o Carnaval popularizou-se ainda mais, em especial na Itália. A cidade de Veneza, inclusive, ficou muito famosa pelos seus tradicionais bailes de máscara.

Há, ainda, relatos de que, ao colonizarem o continente americano, os europeus disseminaram nele as festas de Carnaval. Estudos mostram também que, no século XI, eram realizadas festas carnavalescas nas quais os homens vestiam-se de mulheres.

Trio elétrico em Salvador (Bahia)
O carnaval em Salvador atrai cerca de duas milhões de pessoas.**

Feriado do Carnaval

A data do Carnaval é definida por meio do critério que é utilizado para determinar a data da Páscoa. Esse critério foi criado no ano de 325 d.C. durante o Concílio de Niceia. As autoridades da Igreja Católica estipularam que a data da Páscoa seria marcada no primeiro domingo que acontece após a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera/outono. Em seguida, contam-se retroativamente sete domingos para se chegar ao Domingo de Carnaval.

Isso significa que, diferente dos demais feriados, o de Carnaval não tem um dia fixo, ao contrário, ele muda de acordo com o ano.

Carnaval no Brasil

Carnaval do Brasil é a maior festa popular do país, fazendo parte da sua identidade nacional. Também é o Carnaval mais famoso do mundo, chegando a atrair milhares de turistas de vários países.

Escolas de samba, clubes, locais de eventos, hotéis, entre outros lugares, costumam trabalhar durante grande parte do ano para organizarem as festas de Carnaval. Isso significa que as comemorações tornaram-se fontes de negócio e lucro.

Arraigado à cultura brasileira, o Carnaval mexe com as pessoas, que se preparam fisicamente para aguentar a maratona de festas. Parte da população investe em roupas, acessórios, fantasias etc. Há algumas pessoas que, inclusive, apresentam-se sem roupa alguma, apenas com tapa-sexos e maquiagens com muito glitter.

Veja também: Como o Carnaval é celebrado em outros países

Rio de Janeiro

Estudos sinalizam que o Carnaval chegou ao Brasil, no Período Colonial, pelo Rio de Janeiro, com o entrudo — uma festa de origem portuguesa na qual os escravos saíam às ruas com rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas.

Em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, enquanto o entrudo era reprimido nas ruas, bailes eram realizados para a elite. Depois, foi criada a primeira sociedade, o Congresso das Sumidades Carnavalescas, que passou a desfilar nas ruas da cidade.

As manifestações de Carnaval de rua surgiram no século XIX, buscando adaptarem-se às tentativas de disciplinamento policial. Para isso, foram criados os cordões e ranchos — cortejos praticados principalmente pelas pessoas de origem rural.

No final do século XIX, foram criadas as marchinhas de Carnaval, cuja autoria mais conhecida foi a de Chiquinha Gonzaga, com sua música “O abre-alas”.

Entre as classes populares, as escolas de samba surgiram na década de 1920 no Rio de Janeiro. A primeira disputa entre escolas ocorreu em 1929.

A partir da década de 1960, o Carnaval carioca com o samba tornou-se uma importante atividade comercial. A prefeitura do Rio de Janeiro passou a colocar arquibancadas na avenida Rio Branco e a cobrar ingresso para ver o desfile.

Em 1984, Oscar Niemeyer, o maior arquiteto brasileiro, projetou a Passarela do Samba ou o Sambódromo.

Nordeste

O Carnaval na Região Nordeste do Brasil surgiu na Bahia, no final do século XIX, com o objetivo de relembrar as tradições culturais africanas. Nesse mesmo período, em Pernambuco, a dança frevo foi popularizada na capital Recife, e o maracatu, em Olinda.

O chamado “trio elétrico” começou a desfilar em 1950 nas ruas de Salvador. Era um caminhão em cuja caçamba havia instrumentos musicais e alto-falantes.

Bonecos gigantes de Olinda
Os bonecos gigantes de Olinda são marca registrada do Carnaval pernambucano.***

Carnaval foi trazido ao Brasil pelos colonizadores portugueses entre os séculos XVI e XVII, manifestando-se inicialmente por meio do entrudo, uma brincadeira popular. Com o passar do tempo, o Carnaval foi adquirindo outras formas de se manifestar, como o baile de máscaras. O surgimento das sociedades carnavalescas contribuiu para a popularização da festa entre as camadas pobres.

