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MT vai vender<BR>o BB ao Itaúúúú

Foi bonita a luta, Pá! Agora, é seguir na

ofensiva até a derrubada do governo usurpador!

Por Edmilson Costa*

Brasil, zero hora do dia 28 de abril. Os comandos grevistas começam a fechar as garagens dos ônibus, uma a uma, em praticamente todos os Estados e no Distrito Federal. Começava a greve geral vitoriosa no País. O metrô iniciou sua paralisação ainda pela madrugada nas principais capitais e, mesmo com a tentativa de colocar funcionários administrativos para operar as máquinas, a paralisação ultrapassou os 90%. Os metalúrgicos de vários Estados também cruzaram os braços e não foram trabalhar, assim como petroleiros, operários da construção civil, estivadores, funcionários dos correios, bancários e professores de várias capitais e grandes cidades. Boa parte do comércio também fechou e aqueles estabelecimentos que abriram praticamente ficaram às moscas, porque não tinham a quem vender. No total, cerca de 92 categorias de trabalhadores aderiram à paralisação, representando assim a maior geral da história do Brasil.

A partir das cinco da manhã, comandos móveis formados por militantes partidários e dos movimentos sociais bloquearam as principais ruas e avenidas das grandes metrópoles, além das estradas de acesso às regiões metropolitanas, colocando pneus e ateando fogo, de forma a construir grandes barricadas para bloquear o trânsito nas principais vias de circulação de caminhões e automóveis. Muitos também se reuniram nas paróquias para planejar as mobilizações e piquetes. Em São Paulo a polícia invadiu uma igreja para prender manifestantes. A polícia reprimiu violentamente e prendeu vários militantes, mas os protestos continuaram pelas ruas e avenidas ao longo do dia em centenas de cidades brasileiras. Nada impediu que o 28 de abril parecesse um domingo ou um dia de grande feriado.

Dessa histórica jornada de lutas participaram cerca de 40 milhões de trabalhadores de Norte a Sul do País, de acordo com as centrais sindicais que convocaram a greve geral. Da Zona Franca de Manaus, no Estado do Amazonas, passando pelas plataformas marítimas da Petrobrás, metalúrgicos da região Centro-Sul, petroleiros de vários Estados, os transportes em geral (metrô, ônibus e trens), estivadores, milhões de professores municipais, estaduais e das universidades, inclusive professores da rede privada, bancários das principais cidades brasileiras, serviços em geral. Até o comércio nas grandes capitais paralisou suas atividades: a Rua 25 de março, principal centro comercial paulista, estava como num dia de domingo. Ainda pela manhã, em várias regiões do País ocorreram grandes manifestações de ruas, encerrando-se ao final da tarde em São Paulo, no Largo da Batata, com uma manifestação de mais de 70 mil pessoas, que marcharam até a casa do presidente usurpador. Mas um milhão de pessoas estiveram nas ruas para protestar contra as reformas da previdência, trabalhista, as terceirizações e o ajuste fiscal.

A repressão também foi muito grande em várias regiões do País. No Rio de Janeiro, a selvageria da polícia se destacou pela brutalidade, com as forças repressivas atacando os manifestantes e deixando vários feridos. Em Goiás, uma cena dantesca simbolizou a ação do aparato repressivo: um comandante policial avançou furioso contra um grupo de jovens e acertou uma paulada tão violenta no rosto de um jovem que o cassetete de madeira quebrou. O jovem está entre a vida e a morte em um hospital da cidade. Na Baixada Santista, região operária de São Paulo, onde está o maior porto do País, a repressão contra os estivadores foi violenta, não só através da tropa de choque, mas também da cavalaria que avançou violentamente contra os grevistas, deixando vários deles feridos e hospitalizados. Na manifestação da capital de São Paulo a polícia também jogou bombas contra manifestantes, mas a repressão foi menor que nas outras regiões.

Mas não foram apenas as grandes metrópoles que realizaram greves e protestos contra o governo usurpador. O Brasil profundo, constituído pelas pequenas e médias cidades do interior, também realizaram manifestações. Por exemplo, foram realizados atos contra o governo em Bujari, no Acre; Marituba, no Pará; Gurupi, no Tocantins; Arapiraca, em Alagoas; Assu, no Rio Grande do Norte; Lauro de Freitas, na Bahia; Juari, no Mato Grosso; Sabará, Minas Gerais; Tatuí, São Paulo e Ijuí, no Rio Grande do Sul. Isso sem contar as cidades de porte médio, onde em quase todas ocorreram manifestações contra o governo.

