Archives for category: Política

Alckmin_Cafe_2.jpg

 

Anúncios

POR EUGÊNIO ARAGÃO, ex-ministro da Justiça

O país se vê assaltado, neste fim de ano, de recomendações políticas inapropriadas daquele que deveria evitar a política partidária e se concentrar na interpretação equidistante, imparcial e equilibrada das leis. Sérgio Moro, o juiz de sempre.

 

Viaja a nossas custas para cima e para baixo, mexe e se remexe, para proselitar contra os legítimos interesses da maioria da população. Ganha, para isso, fartas diárias, prêmios, sem contar que deixa de jurisdicionar e ganha subsídios muito acima do razoável para uma massa de brasileiras e brasileiros cada vez mais desprovida de meios e de direitos.

Do alto da cadeia alimentar do serviço público ousa dar lições de sua gorda, empanzinada moral para os que nada têm: “repensem em quem vocês vão votar!”, prelecionou, mesmo metido em controvérsias sobre o papel que exercia o amigo do peito em negociação milionária de delação mais que premiada junto a sua vara.

Não bastasse a advertência ao eleitor, claramente destinada a refrear o maciço apoio que Lula vem mostrando nas pesquisas de voto, o Sr. Moro ainda tem o desplante de pedir de público ao Sr. Michel Temer, aquele que chama de presidente, que use seu cargo para pressionar o Supremo Tribunal Federal para que não reveja sua equivocada jurisprudência sobre a execução provisória da pena após o duplo grau de jurisdição.

Não se enxerga. Pretende que a mais alta corte do país receba pressões do chefete do executivo para satisfazer seu discurso moralista punitivista. Se o Sr. Temer se arvorasse a atender o esdrúxulo pedido, estaria, tout court, cometendo mais um grave ilícito para sua coleção. Afinal, atentaria descaradamente contra a independência dos poderes, o que implica crime de responsabilidade. E o Sr. Moro entraria junto, por instigação à prática do crime.

Na sua cegueira, não consegue o juizinho de província disfarçar seu profundo mal-estar com o sucesso de Lula, que, como governante, mais mudou o quadro de exclusão social no país. Deve ter se contorcido de bronca ao saber, pelo DataFolha, que seu índice de rejeição foi para as nuvens, prestes a superar ao daquele que elegeu seu réu-inimigo. Mudar a jurisprudência, deve pensar, pode frustrar seu intento de tornar Lula inelegível e de encarcerá-lo aos aplausos de seu público fascista iludido.

Moro se tornou, com seu moralismo punitivista, a principal fonte do ódio político que se disseminou na sociedade. Um juiz que, ao invés de pacificar conflitos, os acirra e direciona contra seu inimigo eleito. Falar em imparcialidade desse indivíduo seria piada de mau gosto, pois a cada discursinho mequetrefe pelos palcos da direita política mundo afora, faz questão de pré-julgar e conjecturar sobre feitos por decidir. Adora ingressar na seara reservada à política, para desfiar suas opiniões de lege ferenda sobre o que pretende serem debilidades sistêmicas para o “combate à corrupção”, sua obstinação compulsiva.

O Sr. Moro, ao se lançar sem trégua contra o réu que elegeu ser seu inimigo, se tornou cego para o estrago que causou à paisagem econômica e social do Brasil. A quebradeira da indústria naval, da construção civil, da produção petrolífera com tecnologia nacional, do esforço de criar capacidades próprias na energia nuclear – tudo isso causado pela falta de estratégia de sua gana persecutória. Sem contar o impacto direto dessa lambança na fiscalidade estadual. É só ver a deterioração das finanças do Rio de Janeiro para se ter uma ideia sobre os efeitos desastrosos dessa quebradeira.

Mas quem sofre os efeitos da irresponsabilidade do judiciário que jurisdiciona implacavelmente contra um inimigo é quem está na ponta da processo produtivo: os empregados da indústria quebrada, agora massivamente desempregados, sem condições de prover as necessidades básicas de sua família; os funcionários estaduais que deixam de receber seus pagamentos; os sistemas de saúde e de educação pública, que sofrem forte desinvestimento por conta da falta de receitas para sua manutenção – e por aí vai.

