Archives for category: Racistas

O ataque racista à filha de Giovanna Ewbank e

a busca psicótica por atenção nas redes sociais.

Por Jean Wyllys

O crescimento da participação em redes sociais está trazendo consigo algo que não se vislumbrava tão nitidamente quando elas surgiram: assistimos à explosão de manifestações neuróticas e até psicóticas em busca de alguns minutos de atenção.

 

O caso mais recente é o de uma suposta “socialite” (é uma ocupação?) que, dos EUA, resolveu proferir uma série de comentários racistas sobre uma criança de 4 anos, a filha do casal de atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso. Contente com o destaque das suas ofensas, ela ainda encontrou tempo para falar mal de uma atriz e de uma cantora e suas supostas relações com drogas ilícitas.

Um tipo de comportamento que faz parte do que a filósofa Julia Kristeva chama de “novas doenças da alma”. Kristeva não chega a teorizar sobre os impactos das novas tecnologias da comunicação e da informação na saúde psíquica humana, mas, partindo dessa sua ideia (de que a pós-modernidade produziu novas doenças da alma), eu digo que as novas tecnologias detonaram uma nova expressão do narcisismo ou o “narcisismo à beira do fim”, que corresponde, em se tratando do mito, ao momento quando Narciso não se contém, lança-se nas águas profundas, cansado de apenas se admirar, querendo devorar a si mesmo de tanto fascínio por si, e morre.

As pessoas já não se importam com a morte real ou simbólica que podem ter em função de sua performance na internet, desde que elas tenham likes, comentários e seguidores. Por isso, há tantos exibindo, com fascínio por si mesmos, seu racismo e sua burrice. Da homofobia não vou nem falar, porque esta sempre foi expressa até por quem se considera saudável psiquicamente.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-ataque-racista-filha-de-giovanna-ewbank-e-busca-psicotica-por-atencao-nas-redes-sociais-por-jean-wyllys/

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Racismo não dá descanso e impacta a saúde e o trabalho dos negros

Por Beatriz Sans do El País

 

Eles têm salários menores, ainda que com o mesmo tempo de estudos de não negros.

 

“É coisa de preto”, teria dito o jornalista William Waack minutos antes de entrar no ar em uma transmissão ao vivo. A fala repercutiu como rastilho de pólvora acesa queimando o que houvesse pelo caminho. Foi afastado de sua função de apresentador no mesmo dia e incendiou a discussão sobre o racismo velado no Brasil. Enquanto jornalistas e até o ministro do Supremo Tribuna Federal (STF) Gilmar Mendes manifestaram apoio a Waack, nas redes sociais, os internautas resgatavam a memória e os feitos de grandes personalidades negras utilizando a hashtag #Écoisadepreto. Para a psicanalista Maria Lúcia da Silva, casos como esse são positivos pois descortinam o racismo e promovem o debate acerca do tema num país onde 54% da população se declara preta ou parda.

Frases como a de Waack são repetidas em diversos contextos cotidianamente e segundo pesquisas, o estresse de lidar com a discriminação terminar por afetar a saúde dos negros. Silva alerta que para lidar com situações de racismo e preconceito, as pessoas negras demandam mais energia. “Essa situação acontece desde o nascimento, o tempo todo. O racismo não dá descanso”, ressalta.

Uma das primeiras distorções que episódios de preconceitos acarretam no organismo humano é o aumento da pressão arterial. Posteriormente esse aumento de pressão causa o endurecimento da veias que pode resultar em um ataque cardíaco ou em um acidente vascular cerebral (AVC). Mas para além disso, o racismo também impacta a saúde mental. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade do Texas mostra que pessoas que sofreram com discriminação estavam sujeitas a desenvolver alcoolismo e depressão. Co-autora do estudo, a socióloga Trenette Clark diz que a discriminação tem efeitos semelhantes à perda do emprego ou à morte de um ente querido.

É para ajudar a reduzir os efeitos do racismo que existe o Instituto Amma Psique e Negritude, no qual trabalha Maria Lúcia. Uma das frentes do Instituto é preparar profissionais para que eles entendam melhor como os sofrimentos causados pelo racismo podem impactar nas relações sociais.

