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Resultado de imagem para manifestação anti fascista na california

EUA: Polícia californiana acusada de colaborar com militantes neo-nazis

Agentes terão pedido a elementos da extrema-direita para identificar activistas anti-racistas durante um protesto que degenerou em violência.

A polícia do estado norte-americano da Califórnia é suspeita de ter colaborado com elementos de um grupo neo-nazi, o Partido Tradicionalista dos Trabalhadores, para identificar e levar a tribunal activistas anti-racistas, noticia o jornal Sacramento Bee e Guardian. A acusação é sustentada por documentos da defesa de três activistas anti-fascistas que estão a ser julgados por distúrbios ocorridos numa manifestação em Sacramento, em Junho de 2016. Durante o protesto, pelo menos um dos arguidos sofreu ferimentos de arma branca.

Os documentos que integram o processo indicam a colaboração entre agentes da brigada de trânsito da polícia da Califórnia e vários membros do referido partido neo-nazi, e que estes foram encarados como vítimas pelas autoridades. É referido, por exemplo, o pedido de auxílio feito a um dos dirigentes da organização racista, Derik Punneo, para que este identificasse elementos anti-fascistas presentes no protesto em Sacramento. 

Punneo, segundo consta de relatórios judiciais, foi visitado por agentes na prisão, onde estava por crimes de violência doméstica, e terá identificado alvos através de fotografias. Registos áudio revelam que, em troca, a polícia ofereceu protecção  ao neo-nazi. “Vamos atrás deles. Olhamos para ti como uma vítima”, cita o Guardian.

A outro dirigente neo-nazi, Doug McCormack, organizador da marcha em Sacramento que motivou o protesto dos anti-racistas, não só foi prometida protecção como anonimato. Ao pedir autorização para o acto político, um responsável policial a cargo da investigação, Donovan Ayres, advertiu McCormack que, por lei, o seu nome seria listado publicamente. Ayres acabaria por solicitar que o nome não fosse divulgado. E segundo os documentos, o oficial tinha ainda conhecimento que o neo-nazi estaria na posse de uma arma branca durante a manifestação.

Tanto Punneo como McCormack não foram acusados de qualquer crime na sequência dos distúrbios que acabariam por ocorrer no evento.

Os relatórios de Ayres são exaustivos nas informações sobre os activistas anti-racistas, reiteradamente tratados como suspeitos na investigação aos distúrbios. Em relação a um destes, um cidadão afro-americano que foi esfaqueado durante os protestos, Ayres recomenda que seja acusado de 11 crimes. Do ficheiro do potencial suspeito, e como indício de uma suposta intenção criminosa, fazia parte uma fotografia retirada do Facebook, onde este aparecia com o punho cerrado e erguido, um dos símbolos da resistência negra. Sobre essa fotografia, o agente da polícia escreveu que mostrava a sua “intenção e motivação para violar os direitos civis” do grupo neo-nazi. O suspeito acabou por não ser acusado, mas o episódio é agora recuperado pela defesa dos arguidos levados a tribunal como exemplo da ausência de imparcialidade da polícia californiana. 

Leia o artigo completo em:

https://www.publico.pt/2018/02/10/mundo/noticia/policia-californiana-acusada-de-colaborar-com-militantes-neonazis-1802707?

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COMO MANTER UMA COLÔNIA

OU ELIMINAR UM CONCORRENTE

Por Mauro Santayana*

 

Inspirados pelo livro de 1937, de Dale Carnegie, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, e por personagens recentes de nossa história, subitamente elevados à condição de celebridades, ousamos, como no caso do Pequeno Manual do Grande Manuel, nos aventurar no atrativo mercado das obras de auto-ajuda, em 15 passos (três a mais que os alcoólatras anônimos) com o tema “Como manter uma colônia ou eliminar um concorrente”.

Sem mais preâmbulos, vamos à receita:

1 – Comece por cortar a sua possibilidade de financiamento, apoiando a criação de leis que impeçam o seu endividamento, mesmo que ele tenha uma das menores dívidas públicas entre as 10 maiores economias do mundo e centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais, que você esteja devendo muito mais do que ele com relação ao PIB, e que ele seja o seu quarto maior credor individual externo.

2 – Apoie, por meio de uma mídia comprada cooptada ideologicamente e também de entrevistas de “analistas” do “mercado”, estudos e “relatórios” de “consultorias de investimento” controladas a partir de seu país e da pressão de agências de classificação de risco, às quais você não daria a menor bola, um discurso austericida, privatista e antiestatal para a economia do seu concorrente.
3 – Com isso, você poderá retirar das mãos dele empresas e negócios que possam servir de instrumento para o seu desenvolvimento econômico e social, inviabilizar o seu controle sobre o orçamento público, e eliminar a sua liberdade de investimento em ações estratégicas que possam assegurar um mínimo de independência e soberania em médio e longo prazo.
Companhias estatais são perigosas e devem ser eliminadas, adquiridas ou controladas indiretamente.