Vale ressaltar que a greve geral de 28 de abril contou ainda com uma vasta frente de luta, que incluiu não apenas os sindicalistas, movimentos sociais e partidos políticos, mas também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cujos religiosos se utilizaram das redes sociais e dos sermões para chamar a população para a greve geral. Também houve apoio à greve entre religiosos protestantes e a Ordem dos Advogados do Brasil, além de associação de magistrados, membros do ministério público do trabalho, atores e vários artistas, sendo que alguns, como Gal Costa, cancelaram shows em apoio à greve. Além disso, contou também com a simpatia popular. Não foi visto as costumeiras aglomerações de pessoas nas filas de ônibus, nas estações de metrô ou nas estações ferroviárias. As pessoas preferiram ficar em casa a sair desesperadamente em busca de transporte alternativo para chegar ao trabalho.
À exceção do grande capital, da oligarquia financeira, dos monopólios comerciais e do agronegócio, o País inteiro apoiou o movimento. Isso pode ser constatado nas pesquisas de opinião: Temer tem quase a unanimidade do País contra seu governo. Apenas 9% apoia sua gestão e mais de 90% da população são contrárias às reformas que estão sendo votadas no Congresso. Como se trata de um governo que se assemelha a uma quadrilha e um Parlamento cheio de corruptos, não é de se espantar tamanha impopularidade. Mas espantoso ainda é verificar que essa quadrilha, que deveria estar na cadeia, é exatamente quem está votando a devastação social contra o mundo do trabalho.

O governo e a mídia tentam desqualificar o movimento

Diante da grandiosidade do movimento grevista, o governo e a mídia corporativa procuraram, de todas as formas, desqualificar o movimento. O ministro da Justiça, um dos acusados de corrupção na Operação Carne Fraca, veio a público dizer que o movimento era pífio e coisa de baderneiros. O próprio presidente, através de nota, fez ouvidos de mercador e disse que as manifestações não iriam mudar o processo das “reformas” e que o congresso daria continuidade às votações. O caricato prefeito de São Paulo, João Doria, anunciou na véspera que teria feito um acordo com o Uber e o 99 (aplicativos de taxis) para transportar gratuitamente os funcionários até o trabalho. Mas o link que permitia as viagens gratuitas vazou e as pessoas passaram a recomendar que esse mecanismo fosse utilizado para que todos se dirigissem à manifestação no Largo da Batata. Diante do fracasso da empreitada, Doria foi obrigado a anunciar o cancelamento do acordo com os aplicativos de taxis. Mas o subprefeito da região de Pinheiros, também na capital, forçou os funcionários a dormirem no trabalho e agora vai ser processado por assédio moral.

Papel especial na desinformação teve a mídia corporativa, especialmente a Rede Globo, o maior monopólio de comunicação do País. No dia anterior, seus jornais e redes de televisão sequer anunciaram que haveria uma greve geral no País. Mesmo diante da grandiosidade da greve, a cobertura da televisão foi profundamente manipuladora, pois as chefias estavam orientadas a desacreditar o movimento. Assim, evitou-se a palavra greve geral, buscou-se caracterizar a greve como apenas dos transportes, que impediam a população de ir e vir; deu-se especial cobertura às cenas de confronto para associar a greve à baderna e buscou-se entrevistar trabalhadores dizendo-se prejudicados com a greve.

Mas nem as desqualificações do governo, nem a manipulação da mídia foram capazes de influir no ímpeto grevista dos trabalhadores. Como depois se soube, nos bastidores o governo sentiu o golpe e nos salões da burguesia deve ter havido muito medo e pânico afinal, após duas décadas de refluxo do movimento operário, os trabalhadores voltaram à cena com unidade e força política. Realizaram uma greve política numerosa e vitoriosa, nunca imaginada pela burguesia, em função das condições adversas da conjuntura. O País está há quatro anos em severa recessão, com cerca de 20 milhões de desempregados (incluindo os desempregados oficiais e os que deixaram de procurar emprego e não são contabilizados mais nas estatísticas) e o governo realiza uma ofensiva midiática permanente buscando fazer crer que as reformas vão modernizar o País e trazer de volta os empregos. Nada foi capaz de barrar a força da unidade do movimento operário, popular e da juventude. Um indício desse processo foi uma nota da Federação do Comércio de São Paulo que calculou em R$ 5 bilhões (U$ 1,7 bilhão) o prejuízo com a greve.