Isso tudo, porém, não mexe com a gordice dos ganhos do juiz de piso, que lava suas mãos a jato. Para ele, a preservação da moral justifica toda essa destruição. A moral do Sr. Moro tem, assim, um custo duplo: o da destruição que causou e os gastos com sua autopromoção. Mas tudo isso, na sua moral, está justificado e que se dane a fome alheia.

Por isso, não se envergonha em pedir aos desempregados e aos servidores sem pagamento que pensem bem em quem vão votar. Devem esquecer sua fome e lutar por sua moral. Por isso, também, que pede ao Sr. Temer que impeça que o Supremo reveja sua jurisprudência; os direitos devem ceder ao seu “combate à corrupção”: uma guerra total em que nada é mais importante que sua bem remunerada “missão”.

Fica o aviso: o aumento significativo de sua rejeição nas pesquisas de opinião é fruto dessa alienação. E a tendência é ascendente. Talvez ainda haja tempo de repensar sua ação e controlar seu ego, tempo para aprender a lição de Bertolt Brecht, que Lula sabiamente praticou e que o juiz insiste em ignorar: “Erst kommt das Fressen, dann die Moral” – primeiro vem o rango, depois a moral – esta lhe veste como uma luva!

 

Resultado de imagem para togo

Togo e Portugal:

crónica do apoio a uma república da dinastia Gnassingbé

Um Estado democrático que se leva a sério não branqueia atentados contra a democracia e os direitos humanos para facilitar negócios.
Maria Manuel Rola

A 5 de outubro de 1990 o povo do Togo saiu para as ruas a exigir democracia e não parou de o fazer desde então. Os desenvolvimentos recentes das relações económicas entre Portugal e o Togo colocam-nos numa relação direta com um país numa crise política ancorada em exigências democráticas. E nós, o que dizemos?

Comecemos pelo início. O Togo tem vindo a ser presidido pela mesma família desde há 50 anos. Ninguém diria, por isso, que se trata de uma república popular que em 1992 adotou uma constituição que limita a dois os mandatos presidenciais de 5 anos cada, totalizando um máximo de 10 anos de manutenção da mesma pessoa como presidente. Neste sentido, nem Gnassingbé Eyadema poderia ter prosseguido no poder desde 1967 até 2005 – data da sua morte -, nem o seu filho poderia estar no poder desde 2005 até hoje contabilizando exatamente 12 anos de presidência.

A questão é que a constituição de 1992 se encontra suspensa, mesmo tendo havido um acordo internacional(link is external) em 2006 entre o governo togolês e os partidos da oposição. Este acordo, que deveria ter sido monitorizado, entre outros, pela União Europeia, previa a existência de eleições em 2007 e a aplicação da constituição de 1992. No entanto, só em 2015 houve eleições no Togo, o Presidente Faure Gnassingbé concorreu e a Comissão Europeia deu o aval à recandidatura, mesmo depois do acordo que deveria monitorizar estar em claro incumprimento.

A União Europeia falhou, o Presidente mantém-se e este ano dá-se o quinquagésimo aniversário da manutenção da dinastia Gnassingbé, as manifestações voltaram a cerca de 21 cidades no Togo(link is external)e a várias capitais internacionais onde cerca de 2 milhões de cidadãos e cidadãs do Togo vivem. Só em Londres, em 19 de agosto, juntaram-se cerca de 3.000 togoleses para reivindicar a aplicação da sua constituição, a possibilidade de voto para os emigrantes togoleses espalhados pelo mundo e a libertação dos presos políticos que o regime tem entretanto perseguido e prendido.

Bastariam as questões mais básicas de democracia para condenarmos qualquer inexistência de referência a esta questão pelos media e pelo Governo português. Mas este silêncio é tanto mais escandaloso quanto em julho de 2017 uma delegação portuguesa com a presença do atual Ministro dos Negócios Estrangeiros reuniu com o homólogo togolês(link is external) com vista ao aumento das exportações de produtos portugueses para o Togo, assim como ao apoio à formação e ao apoio técnico agrícola àquele país. Nesse mesmo mês, a TAP abriu 4 ligações aéreas para Lomé,(link is external) intensificando esta possibilidade de relação económica.