 

Elas podem ser usadas por governos nacionalistas e desenvolvimentistas (que você considera naturalmente hostis) para fortalecer seus próprios povos e países contra os seus interesses.
4 – Aproveite o discurso austericida do governo fantoche local para destruir o seu maior banco de fomento à exportação e ao desenvolvimento, aumentando suas taxas de juro e obrigando-o a devolver ao Tesouro, antecipadamente, centenas de bilhões em dívidas que poderiam ser pagas, como estava estabelecido antes, em 30 anos, impedindo que ele possa irrigar com crédito a sua economia e apoiar o capital nacional, com a desculpa de diminuir – simbólica e imperceptivelmente – a dívida pública.
5 – Estrangule a capacidade de ação internacional de seu adversário, eliminando, pela diminuição da oferta de financiamento, o corte de investimentos e a colocação sob suspeita de ações de desenvolvimento em terceiros países, qualquer veleidade de influência global ou regional.
Com isso, você poderá minar a força e a permanência de seu concorrente em acordos e instituições que possam ameaçar a sua própria hegemonia e posição como potência global, como o é o caso, por exemplo, da UNASUL, do Conselho de Defesa da América do Sul, do BRICS ou da Organização Mundial do Comércio.
6 – Induza, politicamente, as forças que lhe são simpáticas a paralisar, judicialmente – no lugar de exigir que se finalizem as obras, serviços e produtos em andamento – todos os projetos, ações e programas que puderem ser interrompidos e sucateados, provocando a eliminação de milhões de empregos diretos e indiretos e a quebra de milhares de acionistas, investidores, fornecedores, destruindo a engenharia, a capacidade produtiva, a pesquisa tecnológica, a infraestrutura e a defesa do país que você quer enfraquecer, gerando um prejuízo de dezenas, centenas de bilhões de dólares em navios, refinarias, oleodutos, plataformas de petróleo, sistemas de irrigação, submarinos, mísseis, tanques, aviões, rifles de assalto, cuja produção será interrompida, desacelerada ou inviabilizada, com a limitação, por lei, de recursos para investimentos, além de sucessivos bloqueios e ações e processos judiciais.
7- Faça a sua justiça impor, implacavelmente, indenizações a grandes empresas locais, para compensar acionistas residentes em seu território.
Se as ações caírem, quem as comprou deve ser bilionariamente compensado, com base em estórias da carochinha montadas com a cumplicidade de “relatórios” “produzidos” por empresas de “auditoria” oriundas do seu próprio país-matriz, mesmo aquelas conhecidas por terem estado envolvidas com numerosos escândalos e irregularidades.
Afinal, no trato com suas colônias, o capitalismo de bolsa, tipicamente de risco, não pode assumir nada mais, nada menos, do que risco zero.
8 – Concomitantemente, faça com que a abjeta turma de sabujos – alguns oriundos de bancos particulares – que está no governo, sabote bancos públicos que não estão dando prejuízo, fechando centenas de agências e demitindo milhares de funcionários, para diminuir a qualidade e a oferta de seus serviços, tornando as empresas nativas e o próprio governo cada vez mais dependentes de instituições bancárias – que objetivam primeiramente o lucro e cobram juros mais altos – privadas e internacionais.
9 – Levante suspeitas, com a ajuda de parte da imprensa e da mídia locais, sobre programas e empresas relacionadas à área de defesa, como no caso do enriquecimento de urânio, da construção de submarinos, também nucleares, e do desenvolvimento conjunto com outros países – que não são o seu – de caças-bombardeios.
Abra no território do seu pseudo concorrente escritórios de forças “policiais” e de “justiça” do seu país, para oferecer ações conjuntas de “cooperação” com as forças policiais e judiciais locais.
Você pode fazer isso tranquilamente – oferecendo até mesmo financiamento de “programas” conjuntos – passando por cima do Ministério das Relações Exteriores ou do Ministério da Justiça, por exemplo, porque pelo menos parte das forças policiais e judiciais do seu concorrente não sabem como funciona o jogo geopolítico nem tem o menor respeito pelo sistema político e as instituições vigentes, que são constantemente erodidas pelo arcabouço midiático e acadêmico – no caso de universidades particulares – já cooptados, ao longo de anos, por você mesmo.
Seduza, “treine” e premie, com espelhinhos e miçangas – leia-se homenagens, plaquinhas, diplomas, prêmios em dinheiro e palestras pagas – trazendo para “cursos”, encontros e seminários, em seu território, com a desculpa de “juntar forças” no combate ao crime e ao “terrorismo” e defender e valorizar a “democracia”, jornalistas, juízes, procuradores, membros da Suprema Corte, “economistas”, policiais e potenciais “lideranças” do país-alvo, mesmo que a sua própria nação não seja um exemplo de democracia e esteja no momento sendo governada por um palhaço maluco, racista e protofascista com aspirações totalitárias.