As lições da greve geral

Os primeiros ensinamentos da greve geral no País revelam que quando os trabalhadores, o movimento popular e da juventude entram em cena de forma unitária são capazes de mover montanhas. A partir de agora a luta de classes no País mudou de qualidade: está dirigida pelos trabalhadores, suas organizações e seus métodos de luta. Para os pessimistas, que imaginavam que o proletariado estava acomodado diante dos ataques da burguesia, a greve demonstrou que os trabalhadores entram em cena na hora certa, quando as condições objetivas e subjetivas estão maduras para grandes ações de massa. Mesmo diante da greve vitoriosa, não se pode cair no ufanismo: este foi o primeiro ensaio geral de uma longa jornada de lutas, cujo desfecho será mais ou menos profundo de acordo com a intensidade das ações do movimento operário nos próximos meses.

Vale lembrar ainda que a greve geral de 28 de abril não caiu do céu nem foi fruto da espontaneidade das massas, que de uma hora outra resolveram cruzar os braços contra o governo e seus patrocinadores. As manifestações contra o golpe vinham sendo realizadas já há algum tempo, muito embora ainda fossem difusas e com elevado grau de espontaneidade. Por exemplo: nas olimpíadas, quando Temer anunciou a abertura dos jogos recebeu uma estrondosa vaia. Também ocorreram protestos nos estádios de futebol, em shows artísticos, escrachos contra parlamentares golpistas nos aeroportos, dezenas de protestos de rua, até que se pôde sentir o ânimo das massas nas manifestações e protestos unificados do dia 08 de março, o dia internacional de luta das mulheres, e as do de 15 de março, o dia nacional de mobilizações e paralisações. Portanto, a greve geral de 28 de abril foi o resultado de um processo de amadurecimento que vinha se gestando há tempo entre os trabalhadores e que se expressou de forma organizada neste 28 de abril.

A greve assestou um duro golpe contra as manipulações da mídia e as mentiras do governo em relação às contra-reformas e trouxe para o centro da luta um novo personagem: o movimento operário e popular. Por maior que tenha sido a desinformação e a propaganda oficial, trabalhadores de todo o País e de dezenas de categorias demonstraram a força política do proletariado brasileiro, ressaltando que a manipulação mediática já não tem mais o poder que tinha no passado. Os trabalhadores brasileiros, cansados dos ataques do governo e das denúncias de corrupção na Administração Pública e no Parlamento, simplesmente prefiram acreditar nas suas entidades representativas do que nas mentiras da Rede Globo.

A greve revelou também, de forma pedagógica, o imenso potencial dos trabalhadores na luta por seus direitos e por uma vida melhor. Ensinou que os trabalhadores são a força mais importante do País, pois quando param de trabalhar, as cidades param e o País também pára. Por isso, essa greve geral terá efeitos de curto, médio e longo prazo no imaginário popular e contribuirá de maneira efetiva para fortalecer a organização e o ânimo dos trabalhadores. Também terá repercussão junto à classe dominante, porque agora a burguesia sabe que os trabalhadores começaram a virar o jogo, instituindo uma nova dinâmica na luta de classes. Por isso, vão procurar de todas as formas dividir o movimento, cooptar e corromper suas lideranças mais vacilantes. Mas a força da greve foi tão grande que qualquer líder sindical que decida fazer o jogo do governo poderá ser desmoralizado rapidamente.

Em outras palavras, a luta de classes mudou de patamar no Brasil. Portanto, nessas novas condições e diante da heterogeneidade das regiões e da luta social brasileira, a esquerda deve não só intensificar as gestões para manter a unidade dos trabalhadores, mas também combinar diversas formas de luta contra a burguesia e o aparato repressivo. É fundamental parar as fábricas, o comércio e o transporte, mas também é muito importante formar e fortalecer os Comitês Populares Contra as Reformas e multiplicar de maneira acelerada os comandos móveis para parar a circulação nas grandes metrópoles. Quando maior o número de comandos mais dificuldades terá o aparato militar para reprimir os lutadores. E todo esse trabalho deverá ser condensado em grandes manifestações de rua, capazes de inviabilizar a repressão. Uma coisa é reprimir cinco ou dez mil manifestantes. Outra é atacar uma manifestação de 100 ou 200 mil pessoas.