Para a psicanalista Noemi Kon, organizadora do livro O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise “obviamente que essa violência causa sofrimento psíquico”. Ela ainda acrescenta que o racismo “pode fazer com que as pessoas se sintam menos qualificadas a ocupar determinados espaços na sociedade e a estabelecer relações amorosas de qualidade, por exemplo”. A obra surgiu de um episódio de racismo vivenciado em sala de aula, apontado por Maria Lúcia Silva. Para resolver a questão, Noemi propôs um curso que tratasse do racismo nessa área e o passo seguinte foi a concepção do livro.

A psicanalista entende que os debates sobre o racismo estão ganhando mais visibilidade em um período recente. Segundo ela, esse movimento é importante para a desconstrução do mito da democracia racial. O conceito criado por Gilberto Freyre no século passado, segundo ela, prejudica ainda as pessoas que enfrentam situações de racismo e lidam com maiores dificuldades em diversos campos da vida, mas que não se manifestam sobre isso. “É um discurso ideológico que faz com que diferenças individuais sejam colocadas como responsáveis por fracassos individuais”, afirma Noemi.

O negro no mercado de trabalho

O racismo está engendrado de forma estrutural na nossa sociedade, e traz consequências práticas, uma vez que os negros possuem menos oportunidades em áreas essenciais. Um levantamento feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com dados de 2016 mostra, por exemplo, que quanto mais escolarizados os negros, maior a diferença de salário em comparação com uma pessoa não negra que tenha o mesmo nível de instrução. Os profissionais negros que não completaram o ensino médio ganhavam 92% do que recebiam os não negros com esse mesmo nível de estudo. Essa diferença cai para 85% entre os que têm ensino médio completo. Quando se tratam de trabalhadores com ensino superior, os negros ganham somente 65% do que um trabalhador não negro com a mesma formação.

Os índices de desemprego também são mais altos entre pessoas negras do que no restante da população. Durante a recessão econômica, é este grupo o mais impactado. De 2015 para 2016, a taxa de desemprego total dos negros aumentou de 14,9% para 19,4%, enquanto a dos não negros passou de 12% para 15,2%.

Rodrigo Silva de 22 anos engordou essa estatística quando seu contrato de estágio acabou e ficou desempregado. A posição ocupada por Rodrigo na empresa, em um cargo auxiliar também é mais comum entre pessoas negras, segundo a pesquisa realizada na região metropolitana de São Paulo. Enquanto isso, nos cargos de chefia, a presença de pessoas negras é 13,6% menor. Para Maria Lúcia da Silva, isso se dá porque o racismo “dificulta a mobilidade e permanência social em caso de prestígio ou de construção de uma carreira”. Hoje ocorre maior inserção dos negros em segmentos onde tradicionalmente os rendimentos são mais baixos (construção, trabalho autônomo e doméstico) e menor incorporação em outros, que costumam pagar salários mais altos (Indústria, alguns ramos dos Serviços, setor público e o agregado que reúne empresários e profissionais universitários autônomos, entre outros). Na média, os negros receberam 67,8% do rendimento dos não negros, em 2016.

Menos acesso à educação

Há um fosso, ainda, na comparação de acesso aos estudos. Há um evidente atraso escolar dos negros, que se perpetuou desde a abolição da escravidão, no século 19. Desde então, a falta de suporte que admitisse a diferença deixou um déficit na formação deste grupo. Na década passada, houve algum ajuste pelas políticas de cotas afirmativas. Em 2005, somente 5,5% dos jovens pretos e pardos em idade universitária frequentavam a faculdade. Esse número saltou para 12,8% em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação à população branca, contudo, a distância ainda é enorme: 26,5% dos estudantes brancos entre 18 e 24 anos estavam na univerdade em 2015.

O analfabetismo também revela a desigualdade de condições de negros e brancos. Um levantamento feito pelo movimento Todos Pela Educação em 2016, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/IBGE), mostra que a taxa de analfabetismo é 11,2% entre os pretos; 11,1% entre os pardos; e, 5% entre os brancos.

A relação entre escravidão e desigualdade

Por ter sido o último país do ocidente a extinguir a escravidão, a relação entre o Brasil e a “instituição”, eufemismo utilizado para nomear a escravatura, ainda é intensa. Segundo o sociólogo e especialista em políticas públicas Humberto Laudares cerca de 20% da desigualdade que acontece ainda hoje em municípios brasileiros tem como fonte a escravidão.