 

10 – Arranje uma bandeira hipócrita e “moralmente” inatacável, como a de um suposto e relativo, dirigido, combate à corrupção e à impunidade, e destrua as instituições políticas, a governabilidade e as maiores empresas do seu concorrente, aplicando-lhes multas bilionárias, não para recuperar recursos supostamente desviados, mas da forma mais punitiva e miserável, com base em critérios etéreos, distorcíveis e subjetivos, como o de “danos morais coletivos”, por exemplo.

 

11 – Corte o crédito e arrebente com a credibilidade das empresas locais e o seu valor de mercado, arrastando, com a cumplicidade de uma imprensa irresponsável e apátrida, seus nomes e marcas na lama, tanto no mercado interno quanto no internacional, fazendo com que os jornais, emissoras de TV e de rádio “cubram” implacável e exaustivamente cada etapa de sua agonia, dentro e fora do país, para explorar ao máximo o potencial de destruição de sua reputação junto à opinião pública nacional e estrangeira.

 

12- Dificulte, pelo caos instalado nas instituições, que lutam entre si em uma demoníaca fogueira das vaidades por mais poder e visibilidade, e pela prerrogativa de fechar acordos de leniência, o retorno à operação de empresas afastadas do mercado.

 

Prenda seus principais técnicos e executivos – incluídos cientistas envolvidos com programas de defesa – forçando-os a fazer delações sem provas, destruindo a sua capacidade de gestão, negociação financeira, de competição, em suma, no âmbito empresarial público e privado.

 

13 – Colha o butim resultante de sua bem sucedida estratégia de destruição da economia de seu concorrente, adquirindo, com a cumplicidade do governo local – que jamais teve mandato popular para isso – fabulosas reservas de petróleo e dezenas de empresas, entre elas uma das maiores companhias de energia elétrica do mundo, ou até mesmo uma Casa da Moeda, a preço de banana e na bacia das almas.
14 – Impeça a qualquer preço o retorno ao poder das forças minimamente nacionalistas e desenvolvimentistas que você conseguiu derrubar com um golpe branco, há algum tempo atrás, jogando contra elas a opinião pública, depois de sabotar seus governos por meio de simpatizantes, com pautas-bomba no Congresso e manifestações insufladas e financiadas de fora do tipo que você já utilizou com sucesso em outros lugares, em ações coordenadas de enfraquecimento e destruição da estrutura nacional local, como no caso do famigerado, quase apocalíptico, esquema da “Primavera Árabe” ou a tomada do poder na Ucrânia por governos de inspiração nazista.
15 – Finalmente, faça tudo, inclusive no plano jurídico, para que se entregue a sua colônia a um governo que seja implacável contra seus inimigos locais e dócil aos seus desejos e interesses, a ser comandado de preferência por alguém que já tenha batido continência para a sua bandeira ou gritado com entusiasmo o nome de seu país publicamente.

*http://www.maurosantayana.com/2018/01/do-blog-com-equipe-inspirados-pelo_18.html

Ken Saro-Wiwa

No dia 10 de novembro de 1995, morreu Ken Saro-Wiwa. Foi um escritor, produtor de televisão e ecologista nigeriano. Lutou contra a degradação da vida das pessoas, terras e águas do delta do Níger. Acabou executado.
Por António José André.

Saro-Wiwa liderou o MOSOP (Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni) organização pacifista que lutava contra a degradação do delta do Níger, explorado por várias petrolíferas, entre as quais a Shell. 

Por causa do seu ativismo, Saro-Wiwa foi preso a mando do regime militar de Sani Abacha, em 1994. Num processo judicial fraudulento, foi condenado à morte com mais oito ativistas. 

Os nove ativistas foram condenados, apesar dos múltiplos protestos internacionais e da diplomacia silenciosa das organizações internacionais, incluindo a União Europeia.

Estes nove ativistas foram enforcados, no dia 10 de novembro de 1995. A execução destes ativistas gerou contestação internacional, de tal modo que a Nigéria foi suspensa da Commonwealth durante mais de três anos.