A partir do século XX, a popularização da festa contribuiu para o surgimento do samba, estilo musical muito influenciado pela cultura africana, e do desfile das escolas de samba, evento que acabou sendo oficializado com apoio governamental. Nesse período, o Carnaval assumiu a sua posição de maior festa popular do Brasil.

Acesse tambémO Carnaval não é uma invenção brasileira. Conheça a origem da festa!

Entrudo

O Carnaval chegou ao Brasil por meio da prática do entrudo, uma brincadeira muito popular em Portugal. Essa prática estabeleceu-se no Brasil, na passagem do século XVI para o XVII, e foi muito popular até o século XIX, desaparecendo do país em meados do século XX, por meio da repressão que se estabeleceu contra essa brincadeira.

Quadro do século XIX representando a realização do entrudo no Rio de Janeiro.[1]
Quadro do século XIX representando a realização do entrudo no Rio de Janeiro.[1]

O entrudo poderia ser realizado de diversas maneiras, como manifestações de zombarias públicas. A forma mais conhecida era o jogo das molhadelas, realizado alguns dias antes da Quaresma e que consistia em uma brincadeira de molhar ou sujar as pessoas que passavam pela rua. Poderia ser realizado publicamente, mas também poderia ser realizado de maneira privada.

No jogo das molhadelas, produziam-se recipientes que eram preenchidos de determinado líquido. Esse líquido poderia ser aromatizado, mas também poderia ser malcheiroso e, neste caso, o recipiente era preenchido com água suja de farinha ou café, por exemplo, e até mesmo urina.

No âmbito público, o entrudo era usado como uma ferramenta de zombaria, pois as pessoas voltavam-se contra quem cruzava as ruas das vilas ou cidades. Como era uma prática muito popular, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, essa brincadeira era vista como uma oportunidade de renda extra para algumas famílias.

Essas famílias dedicavam-se à produção dos recipientes, que eram preenchidos com qualquer tipo de líquido, para vendê-los em seguida. A brincadeira era tão popular que até mesmo a família real brasileira foi adepta do entrudo. Mesmo sendo popular, o entrudo não agradava à grande parte das elites do Brasil, tanto que, ao longo da nossa história, diversos decretos contra o entrudo foram baixados.

No século XIX, houve uma intensa campanha contra o entrudo. Como resultado da passagem da monarquia para a república, da atuação mais consistente do Estado em ações de gentrificação (expulsão das camadas populares dos centros das cidades) e da repressão a manifestações populares, a prática perdeu forças no começo do século XX.

A imprensa foi uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento da campanha contra o entrudo no Brasil. Enquanto o entrudo era reprimido nas ruas, a elite do Império criava os bailes de carnaval em clubes e teatros. No entrudo, não havia músicas, ao contrário dos bailes da capital imperial, onde eram tocadas, principalmente, as polcas.

A elite do Rio de Janeiro criaria ainda as sociedades, cuja primeira foi o Congresso das Sumidades Carnavalescas, para desfilar nas ruas da cidade. Enquanto o entrudo era reprimido, a alta sociedade imperial tentava tomar as ruas.

Acesse tambémSenhor do Bomfim: a história de uma das devoções religiosas mais populares do Brasil

Cordões, ranchos e marchinhas

Mesmo diante dos obstáculos, as camadas populares não desistiram de suas práticas carnavalescas. No final do século XIX, buscando adaptarem-se às tentativas de disciplinamento policial, foram criados os cordões e ranchos. Os primeiros incluíam a utilização da estética das procissões religiosas com manifestações populares, como a capoeira e os zé-pereiras, tocadores de grandes bumbos. Os ranchos eram cortejos praticados principalmente pelas pessoas de origem rural.

As marchinhas de carnaval surgiram também no século XIX, destacando-se a figura de Chiquinha Gonzaga, bem como sua música “Ô abre alas”. O samba somente surgiu por volta da década de 1910, com a música “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, tornando-se, ao longo do tempo, o legítimo representante musical do Carnaval.