Laudares credita esse cenário a uma falha da sociedade e do Estado brasileiro em promover igualdade de oportunidades para os cidadãos. Para efeito de comparação, os municípios que abrigaram quilombos sofrem ainda mais. “Nós testamos o efeito dos quilombos na desigualdade e encontrarmos que locais que sediaram quilombos são hoje 3% mais desiguais, são mais pobres e ainda têm um nível educacional inferior a municípios com características semelhantes”, relata. Para ele, há um caminho para reduzir o problema: “igualar as oportunidades — saúde, educação, segurança — a partir da infância”.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/304550-10

POR WAGNER FRANCESCO, teólogo

Luiz Felipe Pondé, conhecido digital influencer em nossa terra tupiniquim, escreveu no Jornal Folha de São Paulo um artigo onde ele pergunta: “Por que linchar ladrões é injusto, mas é ‘progressista’ linchar Waack”?

Ora, é como perguntar: “por que a goiaba que dá no pé de manga não é tão doce quanto a maça que dá no pé de uva?”.

O Pondé quer misturar tudo numa coisa só para fantasiar suas más intenções na defesa de um sujeito que, se não é racista, falou algo típico de quem é.

Por que linchar ladrões é injusto? Importante: mas do que injusto, é crime. O nosso ordenamento jurídico proíbe o exercício arbitrários das próprias razões. Está lá, previsto no artigo 345 do Código Penal:

“Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite:Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência.”

O que se deve fazer “com ladrões”? Denunciar e esperar o poder público agir.

Porém, outra coisa é importante: linchamento pressupõe violência física. E mais uma vez: é por isso que o linchamento não é só injusto, mas crime. Por causa de um furto, querem que o acusado pague com “uma tira do corpo” – com sangue e tudo, sem valer o argumento que prevaleceu no filme “O auto da compadecida”.

Não! Não se deve linchar ladrões. Também não se deve linchar o Waack. Mas quem o linchou? Ele foi exposto pelo que, claramente, disse. Assim como “ladrões”, o Waack foi denunciado. E só. E afastado do trabalho. Coerente o afastamento, não é?

Como uma emissora que num dia nos disse que era “toda Maju”, de repente se tornaria “toda Waack”? Não dá.

Mas o Pondé, em seu artigo, não cansou de nos cansar com sua pseudo intelectualidade – mascarada sobretudo em seus vídeos, fumando, com cara de personagem do século 19, um charuto (que coisa “old!”) – quando, para defender o Waack, disse:

“O politicamente correto destruiu qualquer possibilidade de reflexão minimamente honesta sobre virtudes na vida pública contemporânea. Essa discussão está morta.”

Para o Pondé, a frase racista do Waack deve ser vista como uma reflexão minimamente honesta – mas, ele acusa, o politicamente honesto destruiu essa possibilidade de reflexão.

Na minha opinião, o que o Waack falou pode até ser minimamente honesto, mas não é nenhuma reflexão – no sentido estrito do termo. Quem reflete não fala o que ele falou – e tanto não refletiu que pediu desculpas.

Não vi ninguém desejando a morte do Waack, ou ameaçando sua integridade física, ou dizendo que ele disse uma coisa que não disse. Não há que se falar em “linchamento virtual” – muito embora este exista e o Pondé saiba fazer muito bem.

 

O problema é que o Pondé, em sua enfadonha luta contra o politicamente correto, cria um politicamente correto à sua moda: ele quer que todos falem o que quiserem, mas que não sejam obrigados a ouvir o que não querem. Criou a patrulha contra os que denunciam as falas dos outros.

Expor o racismo não é linchamento. E racismo não é opinião, é burrice – como dizia Gabriel, o Pensador.

 

Publicado no Justificando

OPINIÃO VINTE :

Voltem à foto do “intelectual” servo da direita hidrófoba e atentem para a cútis e os traços do mesmo. Faz sentido? Só se for para rir!

O QUE A POLÊMICA SOBRE O FILME “VAZANTE”

NOS ENSINA SOBRE FRAGILIDADE BRANCA

Por Ana Maria Gonçalves*

Primeiro trabalho solo de Daniela Thomas, “Vazante”, que entrou em cartaz há uma semana, no dia 9 de novembro, foi vendido pela imprensa como um retrato da escravidão no país — mas não é o que entrega. O filme tem o mérito de provocar a conversa sobre a representação histórica da escravidão e de povos escravizados no cinema, mas também é uma obra de brancos para brancos, que está longe de se inserir na cinematografia brasileira como algo que vá muito além disso ao tratar do assunto em questão.