Num momento em que se discute precisamente a Agenda 2030, a sua importância e o papel de Portugal na prossecução da erradicação da pobreza e da garantia dos direitos humanos na promoção do desenvolvimento, causa perplexidade e preocupação que Portugal dê estes passos sem questionar minimamente a podridão política de um país com uma taxa de pobreza superior a 50% e um património assinalável na violação de direitos humanos do seu povo. Um Estado democrático que se leva a sério não branqueia atentados contra a democracia e os direitos humanos para facilitar negócios. Face a este silêncio tão cínico e tão cúmplice de Portugal, até frei Tomás mudaria a ordem da sua conhecida frase: “olha para o que faço, não olhes para o que digo.”    Fonte: http://www.esquerda.net/

Imagem relacionada

Quando o cinismo vira rotina

Por Eron Bezerra

 

 

Quem acompanhou a cruzada sistemática dos maiores veículos de comunicação contra a política de inclusão social e de valorização do estado nacional, até então levada a cabo pelos governos Dilma e Lula, certamente deve estar intrigado com o tratamento que esta mesma imprensa dispensa a Temer e sua equipe.

Não deveriam estranhar. Afinal, os meios de comunicação, assim como o legislativo, executivo e judiciário, nada mais são do que aparelhos do estado que, por sua vez, se constitui no instrumento de dominação da classe dominante.

É isso que explica porque, no governo Dilma, o crescimento modesto do PIB era chamado pejorativamente de “pibinho” e agora, quando patina no risível patamar de 0,1%, recebe tratamento tão positivo e cerimonioso que um observador mais desavisado pode imaginar que passamos a crescer no patamar do PIB chinês.

Felizmente, para nós, o povo não é bobo. Não tem deixado se enganar. Percebe a farsa. Identifica as sistemáticas e unidirecionais retaliações contra a esquerda e a tentativa da direita de impedir que haja uma disputa eleitoral presidencial democrática. Cada vez mais o povo vai se convencendo que o único motivo que mobilizou a direita para afastar a presidenta Dilma não era combater a “corrupção” – que nunca restou provado contra a presidenta – mas sim atacar os direitos do povo e a soberania popular.

Por isso, o que vai ficando patente é que a prática das forças conservadoras, especialmente da mídia – mas não a única – é algo que se assemelha ao grotesco, tamanha é a falta de critérios e a descarada parcimônia para tratar do mesmo assunto, do mesmo tema.

E por que? Porque Temer tem entregado o produto para o qual foi escalado: atacar o povo e colocar o pais a serviço dos estrangeiros, especialmente os Estados Unidos da América.

Apesar da enxurrada de denúncias e fatos demonstrando o envolvimento do governo Temer nos mais escabrosos desmandos e atos de corrupção, de ostentar uma popularidade ZERO, de tramar diariamente para retirar direitos dos trabalhadores e de comprometer a nossa soberania, o governo Temer tem cumprido a receita que a CIA americana e os banqueiros lhe mandaram executar, ele continua determinado a levar adiante sua cruzada contra o povo e o país.

E para a direita é o que importa. Por isso lhe apoiam; por isso são tão generosos na cobertura midiática; por isso pouco se importam se o cinismo já virou rotina.

* Professor da UFAM, Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Coordenador Nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central do PCdoB.

Extraído de: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8800&id_coluna=19

“Quando os missionários chegaram, os africanos tinham a terra e os missionários a bíblia. Eles nos ensinaram a orar com os olhos fechados. Quando abrimos os olhos, eles possuíam a terra e nós tínhamos a bíblia.”

Jomo Kenyatta – Kênia

Resultado de imagem para JOMO KENYATTA

Jomo Kenyatta é considerado o Pai-Fundador do Quenia.  Nascido a 20 de Outubro de 1894, faleceu em 22 de Agosto de 1978.  Foi primeiro-ministro (entre 1963 e 1964) e presidente (1964 – 1978) do Quênia. 

 

Racismo não dá descanso e impacta a saúde e o trabalho dos negros

Por Beatriz Sans do El País

 

Eles têm salários menores, ainda que com o mesmo tempo de estudos de não negros.

 

“É coisa de preto”, teria dito o jornalista William Waack minutos antes de entrar no ar em uma transmissão ao vivo. A fala repercutiu como rastilho de pólvora acesa queimando o que houvesse pelo caminho. Foi afastado de sua função de apresentador no mesmo dia e incendiou a discussão sobre o racismo velado no Brasil. Enquanto jornalistas e até o ministro do Supremo Tribuna Federal (STF) Gilmar Mendes manifestaram apoio a Waack, nas redes sociais, os internautas resgatavam a memória e os feitos de grandes personalidades negras utilizando a hashtag #Écoisadepreto. Para a psicanalista Maria Lúcia da Silva, casos como esse são positivos pois descortinam o racismo e promovem o debate acerca do tema num país onde 54% da população se declara preta ou parda.