Afoxés, frevo e corsos

O afoxé é um ritmo musical criado a partir de elementos da cultura africana e que faz parte do Carnaval brasileiro.[2]
O afoxé é um ritmo musical criado a partir de elementos da cultura africana e que faz parte do Carnaval brasileiro.[2]

Na Bahia, os primeiros afoxés (ritmo musical) surgiram na virada do século XIX para o XX com o objetivo de relembrar as tradições culturais africanas. Os primeiros afoxés foram o “Embaixada da África” e os “Pândegos da África”. Por volta do mesmo período, o frevo passou a ser praticado no Recife, e o maracatu ganhou as ruas de Olinda.

Ao longo do século XX, o Carnaval popularizou-se ainda mais no Brasil e conheceu uma diversidade de formas de realização, tanto entre a classe dominante como entre as classes populares. Por volta da década de 1910, os corsos surgiram, com os carros conversíveis da elite carioca desfilando pela Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Tal prática durou até por volta da década de 1930.

Escolas de samba e trio elétrico

Entre as classes populares, surgiram as escolas de samba, na década de 1920. Considera-se que a primeira escola de samba teria sido a “Deixa Falar”, fundada em 1928, que daria origem à escola Estácio de Sá. Outra escola de samba pioneira foi a “Vai como Pode”, que atualmente é conhecida como Portela. As escolas de samba eram o desenvolvimento dos cordões e ranchos, e a primeira disputa entre elas ocorreu no Rio de Janeiro, em 1932.

As marchinhas conviveram em notoriedade com o samba a partir da década de 1930. Uma das mais famosas marchinhas foi “Os cabelos da mulata”, de Lamartine Babo e os Irmãos Valença. Essa década ficou conhecida como a era das marchinhas. Os desfiles das escolas de samba ganharam amplitude e foram obrigados a se enquadrar nas diretrizes do autoritarismo da Era Vargas. Os alvarás de funcionamento das escolas apareceram nessa década.

Em 1950, na cidade de Salvador, o trio elétrico surgiu após Dodô e Osmar utilizarem um antigo caminhão para colocar em sua caçamba instrumentos musicais por eles tocados e amplificados por alto-falante, desfilando pelas ruas da cidade. Eles fizeram um enorme sucesso. Todavia, o nome “trio elétrico” somente foi utilizado um ano depois, quando Temistócles Aragão foi convidado pelos dois.

trio elétrico conheceria transformação em 1979, quando Morais Moreira adicionou o batuque dos afoxés à composição. Novo sucesso foi dado aos trios elétricos, que passaram a ser adotados em várias partes do Brasil.

 

O Sambódromo e os desfiles

O Sambódromo, fundado em 1984, é o local no qual se realizam os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.[3]
O Sambódromo, fundado em 1984, é o local no qual se realizam os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.[3]

As escolas de samba e o carnaval carioca passaram a se tornar uma importante atividade comercial a partir da década de 1960. Empresários do jogo do bicho e de outras atividades empresariais legais começaram a investir na tradição cultural. A Prefeitura do Rio de Janeiro passou a colocar arquibancadas na Avenida Rio Branco e a cobrar ingresso para ver o desfile. Em São Paulo, também houve o desenvolvimento do desfile de escolas de samba a partir desse período.

Em 1984, foi criada no Rio de Janeiro a Passarela do Samba, ou Sambódromo, sob o mandato do ex-governador Leonel Brizola. Com um desenho arquitetônico realizado por Oscar Niemeyer, a edificação passou a ser um dos principais símbolos do Carnaval brasileiro. O Sambódromo sedia os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O Carnaval, além de ser uma tradição cultural brasileira, passou a ser um lucrativo negócio do ramo turístico e do entretenimento. Milhões de turistas dirigem-se ao país na época de realização dessa festa, e bilhões de reais são movimentados na produção e consumo dessa mercadoria cultural.

 

Emma Dabiri

Como aprendi a amar meu cabelo afro:

‘passei de tolerá-lo a apreciá-lo’

  “Na cultura iorubá, que é minha ancestralidade paterna, as mulheres raramente deixam o cabelo sem modelar”. Foto: Silvana Trevale / The Guardian
Emma Dabiri

“Hoje, temos atores individuais cuja principal preocupação é o sucesso pessoal, apropriando-se da linguagem da libertação negra e do feminismo, mas eles não estão realmente preocupados com a causa”

Emma Dabiri

Fonte: https://gal-dem.com/we-had-our-hair-braided-with-emma-dabiri-to-talk-about-her-new-book-dont-touch-my-hair/

Mais em: 

https://www.theguardian.com/fashion/2019/apr/20/learned-to-love-my-afro-hair

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Emma Dabiri é historiadora social, escritora e radialista. Seu primeiro livro, A History of Hair , foi publicado pela Penguin em 2018. Emma é professora no Departamento de África da Escola de Estudos Orientais e Africanos. Seu doutorado em Sociologia Visual, intitula-se Raça Mista Uma História de Fantasmas e foi defendido no Departamento de Sociologia da Universidade Goldsmiths.