Assisti a “Vazante” para participar do programa da TV Globo “Conversa com Pedro Bial” junto  com a diretora do filme e o cineasta Joel Zito Araújo. Durante o programa, Daniela explica que o filme nasceu a partir de uma história que vem sendo contada há décadas em sua família: a de um parente de 50 anos que se casou com uma menina de doze. O episódio, bem retratado em “Vazante”, aconteceu no início do século XX, mas Daniela escolheu recuar 100 anos e contá-la como se tivesse se passado em 1821.

 A escravidão vira mera moldura, plano de fundo, com personagens negros sem voz, sem nome.

E é aí que, para mim, começa o grande problema: no filme, a escravidão vira mera moldura, plano de fundo, com personagens negros sem voz, sem nome, sem profundidade, sem desenvolvimento, servindo de escadas para os personagens brancos.

Durante a preparação para a conversa na televisão, li muita coisa que já foi publicada sobre o filme e assisti aos vídeos do polêmico debate no Festival de Cinema de Brasília.

Durante o evento no Distrito Federal, Daniela se assustou com os questionamentos – porque julgava ter feito o dever de casa para tratar de tema ainda tão distante da realidade e do cotidiano da maioria da população branca do país.

É interessante comparar o que realmente aconteceu com a percepção e a reação de Daniela, expostas em artigo escrito por ela alguns dias após ao debate. Citado no texto da diretora, o crítico de cinema Juliano Gomes escreveu em resposta um excelente e preciso texto, no qual define como “fragilidade branca” o comportamento de pessoas brancas quando confrontadas com suas ideias em relação à escravidão negra e ao racismo.

Cena do filme "Vazante", de Daniela Thomas

Cena do filme “Vazante”, de Daniela Thomas (Distribuição: Europa Filmes).

 

Reprodução: Youtube

O conceito foi cunhado pela professora estadunidense Robin DiAngelo,que nasceu branca e pobre e cresceu consciente de como a opressão de classe influenciava sua vida, mas sem muita noção de seu privilégio de cor. Na vida acadêmica, DiAngelo resolveu analisar a própria experiência nos grupos com os quais conviveu e como essa vivência contribuía para perpetuar o racismo.

O resultado é um trabalho interessante, que DiAngelo aprimorou durante os cursos em que fala de racismo e branquitude para plateias majoritariamente brancas. Vale a pena acompanhar também o caso da estudante canadense que está sendo acusada de “racismo reverso” e sofrendo um processo disciplinar em sua universidade por ter usado a expressão “fragilidade branca” em um post de Facebook.

Achei oportuno escrever sobre esse conceito porque também tenho pensado bastante nele ultimamente. Tenho feito palestras e ministrado cursos sobre racismo para plateias majoritariamente – e, às vezes, exclusivamente – brancas, e detectado comportamentos que se encaixam perfeitamente em sua descrição.

As consequências de um ambiente isolado de estresse racial

Segundo DiAngelo, “pessoas brancas vivem em um ambiente social que as protege e isola do estresse racial”. Este ambiente isolado (mediado por classe, instituições, representação cultural, mídia, livros, propaganda, discursos dominantes etc…) constrói a expectativa dos brancos de se manterem dentro de uma zona de conforto racial, ao mesmo tempo em que diminui a capacidade de tolerância ao estresse causado pelo assunto, levando à fragilidade branca.

Nesse estado, a mínima quantidade de estresse se torna intolerável, provocando uma série de atitudes defensivas, que incluem demonstrações de raiva, medo e culpa, e comportamentos como silenciamento e afastamento da situação que causou o estresse. Isto funciona para restabelecer o equilíbrio racial branco que, por sua vez, pode levar a um isolamento e uma proteção ainda maiores, que voltam a provocar o estresse quando acontece um novo confronto com o tema. Ou seja, um ciclo vicioso que impossibilita o diálogo aberto e honesto e mantém o status quo.

DiAngelo cita algumas situações que costumam provocar reações típicas dessa fragilidade branca:

Quando se sugere que o ponto de vista de uma pessoa branca também é moldado por referências racializadas – ou seja, quando alguém lembra de mencionar que branco também é raça, e não um padrão a partir do qual apenas as pessoas não brancas são racializadas.