As petrolíferas no rio Níger

Em 1958, as petrolíferas começaram a transformar as terras férteis de Ogoni, que segundo Saro-Wiwa eram um “paraíso”, numa paisagem lunar negra. As operações de produção de petróleo contaminaram o solo. Essa exploração irresponsável trouxe aos camponeses pobreza e doenças.

O MOSOP exigiu que as áreas danificadas fossem reabilitadas, e que a população também partilhasse os lucros do petróleo. Lucros que constituem cerca de 90% das receitas do Governo nigeriano, através das quais vários regimes militares e elites corruptas financiam as suas vidas luxuosas.

Indenizações da Shell

Em janeiro de 1993, 300 mil pessoas manifestaram-se para exigir o pagamento de indemnizações e a reparação causada por danos ambientais. O regime do ditador Sani Abacha reagiu com violência aos protestos e ocupou a região dos Ogoni.

Em 2009, a empresa Shell, reconhecendo a sua implicação na morte dos nove ativistas, pagou 15,5 milhões de dólares às famílias das vítimas, esperando assim minimizar os efeitos negativos da sua imagem neste caso.

Segundo a ONU, serão precisos, pelo menos, mais 30 anos para que sejam superados os danos ambientais no delta do Níger.

Extraído de: http://www.esquerda.net/artigo/memorias-ken-saro-wiwa/51952

Corpos de Excepção

Por Nuno Ramos de Almeida

As guerras, massacres, abusos de autoridade e o tratamento de migrantes como escravos apoiam-se na nossa indiferença e em não darmos ao “outro” o estatuto de humanidade que damos a nós próprios. Só dando direitos iguais a todos iremos acabar com este silêncio criminoso e assassino

Antes dos comentários nas redes sociais, era o silêncio. Agora, os párias deste mundo são mortos várias vezes: são mortos quando as balas explodem neles e são mortos quando as hordas dos comentadores das redes sociais, instalados nos sofás das nossas cidades “Je Suis”, garantem que “se lhes aconteceu alguma coisa é porque alguma coisa de mal estariam a fazer”. Vamos do silêncio para o barulho, garantindo sempre o mesmo grau de indiferença ideológica, para que o massacre se faça sem grandes contestações.

Conto quatro histórias: a primeira passou-se há duas gerações, durante as quais toda a memória foi apagada; uma é filha da guerra sem fim ao terrorismo; as últimas duas acontecem cá. Todas elas remetem para um facto. Nos nossos países ditos civilizados, os únicos humanos somos nós, os burgueses, brancos e que vivemos no meio das cidades. Tudo o resto são seres subnormais que não são iguais a nós e cuja morte tem apenas, no máximo, um segundo de atenção e uma eternidade de indiferença.

Chovia em Paris no dia 17 de outubro de 1961. Mais de 30 mil argelinos, homens e mulheres e crianças, acudiram ao centro da Cidade Luz, vestidos com as suas melhores roupas. Os homens levavam os seus casacos e gravatas; as mulheres, os seus vestidos mais bonitos. Todos queriam protestar contra o recolher obrigatório decretado pelas autoridades para interditar os “franceses-muçulmanos-argelinos” de saírem de suas casas entre as oito e meia da noite e as cinco da manhã. Essa proibição era ilegal. Mas que interessava isso? Na Argélia lutava-se contra os independentistas, todos os árabes eram suspeitos. Paris, a pátria das proclamações dos “Direitos do Homem”. Noventa anos depois do massacre da Comuna de Paris, em plenos anos 60, as ruas foram novamente lavadas pelo sangue, e entre 150 e 300 argelinos foram mortos a tiro pela polícia francesa. Num dos sítios onde os corpos foram largados para serem engolidos pelo Sena, um agente quis imortalizar o momento e escreveu numa parede: “Aqui afogamos os argelinos.” Foram décadas de silêncio total. 
Trinta anos depois, um jornalista, Jean-Luc Einaudi, esteve sempre ao lado daqueles que exigiam que fosse quebrado o silêncio sobre a morte dos seus e publicou um livro, “A Batalha de Argel”, em que se contava o que aconteceu, O homem que ordenou o massacre foi Maurice Papon. Durante a ocupação nazi da França organizou as deportações de judeus para os campos da morte; no final da guerra, quando previu a derrota, começou a passar informações para a Resistência gaullista. Os nazis perderam a guerra e ele continuou funcionário da República. Da mesma forma que garantiu que 1560 judeus franceses fossem levados para campos de extermínio, onde foram assassinados e cremados, deu a ordem para que os argelinos fossem massacrados. Tanta dedicação valeu-lhe ser condecorado com a medalha da Légion d’Honneur. O funcionário exemplar teve o pequeno azar de o seu pecadilho no massacre dos judeus ter sido descoberto. Einaudi aproveitou o seu julgamento, em 1990, para denunciar o massacre de 1961. Resultado: foi processado por Papon por difamação. O jornalista pediu que fossem abertos os arquivos da polícia sobre os acontecimentos, para se poder defender. O pedido foi recusado. Conseguiu que dois funcionários do arquivo testemunhassem ter visto documentos que confirmavam as acusações a Papon. Einaudi foi absolvido no processo. O Estado tratou de abrir um novo processo contra os funcionários que testemunharam. 
Até agora, o condenado Papon, pelo seu papel como colaborador dos nazis, é o único responsável pelo massacre de 17 de outubro de 1961. Einaudi tinha dedicado o seu livro, “A Batalha de Paris”, a Jeannette Griff, de nove anos, deportada para Auschwitz em 1942, e Fatima Bedar, 15 anos, assassinada pela polícia no massacre de Paris. 
No início do seu livro “Théorie du Drone”, Grégoire Chamayou transcreve os diálogos de uma equipa de comando de um drone armado durante uma missão em que uma viatura vai ser destruída pelo veículo não tripulado armado. Estes militares, que atuam a milhares de quilómetros do campo de batalha, acordam de manhã, tomam as torradas com as suas famílias e depois vão trabalhar para um sítio onde comandam drones, e perante os dados que recolhem os sensores de sons, os intercetadores de comunicações e as câmaras, decidem se procedem ou não à destruição destes alvos. 
Neste caso, que inicia o livro de Chamayou, são civis inocentes os homens e mulheres e crianças que vão morrer, devido à decisão de os liquidar. Para evitar que as estatísticas sejam negativas para os mais de seis mil drones dos EUA, que atuam numa dúzia de países para muitos dos quais não há uma declaração formal de guerra do Congresso dos EUA, as autoridades vão caracterizar como “combatentes inimigos” todos os homens adultos que sejam alvo de um ataque, estejam armados ou não. O resto são inevitáveis danos colaterais. 