Os próximos passos

A dinâmica da luta de classe desencadeada pela greve deve merecer da esquerda socialista uma atenção especial. É fundamental manter a centralidade da luta nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e moradia e junto ao povo pobre dos bairros, de forma a evitar que o movimento seja canalizado apenas para as eleições em 2018. Essa é uma tarefa fundamental, pois existem várias forças que, apesar de ter contribuído para o sucesso da greve geral, não querem levar às últimas consequências a luta contra o governo usurpador porque ainda vivem a ilusão de que tudo pode mudar com as eleições. Para derrotar esse governo corrupto e ilegítimo é fundamental intensificar a luta de massas, colocar novas tarefas na ordem do dia para os trabalhadores.
Também é fundamental que a nota divulgada pelas centrais sindicais dia primeiro de maio se transforme em realidade prática. As centrais exigem a retirada das propostas que tramitam em Brasília, reafirmam a luta pelos direitos previdenciários e trabalhistas e o compromisso com a unidade do movimento e prometem ocupar Brasília para pressionar o governo e o Congresso a reverem seus planos de ataques aos trabalhadores e, se isso não for suficiente, assumem o compromisso de organizar uma reação ainda mais forte. Os elementos centrais da posição das centrais é um bom ponto de partida para refletirmos sobre os próximos passos.

Entendemos que é fundamental ocupar Brasília, com uma grande manifestação de mais de 100 mil pessoas, e forçar o Congresso Nacional a revogar todas as medidas antipopulares. Mas esse fato terá maior efeito se os trabalhadores estiverem parados em todo o País, por um tempo maior do que a greve do dia 28 de abril. Portanto é importante discutir com as centrais a necessidade de uma greve geral combinada com uma grande manifestação em Brasília. Os trabalhadores já demonstraram sua disposição de luta. O governo está cada vez mais impopular. Portanto, aqui vale a palavra de ordem cantada nas manifestações de rua: “Ai, ai, ai, empurra o Temer que ele cai”.

Achamos também que está na ordem do dia a construção do Encontro Nacional dos Trabalhadores e do Movimento Popular, de forma a discutirmos um projeto para o País, organizado a partir das bases do movimento operário e popular, de forma a construir uma ferramenta que se transforma em referência de combatividade e organização para as massas e que seja capaz de elaborar um programa alternativo para reconstruir o Brasil na perspectiva dos interesses populares.

*Edmilson Costa é secretário-geral do PCB

Dirceu sabe o que faz

Libros de segunda mano: Los exploradores D'Almonte y Benítez. Romano (Julio) - Foto 1 - 21916154

Sobre a ação colonial espanhola na África durante o século 19 veja:

 http://www.museoliber.org/wp-content/uploads/2014/10/La-Espa%C3%B1a-colonial-en-%C3%81frica-en-el-siglo-XIX.pdf

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Insegurança jurídica e a estratégia do caos

Por Paulo Cannabrava Filho

Dias sombrios nos esperam. O que esperar de um judiciário que é o mais caro do mundo? O que esperar de um legislativo que é o mais caro do mundo?

Desde os tempos coloniais, passando pelos tempos em que isto aqui foi reino e império, atravessando a república dos coronéis dos latifúndios até a nova e a novíssima República, advogados e juízes foram formados para defender o status quo e ser parte do poder dominante.

Com relação ao legislativo, casual ou estrategicamente, este é o pior da história da política brasileira, seja com relação ao nível intelectual (lembram da sessão que aprovou o impedimento da presidenta?), mas principalmente com relação às questões morais.

Entrar no judiciário ou na política é projeto de ascensão social, enriquecer a custa do erário. Da classe média às hostes oligarcas dos poderosos.
Deslumbrados com o poder e a exposição midiática perderam o senso, se crêem acima do bem e do mal, deuses salvadores da pátria.

A justiça vale para uns e não vale para outros. A ação ilegal repercute na mídia para uns e é silenciada para os demais. Exemplo: 600 mil presos no Brasil, mais de 50% sem julgamento. Outro exemplo: no lugar de punir pessoas estão punindo empresas, provocando desmontagem de formidáveis parques industriais, jogando fora esforço de desenvolvimento tecnológico, deixando um saldo de desemprego em massa, como está ocorrendo principalmente no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

A insegurança jurídica se tornou um fantasma para os empresários, para os investidores. Em que país um processo leva dez anos para proferir uma sentença? E os custos advocatícios que isso implica?

Diz a ONU que com esse congelamento das despesas por 20 anos, decretada por Temer, as futuras gerações é que estão condenadas. É certo. No momento apenas sobrevivemos, mas só no curtíssimo prazo, pois estão desmantelando o país, vendendo tudo na bacia das almas: terras, minérios, petróleo, água (o mais valioso bem), infraestrutura, espaço aéreo, soberania… As futuras gerações comerão capim ou engrossarão as filas de imigrantes ou de refugiados.