Frases como a de Waack são repetidas em diversos contextos cotidianamente e segundo pesquisas, o estresse de lidar com a discriminação terminar por afetar a saúde dos negros. Silva alerta que para lidar com situações de racismo e preconceito, as pessoas negras demandam mais energia. “Essa situação acontece desde o nascimento, o tempo todo. O racismo não dá descanso”, ressalta.

Uma das primeiras distorções que episódios de preconceitos acarretam no organismo humano é o aumento da pressão arterial. Posteriormente esse aumento de pressão causa o endurecimento da veias que pode resultar em um ataque cardíaco ou em um acidente vascular cerebral (AVC). Mas para além disso, o racismo também impacta a saúde mental. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade do Texas mostra que pessoas que sofreram com discriminação estavam sujeitas a desenvolver alcoolismo e depressão. Co-autora do estudo, a socióloga Trenette Clark diz que a discriminação tem efeitos semelhantes à perda do emprego ou à morte de um ente querido.

É para ajudar a reduzir os efeitos do racismo que existe o Instituto Amma Psique e Negritude, no qual trabalha Maria Lúcia. Uma das frentes do Instituto é preparar profissionais para que eles entendam melhor como os sofrimentos causados pelo racismo podem impactar nas relações sociais.

Para a psicanalista Noemi Kon, organizadora do livro O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise “obviamente que essa violência causa sofrimento psíquico”. Ela ainda acrescenta que o racismo “pode fazer com que as pessoas se sintam menos qualificadas a ocupar determinados espaços na sociedade e a estabelecer relações amorosas de qualidade, por exemplo”. A obra surgiu de um episódio de racismo vivenciado em sala de aula, apontado por Maria Lúcia Silva. Para resolver a questão, Noemi propôs um curso que tratasse do racismo nessa área e o passo seguinte foi a concepção do livro.

A psicanalista entende que os debates sobre o racismo estão ganhando mais visibilidade em um período recente. Segundo ela, esse movimento é importante para a desconstrução do mito da democracia racial. O conceito criado por Gilberto Freyre no século passado, segundo ela, prejudica ainda as pessoas que enfrentam situações de racismo e lidam com maiores dificuldades em diversos campos da vida, mas que não se manifestam sobre isso. “É um discurso ideológico que faz com que diferenças individuais sejam colocadas como responsáveis por fracassos individuais”, afirma Noemi.

O negro no mercado de trabalho

O racismo está engendrado de forma estrutural na nossa sociedade, e traz consequências práticas, uma vez que os negros possuem menos oportunidades em áreas essenciais. Um levantamento feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com dados de 2016 mostra, por exemplo, que quanto mais escolarizados os negros, maior a diferença de salário em comparação com uma pessoa não negra que tenha o mesmo nível de instrução. Os profissionais negros que não completaram o ensino médio ganhavam 92% do que recebiam os não negros com esse mesmo nível de estudo. Essa diferença cai para 85% entre os que têm ensino médio completo. Quando se tratam de trabalhadores com ensino superior, os negros ganham somente 65% do que um trabalhador não negro com a mesma formação.

Os índices de desemprego também são mais altos entre pessoas negras do que no restante da população. Durante a recessão econômica, é este grupo o mais impactado. De 2015 para 2016, a taxa de desemprego total dos negros aumentou de 14,9% para 19,4%, enquanto a dos não negros passou de 12% para 15,2%.

Rodrigo Silva de 22 anos engordou essa estatística quando seu contrato de estágio acabou e ficou desempregado. A posição ocupada por Rodrigo na empresa, em um cargo auxiliar também é mais comum entre pessoas negras, segundo a pesquisa realizada na região metropolitana de São Paulo. Enquanto isso, nos cargos de chefia, a presença de pessoas negras é 13,6% menor. Para Maria Lúcia da Silva, isso se dá porque o racismo “dificulta a mobilidade e permanência social em caso de prestígio ou de construção de uma carreira”. Hoje ocorre maior inserção dos negros em segmentos onde tradicionalmente os rendimentos são mais baixos (construção, trabalho autônomo e doméstico) e menor incorporação em outros, que costumam pagar salários mais altos (Indústria, alguns ramos dos Serviços, setor público e o agregado que reúne empresários e profissionais universitários autônomos, entre outros). Na média, os negros receberam 67,8% do rendimento dos não negros, em 2016.