Quando pessoas negras não querem compartilhar suas histórias ou responder questões sobre suas experiências raciais – pessoas brancas muitas vezes esperam que pessoas negras estejam sempre dispostas a educá-las em relação a assuntos raciais, sentindo-se frustradas ou “desobedecidas” quando isso não acontece.

Quando pessoas negras afirmam a importância de fazerem parte de um grupo – ao se negarem a abrir mão de uma identidade negra que as insere em um determinado grupo, em nome de demandas que lhe são caras e específicas, pessoas negras desafiam o individualismo liberal.

Quando pessoas negras salientam o acesso desigual a oportunidades, desafiando o conceito de meritocracia tão caro a pessoas brancas que acreditam que todos podem conseguir o que quiserem, desde que se esforcem.

Quando pessoas negras estão em posição de liderança ou de destaque — tanto no ambiente profissional quanto social ou cultural (em papéis centrais e não estereotipados em filmes, por exemplo) –, desafiando a ideia de centralidade e/ou liderança brancas.

O conceito de fragilidade branca também pode ser aplicado a outras questões, como fragilidade hétero ou masculinidade frágil, por exemplo.

DiAngelo enumera ainda outras situações em seu artigo, sendo que muitas podem ser facilmente observadas e identificadas em experiências cotidianas. É interessante observar que o conceito de fragilidade branca também pode ser aplicado a outras questões, como fragilidade hétero ou masculinidade frágil, por exemplo.

Ao mesmo tempo em que a reação conservadora é cada vez mais violenta ao avanço e ao não silenciamento das minorias, consigo ver o cenário atual com um pouco de otimismo: há rachaduras nas bolhas que envolvem as zonas de conforto, e o que antes parecia rigidamente estabelecido está sendo exposto com todas as suas fragilidades. O que agora pode ser apenas rachadura há de se tornar ruptura, porque nada volta a se recompor do jeito que era antes. Aos que estão atentos e dispostos a fazer o movimento: o desconforto é bom. É o que nos faz avançar.

https://theintercept.com/2017/11/16/o-que-a-polemica-sobre-o-filme-vazante-nos-ensina-sobre-fragilidade-branca/

Foto: cena do documentário “A negação do Brasil” de Joel Zito

TV a serviço da tecnologia do racismo

Por Joice Berth*

“Os serviçais negros, sempre pacíficos, embora ignorantes e desprovidos de cultura e bons modos brancos, são um exemplo comum dessa técnica de manutenção do lugar criado para o sujeito negro exercido pela televisão”, observa Joice Berth, colunista do site Justificando/Carta Capital, no quinto artigo da série especial “Racismo na mídia e na esquerda”

[…] que foi que ocorreu para que o mito da democracia racial tenha tido tanta aceitação e divulgação? Quais foram os processos que teriam determinado sua construção? Que é que ele oculta, para além do que mostra? Como a mulher negra é situada no seu discurso?  Lélia Gonzalez, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p.224.

Os meios de comunicação, todos eles, têm sido braço direito e esquerdo na propagação das tecnologias da estrutura racista. Isso é uma verdade que se pode comprovar com absoluta facilidade em todos os veículos de comunicação disponíveis, em especial a televisão.

O poderoso e influente jornalista Assis Chateaubriand foi o responsável pela primeira transmissão televisiva no Brasil, em 18 de setembro de 1950, pela TV Tupi, em São Paulo. No ano seguinte, seria a vez de o Rio de Janeiro ser contemplado com essa novíssima ferramenta, viabilizada por recursos importados dos Estados Unidos. O Brasil, então, passou a ser o quarto país do mundo a operar esse tipo de veículo, ficando atrás apenas da Inglaterra, França e dos próprios Estados Unidos. O país seguia pouco mais de meio século de pós-abolição. Uma pós-abolição que ora tentava se livrar das sobras humanas, cuja exploração explícita já não era mais permitida pela lei, ora se valia da fragilidade dessas sobras vivas para prosseguir com os acúmulos de riqueza construída à custa da exploração histórica e não reparada.

Nesse contexto, a televisão foi, a um só tempo, o molde perfeito para os anseios capitalistas pautados pelo controle social via alienação e seletividade da informação passada e instrumento de altíssima performance que consolidaria o projeto de branqueamento de nossa sociedade mestiça, mostrando ao mundo que o país era branco, ao mesmo tempo que minava a formação da identidade e da subjetividade dos povos negros e indígenas, entre outras minorias.