O planeta divide-se em duas zonas: uma civilizada, onde há um modo de vida do mundo livre a preservar, e outra selvagem, habitada por criaturas que podem ser abatidas para seu próprio bem. Esta estrutura replica-se, numa escala proporcional, nas nossas próprias zonas civilizadas: as cidades têm zonas de gente de bem e bairros suburbanos para imigrantes, pobres, negros e, portanto, criminosos. A guerra sem fim ao terrorismo justifica que vivamos numa espécie de estado de exceção permanente em que os direitos, liberdades e garantias podem ser suspensos para preservar a nossa segurança. Mas mesmo antes disso, nas nossas próprias cidades, as pessoas não têm todas os mesmos direitos. Se se é negro, imigrante, pobre ou se vive nos subúrbios espera-se, volto a repetir, que as forças da ordem se comportem de uma forma diferente do que fariam no meio da Avenida de Roma. Como me explicou, numa rede social, um polícia: “Essa escumalha também não se comporta connosco da mesma maneira.” 
A 4 de janeiro de 2009, um agente da polícia mata um rapaz negro de 14 anos. Dispara a arma a 15 centímetros da cabeça de Elson Sanchez, conhecido por Kuku. O relatório da PJ afasta a hipótese de ter havido legítima defesa. O jovem fugia de dentro de um carro roubado. Quando lá fui, dias depois, em reportagem pela TVI, um toxicodependente que estava na zona afirmou para a câmara que o polícia teria dito depois de disparar: “Acabei de dar um tiro nos cornos do preto.” Segundo uma norma interna para utilização de arma de fogo pelas for- ças de segurança, só é possível disparar se “existir um perigo iminente de morte ou ofensa grave à integridade física do elemento policial ou de terceiros (…) o que justifica o recurso efetivo a arma de fogo contra pessoas”. 
No dia 22 de novembro de 2017, a polícia disparou 40 balas contra o Renault Mégane de cor branca em que seguia Ivanice Carvalho da Costa, imigrante brasileira que estava em Portugal há 17 anos e trabalhava no aeroporto. A polícia confundiu a viatura com um Seat da mesma cor que tinha sido referenciado como levando os autores de um assalto a uma caixa multibanco, usando explosivos. Imigrante, brasileira, pobre, a família, sem meios, estava ainda ontem à espera que o seu corpo fosse transladado para o Brasil. 
Neste mundo podem ser assassinadas milhões de pessoas em países longínquos com a intenção de os democratizar à bomba. Ninguém coloca “Je Suis Cairo” quando são mortos 300 egípcios. Os pobres e os imigrantes podem ser revistados à bruta e mortos a tiro. Um dia, até os ricos dos condomínios protegidos e dos muros altos e eletrificados do Primeiro Mundo vão entender que a selvajaria multiplica a selvajaria e apenas a igualdade de direitos pode respeitar a vida.

http://www.buala.org/pt/cidade/corpos-de-excepcao

Os invisíveis da sociedade, Jesus e o fascismo

Por Pedro Breier

Larissa foi morta a pauladas em um hotel na cidade de São Paulo, ontem. Larissa era transexual e morreu cruelmente apenas por existir. O Brasil é o campeão em homicídios de LGBTs nas Américas, de acordo com o relatório da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais).