Vergonha alheia

Pesquisa Nacional IPSOS de março de 2017 indica que 78% da população desaprova o atual governo e que, para 90% o Brasil está no caminho errado. Lula não é unanimidade com 59% de desaprovação. Contudo, é o que tem o mais alto índice de aprovação entre os políticos. Os que têm as mais altas taxas de aprovação são os juízes de alta exposição na mídia: Moro 63%, Joaquim Barbosa, 51%.

Essa pesquisa é bem anterior ao escândalo da lista do juiz Edson Fachin: 98 pessoas sendo 8 ministros, 24 senadores, 39 deputados, três governadores, inclusive o santo que governa São Paulo, Geraldo Alckmin. Isso só na lista da Odebrecht. E há outras listas, como a lista de Janot e de outros processos, envolvendo as outras empreiteiras como a Camargo Correia, Andrade Gutierres…

Não sobra ninguém. Com exceção de Itamar Franco, todos os que ocuparam a Presidência da República: Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma. As vestais de todos os partidos: Aécio Neves, Romero Jucá, José Dirceu, Aloysio Nunes (atual chanceler), José Serra (ex chanceler), Palocci…
Michel Temer, presidente de turno, por estar presidente não pode ser investigado por crimes anteriores ao mandato. É Lei. Não escaparia pois são muitos os seus crimes, assim como os dos presidentes da Câmara e do Senado.

Depois dos vazamentos ilícitos o juiz tornou públicas as delações dos 78 executivos da Odebrecht. As perguntas que não se pode calar: Como é possível que processos que correm em segredo de justiça se tornem públicos? Quem são os responsáveis?

Na realidade o que houve foi que jogaram um balde de merda no ventilador. Com que intenção?

Nessa fase, valendo ainda a presunção de inocência, tudo permanecerá como está. O próprio Temer disse que no governo não haverá mudança até que provem que há culpa e haja condenação. Pior que isso, Temer afirma que a ofensiva pelas reformas (leia-se maldades) prosseguirá.

São reformas todas muito polêmicas, como da previdência e a das normas do trabalho. Que moral tem esse governo para conduzir essas reformas? Num país sério com judiciário a serviço da nação, todos esses atos deste governo espúrio, seriam declarados nulos.
Haverá ainda condições que declarar nulidades dos atos de Temer?

Quanto tempo levará o judiciário para analisar tantos processos? O processo sobre o pedido de anulação da eleição da dupla Dilma e Temer, por exemplo, só agora, passados quatro anos, quando já deposta a presidenta e em véspera de novas eleições é que está chegando à fase de julgamento. Sensação de enorme perda de tempo. Mas não será talvez este, ou seja, as futuras eleições o que move o ventilador?
Senão, qual o propósito de tamanho escândalo aproveitado pela mídia?

Estará o judiciário tramando a tomada do poder? Rompida a linha sucessória –vice-presidente, presidentes da Câmara e do Senado- cabe ao presidente do Supremo assumir o governo. Na história deste nosso país o judiciário sempre esteve, mais que conivente, presente nos golpes de Estado, governando interinamente ou validando juridicamente a ilegalidade.

É preciso recuperar a segurança jurídica

É incrível. Somente agora, menos de um mês da lista de Fachin, quando não dava mais para esconder as barbaridades cometidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, em função das outras listas, um supremo juiz admite que “não é correto fazer das ações da justiça espetáculo, que o abuso do poder gera insegurança jurídica”. E é de pasmar! o supremo ministro é o presidente do Tribunal em que se move o Fachin, provocando escândalo maior ainda.
Insegurança jurídica, incerteza política, tudo leva a nação a um surto psicótico: depressão, medo, paranóia, raiva contida, ódio ao outro, pânico…
O supremo juiz pôs o dedo na ferida mas, já não consegue estancar a sangria. Tardia manifestação.

Com a conivência da suprema corte é que juízes, delegados e agentes federais têm desrespeitado as Leis, violado os direitos fundamentais garantidos pela nossa legislação e tratados internacionais. Arvorados em salvadores da pátria, os juízes já se crêem acima do bem e do mal.

Nunca deveriam ter permitido que o mal se impusesse, menos ainda que se alastrasse, se incrustasse contaminando toda instituição. Essa insegurança jurídica já é ameaça à estabilidade do Estado à segurança da Nação.

Como recuperar a credibilidade da Justiça, condição que assegura a segurança jurídica?