Menos acesso à educação

Há um fosso, ainda, na comparação de acesso aos estudos. Há um evidente atraso escolar dos negros, que se perpetuou desde a abolição da escravidão, no século 19. Desde então, a falta de suporte que admitisse a diferença deixou um déficit na formação deste grupo. Na década passada, houve algum ajuste pelas políticas de cotas afirmativas. Em 2005, somente 5,5% dos jovens pretos e pardos em idade universitária frequentavam a faculdade. Esse número saltou para 12,8% em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação à população branca, contudo, a distância ainda é enorme: 26,5% dos estudantes brancos entre 18 e 24 anos estavam na univerdade em 2015.

O analfabetismo também revela a desigualdade de condições de negros e brancos. Um levantamento feito pelo movimento Todos Pela Educação em 2016, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/IBGE), mostra que a taxa de analfabetismo é 11,2% entre os pretos; 11,1% entre os pardos; e, 5% entre os brancos.

A relação entre escravidão e desigualdade

Por ter sido o último país do ocidente a extinguir a escravidão, a relação entre o Brasil e a “instituição”, eufemismo utilizado para nomear a escravatura, ainda é intensa. Segundo o sociólogo e especialista em políticas públicas Humberto Laudares cerca de 20% da desigualdade que acontece ainda hoje em municípios brasileiros tem como fonte a escravidão.

Laudares credita esse cenário a uma falha da sociedade e do Estado brasileiro em promover igualdade de oportunidades para os cidadãos. Para efeito de comparação, os municípios que abrigaram quilombos sofrem ainda mais. “Nós testamos o efeito dos quilombos na desigualdade e encontrarmos que locais que sediaram quilombos são hoje 3% mais desiguais, são mais pobres e ainda têm um nível educacional inferior a municípios com características semelhantes”, relata. Para ele, há um caminho para reduzir o problema: “igualar as oportunidades — saúde, educação, segurança — a partir da infância”.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/304550-10

Resultado de imagem para mugabe

Golpe no Zimbábue

Por Jaime Sautchuk*

 

Robert Mugabe era líder guerrilheiro no combate ao governo racista da antiga Rodésia, colônia britânica, hoje Zimbábue. Eu estava em Dar Es-Salam, capital da Tanzânia, que servia de ancoradouro aos movimentos de libertação da África Austral (inclusive Angola e Moçambique), e Mugabe me recebeu no hotel em que estava, após alguma insistência minha.

Em verdade, eu havia pedido a entrevista a uns companheiros dele que eu identifiquei por puro faro no saguão do hotel. No entanto, ele recebeu primeiro um correspondente do NY Times que havia pedido depois de mim. Aí, eu argumentei:

— O sujeito que é do jornal porta-voz do imperialismo ianque vocês recebem rapidinho, e eu, que sou solidário à sua luta, fico esperando, né?!

Os caras se tocaram e num piscar de olhos eu estava diante de Mugabe. Cheio de formalismos e vigilância no início, após uns minutos de papo ele descontraiu, tirou as botas e as armas, botou os pés sobre a mesinha e a coisa andou. Foi por mais de uma hora, em inglês. A entrevista foi publicada, à época, no semanário Movimento.

Quase quatro décadas se passaram. E vejo que a grande mídia trata dos acontecimentos atuais em Harare, a capital de Zimbábue, com grande dose de amnésia.

Desde logo, se esquece de falar do que era a Rodésia, o regime fascista que lá vigorava, do apartheid de triste memória, que foi derrubado por Mugabe. E do regime socialista por ele implantado no início, com reforma agrária e pesados investimentos em educação, do ensino fundamental à universidade, o que mudou a cara da África inteira.

Mugabe aparecia como um nativo de boa formação, professor de História desde muito jovem e formado em Economia pela Universidade de Londres. Seguia uma linha marxista, influenciado por outras lideranças africanas. Era, contudo, um brigador nato contra a segregação racial e as injustiças em geral.