Entende-se que um processo de construção de identidade de um povo se dá através de aparelhos sociais, como a educação e a comunicação. É inegável que esses aparelhos são determinantes de valores, influenciam atitudes e formam consciência, na medida em que transmitem valores étnicos, estéticos e outros elementos que contribuem para a composição de uma identidade étnica. O ato ou efeito de identificar-se implica o reconhecimento, em si próprio, de algo que se percebe em alguém (e vice-versa), funcionando esses aparelhos como espelhos refletores da sua imagem e semelhança. Roberto Carlos da Silva Borges e Rosane Borges, Mídia e racismo, Petrópolis, DP et Alii; Brasília, ABPN, 2012.

A atuação da televisão, porém, foi firme e sutil na manipulação do já suficientemente racista imaginário social, que necessitava trabalhar simultaneamente com telespectadores brancos e negros, de modos diferentes, mas relacionados entre si. Não podia, por exemplo, garantir uma representatividade negra quantitativa necessária para o fortalecimento positivo da imagem de sujeitos negros, trabalhando com muita habilidade a ciência de que a formação da subjetividade perpassa inadvertidamente pelo reconhecimento de si mesmo por meio da imagem do outro, e isso se dá garantindo a quantidade e a qualidade da representação humana em todas as suas possibilidades existenciais.

O processo de rejeição racista da existência de sujeitos negros não foi iniciado com o advento da criação da televisão. Já era a sequência do que foi iniciado quando os primeiros negros pisaram na América, pois, para garantir a exploração de escravizados, era necessário um ralo para escoamento da culpa acumulada por uma moralidade cristã, e foi justamente o movimento de desumanização do sujeito negro que serviu nesse sentido.

O sistema racista, ao longo de quase quatro séculos de escravização, criou um lugar para o sujeito negro. Esse lugar era exatamente o depósito de todas as incongruências e imperfeições humanas que o pensamento brancocêntrico nunca ousou confrontar. O quartinho dos fundos, o lugar das bagunças, onde sujeitos brancos poderiam ocultar seu eu indesejado, seu lado assombroso e negativo com o qual não saberia lidar.

No entanto, esse lugar não poderia ser apenas um espaço vago, em se tratando de sujeitos e suas subjetividades. Seria necessário dar corpo a esse lugar criando uma existência que abarcasse o contingente existencial indesejado e reprimido que amedrontava o ego excessivamente frágil dessa categoria social, a branquitude, que se afirma enquanto ser humano à custa da coisificação marginal de outras categorias sociais que não compartilham das mesmas características físicas que as suas.

O racismo nos usa como depósito de algo que a sociedade branca não quer ser. Algo que é projetado em mim e eu sou forçada neste mise-en-scène, nesta encenação, a ser protagonista de um papel que não é meu e com o qual eu não me identifico. “Grada Kilomba: o racismo e o depósito de algo que a sociedade branca não quer ser”, Agência Ponte, 9 jan. 2017.

Também seria necessário ancorar a existência branca pautada pela superioridade autoproclamada, consolidando a recriação desse sujeito de tal forma que correspondesse de maneira eficiente à idealização de si mesmo.

Assim, seguiu-se ao longo da história da televisão brasileira a imagem estereotipada e distorcida do sujeito negro, começando pela escassez (quase) total de sua presença e passando pelo exercício de inferiorização (quase) sutil, garantindo que a representação fosse sempre prejudicada o suficiente para que o sujeito negro não sentisse orgulho de si mesmo, ao mesmo tempo que garantia ao sujeito branco a possibilidade de expressar seus ideais de superioridade por meio da compaixão e da aceitação desse sujeito contrário no seu meio social.

Os serviçais negros de ambos os sexos, sempre pacíficos, embora tremendamente ignorantes e desprovidos de cultura e bons modos brancos, são um exemplo comum dessa técnica de manutenção do lugar criado para o sujeito negro exercido pela televisão.