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Sua tese explora a categoria ‘raça mista’ e sua relação com o conceito de ‘identidade’. Emma também trabalha como apresentadora de TV, apresentando filmes de história social para o BBC One Show. Ela apresentou Back in Time Brixton para a BBC2, que foi transmitida em novembro de 2016 como parte da temporada da BBC britânica negra. Atualmente, ela está apresentando Britains Lost Masterpieces para a BBC 4,Back In Time Confectioners para a BBC 2 e Just Not My Typ e para o Channel 4.

Emma é escritora freelancer e tem sido amplamente publicada na imprensa nacional.  Seu trabalho é verdadeiramente interdisciplinar, baseando-se e contribuindo para Estudos africanos, sociologia, história, cinema, literatura, teatro e música, com uma forte dose de cultura popular.

Fonte: http://universityoftheunderground.org/emma-dabiri

Leia mais em:

https://www.independent.ie/entertainment/television/emma-dabiri-the-diaspora-diva-on-trolls-modelling-and-growing-up-black-in-dublin-37204048.html

Em 1985, durante seus dias como professora visitante na Universidade Livre, em Berlim, a poeta / ativista Audre Lorde desencadeou um movimento que continua a percorrer a Alemanha hoje.

    Foi durante uma de suas palestras que ela pediu às mulheres brancas que haviam participado que deixassem a sala. Ela pediu que as poucas mulheres negras presentes ficassem e não saíssem até que conversassem com pelo menos uma outra mulher negra na sala e   concordassem em se encontrar novamente.

    Ela desafiou os alemães negros – principalmente as mulheres – a   não deixar que os outros definissem sua identidade e se organizassem. Ela também sabia que a maioria dos afro-alemães estava fraturada e vinha de diferentes partes do continente africano e 1criado em diferentes partes da Alemanha, que não se prestava à organização.

   A experiência de Audre Lorde no movimento dos Direitos Civis e da Mulher deu-lhe uma visão da luta dos afro-alemães. Ela entendeu essas diferenças e as encorajou. ao mesmo tempo, reconhecendo a semelhança de sua experiência geral alemã e africana. “Você não está sozinho”, disse ela.

   Ela também incentivou as mulheres a trabalharem juntas, tornarem-se visíveis, elevarem suas vozes … cada uma à sua maneira.

   Isso resultou no livro “Mostrando nossas cores: mulheres afro-alemãs falam”, uma antologia de mulheres afro-alemãs multigeracionais que contam a   história de suas vidas. Foi em “Mostrando nossas cores” que as mulheres identificaram pela primeira vez eles mesmos como afro-alemães – um conceito anterior introduzido por Audre Lorde, que dizia que os alemães negros eram um “povo hifenizado ……., compartilhando uma cultura dupla, uma vida dupla”.

    A partir da energia e contatos necessários para concluir esse trabalho, as mulheres começaram a se organizar ainda mais.   Primeiro, houve o ISD – a Iniciativa dos Alemães Negros, que surgiu em todas as principais cidades alemãs. Então veio uma organização irmã, ADEFRA. Isso, por sua vez, provocou a publicação do “Afrekete”, um pequeno jornal que serviu de veículo para expressar a vida dos afro-alemães.

    O falecido poeta afro-alemão May Akim resumiu dizendo: “O livro foi o começo do movimento afro-alemão de uma certa maneira. Desde 1986, as associações alemãs negras se desenvolveram ”.

      À medida que me aprofundava na história dos afro-alemães, comecei a entender o impacto de Audre Lorde no movimento afro-alemão dos dias de hoje e queria que o título do livro incluísse a essência de sua   atitude que ajudou a moldar isso.

Movimento. Daí o subtítulo do livro “Moving Together Differently”.

O título original deste livro “Os afro-alemães: a história não contada” (1600-O presente) não era uma afronta a muitos estudiosos, escritores, artistas e ativistas que documentam a presença de afro-alemães ou africanos desde o dia 17 século.