Creio que a responsabilidade é de toda a sociedade. Deve haver um movimento que envolva a população em torno dessa bandeira. A bandeira do respeito às Leis, da garantia dos direitos humanos. Os que entendem de leis é que devem iniciar esse movimento: mais que os advogados, todas as pessoas envolvidas com a advocacia, dos cursos de direito aos conselhos profissionais. Advogados com apoio da sociedade civil num movimento para devolver dignidade à Justiça.

Nós sabemos que os juízes foram formados para defender as instituições do Estado, a propriedade privada, as leis que asseguram o funcionamento do capitalismo e do Estado democrático pensado pelos que aprovaram a Constituição de 1988 – a Constituição Cidadã. Para que funcionem as instituições e o próprio capitalismo é preciso Segurança Jurídica.

Parece até que resolveram acabar com o capitalismo. Oxalá assim fosse se tivéssemos alternativa de construir outro modelo de Estado, um estado socialista em que não houvesse mais exploração de um ser humano por outro. A realidade, no entanto, é que tampouco admitem outro modelo.

O certo é que enquanto a nação se distrai, mais uma das bacias de Campos e de Santos do Pré-sal foi posta em leilão. É a quarta chamada aos investidores. Na terceira quem levou foi a francesa Total. Quem levará esta?

A que serve a insegurança jurídica?

Serve à estratégia de implantação do caos que vem sendo executada pelo Império, quer dizer, pelos Estados Unidos e o conglomerado dos senhores de todas as guerras e de todas as fortunas. Serve ao pensamento único imposto pela ditadura do capital financeiro. Ou é a ditadura do pensamento único imposta pelos senhores donos do mundo?

A estratégia do caos tem como objetivo a dominação de um país. Passa pela desestabilização política e pela desorganização da produção com a finalidade de impor as leis que melhor lhes convém e se apropriar das riquezas naturais e do mercado.

Ajuda a entender o que está ocorrendo no país, e a quem serve a Insegurança Jurídica e a estratégia de implantação do caos, ler o livro de John Perkins, “Confissões de um Assassino Econômico”, da editora Cultrix. Para ter um ideia disso pode ler a matéria publicada por Diálogos do Sul sobre a atuação do “assassino econômico” no Equador nos dias de hoje, repetição do que acontece na Argentina e no Brasil, aconteceu no México, no Peru e está no auge na Venezuela.

Essa estratégia de implantação do caos para a dominação requer a eliminação da concorrência. Quando eles não conseguem implantar o caos por meio de seus agentes qualificados e os servos nacionais, apelam para a guerra, invadem o país como fizeram no Iraque, na Líbia entre outros.

Tomemos o Iraque como exemplo. Lá o petróleo era estatal e os recursos serviam para o desenvolvimento econômico e social. Como não conseguiram desestabilizar o governo, invadiram, destruíram o país, mataram e/ou anularam as lideranças, implantaram o caos. As empresas brasileiras que participavam da construção da infraestrutura tiveram que sair por causa da guerra. Assim também as empresas de alimentos. Destruído o país entraram as empresas estadunidenses para a reconstrução e para o abastecimento. O petróleo agora, de ninguém, é saqueado pelas transnacionais. Assim de simples.
Pior ainda é o que ocorreu na Líbia, nem o Estado sobrou. Ou o que ocorre no Afeganistão. A mesma estratégia de implantação do caos que está sendo aplicada na Síria.

Gente: o que está em jogo aqui no Brasil é a Soberania Nacional.

São Paulo, abril de 2017

*Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor chefe da Diálogos do Sul.

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Áurea Carolina: “Eu gosto de fazer política.

Então eu continuo achando que ela pode ser bonita.”

“A transformação das práticas das esquerdas para fazer avançar as lutas sociais deve passar pelo reconhecimento das diferenças: de gênero, étnico-raciais, de orientação sexual, geracionais, de território, de origem socioeconômica, porque essas diferenças são condições de existência das pessoas nesse mundo. E o capitalismo associado aos outros sistemas de opressão de gênero, raça, tem uma materialidade nesses corpos.”

Entrevista especial com Áurea Carolina.

Áurea Carolina de Freitas e Silva é cientista política e educadora popular com especialização em Gênero e Igualdade na Universidad Autonoma de Barcelona, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Próxima dos movimentos de rua, ela também foi subsecretária de Políticas para as Mulheres do Estado de Minas Gerais e uma das fundadoras do Fórum das Juventudes da Grande BH. Desde sua fundação, ela colabora com a #partidA e participa do movimento “Muitas pela Cidade que Queremos” que discute política sentadas no gramado do Parque Municipal de Belo Horizonte. Em outubro de 2016, Áurea Carolina foi eleita vereadora, com o maior número de votos na cidade. Junto com Cida Falabella, também eleita vereadora pelo PSOL, ela permite ao partido de entrar, pela primeira vez, na Câmara Municipal.