Um homem ficou preso 11 meses “preventivamente” sob a acusação de tráfico pela posse de 0,26g de crack. Após quase um ano na prisão, ele ainda não havia sido citado para que o processo criminal fosse, vejam bem, iniciado. A defensoria pública de São Paulo conseguiu colocá-lo em liberdade recorrendo ao STF, já que o TJ-SP e o STJ negaram o habeas corpus.

Essas duas notícias tão chocantes quanto corriqueiras abrem a semana que antecede o natal de 2017.

Seria interessante usarmos a data que simboliza o nascimento de Jesus – um cara com ideias poderosas, meio hippies, que foram usadas deturpadamente por muita gente para angariar poder e riquezas, de imperadores romanos a pastores evangélicos que pregam a picareta teologia da prosperidade – para refletirmos sobre o fato de não termos entendido nada do que ele quis dizer.

A Bíblia não deixa margem para dúvidas. Jesus pregava o amor universal. Incondicional. Amai ao próximo como a si mesmo. Ofereça a outra face.

Andava com prostitutas, pecadores, leprosos, adúlteros, os excluídos da época. “Atire a primeira pedra quem nunca pecou”, lembram?

Mais de 2 mil anos depois, os excluídos continuam existindo em profusão. A cor da pele, o gênero, a sexualidade ou a classe social ainda determinam quem tem direito a viver com dignidade e quem pode ser tratado como a escória da sociedade sem maiores consequências.

A intolerância contra os marginalizados é alimentada, suprema hipocrisia, por aqueles que se dizem os mais cristãos, os fieis seguidores do Jesus.

A crise econômica mundial fez brotar o fascismo que estava escondido no coraçãozinho empedernido de muita gente. A piora das condições de vida faz com que as pessoas deem ouvidos a quem oferece respostas fáceis para os problemas.

Não faz sentido algum jogar a população contra grupos já excluídos quando a raiz dos problemas é a concentração da riqueza com um número incrivelmente baixo de pessoas em detrimento da esmagadora maioria da população.

Entretanto, é muito mais fácil direcionar a raiva e o ódio para aqueles que não têm como se defender do que para os poderosos. Bolsonaro sabe muito bem disso.

Enquanto continuarmos achando que a vida é uma competição insana por riqueza, poder e status e que é natural que uns poucos consigam chegar ao “sucesso” e muitos vivam em condições sub-humanas, estaremos fadados a repetir o que fazemos a milhares de anos: matarmo-nos estupidamente enquanto meia dúzia de poderosos controlam a vida de todos os demais.

Só quando os invisíveis da sociedade – como os transexuais e os usuários de crack que passam por sofrimentos inimagináveis por causa do nosso descaso – deixarem de sê-lo poderemos nos tornar uma sociedade verdadeiramente justa.

https://www.ocafezinho.com/2017/12/18/os-invisiveis-da-sociedade-jesus-e-o-fascismo/

 

Político que não defender internet livre não se elege

Por Eduardo Guimarães

Algumas horas antes de compor este texto, conversando com leitores no Facebook, este blogueiro ficou sabendo que é IMENSO o número de pessoas que não saem da internet e que NÃO sabem que a internet livre está ameaçada no Brasil. E isso é assustador porque, se nada for feito, internet vai virar artigo de luxo no Brasil logo, logo.

A internet é um estorvo para os estratos superiores (do ponto de vista econômico) da sociedade. Há algumas semanas, uma maré humana engolfou as Organizações Globo e a obrigou a EXPURGAR de sua programação um apresentador racista que era uma espécie de boneco de ventríloquo da família Marinho, dona do grupo de mídia mais poderoso do país.

As redes sociais e os sites independentes transformaram-se no pesadelo dos donos do poder econômico no Brasil, acostumados a usar a comunicação ao seu bel prazer e de forma incontrastável.

Para esses donos do poder, o fim da internet traria de volta os “bons tempos” em que não tinham que dar satisfação a ninguém porque a massa não tinha voz.

Antes de continuar, porém, vale discorrer sobre por que a internet brasileira está ameaçada. Comecemos, pois, pelo que a elite insatisfeita com a liberdade de expressão e igualdade na possibilidade comunicação está atacando.