      É, no entanto, um esforço consciente para tornar aqueles que são ignorantes, inconscientes ou voluntariamente ambivalentes da longa história dos negros que vivem na Alemanha, conscientes dessa presença – então e agora.

      Em comparação com outras minorias, como os turcos, que representam quase 2 milhões da população alemã de 82 milhões de brancos, os africanos na Alemanha representam menos de 2% da população total, estimada entre 300.000 e 500.000, e estão concentrados em grandes cidades como Berlim, Colônia, Hamburgo, Munique e Frankfurt.

      Os primeiros comerciantes, missionários e viajantes alemães foram para a África por volta de 1600. A Companhia Africana de Brandemburgo, fundada em 1682, criou pequenos assentamentos no que hoje são os países da Guiné e Gana na África Ocidental. Os comerciantes e outros trouxeram os africanos de volta à Europa para trabalhar como auxiliares das famílias ou como trabalhadores das empresas.

      Durante o início do século XVIII, Anton Wilhelm Amo, um ganense que fora patrocinado por um duque alemão, tornou-se o primeiro africano a frequentar e se formar em uma universidade européia e depois ensinaria filosofia.

      Sob a filosofia “Ferro e Sangue” de Otto von Bismarck, o moderno estado-nação da Alemanha foi forjado em 1871, tornando-se um poder de liderança e influência dos países europeus em guerra.

      Ao contrário de muitas das nações européias mais antigas, a Alemanha era uma pessoa que veio muito ultimamente ao estabelecer colônias.   A Conferência de Berlim de 1884 permitiu à Alemanha participar da colonização européia da África e acabou estabelecendo colônias africanas nos   Camarões, Togo, Tanzânia, Burundi, Namíbia, partes do Botsuana, Quênia e Moçambique.

      A Alemanha também manteve colônias na Nova Guiné, que incluem agora as Ilhas Marshall, Mariana, Kaiser-Wilhelmsland, Arquipélago de Bismarck, partes das Ilhas Salomão, Ilha Bougainville,   Ilhas Carolinas, Samoa e Nauru,

       É claro que tudo isso terminou com a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, pois foi forçada a ceder seus territórios aos vencedores e pagar reparações, enquanto era ocupada por tropas estrangeiras que incluíam a França. Isso incluía tropas negras de sua colônia do Senegal na África Ocidental.

      A Alemanha ficou muito ressentida com a ocupação dos soldados negros, especialmente depois que eles começaram a conviver com mulheres alemãs e a produzir filhos que mais tarde seriam conhecidos como “bastardos da Renânia”.

      Na era do jazz da década de 1920, havia entre 10.000 a 25.000 Afrodeutsche, a maioria em Berlim ou em outras áreas metropolitanas. Até os nazistas chegarem ao poder, músicos negros e outros artistas eram um elemento popular da cena noturna em Berlim e em outras grandes cidades. Alemães negros também apareceram como figurantes em filmes alemães e   shows paralelos de circo.

      Quando Hitler chegou ao poder em 1932, as políticas racistas dos nazistas impactaram outros grupos além dos judeus. As leis de pureza racial dos nazistas também visavam ciganos (ciganos), homossexuais, deficientes mentais e negros. Não se sabe exatamente quantos afro-alemães morreram nos campos de concentração nazistas, mas as estimativas colocam esse número entre 25.000 e 50.000. Muitos foram esterilizados à força.

      O número relativamente baixo de negros na Alemanha, sua ampla dispersão pelo país e o fato de   os nazistas se concentrarem nos judeus foram alguns fatores que possibilitaram a muitos afro-alemães sobreviver à guerra.

      Após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, os soldados afro-americanos fizeram parte das forças de ocupação dos EUA. Novamente, isso produziu crianças que se tornaram fenômenos do “bebê marrom”. Muitos foram forçados a adotar e enfrentaram limbo legal.

       Só de nascer na Alemanha não faz de você um cidadão alemão. Ao contrário de muitos outros países, a cidadania alemã é baseada na cidadania de seus pais e é transmitida por sangue – embora isso tenha mudado nos últimos anos.

      “Alemanha Negra: A História Não Contada (1688-O Presente) não apenas olha para a história passada da Alemanha, mas também leva um  olhar contemporâneo através dos olhos e palavras dos alemães negros de todas as esferas da vida, procurando encontrar seu lugar na sociedade alemã.