Nesta conversa, conduzida por Luc Duffles Aldon e que dá sequência à série de entrevistas do Movimento Democrático 18 de Março (MD18) com grandes intelectuais de esquerda publicadas no Blog da Boitempo, ela fala das perspectivas de sua vereança e de um outro modo de fazer política. Leia a primeira entrevista da série, com o sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy, clicando aqui, a segunda, com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, clicando aqui, a terceira com o historiador Luiz Marques clicando aqui, a quarta, com o cineasta Eryk Rocha, clicando aqui, a quinta, com o filósofo e crítico social Anselm Jappe, clicando aqui, a sexta com o senador francês Antoine Karam clicando aqui, a sétima com o Frei Henri Burin des Roziers, clicando aqui e a oitava com a ativista transfeminista e professora Viviane Vergueiro clicando aqui.

Você se apresentou como uma candidata “mulher, negra, jovem” e uma feminista interseccional. Qual é a importância das políticas de reconhecimento na reconstrução de uma nova esquerda? Como o hip hop e a “cultura urbana” influencia sua cultura política?

A reconstrução de uma nova esquerda ou, de uma forma mais complexa, a transformação das práticas das esquerdas para fazer avançar as lutas sociais deve passar pelo reconhecimento das diferenças: de gênero, étnico-raciais, de orientação sexual, geracionais, de território, de origem socioeconômica, porque essas diferenças são condições de existência das pessoas nesse mundo. E o capitalismo associado aos outros sistemas de opressão de gênero, raça, tem uma materialidade nesses corpos. São as mulheres negras periféricas as que mais sofrem com a exploração econômica e isso vem sempre associado a outras formas de violência. Não podemos falar de uma transformação social por justiça, por igualdade, por equilíbrio de poder, sem trazer a centralidade dessas dimensões dos nossos corpos que têm uma vida condicionada, o tempo inteiro, por essas desigualdades. Por isso mesmo, os feminismos interseccionais são perspectivas de ação, de percepção da realidade, que trazem essa dimensão dos corpos presentes e de como as desigualdades afetam diretamente as nossas condições de vida.

A cultura hip hop e as culturas urbanas, de forma geral, são fundamentais para essa percepção crítica da nossa realidade. Elas são essenciais para a compreensão das contradições de um sistema capitalista que vai criando contornos próprios e que existe além da questão econômica pois, como isso tudo, ele vai sendo também processado em um sistema racial e patriarcal mais uma vez. As culturas urbanas são linguagens que nos ajudam a estar no mundo. Essa sensibilidade estética é também política e, para mim, foi uma escola de vida; foi por meio do hip hop que eu acessei várias lutas, foi uma senha fundamental para a minha politização.

Você disse que sua eleição, como o maior número de votos (17,420) na capital mineira, é a demonstração da força do campo da resistência das ruas e da cidade. Essa força vem sendo um desafio analítico eleitoral, desde de junho de 2013, e hoje, no meio da crise institucional brasileira. Frente aos candidatos “antipolíticos” você acredita mesmo que “a política pode ser bonita”?

A questão dos candidatos antipolíticos, eu percebo que ganhou muita força no Brasil, sobretudo a partir de junho de 2013 quando duas grandes narrativas sobre a política foram ganhando destaque no debate público. As duas têm a ver com uma insatisfação com o sistema político mas elas levaram a caminhos diferentes: um caminho que é pela radicalização da democracia, pela participação popular, pela recuperação do sentido da política como uma responsabilidade de todas as pessoas e também uma rejeição aos grupos tradicionais que controlam o poder. A outra narrativa traz também essa rejeição à política tradicional mas caminha em uma despolitização, no sentido de que a política é sim esse lugar da corrupção, que não tem muito o que se fazer e que a política em si é problemática.