O mito da democracia racial foi amplamente propagado, visto que sempre nas telenovelas negros e brancos conviviam de forma pacífica, o que alicerçou na mentalidade do sujeito negro uma aceitação inexistente da negritude, pois essa convivência era claramente hierarquizada e estabelecia sem nenhum constrangimento quem era “superior” e, portanto, mandava e quem era “inferior” e, assim, obedecia. E não se tratava de uma questão de classes, uma vez que a representação de brancos da classe pobre ainda apontava privilégios que incluíam ter um serviçal negro(a), e podemos reparar a quase inexistência de uma classe média negra representada na televisão, seja nas novelas ou nas peças publicitárias.

É bem verdade que o conteúdo televisivo é pautado pela opinião pública. Entretanto, cabe observar friamente que estamos diante de uma ferramenta de comunicação que reflete mas também forma opinião, o que encerra um exercício sutil de manipulação, valendo-se dessa desculpa para continuar exercendo as tecnologias opressoras do racismo, apoiando-se na isenção de posicionamento e em uma falaciosa obediência ao que demandam os telespectadores e anunciantes.

Podemos discorrer muito mais a respeito da participação ativa e decisiva da televisão brasileira na manutenção das tecnologias do racismo. Mas em 2017, se esse assunto ainda não foi solucionado, é possível afirmar que estamos no caminho de outra personalidade para a televisão brasileira que possa se redimir de sua atuação demagoga e tendenciosa acerca das questões raciais, aprendendo timidamente a ouvir e encaminhar o que está sendo dito há anos por especialistas e estudiosos das questões raciais. Talvez por ter perdido espaço importante com a proliferação de vozes negras, que encontraram na web um canal para extravasar o grito de revolta conjunta e ancestral e têm feito isso a contento, garantindo inclusive alguma representatividade, a qual sempre foi negada pela própria televisão brasileira.

*Joice Berth, colunista do site Justificando/Carta Capital e assessora parlamentar do vereador paulistano Eduardo Suplicy, é pós-graduanda em Gestão de Políticas Sociais pela Universidade Brás Cubas e pesquisa questões raciais, feminismo negro e direito à cidade.

*http://diplomatique.org.br/tv-a-servico-da-tecnologia-do-racismo/

“Brasil é o país mais racista do mundo”, diz esposa de diplomata francês

Em tempos de William Waack e do desmascaramento do nosso racismo “cordial”, vale rever a incursão que a esposa do cônsul da França em São Paulo, Alexandra Loras, fez entre 2015 e 2016 no Brasil. Negra e ativista contra a discriminação racial, ela se disse espantada com o racismo brasileiro, que considera o pior do mundo devido à negação do problema pela elite branca local.

https://blogdacidadania.com.br/2017/11/brasil-e-o-pais-mais-racista-do-mundo-diz-esposa-de-diplomata-frances/

Resultado de imagem para IVES GANDRA MARTINS

O Idiota do Ano*

 

“Não Sou: – Nem Negro, Nem Homossexual, Nem Índio, Nem Assaltante, Nem Guerrilheiro, Nem Invasor De Terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?”, pergunta-se.

“Na verdade eu sou branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero… E tudo isso para quê?”

Para quê?, repito.

Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna).

 

Ives Gandra Martins, em entrevista onde mostra a alma do homem branco, rico, hétero, covarde e doentiamente conservador como só um paulistano da pseudo elite consegue ser (e a triste figura ainda é da Opus Dei). 

Sobre o assunto leia:

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/forca-guerreiro-um-tributo-a-ives-gandra-e-a-tragedia-de-ser-um-homem-branco-rico-e-hetero-por-kiko-nogueira/

Veja mais em: 

http://politica.estadao.com.br/blogs/blog-do-fucs/ives-gandra-nao-sou-nem-negro-nem-homossexual-nem-indio-nem-assaltante-nem-guerrilheiro-nem-invasor-de-terras-como-faco-para-viver-no-brasil-nos-dias-atuais/

*https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/327761/Trajano-Ives-Gandra-%C3%A9-o-‘idiota-n%C3%BAmero-1-do-ano’.htm)

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Não por acaso, este é filho dele.

E sobre esta triste figura você pode ver mais em:

https://www.metropoles.com/brasil/politica-br/ives-gandra-diz-que-reforma-trabalhista-evitara-aventuras-judiciais

https://jornalggn.com.br/noticia/na-folha-gandra-filho-nao-e-machista-nem-homofobico-e-zen-e-homem-de-deus

http://veja.abril.com.br/blog/radar/conservadorismo-de-ives-gandra-agrada-ao-governo/