Archives for category: Racistas

Enio Squeff

“São esses os tempos, e este o país”, diz Enio Squeff, pai de menino negro vítima de racismo em shopping de SP

Publicado no Facebook de Enio Squeff.

São esses os tempos, e este o país.

Na sexta feira passada, lá pelas 18 e 40, enquanto tomava chá com meu filho de sete anos no Shopping Higienópolis, fui supreendido por uma segurança mulher que me perguntou se a criança, à minha frente, estava me incomodando. Surpreso, inquiri-a sobre razão de seu questionamento. Ela explicitou: tinha ordens de não deixar “pedintes crianças” molestar a quem quer que fosse no Shopping. Não precisou explicar mais nada.

Apontei para meu filho e lhe perguntei se ela o considerava um pedinte por ser negro. Meu filho é negro; e estava com um abrigo do colégio Sion. Como eu lhe questionasse para o fato de ela ver pele e não o uniforme, quem se chocou, então, assustada, foi a moça travestida de segurança. Eu que a desculpasse, ela não tinha tido a intenção de me ofender.

Para corroborar a extensão de seu pedido de perdão, afirmou-me que ela também era negra -,e sua pele não a desmentia; mas que recebia ordens.

Insisti: com o que a direção do Shopping tinha lhe dado ordens de expulsar meninos negros do sagrado local de Higienópolis, era isso? Não prossegui. Ao seu terceiro ou quarto pedido de desculpas, disse-lhe que que se alguém devia desculpas era ela para si mesma e para sua família.

Ficava evidente que obedecia ordens (foi essa a justificativa dos carrascos que massacraram judeus na Alemanha, mas isso seria ir longe demais). E que se era para encobrir o racismo de seus patrões – ela que se assumisse na culpa que ela via imputada na pele de meu filho.

Confesso, porém, e em suma, que no mesmo instante, tive pena da moça: se fosse à auditoria do Shopping Higienópolis( parece que eles têm isso por lá), é claro que ela engrossaria a lista de desempregados do país.

E aí, então, ela seria duplamente punida: não apenas por ter atentado contra uma criança negra, mas por se ter flagrado num racismo duplamente condenável por ser ela mesma negra, num ato discriminatório que ela entranhou em si, como parte do seu trabalho.

Lamentável – mas talvez explicável. Os capitães do mato vicejam no terreno fertil do racismo, que, por sua vez, se escora na extrema direita. Não é por nada, aliás, que 70% dos jovens assassinados no Brasil, sejam negros.

Enfim, são esses os tempos, mas também este o país…

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/sao-esses-os-tempos-e-este-o-pais-diz-enio-squeff-pai-de-menino-negro-vitima-de-racismo-em-shopping-de-sp/

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Dirceu sabe o que faz

Jose Ismael Torres e Kayla Rae Norton

Racistas que invadiram festa nos

EUA são condenados à prisão

Eles vieram em caminhões e gritavam insultos racistas. Também portavam bandeiras dos Confederados, que foi usada na Guerra Civil nos Estados Unidos, quando os Estados rebelados lutaram para manter a escravidão no país. Desde então a bandeira é associada a movimentos de extrema direita no país.

Segundo o promotor do caso, Torres ainda apontou uma arma para os familiares que participavam da festa e disse que iria matá-los.

De acordo com a polícia, o casal era membro de um grupo chamado “Respect the Flag”, formado por racistas que defendem a “supremacia” branca. Na internet, foram localizadas mensagens dos integrantes do grupo discutindo participação em comícios da Ku Klux Klan e ataques aos negros.

Torres e Kayla são as últimas das 15 pessoas acusadas de participação no episódio a serem condenadas. Apenas quatro foram acusadas de delitos graves; outros dois se declararam culpados e estão cumprindo uma pena mais leve.

http://www.vermelho.org.br/noticia/293832-1

moonlight 1

Racistas reagem a Oscar para “negro, gay e maconheiro”

Por Eduardo Guimarães

 

Um dos blogueiros da Veja postou no Twitter um comentário sobre o vencedor do Oscar em 2017 – Moonlight: sob a luz do luar – que muitos estão considerando racista, por razões óbvias.

O comentário infeliz desse indivíduo se conecta a uma questão que muitos desconhecem…

Havia uma disputa maior na entrega do Oscar deste ano. Uma das produções candidatas a melhor filme era sobre um “gay, negro e maconheiro” arrastado para o lado errado pelas vicissitudes da vida; o adversário era um romance hiper açucarado protagonizado por uma bela loirinha de olhos claros.