Era um revolucionário autêntico, que conseguia superar também os problemas étnicos (ou tribais) com que se deparava pelo caminho. Por isso tudo, amargou dez anos (1964/1974) nas cadeias malcheirosas do poder colonial, mas enfrentou o apartheid até tirá-lo do poder.

Nos seus últimos 15 anos, a minoria branca do país se julgava independente do Reino Unido, mas a independência só ocorreu em 1979. Foram convocadas eleições diretas e Mugabe foi eleito primeiro-ministro pela União Nacional Africana de Zimbabwe (ZANU), partido que era uma frente de esquerda.

A partir de então, ele foi sendo eleito chefe do poder por sucessivas eleições, recentemente contestadas por oposicionistas do regime. De qualquer modo, sempre exigiu muita habilidade política num país de muitos povos que buscam se afirmar – pra se ter uma ideia, sua Constituição declara 15 línguas oficiais, além do inglês.

O fato é que Zimbábue vem passando por severa crise econômica, agravada por uma corrupção desenfreada e por uma elite negra que ao longo dos anos se tornou muito conservadora. Desfez os avanços sociais e promoveu a concentração de renda em mãos de poucos, que antes eram brancos e agora são pretos.

O comando militar do país, sempre alinhado a Mugabe, resolveu retirá-lo do poder, através de um golpe lento e gradual, mas é visível que ele, hoje com 93 anos de idade, ainda conta com forte apoio popular, em especial nas cidades do interior. Isso, embora em Harare, com seus 1,4 milhão de habitantes, tenha havido algumas manifestações de rua a favor do golpe.

No campo externo, Zimbábue é hoje aliada da China e enfrenta a disputa internacional pelas suas riquezas naturais, especialmente ouro e amianto. Sua população atual é de perto de 15 milhões de pessoas.

http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8777&id_coluna=91

 

Mandela e Mugabe 

Por Luiz Carlos Azenha* 

Li outro dia que um destes idiotas que faturam explorando a franchise do politicamente incorreto escreveu que o Zimbábue não tinha dado nenhuma contribuição à Humanidade.

É um idiota que mal sabe que existe toda uma literatura demonstrando como os brancos europeus de caso pensado desvalorizaram a África, um continente “de povo sem alma” (no dizer daqueles europeus), com o objetivo de justificar os crimes da ocupação usurpadora de terras e de riquezas.

O melhor exemplar desta literatura, em minha opinião, é Africa, A Biography of the Continent, de John Reader.

O autor contesta, por exemplo, a ideia de que o rio Nilo foi o corredor para que a “civilização” chegasse ao interior da África com alguns fatos, como a existência das ruínas do Grande Zimbábue lá no interior.

O que quero dizer é que existe toda uma produção europeia racista desqualificando a África e os africanos, que este povo do “politicamente incorreto” retoma apenas para poder expressar o seu racismo disfarçado.

Quando fiz parte da equipe do programa Nova África, na TV Brasil, escolhemos deliberadamente ouvir o povo, não as autoridades do continente, para desespero dos bate paus governistas, que preferiam um programa para fazer a política externa do governo Lula.

Sob a batuta da historiadora Conceição Oliveira, a gente se ligava especialmente no que dizia o povo dos países que visitávamos. Por que o ditador Mugabe tem ainda algum apoio popular, depois de tantos anos no poder? Porque, apesar de ter beneficiado a sua corja na reforma agrária, foi o único líder africano que realmente mudou a estrutura agrária herdada dos racistas.

Mugabe expulsou das terras os herdeiros de racistas brancos que ocupavam os lugares mais férteis do Zimbábue. Discutam quanto quiserem sobre se usou os métodos mais adequados, se fez isso para se perpetuar no poder, etc.

O fato é que nem Nelson Mandela fez isso, na África do Sul. Feito o Lula em 2002, Mandela teve de assinar uma espécie de Carta aos Sul Africanos quando assumiu o poder, preservando os principais interesses econômicos dos brancos ao mesmo tempo em que promovia a ascensão de uma classe média negra.

Portanto, a verdade inescapável é que, embora os brancos tenham abraçado Mandela como grande símbolo da luta contra o racismo, o ditador Mugabe fez mais que ele quando se tratava de, na prática, apagar a herança racista deixada na distribuição de terras férteis. 

* jornalista