Pequeno resumo

     Meu nome é Dred-Scott keyes e acabei de voltar de uma estadia prolongada na Alemanha, onde entrevistei e fotografei muitos afro-alemães. Interessei-me pelos afro-alemães depois de fazer documentários sobre os cantores Xavier Naidoo e Ayo, dois artistas afro-alemães que se tornaram muito populares.

     No entanto, amigos alemães disseram que os dois artistas não eram alemães, apesar de terem nascido lá. Como jornalista, isso despertou meu interesse e me levou a uma jornada para descobrir exatamente quem e onde estão os afro-alemães.

     Conforme explicado em minha introdução, houve contato com alemães e africanos desde o século XVII e é uma história que não é ensinada nas escolas alemãs. Minha missão é criar um livro que inclua a história dos afro-alemães e seu status atual na sociedade alemã.

     E enquanto eu passava os últimos dois meses na estrada na Alemanha, levava um tempo inadequado para concluir a tarefa. Quero entrevistar Theodore Michael Wonja, o negro mais velho da Alemanha, que por acaso é jornalista.

     Também gostaria de revisitar Berlim e analisar o impacto que a poeta, escritora Audre Lorde teve na sociedade afro-alemã contemporânea, entrevistando aqueles que tiveram contato direto com ela. Audre Lorde, pode-se dizer sem hesitação, ajudou a impulsionar o movimento contemporâneo dos afro-alemães.

     Artistas, escritores e cineastas afro-alemães continuam a prosperar em condições abaixo do ideal. A história dos afro-alemães é uma história amplamente não contada que deve ser escrita e institucionalizada no currículo da pedagogia alemã. É uma história que vale a pena ser contada.

Fonte: https://www.indiegogo.com/projects/the-afro-germans-you-are-not-alone#/

A propaganda colonial que mascara o “humanitarismo” por trás do interesse próprio e gera eufemismos que são inversões da realidade, constituem os temas recorrentes das críticas produzidas na Antropologia Zero.. Pouco do que encontramos no presente é novo ou “original”: grande parte da linguagem da “política externa” dos estrategistas geopolíticos de elite é de fato derivada de fontes muito mais antigas e de histórias anteriores de conquista e tentativa de domínio. Na Trinidad colonial como em outros lugares, as missões católicas para os “índios” nativos eram as “aldeias estratégicas” e as “aldeias modelo” de seu tempo – as missões eram ferramentas de comércio e contra-insurgência, visando tanto a pacificação quanto a incorporação. A única diferença é que, no presente, os aspectos ideológicos e militares do “humanitarismo” são enfatizados, enquanto no passado, os imperativos econômicos e financeiros explicitamente também se destacavam mais claramente. Assim, a lucrativa indústria do cacau em Trinidad foi fundada pelas missões indianas católicas.

A Missão de Arima também foi um ato de patrocínio protegido pelo estado a serviço da oligarquia fundiária, orbitando a economia das plantações de escravos. Alegadamente, tudo isso foi feito para “salvar as almas” dos ameríndios e libertá-las de seus modos “selvagens”. Abraçando e apropriando o motivo da “selvageria”, encontramos um certo “Capitão Sylvester” (cujo nome pode ser lido etimologicamente como “Capitão Savage”) que liderou uma resistência contundente contra os proprietários das plantações e a Missão Católica de Toco na costa norte de Trinidad.

Criação colonial de mitos

Enfocando a história da Missão Arima na Ilha de Trinidad, ostensivamente uma missão para os povos indígenas, o documentário ao final deste ensaio apresenta o que foi aprendido com os registros batismais da Missão de Santa Rosa de Arima – em conjunto com o histórico textos, documentos governamentais e memorandos e relatórios oficiais da época. O que encontramos são quatro principais “mitos” ou ficções de trabalho:

  1. o mito de que a missão era apenas para os índios;

  2. o mito da “proteção cristã”;

  3. o mito da assimilação; e,

  4. o mito da extinção.

O filme e o livro em que se baseia argumentam que um entendimento adequado da história do surgimento e desaparecimento da Missão deve estar relacionado à economia da plantação de escravos. De um modo geral, estamos lidando com uma história na interseção de terra, trabalho e poder sob condições de domínio oligárquico e criação de pobreza em abundância.