Na segunda-feira, a Folha de São Paulo destacava o que chamou de “Oscar negro”. Foi ridículo. Se uma produção de brancos ganhasse o Oscar de melhor filme haveria matéria chamando a premiação em 2017 de “Oscar branco”?

Esse tipo de diferenciação é uma forma de preconceito e de desqualificação de uma etnia.

Em sete minutos, porém, os dois longas ganharam o Oscar de melhor filme. E esse episódio bizarro, que empanou a vitória de Moonlight sobre La la land, pode até não ter nada que ver com a disputa, mas nunca antes na história da Academia norte-americana de cinema ocorrera coisa igual.

Eis o que houve.

Fred Berger era o terceiro produtor de La la land a discursar quando a confusão começou. A estatueta não pertencia a ele e à sua equipe, como os atores Faye Dunaway e Warren Beatty haviam anunciado. O melhor longa-metragem da edição 2017 do Oscar, na noite de domingo, era Moonlight: sob a luz do luar, de Barry Jenkins.

A empresa PricewaterhouseCoopers (PwC), que audita a cerimônia do Oscar, assumiu a culpa, por meio de um comunicado. “Os apresentadores receberam o envelope da categoria errada. Quando descobrimos, isso foi imediatamente corrigido”, dizia o texto.

A atriz Jessica Chastain escreveu no Twitter, imediatamente: “Por que os produtores do show não correram para o palco quando o vencedor errado foi anunciado? Estou muito triste pela equipe de Moonlight. Gostaria que eles tivessem a experiência completa de ganhar o prêmio de melhor filme sem tanto constrangimento”.

Essa discussão sobre os méritos de Moonlight se espalhou ao menos pela elite de São Paulo. A turma do andar de cima fica enraivecida quando negros sobressaem e não engoliu a supremacia de um negro sobre a loirinha ideal.

O blogueiro da Veja apenas vocalizou discussão que vinha se dando nos salões dos ricaços paulistanos, enojados com a vitória da história de um “negro, gay e maconheiro” sobre o romance da personagem da estonteante Emma Stone”.

A forma calhorda desse sujeito de se referir a negros e homossexuais é um dos sintomas da ascensão do fascismo no Brasil.

Essa vergonha vai perdurar até que alguém mostre a essa gente que desqualificar o mérito de negros vencedores é incompatível com um país no qual negros e descendentes de negros são maioria.

http://www.blogdacidadania.com.br/2017/03/racistas-reagem-a-oscar-para-negro-gay-e-maconheiro/

MARINHA AGRIDE, INTIMIDA E AMEAÇA

COMUNIDADE QUILOMBOLA NA BAHIA

Por Ana Maria Gonçalves*

OS POUCOS QUILÔMETROS que separam a guarita fortemente vigiada por oficiais da Marinha do vilarejo de casas pertencentes às famílias que resistem no Quilombo Rio dos Macacos contam mais do que uma história recente: fazem parte de um cerco.

A palavra quilombo vem do Quimbundo, língua banta falada em Angola, e significa união, acampamento, arraial, povoação. No Brasil, no contexto da escravidão, tornou-se lugar de resistência dos povos escravizados e, segundo o mestre Nei Lopes, tem dupla conotação: uma toponímica e outra ideológica. Para acabar com um quilombo era necessário fazer o cerco – tática que vem sendo aprimorada e empregada há séculos pelo governo brasileiro.

Nesse caso específico, a Marinha brasileira quer atacar o quilombo na sua raiz, na fonte que lhe deu o nome: o Rio dos Macacos. Já tinha construído uma barragem, que tirava o curso do rio de dentro do território quilombola, e, agora, segue com a construção de um muro, que vai impedir que os moradores tenham acesso à água. É o cerco se fechando.

Mapa Complexo Naval de Aratu (BA)

Os moradores são descendentes de escravizados das fazendas que produziam cana de açúcar para o antigo Engenho Aratu. Com a falência do engenho, muitas famílias permaneceram no local, uma área de aproximadamente 900 hectares, até que, nas décadas de 1950 e 1960, foram surpreendidas pela doação de suas terras para a Marinha do Brasil.