 

O Marco Civil da Intenet

 

O Marco Civil da Internet, oficialmente chamado de Lei N° 12.965/14, regula o uso da Internet no Brasil ao estabelecer princípios, garantias, direitos e deveres para quem usa a rede, além de balizar a atuação do Estado.

O projeto surgiu em 2009 e foi aprovado na Câmara dos deputados em 25 de março de 2014 e no Senado Federal em 23 de abril de 2014, sendo sancionado logo depois pela então presidente Dilma Rousseff.

A ideia do projeto, surgida em 2007, foi adotada pelo governo federal em função da resistência social ao projeto de lei de cibercrimes, conhecido como Lei Azeredo (em alusão ao seu autor, Eduardo Azeredo), muito criticado sob a alcunha de AI-5 digital.

O Marco Civil da Internet pacificou temas como neutralidade da rede, privacidade, retenção de dados, função social que a rede precisará cumprir, garantia da liberdade de expressão e transmissão de conhecimento, além de impor obrigações de responsabilidade civil aos usuários e provedores.

A Lei 12.965/14 tem 32 artigos, divididos em cinco capítulos:

Disposições preliminares;

Dos direitos e garantias dos usuários;

Da provisão de conexão e aplicações da Internet;

Da atuação do poder público;

e Disposições Finais.

O Marco civil da Internet se baseia na seguinte premissa:

“O acesso à Internet é essencial ao exercício da cidadania (…)”.

O ponto nevrálgico do Marco Civil da Internet é a “neutralidade da rede” – ou neutralidade da Internet, ou princípio de neutralidade. Significa que todas as informações que trafegam na rede devem ser tratadas da mesma forma, navegando à mesma velocidade, ou seja, na velocidade da contratação.

É esse princípio que garante a velocidade de acesso a qualquer tipo de informação na rede. Mas a velocidade de quem recebe uma informação não depende de uma lei, mas sim da velocidade contratada para envio do servidor em que você está se conectando.

Várias instituições e personalidades em destaque do Brasil e do exterior declararam seu apoio à aprovação do Marco Civil da Internet de forma individual, além da elaboração de documentos coletivos a favor do projeto.

Instituições Nacionais

ABCID – Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital

ARTIGO 19

AMNB – Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras

ANPEd – Associação Nacional de Pesquisa Pós-graduação em Educação

ARPUB – Associação das Rádios Públicas do Brasil

ASL – Associação Brasileira da Software Livre

Barão de Itararé

Casa da Cultura Digital

CGI.br[38]

Circuito Fora do Eixo

CSB – CENTRAL DOS SINDICATOS BRASILEIROS

CTS-FGV

Coletivo Digital

CUT – Central Única dos Trabalhadores

EMERGE – Centro de Pesquisas e Produção em Comunicação e Emergência

ECO/UFRJ -Escola de Comunicação da UFRJ

FEITTINF – Federação Interestadual dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação.

FENADADOS

FRENAVATEC – Frente Nacional pela Valorização das TVs do Campo Público

Geledés – Instituto da Mulher Negra

GPOPAI

GPCULT/UFRJ

Grupo Tortura Nunca Mais/RJ

IDEC

Instituto Bem Estar Brasil

Instituto Nupef

Instituto Telecom

INTERVOZES

ISOC BR – Sociedade da Internet no Brasil[39]

Movimento MEGA (MegaNão e MegaSim)

NEDAC/UFRJ

Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ

Projeto Saúde e Alegria

Proteste

Rede de Cultura Digital Indígena

RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa[40]

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)[41]

Teia Casa de Criação

UNE

Veredas

Instituto Brasileiro de Políticas Digitais – Mutirão

 

Instituições Internacionais

 

Access

Asociación para el Progreso de las Comunicaciones

Asociación por los Derechos Civiles, Argentina

Asociación Pro Derechos Humanos, Peru

Center for Democracy and Technology

Center for Internet and Society, India

Clínica de Nuevas Tecnologías, Propiedad Intelectual y Sociedad, Universidad de Puerto Rico

Consumers International

Fundacion EsLRed, Venezuela

Fundación Karisma, Colômbia

Human Rights Foundation

Identidad Robada

iNGO European Media Platform

Index on Censorship

Internet Democracy Project, India

Internet Rights & Principle Coalition

IT for Change, India

Mozilla Foundation[42]

ONG Derechos Digitales, Chile

Program on Information Justice and Intellectual Property (PIJIP), American University Washington College of Law

La Quadrature du Net, France/Europe

Reporters Sans Frontières

Ameaça ao Marco Civil da Internet

Na semana passada, A Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos, por 3 votos a 2, decidiu revogar a regra que estabelecia a “neutralidade da rede”. A implicação disso são imensas para o Brasil.