Talvez uma das descobertas inesperadas desta pesquisa seja que a narrativa de extinção, popular entre as elites locais e gerações de cientistas sociais, foi pelo menos em parte motivada pelo constrangimento : a dificuldade em reconhecer que a missão civilizadora colonial havia sido um fracasso . Em vez de ter que dar uma descrição pública honesta do fracasso de uma ideologia, suas suposições e métodos, seria mais fácil simplesmente descartar completamente os nativos recalcitrantes.

Outra das surpresas foi que essa chamada “Missão Indiana” era principalmente uma folha de figueira para a economia das plantações de escravos. Mais do que isso, tornou-se uma maneira mal indireta de apoiar e subsidiar plantações de escravos. De fato, teria sido difícil explicar como Arima poderia ter sobrevivido como uma bolsa de “trabalho livre” em um oceano de escravidão dominado pelo sistema de plantio.

Repatriamento do conhecimento e antropologia pública

Além do conteúdo da pesquisa, o modo de entrega do material era bastante diferente de muito do que eu havia feito anteriormente. Para garantir a máxima independência dos ditames limitadores dos editores acadêmicos e dos motivos de lucro dos editores comerciais, optei por publicar o trabalho por meio de minha própria impressão, a Alert Press. Isso também me permitiu controlar o formato e a aparência do livro impresso. Isso teve conseqüências inesperadas: o livro ainda é caro para imprimir e enviar, e muitos trinidadenses têm restrições cambiais em seus cartões de crédito, o que dificulta a obtenção de cópias do livro. O tamanho grande do formato também significava que a Amazon.com se recusava a distribuí-lo, até que ele fosse transformado em um livro de bolso ou capa dura. Não sendo um editor profissional,

A pesquisa que entrou no livro, Arima Born , na qual o documentário abaixo foi baseado, tornou-se parte da minha estratégia de “repatriamento de conhecimento” . Isso foi acompanhado por uma série de eventos que, para alguns, seriam exemplos de ” antropologia pública “.

Primeiro , as cópias do livro foram depositadas gratuitamente em vários pontos de acesso importantes: no Canadá, as cópias foram depositadas na Libraries & Archives Canada, juntamente com um e-book; em Trinidad, cópias foram depositadas na Coleção do Patrimônio da Biblioteca Nacional (NALIS), na Biblioteca Pública de Arima e na Coleção das Índias Ocidentais da Biblioteca Alma Jordan da Universidade das Índias Ocidentais.

Segundo , cópias gratuitas do livro foram entregues à Comunidade do Primeiro Povo de Santa Rosa, além de fornecer cópias para selecionar os membros da comunidade Arima de maneira mais ampla, incluindo a Igreja Católica Romana de Santa Rosa.

Terceiro , foi feita uma oferta à liderança da Comunidade do Povo de Santa Rosa para republicar e imprimir o livro localmente em Trinidad, com uma impressão de sua escolha, com a maioria das receitas indo para o SRFPC.

Quarto , apresentações públicas baseadas no livro foram feitas no centro comunitário da Comunidade do Primeiro Povo de Santa Rosa em 10 de dezembro de 2019 e na Biblioteca Pública de Arima em 8 de janeiro de 2020. Os slides abaixo acompanharam essas apresentações públicas e estão sendo disponibilizado para download:

Quinto , a conscientização das questões apresentadas no livro e nas apresentações públicas foi intensificada pela publicação de três artigos separados por autores diferentes na mídia nacional de Trinidad e Tobago:

  1. “ Missão Arima uma ‘colônia de escravos’ ”, no Newsday (22 de outubro de 2019), também disponível aqui .

  2. “Os primeiros povos querem casa em HDC para a Carib Queen ”, no Newsday (12 de dezembro de 2019), também disponível aqui .

  3. “ Counting ‘Indios’ ”, revisão de Bridget Brereton no Daily Express (29 de janeiro de 2020), texto completo disponível aqui .

Sexto , o documentário abaixo é a forma mais recente de apresentação pública do conhecimento obtido com esta pesquisa. O filme está disponível no YouTube e no Vimeo . O filme dura 53 minutos. Deixe-me saber o que você achou disso.

Fonte: https://zeroanthropology.net/2020/02/04/land-labour-and-power-in-a-colonial-catholic-mission-in-trinidad/