Apesar de estarem no município de Simões Filho, a doação foi feita pelo então prefeito de Salvador, Nelson Oliveira. Desde então, foi feita a barragem do rio, construída uma Vila Militar para 450 famílias, e o único acesso ao quilombo é feito através de uma guarita controlada pelos militares. A vila conta com estrutura de escola e hospital que não podem ser usados pelos quilombolas.

O acesso é restrito aos moradores cadastrados e, durante muito tempo, cada um deles teve que portar uma carteirinha que o chamava de “invasor”. Mas mesmo esta carteirinha não garantia o acesso, que continua sendo dificultado em muitas situações, a depender da boa vontade ou da maldade de quem está de guarda.

Esses casos são julgados e analisados pelos próprios militares que, quase que invariavelmente, inocentam-se a si mesmos

Moradores contam que que, apesar de autorizados, nem sempre a Marinha permite a entrada de carros da SAMU para fazer atendimento médico dentro do quilombo, e o índice de analfabetismo é bastante grande porque crianças e jovens, ao saírem do território para buscarem as escolas na região, tinham a entrada dificultada. Inúmeros casos de intimidação e agressão física já foram realtados.

Quando denunciados pelos moradores, esses casos são julgados e analisados pelos próprios militares que, quase que invariavelmente, inocentam-se a si mesmos, alegando falta de provas e apontando a existência de uma campanha de difamação por parte dos quilombolas. Muitos deles, analfabetos ou analfabetos funcionais, foram obrigados a assinar depoimentos contendo declarações que não tinham feito. Fica o dito pelo não dito.

Da área de 900 hectares, o Incra reconheceu apenas 301, sendo que, destes, 196 ficaram para a Marinha, que alega serem de “interesse estratégico à defesa nacional”. Os outros 104, divididos em duas áreas não contíguas, foram destinados à comunidade. Insuficientes, segundo eles, para o modo de vida que levam.Pela dificuldade de entrar e sair, mesmo porque o acesso é precário, eles têm dificuldades em encontrar emprego fora do quilombo. Basicamente precisam ser autossuficientes, tendo lá dentro tudo de que necessitam para viver. Uma das atividades era a pesca na barragem, que foi proibida.

A Marinha ainda briga para ficar com tudo, resultando em ordens de despejo que precisavam ser contestadas periodicamente. Na área ocupada pelos moradores não há saneamento básico ou água encanada. Energia elétrica foi conquistada apenas agora no início de fevereiro, ainda por ser instalada. Os quilombolas moram em casas bastante precárias, boa parte delas construídas em adobe, que a Marinha não deixa reformar. Na maioria delas não há sequer banheiro, que precisa ser improvisado. Eles também são impedidos de realizar novas construções. Nem mesmo podem repor as casas que foram destruídas, sem qualquer explicação ou mandado, pelo próprio governo. As que permanecem de pé, resistindo como seus moradores, podem ser invadidas a qualquer momento, inclusive por militares montados a cavalo; caso que já aconteceu.

Quilombo Rio dos Macacos

Cerca de 90 famílias vivem em casas precárias em que não conseguem fazer reformas.
Foto: Thiago Dezan

Estive no Rio dos Macacos no início de 2016, numa grande reunião celebratória dos avanços na luta pela regularização do território, e estas foram apenas algumas das histórias de horror que ouvi.

Recentemente, o governo brasileiro achou por bem acrescentar mais um capítulo na luta dos resistentes. Depois de protestarem contra a construção do muro que os separa da barragem de onde retiram, artesanalmente, a água para sua subsistência, os moradores foram surpreendidos com o que se pode chamar de retaliação. No ano passado, haviam conseguido que o Exército construísse uma estrada de acesso à comunidade, sem que fosse necessário passar pela guarita da Vila Naval. A obra foi suspensa, com os militares recolhendo materiais e equipamentos. Os quilombolas resistem, mas o cerco se fecha. Topográfica e ideologicamente.

ATUALIZAÇÃO: após a publicação desta matéria a Marinha enviou seu posicionamento ao The Intercept Brasil a respeito das denúncias sobre o quilombo Rio dos Macacos. Confira as respostas neste link.

*https://theintercept.com/2017/02/08/marinha-agride-intimida-e-ameaca-comunidade-quilombola-na-bahia/

http://www.cartacapital.com.br/

Foto: Reprodução/Facebook da pesquisadora Patricia Gouvêa

As marcas e suas derrapadas: por quê?