Só para que se tenha ideia do que vem por aí, as operadoras de telefonia brasileiras já estão preparando uma ofensiva para derrubar a neutralidade de rede dentro do país. Motivadas pela decisão da Federal Communications Comission (FCC), agência norte-americana equivalente à Anatel, as empresas brasileiras querem que o Governo Federal permita a cobrança diferenciada de tarifa por determinados serviços de internet.

De acordo com a Folha, as operadoras vão esperar a votação da reforma da Previdência, marcada para fevereiro, para pedir ao presidente Michel Temer a revisão do decreto que garante a neutralidade da rede no Brasil.

O efeito disso seria uma involução de décadas na comunicação do país. Pequenos produtores de conteúdo praticamente desapareceriam e só as grandes corporações poderiam navegar nessa nova rede cheia de porteiras e portões que impediriam a grande maioria de ter acesso a informações que não circulam pelos grandes grupos de mídia.

Isso sem falar que o custo da internet iria disparar no Brasil. E, na verdade, tudo se resume à questão econômica. Todos poderão se comunicar desde que tenha dinheiro suficiente para isso.

Blogueiros, tuiteiros, facebookers, youtubers, todos poderiam ir dando adeus à comunicação.

Cidadãos comuns, sejam de esquerda ou de direita, não vão apoiar essa barbaridade, mas as operadoras de telefonia estão de olho na janela de oportunidades de faturarem alto que estará aberta até 31 de dezembro de 2018, enquanto Michel Temer estiver no poder.

Temer é um presidente fraco, o primeiro investigado por corrupção estando no cargo, e só se mantém onde está porque usa dinheiro público para subornar algumas centenas de parlamentares corruptos do Congresso.

Porém, esses parlamentares não visam só dinheiro. A grande maioria é ligada a corporações. Empresas de planos de saúde, bancos e, bingo!, operadoras de telefonia, entre outras. A aposta das operadoras é a de que Temer atenderá o desejo delas e sancionará projeto que as bancadas ligadas às corporações irão propor: o fim do Marco Civil da Internet.

Isso precisa ser feito em 2018 porque, em 2019, um presidente legítimo ocupará o cargo e, se as pessoas e políticos decentes e com cérebro agirem já, ele terá sido eleito sob o compromisso de impedir a quebra da neutralidade de rede.

Eis por que inúmeras organizações e partidos políticos já se preparam para discutir essa questão na campanha eleitoral.

Imagine a seguinte cena: um candidato de esquerda – Lula, por exemplo – em debate com um candidato de direita – Bolsonaro ou Alckmin, por exemplo – pergunta ao adversário se apoia o fim da internet livre e “barata” e a “igualdade” na rede, após explicar rapidamente a questão para quem assiste.

Os programas eleitorais na tevê e no rádio irão bater sem parar nessa tecla e mesmo que no início do ano os partidos de direita consigam trair seus próprios eleitores e aprovarem em votação relâmpago o fim da neutralidade, os eleitos naquele ano terão assumido compromisso de revogar a revogação do Marco Civil da Internet.

A vida dos que querem acabar com a internet livre no Brasil não será fácil. Para que se possa mensurar como esse tema é sensível, tanto o presidente da Anatel quanto o jornal O Globo já se posicionaram CONTRA o fim da neutralidade da rede. Isso porque quem defender o fim dessa neutralidade irá se tornar inimigo público número um de um país inteirinho.

Temer, porém, gaba-se de não ter compromisso com o povo por ter alta impopularidade e por não ser um presidente legítimo. Assim, vende que se não for tirado do cargo poderá fazer o serviço sujo para as corporações sem medo de nunca mais se eleger ou de ficar impopular.

O mesmo, porém, não vale para os deputados e senadores que ele tentará cooptar para que se suicidem politicamente em troca de alguns milhões de reais.

Temer irá comprar deputados e senadores para aprovarem a reforma da Previdência e o fim da neutralidade de rede. Porém, dificilmente conseguirá se todos nos engajarmos em divulgar sobretudo a questão da neutralidade, porque o repúdio à reforma da previdência já é gigantesco e tende a crescer.

As pessoas precisam saber do que está acontecendo. Só a divulgação de textos como este poderá impedir que a comunicação no Brasil volte ao que era antes de a internet existir. Até porque, com o fim do Marco Civil e da neutralidade de rede a internet irá sumir para uma parte descomunal dos brasileiros.

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https://blogdacidadania.com.br/2017/12/politico-que-nao-defender-internet-livre-nao-se-elege/

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