Então de uma percepção comum de que o sistema político, tal qual funciona hoje, não nos representa e precisa ser transformado, saíram dois caminhos talvez, pelo menos os que prevaleceram. Esse de recuperar a política como um fazer coletivo de coresponsabilidade das lutas, de disputar as instituições a partir da diversidade da população, de reconfigurar para que o poder seja compartilhado. E um outro caminho, que é o da negação da política. Esse caminho de despolitização, que foi muito capturado pela direita e pelas forças conservadoras. Isso foi alimentado demais na mídia convencional e esse discurso de “chega de políticos, nós precisamos é de gente pra trabalhar na politica, de gestores…” O Dória em São Paulo, o Crivella no Rio e o Kalil em Belo Horizonte são exemplos de como esse discurso tem ressonância, mesmo.

Eu continuo achando que a política pode ser bonita porque o sentido da política está em disputa. Eu disputo uma política de cooperação, uma política de aprendizado, de construção coletiva, uma política que sirva para nos emancipar e não essa política em que alguns grupos controlam o jogo ou uma política que é distante da população, uma política que parece ser uma tarefa de alguns poucos. Não! Eu acho que a política é uma tarefa quotidiana, é um dever de cidadania também e é um exercício que vale a pena, eu gosto de fazer política. Então eu continuo achando que ela pode ser bonita.

Seu compromisso com o mandato coletivo é uma forma para “contagiar” seus eleitores, ou mais ainda os 742.050 votos nulos/brancos/abstenções com a alegria política?

Para a política ser bonita, é preciso fazer um trabalho grande de estar lado a lado com as pessoas, fazer mobilização social, educação popular, atuar nos territórios para que se recupere essa dimensão da coresponsabilidade que nós podemos sim, apesar de todas as desigualdades, fazer diferença ocupando as instituições ainda que o jogo seja muito brutal, muito violento.

Ter mulheres negras lutadoras nos espaços de poder é sim uma possibilidade de conquistar direitos ou pelo menos de ampliar o debate, de trazer novas perspectivas, de politizar questões que, em geral, são inviabilizadas. Então, se uma de nos ocupa esse espaço, ainda que esse espaço tenha uma dinâmica própria histórica de dominação de grupos, nós, alí, somos uma infiltração, uma pequena ruptura que pode significar melhoria de condição de vida de muitas de nós. “Quando uma de nos avança, ninguém retrocede”, esse é um lema importante para as mulheres negras e é preciso olhar em perspectiva histórica também, o que significou ter conquistas de direito ao longo do tempo. Nós não resolvemos todas as desigualdades, mas cada passo importa. Meu esperançar nesse contexto tão desfavorável é de exercitar, o tempo todo, esse sentido da política que me trouxe até aqui e trazer mais gente pra perto. Não é uma jornada pessoal unicamente, ela é antes de tudo coletiva e assim sustenta a minha existência pessoal.

Qual é o esperançar de uma vereadora num contexto de crise institucional, numa capital de um Estado em situação de calamidade financeira? E com a judicialização da política e a hipermediatização do conflito entre os 3 poderes, como reafirmar a função de vereadora?

Em um Estado de calamidade financeira, é preciso discutir quais são as prioridades de investimentos, para onde está indo o recurso público. Esse é um debate muito difícil e uma disputa que nós precisamos fazer. Além disso, como nós vamos destinar os recursos nesse momento de muita privação e de acirramento de uma crise que está levando ao desemprego e que, com as medidas do golpe, vão significar precarização dos serviços públicos. É dramático o contexto!

No entanto nós precisamos estar nos espaços institucionais para fazer esses debates também. E, ao mesmo tempo, fortalecer a auto-organização das lutas. Essas são dimensões imprescindíveis para a transformação e a reorganização das esquerdas.

Eu acredito que a função de uma vereadora, em um Estado que tem todos os seus poderes, a mídia, a cultura, sistemas de relações funcionando, desigualdades estruturando uma sociedade, é vocalizar o que as lutas estão construindo, denunciar, contribuir para que as pessoas acessem os espaços de poder, defender pautas urgentes; é ser uma agente colaboradora a serviço das lutas. É assim que eu encaro a vereança. É um cargo que tem muitas limitações mas que tem o potencial, ao mesmo tempo, de fazer essa circulação. É nisso que eu vou apostar, junto com a Cida Falabella e as Muitas pela cidade que Queremos, nesse contexto em que nós somos eleitas em Belo Horizonte, junto com a Frente de Esquerda BH Socialista, fazer um mandato para fortalecer a resistência popular e utilizar os recursos que temos para ampliar nossas capacidades democráticas, potencializar tudo isso. É um desafio enorme, mas eu estou muito animada e acho que é necessário fazer essa travessia.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/05/aurea-carolina-eu-gosto-de-fazer-politica-entao-eu-continuo-achando-que-ela-pode-ser-bonita/