Por Priscila Portugal

No último final de semana só se falou (no meio fashion) em uma coisa: a estampa Pindorama, da marca carioca Maria Filó. Por quê? Porque ela reproduzia uma tela (que segundo a marca era de Debret, mas segundo especialistas era mesmo de Rugendas) com uma cena da época do Brasil escravocrata, uma negra com o bebê no colo servindo uma senhora branca. Segundo a pesquisadora Patricia Gouvêa explicou em seu perfil no Facebook, aliás, a imagem original, inclusive, traria duas mulheres negras, o que altera completamente o significado da cena. A Maria Filó se retratou, dizendo que não teve a intensão de ofender ninguém e que já retirou as roupas das lojas. Tem quem ache mimimi (eu, definitivamente, não acho) e tem quem esteja escrachando a marca publicamente. O fato é que, mesmo sem a intenção, houve a falha, muito grave atualmente.

Foto: Reprodução/Twitter

Eu lembrei da Zara, que dois anos atrás lançou uma camisa de pijama infantil bem parecida com os uniformes dos campos de concentração nazistas: com listras azuis e brancas e uma estrela dourada de seis pontas no peito. Oi? Em outra seara – a do atendimento – a Farm foi acusada ano passado de gordofobia, quando as vendedoras de uma loja foram aos risos para os fundos da loja enquanto uma cliente gordinha esperava para ser atendida. A americana Abercrombie patinou para se livrar de uma besteira dita por um de seus diretores: de que suas roupas não eram feitas para gente “feia e gorda”. Affff, gente. Sem contar as marcas de cerveja, que cometem um “deslize” atrás do outro. Quem não lembra do “deixei o não em casa”, da Skol, que sofreu intervenções em seus outdoors em São Paulo?

Pois é. Por mais que o consumidor veja apenas como um “deslize”, a verdade é que nos tempos de hoje nenhuma marca pode se permitir este tipo grave – e ofensivo e opressor e cruel – de erro. A gente que trabalha com comunicação sempre fica pensando: como é que uma equipe inteira deixou passar isso? É claro que todo mundo pode errar, e minha intenção aqui não é linchar publicamente nenhuma marca. É mesmo entender como podemos trabalhar para que isso seja evitado e também mostrar a amplitude que um erro aparentemente simples pode assumir nos dias de hoje.

Para isso, eu fui conversar com a Lorena Borja. Eu fiz com ela um curso livre de coolhunting na Faap em que falávamos sobre questões assim. A Lorena também entende muito de semiótica, uma teoria que fala sobre a importância das simbologias e suas manifestações no nosso dia a dia. Resumindo de um jeito bem simples: tudo o que fazemos é uma linguagem que comunica quem somos, quem queremos ser ou quem queremos parecer, e com as marcas não é diferente. Por isso, elas precisam ficar atentas aos mínimos detalhes. “Tudo que uma marca escolhe para representá-la é uma linguagem: a estamparia, o anúncio, a trilha sonora do desfile, o cheiro que ela coloca na loja, o endereço do ponto de venda dela… tudo isso representa o conjunto de ideias que ela quer transmitir para o mercado e para a cliente dela”.

Só que não adianta essa mensagem ser falsa ou superficial: cedo ou tarde isso vai aparecer. Além disso, de nada vale ter uma mensagem clara se você não entende o que está acontecendo à sua volta. “Tem um termo alemão que é o zeitgeist, palavra que significa o ‘espírito do nosso tempo’. Talvez se fosse na década de 80, essa estampa da Maria Filó, por exemplo, não teria tido os desdobramentos que teve hoje. Mas o espírito do nosso tempo exige uma responsabilidade das marcas em relação ao que elas apresentam ao mercado. Os consumidores estão muito ligados. A população negra, por exemplo, está reivindicando seus direitos. A pauta racial é uma pauta do momento, e não só no Brasil. As marcas precisam ficar atentas a isso e saber o que querem dizer ao mercado. É um posicionamento”, resume. E como disse a atriz Thaís Araújo em seu Facebook, “A escravidão não pode virar ‘pop’, não pode ser vendida como uma peça de moda. A moda nos representa, nos posiciona, nos empodera, comunica quem somos”. Assino embaixo.

Extraído de: http://priscillaportugal.tumblr.com/post/151941686312/as-marcas-e-suas-derrapadas-por-quê